In the hype of good omens returning here's a friendly reminder that Neil Gaiman is not innocent. He would like everyone to brush these accusations off as some smear campaign but the simple truth is that he is a predator who got caught being a predator.
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[ID: The “what about side by side with a friend” meme, edited. It shows Brasil saying, “never thought I’d be rooting for Argentina in a world cup”. Argentina replies, “how about for a friend?” and Brasil says, “morte aos europeus caralhoooo”. End ID]
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Descendentes de ucranianos na cidade de Curitiba no Brasil fizeram um ato emocionante no Memorial Ucraniano pedindo a paz no conflito entre Ucrânia e Russia.🇧🇷
Нащадки українців у бразильському місті Курітіба здійснили емоційний вчинок біля Українського Меморіалу з проханням миру у конфлікті між Україною та Росією.🇺🇦
Descendants of Ukrainians in the city of Curitiba in Brazil performed an emotional act at the Ukrainian Memorial asking for peace in the conflict between Ukraine and Russia.🇬🇧
Tradução da fanfic "Not so much falling at first" da @rjeddystone no tumblr, com autorização dela.
Descrição da imagem: ilustração de Gustave Doré, em preto e branco, retratando a passagem bíblica de Números 21:9, onde Moisés coloca uma serpente de bronze num bastão por ordem de Deus, para curar os israelitas que haviam sido mordidos por serpentes venenosas no deserto.
Lista de capítulos originais (em inglês) e traduzidos em português brasileiro:https://rjeddystone.tumblr.com/post/190096898436/not-so-much-falling-at-first-the-masterlist
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Nota da autora: Uma atualização selvagem apareceu! Desculpem por ter demorado tanto.
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Um mito comumente propagado é o de que gêmeos têm sua própria língua. Isso ocorre porque os humanos às vezes se lembram de histórias melhor do que da realidade. E algumas histórias são ainda mais antigas do que isso.
Uma verdade comumente não contada é que os médicos aprendem taquigrafia por via de regra. Isso talvez se deva ao fato de que as piadas sobre a caligrafia ruim dos médicos encorajam deliberadamente pretensos impostores.
Tanto um mito quanto o outro significavam que Crowley podia ler a caligrafia de Raphael. Agachado na mesinha de centro, o lápis dobrado com força, o demônio escreveu a carta à mão. Foi difícil, não porque ele não conseguia se lembrar como, mas porque se lembrava muito bem. Fizera anotações às vésperas. Canções foram compostas. Pedaços de poesia ... Os gêmeos nunca foram pegos. Eles nunca tiveram medo disso. Segredos eram apenas coisas que os gêmeos tinham. Nada errado. Não naquela época.
O resultado final da tradução de Crowley foi o seguinte:
Nota: Seres humanos mais escolados podem tirar proveito das seguintes alterações da primeira edição:
pp.121–40 (esp. 31) Ações de Aceleração (revisado, veja também Reis e Chefes, p.149)
pp.141-7 Métodos de Remoção (Ver também, Leis do Limiar, p.200)
pp.148-61 Expiação Terrestre como uma alternativa para a Danação
pp.291-351 Sigilos em Arquitetura para Reforço Urgente
(Veja também, Apêndice B - Cores: Vermelho, p.369, e Apêndice D - Fórmulas, p.381)
Estava assinado com o sigilo de Raphael. Ao vê-la, Crowley coçou distraidamente a marca em sua própria têmpora. Suas assinaturas não estavam muito distantes uma da outra, mesmo com os pedaços faltando na de Crowley. Hepius sobrescreveu sua marca logo acima dela, porque a mitologia desafia os direitos autorais naturalmente.
"É isso então", disse Crowley. Ele entregou a lista a Anathema assim que Aziraphale entrou pela frente da loja.
"Adam e os amigos estão sendo muito úteis, fechando a livraria para nós", relatou o anjo. Ele percebeu a expressão emburrada de Crowley. "É uma notícia boa ou ruim?"
"Boa, eu acho," disse Crowley. "Dada a fonte, vamos esperar que seja boa."
Anathema já havia começado a fazer suas próprias anotações furiosas, folheando as páginas marcadas uma por uma. "O que isso significa?" ela perguntou, sem perder um traço.
Crowley pigarreou. Isso não ajudou em nada o bolo em sua garganta, então ele engoliu em seco e tentou novamente. "Algumas coisas," ele disse. E estendeu a mão sobre a de Anathema, fazendo-a parar na página 291. "É para isso que precisamos do WWW."
"Você quer dizer a Worldwide Witch Web (Rede Mundial de Bruxas)?"
"Isso mesmo."
"Tudo bem, vamos resolver isso. Vocês dois podem me informar sobre o resto por telefone, certo? "
"Mas parece um pouco complicado", disse Newt, lendo por cima do ombro dela.
"Temos que levar as crianças para casa, foi uma longa noite", Anathema respondeu a ele, observando a fachada de Crowley desmoronando rápido. Ela sabia uma ou duas coisas sobre irmãos.
"Certo." Crowley se levantou enquanto ela terminava suas anotações: "Basicamente, os humanos não são páreo para enxofre e nem suas casas e prédios. Mas, podemos dar a eles uma vantagem marcando tudo com um sinal de Não Toque — não para humanos, mas para os anjos."
"Isso é possível?" perguntou Newt.
"Sim, a la décima praga do Egito."
"Como colocamos o sinal?" perguntou Anathema.
Crowley apontou. "Aquele — parece um pouco com uma janela ou uma porta ..."
"Nah", disse Crowley. Ele se virou rapidamente e enfiou os dedos nos bolsos apertados. Então jogou o cabelo para trás e começou a andar. Ele não gostava de pensar no Egito. O Egito tinha sido uma época especialmente ruim. "Essa é a nota no apêndice. Se você não tem uma coisa, você usa outra. Mesma cor ou formato, ou um nome semelhante."
"Isso é magia antiga", observou Anathema. "Minha mãe chama de substituição solidária."
"Certo. Solidária ... uma coisa dessas. Crianças fazem isso o tempo todo."
"Você quer dizer faz de conta?" perguntou Newt, perplexo.
"Não, brincando de verdade", disse Anathema pacientemente.
"Grande diferença," Crowley concordou. "Não é preciso sangue. Quarenta anos mais ou menos, você procuraria pelo vermelho e não veria sangue: você veria um cordão vermelho pendurado em uma janela. "
O rosto de Newt iluminou-se. "Portanto, tudo o que temos que fazer", disse ele, "é dar um cartão vermelho no Armageddon".
Foi um trocadilho ruim o suficiente para que todos na sala ficassem sem graça.
***
Os Eles ficaram na frente da loja e a limparam como Aziraphale pedira, mas apenas até que um minuto se passou. Então Adam chamou a atenção de Brian, Brian chamou a atenção de Wensleydale e Wensleydale deu um tapinha no ombro de Pepper. E, como qualquer adolescente que se preze em uma fantasia urbana quando os adultos tentam falar em particular, eles se esgueiraram até a porta para escutar apropriadamente e sussurrar suas próprias conclusões.
"Como poderíamos marcar todos os edifícios do mundo a tempo?" perguntou Brian. "O que impediria outros de limpá-los?"
"Poderíamos fazer todo mundo pensar que é um Banksy", sugeriu Adam.
"Isso funcionaria. Ele é famoso ", disse Brian. "Eles o deixam colocar sua arte em qualquer lugar. Mamãe diz que é por ele ser pós-moderno. "
"Isso é como o moderno, só que no futuro", acrescentou Adam, pelo bem de Wensleydale.
"Mas e as pessoas que não sabem quem é Banksy?" perguntou Pepper.
"Todo mundo sabe quem é Banksy."
"Desculpe-me, na verdade, eu não sabia até agora," Wensleydale apontou.
"Nós poderíamos explicar às pessoas," Adam sugeriu. "Elas provavelmente gostariam de ser pós-modernas. Os tempos modernos sendo o que são... Não sei quem não gostaria de seguir em frente. "
"Sabe o que pode funcionar melhor?" perguntou Brian. "Milagres. Poderíamos criar um Twitter para isso. Ou aquele, um Four-chan? "
"Esse é o pior", disse Wensleydale.
"Muita gente se conecta à Internet pra ser assim", disse Brian, que aprendera esse segredo da Internet bem cedo na puberdade. "Aposto que poderíamos espalhar por todos os sites: Marque sua casa e ganhe um milagre. Todos passariam a mensagem quando soubessem que funciona e mesmo se não funcionasse, só pra garantir. "
"Nós só teríamos que nos preocupar em marcar casas onde não há internet", Pepper concordou animadamente.
Adam ficou instantaneamente com ciúmes por não ter pensado nessa ideia.
"Devemos dizer a eles como isso é importante?" perguntou Wensleydale. "Por razões práticas?"
"Não, ninguém faria isso então," disse Adam em sua voz sábia, ansioso para ganhar algum prestígio de volta. "Algumas pessoas são religiosamente contra fazer coisas práticas."
"Você acha que seus padrinhos nos emprestariam a caixa mágica?" perguntou Brian.
Antes que Adam pudesse responder, ouviram Newt: "Bem, devemos ir." Os Eles correram de volta por rotas de fuga predeterminadas para suas tarefas. Cão trotou atrás do dono enquanto Adam passeava contente com uma pá de lixo, mantendo seu ardil e pensando na melhor maneira de solicitar o uso do artefato angelical. Não parecia muito difícil. As anotações do Dr. Zelote eram muito abrangentes sobre o assunto.
Newt saiu da sala dos fundos, balançando as chaves. Atualmente ele ansiava por dirigir o carro azul claro. Uma vez no Apocalipse, Dick Turpin era apenas um automóvel (se alguém definisse "auto" como uma função opcional), tão mal adaptado à tecnologia quanto o próprio Newt. No entanto, Newt cuidou dele com lealdade porque era um clássico. [Nota da autora: O Bentley ficou um pouco ofendido com isso.] Felizmente, desde o ajuste de Adam no Universo, sua condição havia melhorado. Entre outras coisas, sua milhagem não era mais medida em minutos por galão.
"Posso escolher a música no caminho de volta?" Adam perguntou. Ele já estava tirando o smartphone do bolso.
"Claro", disse Newt. "Não tenho certeza de quais CDs temos no porta-luvas."
Adam não se preocupou muito com isso. Se alguma coisa tinha estado lá, já tinha se passado uma quinzena, e ele estava com vontade de ouvir Queen.
***
Jaelle nunca estivera no deque de observação antes. Estava completamente vazio em comparação a seu cubículo no escritório infinito dos guardiões e de alguma forma parecia duas vezes mais frio. Não havia escrivaninhas, cadeiras, nem mesmo um vaso de plantas. Jaelle suspeitava furtivamente de que todos os que usavam aquele andar usavam terno.
A maioria dos guardiões não tinha ternos, muito menos algo em três peças com polainas e babados como os arcanjos usavam ultimamente. O departamento de guardiões optou por vestes tradicionais, do tipo com bainhas longas que tornavam as cadeiras de escritório com rodinhas um teste de paciência no sofrimento.
Raphael também nunca tivera um terno, mas de alguma forma sua postura serena definira seu próprio código de vestimenta. Ele olhou para Jaelle enquanto se dirigiam para o espaço de reunião onde o globo azul ficava pendurado, depois percebeu como ela segurava o arquivo solicitado contra o peito, como se fosse um colete salva-vidas e estivesse em alto-mar.
"Você está bem?" ele perguntou.
"Sinto-me mal vestida" admitiu Jaelle.
"Vir de uma batalha com uma armadura limpa pode ser mais vergonhoso," Raphael apontou. "Como tem passado? Mais alguma distração? "
"Hum, não, para o alívio de Mat. Apenas ocupada."
"Arranje tempo para ficar em silêncio. E descanse. Isso só ajuda a longo prazo. "
"Ainda ouço tiros durante o sono às vezes."
Ela tentou rir. Raphael não.
"Você pode querer marcar um encontro com Ariel então," ele disse. "As feridas mentais não são menos graves por serem invisíveis."
"Existem anjos que precisam mais do que eu."
"Não, basta que haja uma necessidade."
Seus passos diminuíram ao ver a Tocha no pilar. Raphael parou completamente e, quando Jaelle olhou para trás, ele estava sério.
"O que isso está fazendo aqui?" ele perguntou.
Antes que Jaelle pudesse perguntar por que ele não sabia, atrás deles veio um whoosh! Quando se viravam, Sandalphon e Uriel chegaram numa onda de luz do globo azul flutuante. Enquanto pedaços de iluminação desapareciam em seu rastro, Uriel limpou as cinzas de sua manga e sorriu agradavelmente.
"Bem, nós temos uma festa de boas-vindas," ela observou.
"Estiveram fora?" Raphael indicou.
"Aqui e ali," disse Sandalphon agradavelmente. "Apenas uma noite cuidando das coisas, como os bons anjos fazem."
"Vocês cheiram à fumaça," Raphael disse.
"Bem, houve um incêndio." Sandalphon encolheu os ombros. "Você deve estar aqui para ver o Gabriel?"
"Como sabia disso?", Perguntou Jaelle.
"Quem—? Ah é você." O tom de Sandalphon permaneceu amigável, mas seu sorriso azedou. "Onde encontrou esta, Raphael? Ela se perdeu? "
"Lord Michael nos chamou", disse Raphael, sem sorrir. Não havia ocorrido a Jaelle que isso poderia, de fato, ser uma opção.
"Para quê?" perguntou Sandalphon.
"Não sei, não perguntei", disse Jaelle.
"Bem, aleluia!," Sandalphon suspirou. "Esta pode ser ensinada."
"Perdão, o quê?"
"Não se desculpe, capitã."
"Desc— quero dizer, sim, sua alteza." Jaelle se virou, aliviada.
"Desculpe por mantê-los esperando," disse Michael. Ele carregava a única cadeira que, Jaelle soube mais tarde, sempre poderia ser encontrada no convés— mas nunca onde você pensava que a tinha deixado. Logo atrás o príncipe seguiu Gabriel, um sorriso colado em seu rosto, apesar de suas mãos inquietas.
"Bem, já faz algum tempo que todos nós cinco estivemos aqui", disse Gabriel com uma risada. "E acompanhados."
Mais uma vez, Jaelle tentou sorrir de volta, mas não o fez. "Você está bem, senhor?"
"Preciso de um checkup. Ficarei bem como um arco-íris. "
Em um trecho de chão entre a Tocha e a mesa de mapas, Michael largou a cadeira com um giro. Gabriel olhou para ela como se fosse algo saído de um pesadelo.
"Vamos dar uma olhada em você", disse Raphael, mas deu um tapinha no ombro de Jaelle antes de sair de seu lado para cutucar Gabriel no assento. Ele não conseguia alcançar o ombro do outro arcanjo.
Jaelle seguiu com relutância o resto do grupo até a mesa do mapa. Raphael amarrou seu cabelo com um fio de fogo, então estalou os dedos e fez uma prancheta e uma pena aparecerem.
"Então, o que ela faz aqui, Michael?" Sandalphon perguntou.
"A capitã pode falar por si mesma."
"Sua Graça pediu que eu trouxesse a papelada", disse Jaelle.
Uriel e Sandalphon trocaram sorrisos suaves como se dissessem: "Bem, está tudo bem então."
"E isso é tudo?" Michael perguntou e estendeu a mão.
Jaelle entregou a pasta e imediatamente se sentiu à deriva. "Apenas a primeira dúzia ou mais, Vossa Alteza," ela confessou. "Eu posso trazer mais ..."
"É o suficiente para começarmos." Michael começou a colocar os formulários na mesa. Eles eram idênticos, em tamanho A4, formulários de uma página, a gradação que qualquer papel tem em escritórios do governo que com orçamentos apertados onde ninguém gosta de perdulários.
No topo de cada página, havia o título "Relatório R.A.H.A.B." Embaixo disso, estava escrito em um tipo um pouco menor, o subtítulo "Resgate de Aliados que Hapoiaram A Bênção". [Nota da autora: o funcionário responsável por esta sigla insistiu que apoiaram se escrevia com "H".]
"Então vá em frente" acrescentou o príncipe, e Jaelle percebeu que ele queria que ela explicasse.
"Sim, sua graça", disse ela. "Pelo que entendi, usávamos esses formulários com mais frequência antigamente, mas como não havia uma declaração formal para parar, estive investigando o assunto para evitar a negligência nestes últimos dias — como um procedimento padrão."
"Mas o que são eles?" perguntou Uriel.
Jaelle baniu a ideia de que a arcanjo do amanhecer parecia impaciente. Ela disse: "Como você provavelmente sabe, antes de julgar, é necessário fazer um reconhecimento caso haja uma mudança de opinião. Se algum mortal ajudar, esta forma concede imunidade e um meio de extração antes que as coisas fiquem perigosas demais."
"Que cláusula interessante", disse Sandalphon.
"Tivemos um aumento notável no número de humanos prestativos, não foi?" Michael concordou.
"Isso é encorajador", disse Jaelle, incerta.
Uriel se inclinou e leu um cabeçalho. "Essa cidade se rendeu?"
"Sim, sua glória", disse Jaelle. "Eles disseram que a chamada ao arrependimento era razoável e que continuarão vigilantes até os últimos dias."
"Então vocês não atacaram?" Sandalphon disse.
"Não houve ordens para não oferecer os termos de rendição", disse Jaelle. Foi uma frase que ela ensaiou, mas parecia mais travada do que ela pretendia. Desta vez, ela se lembrou de não sorrir.
Por alguma razão, Uriel sorriu. "Não pode culpá-la por ser minuciosa, Michael."
"Eu não culpo a capitã de forma alguma", disse Michael.
Enquanto Jaelle se questionava sobre o tom deles, Michael juntou as páginas tão rapidamente quanto as expôs, organizando-as em ordem alfabética com uma precisão inconsciente que Jaelle não pôde deixar de reconhecer. O príncipe disse: "Tenho certeza de que você precisa descansar após o dia de trabalho, capitã." Ele as recolocou na pasta. "Mas antes disso, vá em frente e arquive o resto."
"Todos eles?" Jaelle sentiu o estômago embrulhar ao pegar o arquivo.
"É claro", disse Michael. "Algum problema?"
Os olhos de Jaelle desviaram-se para além da Tocha, depois para Raphael e Gabriel, que ainda estavam no meio de sua consulta. "Não, sua graça", disse ela.
"Então, vejo você no treinamento pela manhã."
Jaelle fez uma saudação e girou rapidamente nos calcanhares. Ela cortou caminho pela sombra entre a Tocha e o globo, com um lampejo de luz inconsciente.
***
"Estranha essa", comentou Sandalphon, depois que ela se foi.
"Ouvi dizer que o último trabalho dela estava condenado desde o início", disse Uriel. "Ditador ou algo assim. Aposto que ela ainda chora por causa das fotos de bebê dele. "
"Bem, vou dar uma olhada em Gabriel", disse Sandalphon, e se afastou. Uriel sentou-se na ponta da mesa, notou que o sorriso de Michael era um pouco mais amplo. "Você normalmente não fica tão animado, mesmo com a papelada."
"Não deveria? O futuro parece mais brilhante a cada minuto. "
"Estou feliz em ver você mostrando algum interesse nisso."
"Pestilência foi um fracasso, mas enviei um emissário para encontrar Wormwood, explicou Michael. "Estaremos prontos em breve para deixar o mundo para trás."
"E você tem certeza de que é uma preocupação saudável?"
"Papelada?"
"Uma protegida," Uriel corrigiu. "Aquela."
"Não sei o que você quer dizer."
Uriel cruzou os braços incisivamente. "Uma escriba que virou soldado, forjada no calor da batalha, na ponta de uma espada. Posso ver os sinais, mesmo que Sandalphon tenha esquecido suas origens humildes, Vossa Alteza. Tive que te ensinar como fazer seu cabelo. "
"Você me entendeu mal." A risada de Michael foi forçada. "É ótimo pensar que as coisas serão melhores para aqueles que virão depois de nós."
A diversão de Uriel se transformou em preocupação. "Você não vai a lugar nenhum, vai, Michael?" ela perguntou.
"Quer dizer, eu não tinha ninguém para me guiar. Nenhum de nós tinha — depois que ele se foi. " Michael ergueu os olhos na direção do Véu sem querer. "Quer os demônios escolham manter a paz ou não, as coisas serão diferentes desta vez."
"Não gosto que você fale como se não fosse estar aqui."
"É que eu nunca poderia imaginar isso", disse Michael. "Um futuro. Não depois do que aconteceu. Mas isso é passado agora. "
"Eu acho que entendo," disse Uriel, gostando um pouco da ideia. Ela suspirou. "Então, quando vamos impedir que essas bruxas se intrometam em nosso futuro?"
"Eu estava pensando nesta noite."
***
O Arcanjo Gabriel tinha um termômetro na boca. Não era estritamente necessário, mas Raphael admitiu apenas para si mesmo que tornava todo o procedimento muito mais rápido. Perto dali, Sandalphon se balançava nos calcanhares, sorrindo encorajadoramente.
"E você teve algum problema pra dormir?" Raphael perguntou.
"Mm-mm."
"Pesadelos?"
"Hm ... hm-mm."
"Dores e desconfortos incomuns?"
"Hm... Mm mm m mm-m-mm."
O dispositivo soou como um minúsculo sino e Raphael o retirou. "O que é isso?" perguntou Raphael.
"Nada além do normal," Gabriel repetiu enquanto Raphael adicionava suas notas.
"E você teve algum contato recente com demônios, Inferno, ou ambos?"
"Defina contato?"
"Proximidade."
"Certo. Batalhas e tal, e ... " Gabriel murmurou algo.
Raphael sorriu ironicamente. "Bem, isso explica a dor de garganta."
"Sabe o que é isso?"
"Alguns dos cadetes contraíram laringite na semana passada," Raphael explicou, anotando.
"Eles nos mantêm vigilantes o tempo todo", disse Michael quando ele e Uriel chegaram. Ele colocou a mão no ombro de Gabriel para ter certeza. "Como está se sentindo, Gabriel?"
"Bem, eu acho."
"Raphael?" Michael perguntou.
"Eu gostaria que você tivesse me contado sobre isso antes", disse Raphael, "mas poderia ser pior."
"Então o que exatamente?" perguntou Gabriel, seu joelho tremendo de novo.
"Você sofreu queimaduras hipodérmicas", disse Raphael. "Deve ter vindo de uma exposição de longo prazo. Como queimaduras de sol. "
"Mas eu não sinto nada disso."
Raphael olhou-o apologético por um momento, então pressionou de leve a mão de Gabriel com o dedo. Ele gritou.
"Ai," Acrescentou tardiamente. "E, hum, como poderia ser pior do que isso?"
"Fogo caótico nunca sara bem, se bem me lembro de nossos relatórios de Leviathan," Raphael explicou. "Suponho que precisarei mudar o curso de minha pesquisa, mesmo que apenas por um tempo. Para que você estava usando o fogo? "
"Munições", disse Michael. "Você está convidado a estudá-lo."
"Com muito cuidado, eu prometo," disse Raphael. "Misture apenas uma faísca disso com qualquer chama e criaria o fogo do inferno."
"Estamos bem cientes. E o mesmo acontece com os demônios que nos deram isso. "
"E o que nós demos em troca?"
"Não é sua função se preocupar com a diplomacia, Raphael." Além do vidro da janela, os monumentos do mundo caíam para a entropia mais rápido do que poderiam subir. Michael deixou sua mão no ombro de Gabriel. "Agora, o que pode ser feito sobre isso?" ele perguntou.
"Por enquanto? Água benta," Raphael disse. Ele guardou a pena. "E eu gostaria de mantê-lo durante a noite na enfermaria, apenas para observação."
"Já que insiste. Obrigado, Raphael."
"Sobre o que foi a reunião?" perguntou Gabriel.
"Está tudo bem. Só melhorando." Michael apertou o ombro de Gabriel. "Cuidaremos do resto."
Ele caminhou até a Tocha e estendeu a palma da mão sobre ela. Uriel e Sandalphon se juntaram a ele.
"Michael—" Raphael começou.
"Há trabalho a fazer", disse o príncipe. Ele retirou a mão e as chamas vermelhas se enredaram em seus dedos e então desapareceram. Uriel e Sandalphon fizeram o mesmo. "Estaremos de volta pela manhã."
***
O presente se desenrolava incerto e na floresta entre Chiltern Hills e Tadfield, a lua surgiu por volta da meia-noite.
Dick Turpin e seus cavaleiros cruzaram a noite em silêncio como uma mariposa. Pelo menos no exterior. O melhor do ... CD no porta-luvas tocava em um volume que nenhum outro álbum teria alcançado.
Stomp-Stomp. Clap. Stomp-Stomp. Clap.
Stomp-Stomp. Clap. Stomp-Stomp. Clap—
Buddy, you're a young man, hard man, shoutin' in the street, gonna take on the world someday. Y'got blood on your face—
"You big disgrace!" gritaram todos no carro.
"Então, digamos que conseguíssemos marcar todo o Soho," perguntou Newt, enquanto os Eles e Cão assumiam a cantoria. "O que então?"
"We will, we will rock you!"
Stomp-Stomp. Clap. Stomp-Stomp. Clap.
"Suponho que todos os humanos terão que lutar", disse Anathema, folheando suas anotações.
Buddy, you're an old man, poor man, pleadin' with your eyes, gonna make you some peace some day...
"Mas anjos? Eles não destroem cidades inteiras só olhando pra elas?"
"Gabriel não parecia muito ameaçador na base aérea", admitiu Anathema, acrescentando: "You big disgrace! —Não sei, parecia que ele estava esperando por permissão."
"Isso é estranho. Permissão de quem, eu me pergunto... "
O solo de guitarra acabava de ser acompanhado por quatro outros guitarristas de mentirinha muito entusiasmados, quando um raio azul fumegante atingiu o chão na frente de Dick Turpin. Newt pisou no freio. A floresta de repente se inundava de fogo. A madeira úmida e a vegetação rasteira se consumiam e ardiam e, no meio da ruína à frente deles, algo se ergueu. Tinha muitos olhos.
Cão rosnou e latiu furiosamente enquanto os Eles se esticavam para ver do banco de trás.
Apesar da explosão de chamas, Dick Turpin estava bem. Os reparos de Adam no modelo estrangeiro três anos antes tiveram resultados inesperados — inesperados para todos, menos para Adam, de qualquer maneira. Agora o que parecia ser um sino dos ventos de vidro soou e uma voz serena disse: "Natsu yonaka — Ka'netsu enji'n ga — Tenki kana?"
Newt agarrou a embreagem. O que quer que estivesse parado na estrada não era humano. Um humano era um ser que você teria medo de atropelar com seu carro, e não o contrário.
"Que diabos foi isso?" Anathema cerrou os dentes.
"Oh, está apenas nos avisando que o motor superaqueceu", disse Newt que, desde o Apocalipse, se aprimorara na arte do haicai japonês. "Ou você quer dizer o raio de luz sobrenatural no meio da estrada?"
"O brilho de luz sobrenatural, mas com esse tempo de relacionamento, entendo por que deveria ter sido mais específica."
***
Crowley estava sentado sobre os calcanhares na pedra da lareira, olhando para as chamas e cutucando-as com um atiçador. A fogueira não precisaria de sua ajuda nem se estivesse sob uma geleira. A Pedra competia por atenção novamente.
Enquanto isso, Aziraphale tagarelava sobre a loja por mais algum tempo depois que os outros saíram. Crowley apreciava seu anjo dando-lhe espaço. Eles passavam muito menos tempo separados desde o Armagedom e se acostumaram com o humor um do outro. Aziraphale tinha suas rotinas de final de dia tirando o pó dos livros e um pouco de Schubert antes de se acomodar com chocolate quente e Wilde. E Crowley precisava de seu jardim ou um passeio no Bentley, ou, além disso, um bom assento e isolamento.
Por fim, ele fechou os olhos para o fogo e pensou em um calor vermelho diferente em um lugar hostil. E ele pensou na expressão sinto muito.
Crowley esperava que a carta dissesse sinto muito. Ele poderia ter zombado disso. Seria sentimental. "Do que você sente muito?" ele poderia ter perguntado, exigido e se sentido melhor por isso — ou pelo menos a quantidade usual de mal.
Sinto muito seria inocente também. Teria sido fácil. Era apenas outra forma de reagir a algo triste. Em inglês, sorry, e sad, ambas as palavras compartilham uma raiz que significa "crivado de feridas", por exemplo. Boas pessoas podem lamentar as más. Os outros anjos podiam sentir pena também, se a notícia se espalhou: Pobre Raphael, sinto muito por seu irmão. O vi e não ele não podia evitar. Qualquer bom irmão faria o mesmo. Não que Michael jamais tenha se arrependido, mas, bem, isso era diferente.
Mas em vez de dizer sinto muito, Raphael disse o que só ele sabia dizer. Ele o entregou ao único inimigo em que tanto o Céu quanto o Inferno podiam concordar. E ele havia assinado seu nome.
Crowley deixou o atiçador de lado. Cruzou os braços para não tremer. Era mais fácil quando ele pensava que era odiado.
Conhecendo Raphael, ele não se desculparia se o Céu descobrisse. Nem mesmo para Michael. Mas então, eles apenas o fariam sentir de outra forma. Ele deve saber disso. Eles o ameaçaram como se tivessem Aziraphale — provavelmente pior, pelo que ele lhes custou — e fariam isso para "seu próprio bem". Ele também deve saber disso, não era um tolo. Ele tinha que saber o que poderia acontecer. Por trás de toda aquela atitude de médico, ele conhecia os riscos.
Por fim, Aziraphale voltou com uma garrafa de pinot blanc e um par de taças. "Quer uma bebida antes de dormir?"
"Vou precisar de mais de uma garrafa, anjo," Crowley suspirou. Se assustou com o telefone em seu bolso de trás zumbindo. Quando ele se levantou e o puxou, vários tocos de giz caíram no chão. Adquirira o hábito de carregar um pouco por aí o tempo todo. Aziraphale colocou a garrafa de lado e pegou um. Quando olhou para cima novamente, Crowley alcançava a mochila.
"Crowley?"
"É o Adam", disse, lendo o texto confuso. Ele se mantinha atualizado quanto ao internetês, mas alguns termos eram claramente erros de digitação. No momento seguinte, ele estava procurando as chaves do Bentley no bolso.
"Alguma emergência?" perguntou Aziraphale.
"Pode-se dizer que sim." Crowley entrou na loja principal e parou logo depois da escada em espiral de ferro. As galerias da livraria principal eram marcadas por pontos cardeais ao longo de sua varanda. Crowley olhou para cima e encontrou o noroeste, depois olhou para o tapete sob os pés. Uma ideia lhe veio, mesmo quando sentiu a bolsa em seu ombro começando a latejar insistentemente.
O que você precisa agora, ela parecia feliz em apontar, é de uma caixa de desejos mágica.
"Nos meus termos," Crowley murmurou, então disse: "Anjo, o quanto você confia em mim com a sua livraria?"
***
Newt agarrou a embreagem novamente ao mesmo tempo em que Anathema agarrou o braço dele.
"Não corra", disse ela.
O ser etéreo acumulava algo como um relâmpago na sua extremidade mais brilhante, como uma espada.
"Então o que fazemos então?" perguntou Newt.
"Abaixe-se!"
Todos no carro obedeceram. Adam jogou um braço nas costas de Pepper e outro sobre Wensleydale. Newt jogou a jaqueta em cima dele e de Anathema no momento em que o para-brisa se estilhaçou. Um raio azul arranhou o exterior do carro enquanto os pedaços de vidro caíam e o veículo balançava cautelosamente no lugar.
Foi menos dano do que eles esperavam, mas o visitante claramente não tinha terminado. Ele ergueu a espada novamente.
Uma voz do lado de fora que parecia não possuir pulmões disse: <Saudações, Anathema Device>
"Droga", murmurou Anathema, depois disse rapidamente: "Newt, lembra esta manhã quando a Bagunça pegou fogo e as joaninhas voaram?"
Newt entendeu bem rápido. "Pra fora! Todo mundo pra fora! "
Adam abriu a porta e eles se espalharam pelo acostamento. No instante seguinte, um cometa em chamas atingia o carro diretamente, levantando-o do chão e girando-o duas vezes antes de cair, as rodas no teto. O som do sino dos ventos se transformou num tinido de bronze um pouco mais alarmado enquanto balançava com a explosão.
"Setsuzokutte — Douro to ta'iya — Murinatteru. Setsuzokutte — Douro to ta'iya — Murinatteru... "
Newt encontrou seus óculos e os empurrou de volta no rosto. "É um tipo de demônio?" ele perguntou.
"Não, os anjos não negociam quando estão chateados", disse Anathema. Ao redor deles, um vento uivava. Pareceu girar em torno do anjo. Ela agarrou páginas de anotações que ameaçavam voar na rajada e as empurrou de volta na bolsa. "Na floresta, perto daquelas árvores, fiquem abaixados."
"Por que você fala como se fosse ficar aqui?" O punho de Newt agarrou as chaves do carro como se ele pudesse usá-las como uma arma, o que teria sido uma coisa louca de se fazer.
Insano, mas, Anathema admitiu silenciosamente, não inesperado. Ela engoliu em seco com a garganta subitamente ressecada, então beijou Newt com tanta força que seus óculos ficaram tortos para o outro lado. "Vai ficar tudo bem."
"Mas—"
"Fique abaixado." Anathema subiu na encosta da estrada, com apenas metade de um plano formado em sua cabeça. Há muito tempo, os anjos que viajavam abertamente eram recebidos com alguma forma de deferência, mas principalmente com medo. Os relatos continham uma grande quantidade de linguagem educada, bem como uma boa dose de bajulação e subserviência por parte dos humanos. Anathema pessoalmente não acreditava que pelos padrões atuais eles merecessem tal humilhação, mas haviam exatamente zero relatos de humanos sendo menos que bem educados com anjos — presumivelmente porque esses humanos não sobreviveram.
O carro emborcado ainda fazia sua reclamação serena em meio à floresta em chamas. "Setsuzokutte — Douro to ta'iya — Murinatteru. Setsuzokutte — Douro to ta'iya — Murinatteru... "
O anjo disse: <Anathema Device, posso queimar esta floresta inteira se você não vier em silêncio.>
"Então você me quer viva?"
"Espere, só um minuto—" gritou Newt.
"Não se preocupe, amor, uma bruxa sempre sabe quando vai morrer", disse Anathema.
"Isso não me faz sentir melhor!" Newt exclamou.
"Então você me quer viva?" Anathema repetiu para o anjo. "Eu, especificamente?"
<Anathema—>
"Sim, esse é o meu nome. Você não deveria me dizer que sou muito favorecido ou algo assim?"
<Você e alguns de seus parentes encontraram o favorecimento do Todo-Poderoso.>
Isso era sarcasmo? Os anjos podiam ser sarcásticos? Anjos que não usam gravata-borboleta xadrez, pelo menos?
<Você foi escolhida para escapar da ira vindoura—>
"Espere um minuto, não, obrigada. Como posso saber que você é realmente um mensageiro de D'us Todo-Poderoso? "
<O quê?> Se algum ser etéreo poderia transmitir perplexidade, este conseguiu.
"Você nem mesmo está usando os pronomes 'tu' e 'teu'. Tenho certeza de que esse é o procedimento padrão. Exijo saber seu nome. Vou te reportar ao seu supervisor. "
Houve um flash de luz como um rolo de névoa em todas as direções, e então um anjo de cabelos brilhantes em um terno de linho estava parado na estrada. No momento, ele estava desarmado. Sua expressão era até um pouco fria, apesar de sua chegada impetuosa.
"Eu sou o supervisor."
A presença do poder do anjo parecia se estender além do que os meros visuais permitiam. Anathema reconsiderou seu tom.
"Bem, você não é tão grande assim", ela admitiu, ajustando os óculos para examiná-lo. "Então, acho que isso significa que você não é o general do exército."
"Você poderia estar mais perto do que você pensa." Algo dourado cintilou na não exatamente existência ao redor do anjo, onde suas asas apareciam em contorno. Parecia uma coroa de estrelas.
"Oh." Então Anathema jurou à moda americana. "Então, você é o Michael."
Com passos mais rápidos do que o chão despedaçado deveria ter permitido, o anjo cruzou a estrada e a segurou pelos ombros. Anathema teve o instante de uma sensação inquietante, como se a gravidade tivesse perdido a discussão. Ela tinha certeza de que estava prestes a desaparecer do plano físico de existência e, se o anjo se precipitasse com o espaço interdimensional, alguns dos não-físicos também.
Então houve uma explosão.
Os sentidos de Anathema voltaram aos seus níveis adequados de tempo e espaço. Ela pousou com força no cascalho e de repente estava em algum lugar entre os planos de novo, só que esses eram os planos que ela reconhecia. Ela, Newt e as crianças e até mesmo, de alguma forma, Dick Turpin, estavam na floresta, mas também na livraria. As árvores fumegantes da mata e as paredes de papel quente da loja se entrecruzavam tão facilmente quanto raios de luz. Anathema estendeu a mão e tocou a estrutura de madeira entalhada de uma cadeira enquanto sua outra mão caía no cascalho da estrada de terra. Cada um estava lá, certo, mas não o suficiente para interferir um com o outro.
No meio dele, logo acima e atrás de onde um círculo branco brilhante resplandecia nas tábuas do piso — ou na sujeira, ou em ambos — estava Crowley. Seus pés não estavam no chão.
Ele estava de pé, mas não havia nada em que se apoiar. E seu cabelo não era mais da cor de ferrugem, mas de vermelho fogo. Algo em suas roupas não falava de jeans e escamas pretas, mas de mantos brancos esticados em redshift de um lado e blueshift de outro. As roupas se moviam com um vento silencioso, dobras de linho embalando a luz das estrelas, mais nebulosa do que tecido. Rodas de luz brilharam ao redor dele como os anéis de um átomo ou planeta.
Na palma da mão ele segurava a Pedra Filosofal.
"Michael, cara", disse ele. Sua voz carregada como luz através da água. "Por que não tornamos isso fácil para você e você vai embora?"
Michael havia pousado contra uma árvore. Agora ele se endireitou e puxou novamente a espada como um raio. Os anéis de luz se expandiram para cercar os viajantes emboscados e, de repente, também ganharam dentes. Michael cambaleou para trás apressadamente.
"Você não pode lutar comigo com isso, demônio", disse Michael. Ele rebateu uma página voadora de anotações. "Isso não é uma arma."
"Nah, é apenas uma gambiarra que conserta e relembra coisas", disse Crowley, ainda parecendo com ele mesmo e não com ele mesmo, enquanto as paredes da livraria tremeluziam ao redor deles. Agora Anathema quase podia sentir o tapete esvoaçando sob os pés. "E pode banir você de onde você não pertence."
"Este não é o seu lugar."
"Meu lugar? Quem se importa com a minha casa? Este é o Soho, "disse Crowley.
"Aqui é Chiltern Hills."
"E ainda, também, Soho. Território de Aziraphale, na verdade. Não pode ter nem mesmo arcanjos desrespeitando as fronteiras dos principados. Não antes do Dia do Julgamento. "
"Impossível."
"Você realmente acha que pequenas coisas irritantes como espaço e tempo vão atrapalhar enquanto eu tiver uma caixa mágica milagrosa?" disse Crowley, com firmeza.
Ele acenou com a mão sobre a Pedra e no chão que também era o solo onde o anel de luz branca projetava sua borda mais alto e mais brilhante do que antes, enquanto os símbolos que a entrecruzavam brilhavam como holofotes. Olhando mais de perto, Anathema percebeu que era uma espécie de círculo mágico rodeado de velas acesas. Ela já tinha visto um no chão da livraria antes.
Michael ficou em frente e brandiu sua espada. Ele sorriu. "Este é o artefato do céu. Um demônio não sabe como usá-lo. " Ele mais uma vez assumiu a forma de um entusiasta de asas e muitos olhos.
Crowley encolheu os ombros, nada impressionado. "Sim, mas meu velho companheiro de porres sabe como usar. E como eu disse, não é minha casa. "
Um corpo anteriormente obscurecido pelos planos sobrepostos da existência avançou da sombra das árvores e de repente Michael foi empurrado para a frente, com a cabeça sobre as asas, e pousou diretamente no círculo branco. Ele só teve tempo de gritar de surpresa antes que uma rajada de luz ascendente se transformasse em um pilar e então, como um jato de água o atirou para o céu. Em uma explosão de luz, o anjo desapareceu e a luz se apagou.
A espada caiu no chão, o relâmpago se foi, apenas o aço reluzente ao luar.
"Boa viagem", disse Aziraphale. Ele ajeitou a jaqueta com um bufo. "Está todo mundo bem?"
"Anjo, não acho que vou conseguir segurar isso por muito mais tempo", disse Crowley. Os planos da existência piscaram. De repente, parecia que ele estava na escada em espiral até as galerias da livraria. Ele se agarrou ao corrimão enquanto suas roupas assumiam mais ou menos sua aparência normal de pintura. "Anathema, Newt, vocês estão bem? O que eles queriam? "
"Eu, eu acho", disse Anathema trêmulo. Ao redor deles o vento diminuiu. O turbilhão de páginas de notas flutuou para o chão cinza da floresta.
Aziraphale a ajudou a se levantar. "Talvez você deva vir conosco, então?" ele perguntou.
"Acabamos de sair do Soho algumas horas atrás", disse Newt. "Como vocês dois estão aqui?"
"Não estamos." Crowley olhou em volta, chamou a atenção de Adam e piscou.
"Sinistro", disse Adam.
Aziraphale estalou os dedos e Dick Turpin se endireitou na estrada. Crowley fez um gesto complicado acima da Pedra e os incêndios florestais se extinguiram. As paredes e outros pedaços da livraria começaram a desbotar, e eles também.
"Anathema, tem certeza que quer ficar?" perguntou Crowley.
"Preciso contar à minha mãe", disse Anathema. "As outras bruxas ..."
"Tenha cuidado," disse Crowley.
"Claro."
O anjo e o demônio desapareceram com a livraria noite adentro. Dick Turpin avisou algo sobre o freio de mão. Então a floresta ficou assustadoramente quieta.
Anathema rolou pelo ombro onde a mão do anjo pousou. Ainda estava lá de alguma forma. Em outra época, em outro lugar. Não, só mais uma vez ... Ela tentou entender o sentimento. Ela olhou para a estrada à frente enquanto caminhava para o carro. As habituais auras brilhantes que diziam que ela estava no caminho certo pareciam mais turvas de alguma forma.
"Boa sorte", disse Newt.
Anathema olhou para onde o círculo de luz branca estivera. Todos os sete de seus sentidos estavam lançando faíscas. "Eu acho."
Algo que eu deveria fazer, ela pensou. Mas o quê?
Newt se inclinou para fora do carro. "Anathema? Você está bem?"
Anathema abaixou-se apressadamente e pegou um punhado de notas para enfiar de volta em sua bolsa, junto com as anteriores: Os roteiros, os procedimentos, a comparação das edições. Algumas páginas foram perdidas para as chamas.
Estava lá, ela tinha certeza disso. Uma irritação no fundo de sua mente. Alguma coisa se perdeu.
"Que... engraçado."
"Na verdade, não", disse Newt.
"Não", disse Anathema. "Não, acho que não."
***
Crowley desabou nos degraus das galerias da livraria e a Pedra caiu de sua mão. Ele atingiu o chão com um plink. Aziraphale a ignorou, subindo dois degraus de cada vez.
"Crowley?" ele disse. "Anthony."
"Estou aqui, Anjo." Crowley abriu seus misteriosos olhos dourados e piscou para o teto. "Ainda aqui."
"Graças a Tudo!"
"Que bom que era apenas um anjo. Odiaria tentar fazer isso com todos os dez milhões deles. Mas foi só o Michael, pra nossa sorte. Deveria ter feito mais. Parado ele... permanentemente. "
"Isso é o bastante por hora, Anthony J. Crowley," Aziraphale repreendeu. "Não vou permitir que você se sobrecarregue além do que deve. Se acha que-"
"Anjo", interrompeu Crowley, e o coração de Aziraphale aqueceu com uma risada que era tão afetuosa quanto familiar. "Você sabe que o show de luzes não fez praticamente nada."
Aziraphale olhou para o círculo mágico. "Mas todas aquelas coisas sobre—"
"Uma boa tentação" — disse Crowley — "nada mais que uma sugestão. Um bom blefe é a mesma coisa."
A compreensão surgiu no anjo. Aziraphale olhou para a Pedra amuada. "Você quer dizer que tudo o que fez, foi ..."
"Por um triz. Nunca negocie com quem que te quer morto." Na sala dos fundos, Crowley caiu para trás numa cadeira. Olhou para a Pedra, mas então balançou a cabeça. Ela poderia ficar onde quisesse por enquanto. Tocá-lo tinha sido como se exibir com um raio.
"Tem certeza de que está bem?'
"Nunca estive melhor. Outro desastre evitado. A vitória é nossa. Que tal aquele vinho? "
***
Todos os círculos de viagem do Céu estavam sintonizados para um único ponto de partida, assim Michael caiu no chão do barracão em algum lugar e algum tempo depois da meia-noite e, para o alívio de sua dignidade (que ele nunca chamaria de orgulho), sozinho.
Ele mudou de forma na hora certa. Se não tivesse protegido sua versão corpórea no éter, ela teria sido consumida. Mesmo agora, várias centenas de olhos em suas asas ardiam. Ele não os fechou a tempo. E metade de suas penas foi empurrada para trás. Ele rapidamente mudou de volta para sua forma mais compacta e humana.
Houve uma vibração quando um pedaço de papel caiu no chão. Sim. Era um daqueles que estavam girando ao redor dele na floresta, algo saído da bolsa daquela bruxa. Furioso, Michael pisou nele.
Então, avistou o sigilo em seu canto inferior.
Um nome.
O nome de um anjo.
Um momento depois, Michael estava no escritório de guerra com a porta fechada, pegando o telefone em uma das mãos, o bilhete ainda na outra.
Não era possível.
Era?
Michael colocou a folha sobre a mesa. Precisava fazer uma ligação, mas de repente o assunto se esquivara dele. Deveria contar aos demônios exatamente o que havia acontecido com a Pedra Filosofal. Ou, melhor ainda, discutir uma mudança na programação. Eles estavam atrás. Muito atrás. Estavam atrasados há três anos.
Mas realmente, deveria começar com a questão da segurança do Céu, decidiu.
Ele apertou a discagem rápida.
No departamento de arquivos do Inferno, um telefone fixo tocou.
"Profundezas do Desespero. Dagon ameaçando. "
Michael já tinha, agora, acalmado sua respiração o suficiente para dizer educadamente: "Lorde Dagon, sou eu."
"É um pouco cedo, não?" perguntou o Senhor dos Arquivos.
"Preciso perguntar ao seu príncipe sobre um anjo."
"Não é o seu departamento?"
"Me diga você. É sobre o Raphael."
***
Jaelle colocou outra caixa na prateleira do arquivo e empurrou-a com o ombro. Ela deslizou de volta para a parede. Matarael passou para ela a próxima.
"Quantas mais?" ela perguntou.
"Só essas duas", disse Matarael. Ele pegou outra caixa de Araphon. Os guardiões formaram uma linha de montagem partindo da escada da plataforma de observação. Não era algo que os soldados pudessem pensar, mas os guardiões sabiam como lidar com a papelada.
"Vai ser um ajuste difícil", disse Araphon.
"Acho que posso encontrar algum espaço", disse Jaelle com otimismo.
A sala de arquivo atrás da biblioteca era fechada e abafada, apesar de parecer durar para sempre. Pergaminhos de pergaminho foram armazenados ao lado de escadas enroladas de bambu. Rolos de filme estavam empilhados ao lado de caixas de papelão e caixotes de pastas. Jaelle viu alguns espaços promissores entre as longas bandejas de slides no corredor seguinte e começou a se mover e empilhá-los para abrir espaço.
"E você tem certeza que o príncipe não queria ver o resto?" perguntou Matarael.
"Sim."
"Mesmo depois que pediu por todos eles?"
"Tenho certeza de que ele simplesmente não tem tempo."
"Eu acho que não. Mas é um pouco rude nos pedir para transportar todos os que você trouxe para a mesa dele— "
Empurrou a última caixa, desta vez numa prateleira mais alta.
"—E o resto do quartel."
A caixa atingiu algo no meio do caminho. Jaelle subiu numa caixa próxima para empurrá-la de um ângulo melhor. Foi um ato de pressa e ela pagou por isso, balançando para trás em seu poleiro instável e caindo. Matarael a pegou quando a caixa tombou. No entanto, isso não adiantou muito, pois a força da queda fez com que ambos caíssem. Matarael disparou suas asas bem a tempo de amortecer a queda.
"Ufa", ele comentou.
"Desculpe", disse Jaelle. "Eu só vou ..."
"Certo..."
"Minha culpa..."
"Você também tem asas, Jaelle.
"Sim..."
"Não precisa estar à mercê da gravidade."
"Estou ciente, Mat."
"Tipo, você não está ferindo os sentimentos de ninguém."
"Huh?"
"Nós nem mesmo temos que ficar no chão se não quisermos."
"O quê? Oh." Jaelle rapidamente apoiou-se nos calcanhares.
Matarael escondeu as asas e sorriu um pouco. Seus olhos adquiriram um tom suave de lavanda que Jaelle nunca vira antes. Araphon, deixou de lado a última caixa de arquivo e revirou os olhos.
Juntos, todos se abaixaram para pegar o conteúdo da caixa. Infelizmente, a maioria eram pastas não marcadas contendo fotos, o que significava que apenas empilhar as pastas simplesmente derramava cascatas de fotos em preto e branco escorregadias pelo chão e sob as prateleiras novamente.
"Estranho, nenhuma dessas está rotulada", disse Araphon, arrumando as bordas de algumas delas.
Jaelle pegou uma pasta e imediatamente uma dúzia de fotos se soltou e caiu no chão. Ela correu atrás da mais rápida e cambaleou sob uma lâmpada baixa para pegá-la. Matarael juntou algumas, então percebeu que ela não se movia.
"O que é?" ele perguntou.
"Isto é Sol Este", disse Jaelle. "A mansão do presidente. Reconheço a vista do rio."
"Então?" perguntou Matarael.
Jaelle abaixou-se e pegou outra. "E esse é Esteban."
"Seu protegido?"
"Sim, mas ..." Ela virou a foto, meio acreditando que poderia estar imaginando coisas, querendo que seus colegas vissem. "Mas aquele é o Lorde Gabriel."
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Notas da autora:
• Fonte da imagem: Gustave Doré, "The Bronze Serpent," de Wikicommons, carregado em 10 de julho de 2010 e acessado em 5 de outubro de 2020.
• Traduções do Haiku de Dick Turpin: (Perdoem minhas tentativas pobres de qualquer leitor japonês; sei que meu uso de partículas poéticas é péssimo):
Fazer a conexão - Com a estrada e o pneu - É impossível.
• Por que isso demorou tanto? Sinceramente não sei. Acho que é estresse. Certeza que é estresse. Sim, é o estresse.
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Recado da tradutora:
Queria dizer que estou pensando em mudar o título de "Good Omens Segunda Temporada" pra ficar mais próximo da tradução, ou seja, a fic se chamaria o mesmo que o título do primeiro capítulo "Não tanto como cair, a princípio". Eu deveria ter feito isso antes, mas como a autora tinha aceitado minha sugestão inicial, fui deixando, mas agora que o nome ficou esse mesmo em inglês, acho que vou fazer isso, o que acham? A capa continuaria igual, então acredito que ninguém ficaria perdido com a mudança.
Também me desculpem a demora em postar, estou com problemas pessoais no momento e essa tradução acabou ficando em segundo plano, mas quero muito continuar até o fim. Obrigada pelo apoio!
Apesar de eu reconhecer que muito da minha confiança em meus livros vem do fato de eu me organizar muito, de ficar três meses planejando um livro antes de escrevê-lo e de só escrever o que já tenho uma jornada para revelar, sei que não tenho confiança só por isso. Acho que tudo começa quando amo a história que vou contar, ainda mais quando eu tive que passar por uma jornada muito difícil de aceitação da obra depois de ler tanto “sua primeira versão sempre vai ser péssima”.
Sei que a parte de não ter que colocar muita pressão em si e na primeira versão ajuda muita gente, mas eu funciono um pouco diferente. Acredito muito no peso das palavras, na força que elas tem, por isso procuro nunca escrever sobre coisas que não gostaria que acontecessem. Também sinto o peso das palavras no que digo que vou ou não fazer, então, inicialmente, pensar que meu livro ia ficar péssimo fez justamente isso, que ficasse péssimo em minha cabeça e que eu desistisse. Eu não posso pensar em nada de forma negativa, então é daí que vem a minha forma de organização. Em vez de escrever o mesmo livro 3 vezes, eu fico meses pensando no que fazer e como fazer, juntando todas as pontas soltas antes de escrever. Então eu preciso pensar que minha versão vai ficar boa, e preciso dar meu máximo para isso. Eu adoro desafios e lido melhor com eles do que com não me cobrar de forma alguma, então eu tento dar o meu máximo enquanto posso. Daí vem a minha confiança no que escrevo, em me desafiar ao máximo e dar o máximo de mim.