A realidade da periferia carioca dói
Ontem, enquanto voltava do trabalho, dei de cara com um menino de aproximadamente 14 anos vendendo paçoca no ônibus. Provavelmente muitas pessoas pensam “pelo menos não estava roubando”. Tudo o que eu consigo pensar é que uma criança de 14 anos deveria estar estudando, sonhando com realidades menos duras, menos cruéis, do que a que vivemos hoje no Rio.
Me cortou o coração ver aquele menino tentando se equilibrar dentro de um ônibus -- que a cada 100 metros precisa desviar de um buraco -- com uma mão na barra de ferro e outra segurando uma caixa cheia de paçocas. Como se não bastasse, ainda precisava abordar pessoas mau humoradas do modo mais educado possível, ouvindo as respostas mais indiferentes.
Eu cresci na zona norte do Rio e moro aqui até hoje. Vi meu melhor amigo ter seu corpo e sonhos destruídos pelas drogas. Vi também um pai de família que andava 10 km todos os dias até seu trabalho pra deixar o dinheiro da passagem pro café da manhã dos filhos. Duas realidades diferentes. Ambas duras demais pra se tornarem normais.
Ser cria de uma das favelas mais violentas do Rio é ter consciência que chegar ileso em casa no final do dia é um milagre, mano. Morar aqui é agradecer todos os dias a Deus por uma família cristã que me ensinou a ter esperança de um futuro sem choro, sem dor, em paz. É levantar as mãos pros altos pelo ensino fraco da educação pública que eu tive porque tem gente que nem isso pode ter.
Precisas ir pra África pregar o Evangelho não. Vem aqui na periferia carioca! Te garanto que o pessoal tá muito mais desacreditado e desesperançado. Talvez não passemos fome com tanta seriedade, mas somos sedentos por uma realidade que nos ilumine os passos, que nos dê um motivo pra lutar, que nos mostre a possibilidade de dias melhores.