André e a casa misteriosa por Yago Augusto
Localizada na Rodovia 203, havia uma casa que parecia como todas as outras da Inglaterra. Olhando para ela ninguém poderia imaginar que escondia um grande segredo.
O portão principal era precedido por um grande morro ladrilhado por imensos paralelepípedos marrons, com um cercadinho cobrindo toda a sua espessura, porém, não era muito fácil de enxergar à luz da lua, e, mesmo que qualquer um quisesse, só daria para ter certeza de como era, chegando bem perto, mas isso exigia mais coragem do que os curiosos que a olhavam tinham. A casa era tão misteriosa porque ninguém sabia quem morava no local. Todos que passavam por lá imaginavam que tipo de ser humano ou monstro vivia por ali.
Como a vizinhança era imensa, os habitantes não davam muita importância para esse estabelecimento provocativo, a maioria focava mais na própria vida, sendo somente as crianças que davam significância para os mitos horrendos que eram espalhados sobre a casa.
Certo dia os garotos da rodovia 202, que ficava relativamente próxima da casa, estavam brincando de “verdade ou desafio”. Em meio a diversos desafios bobos e divertidos, um dos meninos da rua 202 decidiu deixar a situação mais difícil para quem “o destino” proporcionasse a tampa da garrafa. “Coincidentemente” a garrafa parou para um dos garotos mais humilhados e zoados dessa turma cumprir uma prenda, mal sabia ele que poderia ser o pior dos bullyings que já fizeram com o pobre coitado. O desafio era nada mais nada menos que fazer uma visita de madrugada “a residência mal-assombrada 203”.
Quando o relógio bateu meia-noite em ponto, morrendo de receios e preocupações, o garoto estava decidido a entrar. Descendo pelo morro de paralelepípedos o mais rápido que podia, foi chegando no grande portão, olhando bem de perto ele pôde notar que a casa tinha detalhes bem rústicos e antigos, como se não fosse dessa época, com um telhado bem diferente em formato de letra “M”. Uma coisa bem macabra. Pulou o portão com grande sagacidade e estava prestes a abrir uma porta de madeira bege que exalava um forte odor que ele desconhecia.
Tentando girar a maçaneta percebeu que estava trancada, mas para sua sorte ou azar, havia uma janela aberta que dava fácil acesso a um grande salão. Ele sabia que não podia voltar com tão poucas informações. Devido à isso, não hesitou e entrou lentamente pela janela, como se pensasse que poderia ter alguém ali.
Pisou com os dois pés sobre algo que parecia ser um tapete enorme que cobria quase que totalmente a extensão do salão, olhou para cima e conseguiu ver um candelabro enorme com velas que lhe pareciam recém apagadas, ao se voltar para frente levou um tipo de golpe bem forte que o fez cair e apagar.
Quando acordou na manhã seguinte estava em sua cama e não lembrava de nada da noite anterior, apenas sofreu com seus amigos judiando dele a tarde inteira.
Os detalhes que os amigos de andré lhe forneceram rondavam sua cabeça, mas não era tão difícil de acreditar em tudo que aconteceu, já que ele se considerava curioso ao ponto de cometer tal artimanha. Aos poucos andré foi se forçando a lembrar do que aconteceu e como ele foi parar em sua cama. Mas como só conseguia lembrar-se de pequenos momentos do ocorrido, decidiu ir até a casa “mal assombrada” para tirar de vez essa dúvida que perturbava sua mente.
Chegando lá, olhou fixamente o grande portão da entrada, como André era muito alto e possuía uma stamina de garoto de 15 anos transbordando pelo seu corpo, não seria nenhum problema pulá-lo, porém ele tinha um grande receio de tentar entrar naquele lugar novamente, ou talvez ele nem tivesse entrado, nitidamente André estava confuso e relutante quanto ao que faria a seguir. Não era muito raro ele se sentir assim, na verdade, era bem comum, a pior das vezes foi quando sua mãe lhe mostrou um corte de cabelo na internet e ele não entendeu muito bem suas intenções, o pobre coitado pensou que ela queria que ele cortasse como na imagem, então mesmo estando relutante e confuso, andré cortou seus grandes e belos cabelos loiros e até hoje não consegue mais deixar crescer como antes, existem dias que até chora por isso.
Após ponderar bastante, decidiu não entrar, mas o cheiro que exalava pelas proximidades da casa o fizeram sentir uma sensação estranha, quem olhasse os olhos verdes penetrantes do garoto poderia ver o quão diferente ele havia ficado, parecia até hipnotizado de uma hora para outra.
Depois de tamanha hesitação, André decidiu prosseguir como se tivesse absorvido uma dose de coragem que não possuía, e via-se buscando novamente uma forma de entrar na residência que tanto atormentava seus pensamentos, porém dessa vez seria diferente do que ele ouviu que fez, o garoto estava ali, à luz do dia, sem temer o ar frio e amedrontador que a noite poderia acrescentar aquela situação. Olhando ao redor percebeu uma janela semi-aberta, e sem nem pensar saiu em sua direção, mal sabia ele que foi por essa mesma brecha que ele havia conseguido entrar da última vez.
Pulou a janela rapidamente e olhou atentamente para os lados, não viu sinal algum de vida, andou sorrateiramente para dentro do grande salão e começou a notar todos os detalhes que já havia visto, porém, não lembrava, parou um pouco mais para observar o lustre que estranhamente estava aceso, quando se voltou para si, ouviu uma voz assustadora ecoando por todo o salão:
— O que você está fazendo aqui novamente garoto estúpido?
Ao ouvir a voz automaticamente sua espinha gelou e os pelos do seu corpo arrepiaram totalmente, ele não conseguiu se mover por alguns segundos, até que uma das portas que faziam parte do segundo andar da casa se abriu e revelou um velho com uma barba branca enorme, André pensou que sua única alternativa naquele ponto era se esconder atrás de uma estante de livros, e foi o que fez, porém, o velho com um estalar de dedos iluminou totalmente o estabelecimento usando algum tipo de magia, e com um tom de ironia trouxe a tona a impotência de André naquela situação:
— Você acha mesmo que pode se esconder de mim?
André se vendo sem opções, se mostrou dizendo:
— Me desculpe senhor, pensei que não havia ninguém nessa casa.
O velho podia sentir o medo de André, por isso foi se aproximando bem devagar, e quando chegou perto o suficiente falou calmamente:
— Não precisa ter medo, não farei mal algum à você, posso sentir o quão puro é seu coração, e como insiste tanto em aparecer aqui, posso lhe mostrar o que realmente acontece nessa casa.
O velho então indicou um caminho subindo as escadas, e André seguiu-o um tanto desconfiado. Ao caminhar lembrava-se da frase encorajadora que acabara de ouvir do velho misterioso e as verdades que ele desconhecia sobre seu próprio coração. Ao chegarem no andar de cima, o garoto pode ver melhor como era a casa, e que este andar era muito diferente do térreo. Como se fosse um apartamento daqueles figurões dos centros de cidade, com quadros belíssimos nas paredes, mas nada disso importou quando, de repente, a parede onde havia um quadro de Monalisa se abriu a comando do velho, revelando uma sala enorme, com diversos frascos esquisitos, rotulados por palavras estranhas e diferentes. Tudo isso atiçou a curiosidade de André, que, sem hesitar tentou pegar um dos frascos, e, desatento como era, derrubou três que estavam mais próximos. Conseguiu segurar dois, mas um deles caiu e uma fumaça o cobriu inteiro.
Seu instinto foi fechar os olhos por um tempo, como se este ato impedisse que algo fosse acontecer com ele. André fazia isso com muita frequência quando apagava as luzes antes de dormir, pois, nunca perdeu o medo do escuro. Depois de algum tempo, decidiu abri-los, mas, para sua surpresa ele não conseguia ver nada. O frasco, que ele não foi capaz pegar, agora o havia cegado.
Pensando não ter alternativa, André começou a se desesperar. O que trouxe um comentário do velho que observava a situação tranquilamente:
— Não se preocupe garoto, era previsto que isso fosse acontecer.
O garoto não conseguiu conter sua raiva ao ouvir isso, e gritou:
— Se era previsto, porque você não evitou? Agora eu não enxergo nada! como vou voltar para casa?
— Veja bem, eu não podia revelar os segredos dessa casa para qualquer um. Quando disse que vejo pureza em seu coração, eu não menti, mas eu preciso submetê-lo a outros tipos de provações, se você quiser posso reverter os efeitos dessa poção e te levar de volta para casa nesse mesmo instante, mas se escolher isso, peço que nunca mais volte aqui.
O garoto ponderou bastante sobre tamanha escolha, e optou por continuar, pois, já havia chegado muito longe para desistir tão simplesmente. Aceitou tentar passar pelos testes que o mágico queria que ele fizesse. O mágico então pegou algumas garrafas, colocou sobre uma mesa a frente do garoto e disse:
— Você terá de utilizar todos os seus cinco sentidos nesse teste, mas o mais importante não se restringe a eles, e é sua intuição, utilize-a com sabedoria para escolher a garrafa que contém um antídoto para trazer sua visão de volta
André começou a explorar os sentidos que possuía no momento, tocou a mesa e analisava as garrafas uma a uma, contando seis no total, cada uma com um formato diferente, mas cheirando uma delas, sentiu um cheiro que lhe era familiar, que já havia sentido antes, prestando atenção na tampa da garrafa, percebeu que ela parecia ter sido aberta a pouco tempo, e lembrando do que o velho disse sobre sua intuição, não hesitou e desandou a beber o líquido desconhecido da garrafa.
logo foi percebendo que sua visão estava voltando gradativamente, e sentiu-se feliz por ter passado pelo teste do velho, somente confiando em si e em seus instintos, mas uma dúvida rondava sua mente, e dessa vez não hesitou em questioná-lo:
— Ei! você nunca me disse seu nome, qual é o seu nome, mágico?
— Eu precisava saber se podia confiar em você antes de dizer meu nome, meu nome é Sinford, provavelmente você irá estranha-lo, pois este nome não é da sua geração, mas o que você precisa saber é que no mundo da magia os nomes são muito importantes. Apenas por saberem seu nome os outros mágicos estabelecem uma conexão com você, e assim podem enxergar suas maiores fraquezas, saiba que você não foi o único garoto que veio bisbilhotar minha casa, houveram diversos, mas nunca existiu nenhum como você e com seu potencial mágico, e dentre estes diversos, cometi um erro, que me custará caro num futuro próximo.
— O que você quer dizer com esse erro?
Então o velho começou a contar a história que poderia ser o início de sua ruína. Ele disse que em tempos antigos, uma garota parecida com André, cujo nome era Yolanda, apareceu um dia em seu jardim, e tudo foi semelhante ao que aconteceu com André, pois a garota também conseguiu infiltrar-se na casa do mágico. Ele também disse que ela possuía um potencial mágico que podia até ser maior que o de André, submetendo a garota à todos os testes que André já havia feito, porém, após o velho contar seu nome a ela a conexão foi estabelecida, e foi nesse momento em que o velho percebeu algo que não estava habituado a perceber naquela época, a pureza dos corações. Naquele instante pôde sentir que o coração de Yolanda era o mais impuro que havia visto na vida, e com a experiência que tinha, sabia que aquilo só atrairia o mal.
Foi nesse ponto que Sinford decidiu parar seus treinos com Yolanda, e prezando por sinceridade revisitou o motivo de cometer tal ato, mas a reação dela não foi muito agradável, o que talvez fosse de se esperar, a garota disse que encontraria outro o tutor mágico e jurou vingança contra o velho, que não podia fazer nada e sabia que não deveria ter se deixado levar apenas pelo potencial da garota, e esquecido de outras questões importantes, pois aquela garota ia ser encontrada pelas forças das trevas, e voltaria com certeza para cumprir sua vingança.













