Não era a sua primeira vez naquela sala. A bem da verdade, C conhecia bastante bem os poucos metros quadrados ao seu redor. Havia memorizado tudo nas paredes brancas que a cercavam, inexpressivas, do chão ao teto. Sabia, por exemplo, que não havia uma rachadura sequer corrompendo as superfícies muito lisas e anticépticas que a cercavam, e que só tinham sua imensidão alva quebrada pelo ligeiro contorno da porta e por um quadrado saliente a um metro dela, do qual surgia uma lente pequena e alguns furos discretos para a saída de som.
Sabia também que não havia a menor necessidade para tais aparelhos, já que existia tecnologia o suficiente à disposição para que nenhum desses aparatos fosse efetivamente necessário. Porém, quem quer que tivesse projetado aquele cubículo quase claustrofóbico provavelmente quisera dar a quem o adentrasse algum lugar para olhar, algo a que se dirigir. Como um último resquício de humanidade – suprimento em falta dentro do Centro de Treinamento Policial de Gallica I, diga-se de passagem.
A jovem mulher de cabelos muito castanhos sentava-se ereta no centro da sala, a camiseta preta, a calça bordô, de acordo com o que estabelecia o protocolo. Mantinha-se inexpressiva, quase imóvel, como se aquela situação de teste, de prova, não fosse nada de mais.
Não deveria ser. Aquilo era parte da sua vida. Elemento C fora criada para tal.
Algo ruiu no outro lado dos microfones, interrompendo sua análise meticulosa da parede leste, mas ela se conservou imóvel, indiferente.
– Experimento C, pronta para começar? – disse uma voz artificializada saindo do pequeno aparelho.
“Minkowsky?”, pensou, reconhecendo algumas notas daquele tom. Havia, afinal, alguma novidade: seria interrogada por seu novo inspetor, diferentemente das outras ocasiões em que estivera naquela posição.
– Sim, senhor. – foi apenas o que C respondeu, sem titubear, olhando fixamente a lente que a encarava de volta.
– Recite a sua baseline.
– A blood black nothingness began to spin. A blood black nothingness.
A system of cells. Within cells interlinked. Within one stem. And dreadfully distinct. Against the dark. A tall white fountain played.
– Informe o seu atual código de identificação.
– Z.1000280-26.2172.0
– Certo. Agora, começando... – disse novamente a voz, suspendendo a última palavra por breves segundos antes de continuar. – Qual seu nome completo, motivo a qual lhe deram esse nome e apelido?
– Não tenho um nome, mas me chamam de C. Eu fui a terceira, a última a ser resgatada. A e B já estavam no Centro quando cheguei. Deve ser por isso.
– Qual o seu gênero?
– Feminino.
– É humana ou androide?
– Humana.
– Onde e quando você nasceu?
– Nasci em Gallica I, em 2172. Não sei a data exata. Não comemoro aniversários.
– Qual seu signo?
– Eu não sei. Não me importo.
– Onde morou quando criança?
– Em algum lugar da Classe Média. Depois, no Centro de Treinamento.
– Quem são seus pais?
– Não sei. Eles estão mortos. Não importa.
– Você tem irmãos? Como eles são?
Por um átimo, C quase hesitou. “A e B?”
– Não tenho irmãos – Era a resposta esperada, no entanto.
– Como é a relação com a sua família?
– Não tenho uma família. Logo, é inexistente.
– Onde você vive agora e com quem?
– Sozinha, em um cubículo na periferia de Gallica I.
– Qual sua ocupação?
– Elemento C do elemento nº 561. Espiã.
– A que classe de Gallica I você pertence? Está satisfeita nela?
– Classe Baixa. Minha satisfação não importa.
– Que meio de transporte você mais usa?
– Os trens.
– Sobre sua aparência física, Elemento C... – a voz continuou, passando à outra parte do questionário. – Qual a sua altura e peso?
– 1,65m. 55kg.
– Qual a sua nacionalidade? E a de seus pais?
– Eu sou filha de Gallica I. Nascida e criada aqui.
– Você tem alguma deficiência física?
– Não.
– Quais são suas compleições?
– Pele morena, sem sardas ou marcas de nascimento, nem sinais.
– Como é o seu cabelo? Ele é pintado?
– Tenho cabelos castanhos, naturais. Tendem a ficar ondulados. Geralmente estão presos para não atrapalhar minha visão.
“Como os da minha mãe”, ela se permitiu pensar enquanto ouvia a próxima pergunta. Um pensamento intruso, impróprio. Não conseguiu evitar, mas sua divagação foi quase imperceptível.
– Qual a cor dos seus olhos?
– Castanhos escuros, quase pretos.
– Usa óculos ou lentes de contato?
– Não para a correção da minha visão.
– Tem algum elemento tecnológico no corpo?
– Nenhum além do implante na minha nuca.
– Já passou por alguma cirurgia?
– Nenhuma.
– Que tipo de vestimentas você usa?
– Aquelas normais às pessoas da classe em que estou infiltrada. Calças, camisetas e jaquetas básicos e um pouco gastos, para garantir minha autenticidade. Aqui, uso o meu uniforme.
– Estilo de sapatos que você calça?
– Sempre de solados de borracha e baixos. Ajudam na mobilidade.
– Como é a sua saúde?
– De ferro. Sempre fui bastante resistente a diferentes enfermidades.
– Como é a sua higiene?
– Prezo por asseio. Banhos regulares, unhas e cabelos aparados, roupas sempre limpas e dentes escovados. Não costumo utilizar maquiagem – o faço apenas quando necessário.
– Usa joias, piercings ou tem tatuagens?
– Todos esses elementos são símbolos de distinção. Pessoalmente, não os aprecio. Não devo apreciá-los. Para encarnar Catriona, porém, fiz furos nas orelhas e uso brincos e dois piercings na cartilagem da orelha. Nada mais.
– Tem maneirismos/hábitos físicos?
– Maneirismos também são símbolos de distinção. Fui treinada para não tê-los.
– A respeito do seu intelecto e personalidade, C... – a voz entoou, seguindo para outra seção de perguntas. Elemento C conservou-se indiferente, piscando de maneira quase entediada para o aparelho instalado na parede à sua frente. – Você tem algum dom? Qual?
“Trick question? Really?”, ela pensou, com a resposta já na ponta da língua:
– Um dom implica a ideia de uma habilidade intrínseca, inata, o que não existe. Portanto, não tenho nenhum.
– Quais são os seus defeitos?
– Não sou tão sensível aos anseios emocionais alheios, como B, ou tão atlética, quanto A. Juntos somos mais fortes.
– Quais seus hobbies e passatempos favoritos?
– Jogar xadrez, ler, programar... O que sempre fiz no Centro de Treinamento.
– Quais são os seus hobbies secretos?
– Não tenho segredos para com o meu país.
“Mentira”, seus pensamentos denunciaram, mas C continuava impassível, como se recentemente não tivesse descoberto as pequenas virtudes da vida na classe menos assistida de Gallica I.
– Qual é o seu estilo de fala?
– Não tenho tanto tato quanto gostaria de ter – B ficou com grande parte dele – mas tenho os street smarts que faltam aos meus companheiros. Consigo me virar bem.
– Você é artístico?
– Não particularmente.
– Você é austero?
– Não particularmente.
– Você faz suas decisões pensando na razão ou na emoção?
– Razão, sempre. Deixar-se levar pela emoção é demasiado leviano.
– Quais são as suas neuras?
– Aprendi a não tê-las.
– Qual a sua filosofia de vida?
– A mesma de Gallica I: ex nihilo nihil fit. Nada surge do nada.
– Você é mais cauteloso ou ousado?
– O equilíbrio entre os dois é necessário na minha linha de trabalho.
– O que te deixa mais sensível e vulnerável?
“Minha família”. Mas quem era, de fato, a família de C?
– Fui treinada para não ter pontos fracos. – Espiões não têm pontos fracos, afinal.
– Você é extrovertido ou introvertido?
– Um pouco dos dois.
– Qual o seu nível de conforto com as tecnologias?
– Me sinto mais confortável com elas do que com outros seres humanos.
– Qual seu bem mais valioso?
– Minha integridade. Bens materiais são passageiros e voláteis, como as pessoas que os têm o são.
– Notívago ou madrugador?
– Notívaga e madrugadora. Dormir me parece um pouco de perda de tempo.
– Tem sono leve ou pesado? Ronca? É sonambulo?
– Sono leve. Fui criada para estar sempre alerta.
– Qual sua cor favorita?
– As cores da minha bandeira. Preto, bordô e amarelo.
– Qual sua comida/bebida favorita?
– Preferências como tais também são símbolos de distinção. Pessoalmente, não tenho favoritos.
– Quais são os seus preferidos (música, filme, livro):
– Essas manifestações artísticas são distrações para as massas. Convém não perder o tempo com elas.
– Você fuma, bebe ou usa drogas? Se sim, por quê? Você quer parar? Quer começar?
– Não é prudente alimentar vícios, principalmente com relação a substâncias que podem anuviar meu julgamento.
– Como você passa uma noite normal de sábado?
– Trabalhando, sempre. No meu computador, ou em alguma missão de reconhecimento ou observação.
– O que te faz rir?
– Quase nada, ultimamente.
– O que te choca ou ofende?
– A podridão instalada em nossa sociedade pela existência parasitária do grupo rebelde.
– O que você faria se tivesse insônia e precisasse encontrar algo para entreter a si mesmo?
– Provavelmente ligaria algum dos meus gadgets ou jogaria uma partida de xadrez contra mim mesma. Funciona na maioria das vezes.
– Como você lida com estresse?
– Conto até dez, respiro fundo, e direciono minha atenção na resolução do que quer que me inquiete.
– Você é espontâneo ou sempre precisa ter um plano?
– Um plano não é uma camisa de força. Ter um objetivo é crucial, mas por vezes os passos para se chegar até ele precisam ser ajustados ao longo do caminho.
– Que coisa boba mais te irrita?
– Vícios pequenos, como roer unhas, estralar os dedos, bater os pés... Mas aprendi a tolerá-los e suportá-los.
– Acerca da sua vocação profissional, C... – mais uma vez, a voz se encaminhava à outra parte da sabatina. – Qual sua profissão atual?
– Sou espiã em tempo integral. Como Catriona, tenho trabalhado como copygirl.
– Onde fica seu trabalho? Como é o ambiente de trabalho?
– Como espiã, estou sempre onde preciso estar. Como fachada, estou trabalhando nessa pequena hardware store, bem no coração da zona sul de Gallica I. É um trabalho medíocre, mas necessário para o meu papel no bigger scheme of things.
– Ocupações anteriores?
– Eu sempre fui o que sou, desde que posso me lembrar.
– Paixões (o que gostaria de fazer como trabalho)?
– Não tenho paixões – são impulsos quase animalescos, na verdade. O que faço atualmente é o bastante.
– O que você acha do seu trabalho atual?
– É a minha razão de existir.
– O que você acha em relação aos colegas de trabalho/chefe atuais?
– A, B e Minkowsky são parte fundamental do que eu faço, bem como o major Lascius e os comandantes O’Donnel e Voight. Na hardware store, as pessoas são toleráveis.
– E sobre sua sexualidade e relações amorosas... – “Inexistentes”, completou ela mentalmente. – Qual seu status de relacionamento atual?
– Solteira.
– Orientação sexual?
– Heterossexual.
– Relacionamentos passados?
– Inexistentes.
– Razão primária que te faria terminar com alguém?
– Não se aplica. Sequer começaria um relacionamento.
– Já se apaixonou alguma vez? Se sim, descreva o que aconteceu.
– Felizmente, isso nunca aconteceu.
– O que você procura em um provável amor?
– Não procuro.
– Você acredita em almas gêmeas e/ou amor verdadeiro?
– Isso não existe.
Havia sido quase monossilábica, poupando palavras em suas respostas. C sequer entendia porque tais perguntas eram necessárias, a bem da verdade. Não era como se esse tipo de coisa fosse sequer permitida entre os elementos. Por isso, quase respirou aliviada ao ouvir a voz distorcida de Llewellyn Minkowksy dizendo:
– Sobre suas crenças e opiniões, Elemento C, você se considera otimista ou pessimista?
– Eu me considero uma realista.
– Qual seu maior medo?
– Não cumprir com meu dever.
– Qual sua concepção religiosa?
– Religiões são narrativas coletivas criadas para unir as pessoas.
– Qual sua concepção política?
– A ordem precisa ser mantida a todo custo.
– O que você pensa sobre as lutas de robôs?
– É o ópio do povo.
– O que você pensa sobre a proibição de androides? Tem medo deles?
– Eles são proibidos por uma razão. São fascinantes, mas perigosos. Não os temo.
– Como seria um mundo ideal?
– Um mundo com paz. Sem os rebeldes.
– Você seria mais de esquerda ou direita?
– Nem um, nem outro.
– Você é capaz de matar? Sob que circunstâncias matar é aceitável ou inaceitável?
– Sacrifícios pelo bem maior por vezes são necessários. Eu fui treinada para poder fazê-los.
– Em sua opinião, qual é a pior coisa que um ser humano pode fazer?
– Trair seus princípios.
– Acredita em casamento?
– Pessoalmente, não. A família é uma instituição falida como um todo.
– O que você acredita que faz de uma vida bem sucedida?
– Live up to your expectations.
– Quão honesto você é sobre seus pensamentos e sentimentos? Você esconde seu verdadeiro eu dos outros e de que forma?
– Eu sou honesta o quanto posso. Aqui, consigo sê-lo. Lá fora é preciso ter mais cuidado com o quanto transpareço do que realmente sou.
– Você tem algum preconceito? Já sofreu algum?
– Não.
– Há algo que você se recuse a fazer sob qualquer circunstância? Por que você se recusa?
– Se for uma ordem, preciso obedecê-la, não importa o seu teor.
– Por quem ou pelo que você morreria? Ou iria ao extremo?
– Pelo meu país. De olhos fechados.
– Você acha que os rebeldes darão fim ao Governo dos Chanceleres?
– Não se eu fizer o meu trabalho direito.
– E sobre Gallica I, C... – A sabatina estava para acabar. – Você gosta da localidade?
– Nosso país é o futuro. Ele foi construído da ruína da grandeza, e sempre será grande.
– Qual seu lugar favorito e o lugar que você menos gosta?
– Não tive a oportunidade de conhecer à fundo o território completo de Gallica I. Tampouco acredito que seja adequado opinar. O que eu gosto ou deixo de gostar não importa.
– O que pensa sobre as regras do Governo?
– São necessárias para manter a ordem e o bem-estar dos cidadãos.
– E sobre a sua Polícia?
– Ela faz um bom trabalho. Gallica’s finest, aren’t they?
– Teme pela presença dos rebeldes? O que acha deles?
– Eu temo pelo meu país. Eles são uma ameaça ao que podemos ser. E, por isso, precisam ser eliminados.
– O que pensa sobre o Manicômio? Tem medo de ser internado?
– As pessoas são enviadas ao Manicômio por uma razão. Se acharem prudente que vá para lá, talvez eu o mereça.
– O que pensa sobre o vídeo exibido na noite do Banquete Para Gallica I? Você estava presente no evento?
– Ele é a razão para que eu esteja aqui hoje. Ainda não havia sido designada a uma missão antes desse... infeliz acontecimento. Não deveríamos ter que chegar a tanto, mas já que chegamos, farei jus ao treinamento que me foi dado.
– Certo, C. – a voz tornou a falar. – Você está dispensada.