O que estão falando sobre o musical Austen’s Pride
O espetáculo Austen’s Pride estreou neste mês de outubro e deu o que falar. A produção encerra a temporada neste domingo, 27, na cidade de Seattle. Um ótimo sinal é ter sido apresentado no 5th Avenue Theater, visto que a companhia de teatro é uma das mais respeitadas dos Estados Unidos e já acolheu apresentações experimentais de musicais que acabaram indo para a Broadway - dentre eles, Hairspray e Shrek the Musical.
No entanto, a adaptação recebeu alguns comentários desfavoráveis de quem teve a oportunidade de assistir. Como não tenho condições de ir até Seattle (infelizmente!), fiz uma coletânea de opiniões alheias. Juntando pedaços e lendo estas impressões, consegui ter uma ideia do caminho adotado pela produção de Lindsay Warren Baker e Amanda Jacobs.
As opiniões utilizadas para este texto foram publicadas nos sites Daily Record News, The Stranger, Seattle Magazine, The Seattle Times e The Daily. No próximo post, trarei algumas músicas do espetáculo disponíveis no Youtube.
Austen’s Pride traz uma versão de Orgulho e Preconceito em que a própria Jane Austen aparece como personagem essencial para a história. O recurso não é inteiramente novo. No musical Persuasão, montado pela companhia britânica Chamber Opera Tours (disponível no Youtube!), Jane também divide o palco com os personagens criados por ela.
A diferença é que, em Persuasão, ela está no papel de narradora. A mesma atriz dá vida a Anne Elliot e faz as vezes de Jane Austen, mas a autora aparece apenas contando a história do livro para os sobrinhos. Em Austen’s Pride, Jane conversa com suas criações e até recebe delas opiniões e pedidos sobre o que deve ser escrito em seguida.
O roteiro de Austen’s Pride foca no processo criativo e nas motivações da escritora. Logo no início, o público vê Thomas Leffroy - aquele jovem por quem ela teria se apaixonado no começo da vida adulta - deixando de casar com ela para ter uma boa situação financeira. Em seguida, a peça dá um salto de 16 anos. Já tendo publicado Razão e Sensibilidade, ela está na casa dos 30 e discute com a irmã Cassandra se deve revisar Primeiras Impressões, o manuscrito que depois evoluiu para Orgulho e Preconceito.
É depois de aceitar este desafio que as cenas do romance vão se desenrolando no musical, passando pelas dúvidas e interações da autora com Elizabeth Bennet, Mr. Darcy e outros personagens.
Um traço interessante é que a Jane Austen da peça foi percebida como alguém “resistente a finais felizes na vida real”, nas palavras de Dewey Mee (Daily Record). O texto da peça traz uma artista atribulada, como se a mágoa causada por Leffroy ainda ecoasse nela.
Assim, o caminho imaginado para Elizabeth e Darcy soa como uma tentativa de fazer as pazes com o passado. Ou como um “tipo de projeto terapêutico de autoajuda para trabalhar os próprios problemas de relacionamento”, escreveu Misha Berson (The Seattle Times). Desta forma, o caminho para o final feliz dos personagens parte de uma percepção de que Jane precisa ser, em outras palavras, uma pessoa menos amarga.
É quase um consenso nas críticas até agora: as músicas poderiam ser melhores. A opinião de Christopher Frizzelle (The Stranger) é que letras e melodias não trouxeram nada demais e que metade das músicas poderia ser tirada. A impressão foi de que elas repetiram em demasia uma mesma ideia: a de que a vida é feita de escolhas.
Uma canção, porém, foi bem recebida: “My Poor Nerves”, na qual a Sra. Bennet argumenta com Jane Austen para não ser retirada da história.
Por outro lado, “cativantes” e “otimistas” foram termos atribuídos às músicas do espetáculo por Gavin Borchert (Seattle Magazine), que comparou a sonoridade às composições de filmes clássicos da Disney, como Mary Poppins.
Mas as canções também foram apontadas por Theresa Li (The Daily) como um ponto a ser melhorado. A crítica foi para letras meio previsíveis, que não adicionaram muito significado ou profundidade à história. “Eu me peguei esperando pela próxima palavra falada, não pela próxima música”, escreveu.
Não houve dúvidas quanto à execução das músicas. O elenco foi geralmente elogiado, com destaques para Steven Good (Fitzwilliam Darcy/Thomas Leffroy), Laura Michelle Kelly (Jane Austen) e Olivia Hernandez (Elizabeth Bennet).
Cada um foi encontrando algum ponto em que o roteiro poderia ter sido melhor. Como a personagem de Caroline Bingley, que teria virado um alívio cômico. Ou o fato de que Cassandra poderia ter aparecido mais.
Mas a queixa mais grave foi quanto ao argumento principal do espetáculo: o tal orgulho ferido de Jane Austen. Claro, o pouco que sabemos sobre a vida dela deixa margens para todo tipo de especulação. Thomas Leffroy foi realmente importante? Ela teria tido um grande amor? O que ela dizia naquelas milhares de cartas destruídas pela irmã Cassandra?
Nunca saberemos e sempre teremos novas histórias tentando preencher estas lacunas. O fato é que o enredo de Austen’s Pride não pareceu convincente para quem escreveu estas críticas.
Para Misha Berson, trazer Jane Austen em batalha com sua solteirice foi um recurso simplista. Ela lembrou que a especulação sobre a relevância de Thomas Leffroy foi bem alimentada no filme Becoming Jane e questionou se realmente a escritora estaria remoendo um "flerte adolescente” tantos anos depois.
“Quando ele partiu meu coração, eu fiz a escolha de não amar de jeito nenhum”, diz uma das canções. Parece que soou meio exagerado para Berson, que considerou supérflua a pergunta ponderada por Jane Austen no musical: ela seria realmente romântica ou uma pessoa cética e conformada em ficar só?
Uma Jane que se torna “menos cínica sobre o amor” também não foi muito bem recebida pelo jornalista e compositor Gavin Borchert. Para ele, houve um importante desvio no foco de Orgulho e Preconceito, que trata principalmente do crescimento da heroína. Ele considera que o casamento aparece na história como um desfecho ou convenção formal para a narrativa, nunca como o centro. Em vez disso, ele mostra que o musical traz a construção do final feliz aliado a uma descoberta emocional da autora.
Outro ponto trazido na crítica de Borchert é que a ironia e a sagacidade de Austen para satirizar a realidade foram interpretadas como aspectos a serem “curados”. No entanto, ele pontua que estas características da autora eram elementos-chave para que ela demonstrasse o quanto conhecia a natureza humana.
Nem tudo foi considerado ruim, é claro. Houve vários elogios para a interação de Austen com seus personagens, trazendo momentos cômicos quando eles reagiam às escolhas da autora. A ideia de inserir Jane na trama foi considerada criativa e bem executada durante os dois atos. Outro aspecto interessante é a diversidade do elenco, com um Sr. Bennet negro e irmãs Bennet de ascendência asiática.
Apesar dos problemas, a experiência foi recomendada para quem pudesse comparecer ao teatro. Para quem não teve meios de voar até Seattle, resta torcer para que saiam mais vídeos de divulgação e acompanhar de longe os desdobramentos.