Lost. ⁽ᶤ ᵃᵐ ᵒʳ ᵃʳᵉ ʸᵒᵘˀ⁾
Por muito tempo Catherine se acostumou a acordar sozinha, poucas foram as vezes que havia acordado e que alguém estava ao seu lado, mas felizmente, isso era o que tornava esses momentos memoráveis, naquele presente, entretanto, ser memorável não era bom. A primeira coisa que sentiu foi a dor avassaladora no peito, não no coração, estava mais para ter um buraco negro dentro de si, a segunda foi o frio, caralho, estava acostumada a sentir frio, morando em Liverpool por tanto tempo, até gostava, mas não quando estava vestindo um short tão curto e uma regata tão fina, não conhecia ninguém que estava sentado dormindo naquele chão gelado, o lugar parecia mais um albergue do que qualquer outra coisa.
Então se levantou, sentindo a cabeça doer, girar, a náusea veio antes da tremedeira mas a deixou agoniada tanto quanto. Colocou os cotovelos nos joelhos e apoiou as mãos no rosto, reconheceria a sensação de longe, era o mesmo que acontecia meses atrás, quando acordava depois de ficar chapada e não se lembrava o que tinha feito, mas nem se lembrava direito de sair de casa, muito menos de ter usado algo, sabia que algo estava errado e, céus, que momento lixo para estar longe de casa, não por precisar de um apoio, mas por sentir que alguém precisava estar lá. O rosto estava molhado em segundos, e demorou até que conseguisse pensar direito, sabia que nem conseguiria conversar com ninguém, então pensou em mandar uma mensagem, a questão é que às vezes, as coisas estão fadadas a dar errado, e não encontrou o celular em canto nenhum.
Estar na estação de trem parecendo uma sem teto não ajudava muito, mas pelo menos soube onde estava: Ellesmere Port, longe para caralho considerando que não se lembrava de ter chego ali, procurou primeiro um banheiro, e quando encontrou, tentou não sentir tanto nojo. Não se olhou no espelho nos primeiros momentos, se focando em respirar e tentar pensar em uma solução apesar do choro, abraçou o corpo e respirou fundo, porque não adiantaria continuar estagnada com frio, e sem chão principalmente. Os pensamentos voavam para todos os lados, mas um permanecia, o quão desapontado ele ficaria em saber? E caralho, o que era essa sensação ruim no peito que a dizia que precisava vê-lo, encontrá-lo logo.
Não soube ao certo quanto tempo ficou ali, parada na mesma posição, mas quando se olhou no espelho limpou as lágrimas que já incomodavam. A maquiagem estava toda borrada, por isso, abriu a torneira, sentindo a água terminar de deixar o corpo duro, xingou, mas ainda sim, a raiva e decepção consigo mesma era maior, por isso usou o sabonete líquido para lavar o rosto, querendo chorar mais a cada momento da leve tortura que se infringiu.
Secou o rosto com o papel toalha, tendo que lavar mais algumas vezes para se livrar de toda a maquiagem no rosto, ao terminar, os dedos estavam vermelhos e o corpo pedia arrego, mas estava relativamente limpa, pronta para fingir que estava tudo bem pelo caminho gelado. Se encontrar pelas ruas da cidade foi extremamente difícil, aos poucos, parou de sentir frio, ainda que o corpo tremesse sem aviso em alguns momentos, pelo caminho, Anne treinou e treinou, mas não era como se fosse realmente difícil, já estava acostumada a ter que fazer esse tipo de coisa.
A hesitação só veio quando subiu os quatro degraus e parou na frente da porta, impediu os olhos de se encherem d’água novamente e depois de alguns segundos bateu, se não fosse o frio, estaria trêmula apenas pela situação. Pensou e repensou, mas não tinha outra opção, então tocou a campainha e, esperou. Sorrir era de praste, não havia falhas no sorriso, acostumada a sorrir sempre mesmo que não se sentisse feliz ou animada com nada.
Abraçou, quando o primo abriu a porta, sentindo o contraste do corpo gelado com a pessoa que claramente estava dentro de casa quentinha.
— Oi! Meu deus, que saudade!
— Cath? O que faz aqui? Cadê suas roupas?
Ignorou a cara de preocupação do primo e deu de ombros, ainda com o sorriso, mas agora brincalhão.
— Sabe como é né, não estamos no lugar mais seguro do mundo. E apesar da saudade, só vim ver se pode pedir um Uber para mim, perdi meu celular também.
Não teve tempo de fazer mais nada, Joseph a puxou para dentro, tentando aquecer os braços da garota com as mãos, e fazendo com que ela risse, nem sabia por quanto tempo estava no frio, não faria tanta diferença tentar esquentar o corpo agora, queria ir para casa, tomar um banho quente e remoer até não conseguir chorar mais.
— Relaxa, Joe, eu pago com meu cartão só pede pra mim, por favor.
— Anne Catherine. — Se encolheu com o tom de bronca, esperando que ele perguntasse sobre ou dissesse algo ruim. — A gente não se vê por dois anos, será que você pode sentar e conversar comigo?
— Não! Não eu não posso, eu preciso ir embora, será que você dá pra me ajudar? Tem coisas muito importantes que eu preciso fazer, venho ficar um ano na porra da sua casa depois, mas agora eu preciso ir, um amigo meu precisa de mim.
Não era normal da moça ficar alterada ou perder o sorriso quando conversava com pessoas da família, até mesmo quando conversava sobre assuntos mais complicados ou delicados, visto que, depois de tanto tempo suprimindo os sentimentos, era mais fácil não saber expressá-los do que fazer algo sobre eles de fato.
O frio não diminuiu, continuou naquela posição de inércia até que o carro do Uber chegasse, acreditava ter assustado o primo para que toda a família soubesse do ocorrido estranho em menos de dois dias, e para que alguém batesse à sua porta ou mandasse uma mensagem de falsa preocupação a seu respeito. Entretanto, sabia que era a pessoa mais deslocada da família, acima de tudo, sabia que a preocupação não era por ela, mas pelo que poderia fazer com o nome que os pais reconhecidos em Liverpool ficasse sujo.
A cada segundo dentro do carro, no ar condicionado quente, o corpo tremia mais e quase escutava o desespero de si em ver o amigo que por tanto tempo não via, a sensação era estranha demais, costumava sempre brincar sobre a ligação que ambos tinham, mas a verdade era que o timing só era correto na maioria das vezes, nas vezes que sentia que talvez fosse necessária na vida dele, para dar aquele empurrãozinho e deixar tudo no lugar.
Não percebeu estar chorando novamente, mas não se importava, o Uber não parecia ligar muito também, agradeceu quando chegou em casa, só percebendo a leve chuva quando saiu de dentro do carro para entrar finalmente na residência. Por não ter nada nos bolsos, que sequer tomariam conta de um celular, pegou a chave no esconderijo secreto perto da entrada e usou para abrir. A surpresa foi grande ao encontrar a casa perfeitamente organizada, o celular demorou para ser achado, até chegar no segundo andar, arrumando o aquecedor da casa para uma temperatura quente, ligou a banheira e quando se virou, ali estava, coisas desorganizadas demais no tampo da pia, e no quarto, coisas tão ruins quanto, procurou por todo lugar até achar o celular, e só quando o encontrou e desbloqueou que o baque veio.
Havia passado dias sumida, não eram poucos, muito pelo contrário, dias o suficiente para que quando aparecesse as pessoas com que conversava não se lembrassem de si e as que mantinha uma amizade a chamassem de sumida.
Menos ele, então procurou, procurou porque a sensação de ter algo errado parecia ainda mais avassaladora, só que não encontrava nada, em lugar nenhum, em nenhuma rede social, sem Derek. Os sentimentos vieram mais fortes que a racionalidade, ele não a deixaria sozinha depois de tantas coisas, sempre ia junto com ele para as mesmas regiões desde que haviam se reencontrado, céus, ele já havia visto seu momento mais deplorável e nem por um momento pareceu querer desistir da cacheada, porque faria isso agora? Não estava certo.
Ele não a deixaria.
Achava que não, uma parte de si sabia que não, sabia que por mais que tentasse ser egoísta, ele tinha muitas coisas que valiam a pena lutar para ter, não deixaria o lugar, ou pessoas para trás daquela forma, então foi procurar, mais e mais, tinha que encontrá-lo, sabia disso, não desistiria nem mesmo se por algum motivo ele tivesse fugido pra porra do Alaska, ainda que a pista do Hex não fosse tivesse nada de alaska.
A verdade, entretanto, costuma ser muito mais dolorosa do que as suposições que criamos em nossas cabeças, mas mesmo sabendo disso, não doeu menos estar parada na frente dele naquela cama de hospital, talvez fosse um horário errado, ou talvez o certo, o exato momento em que ninguém mais estava ali. Não havia levado flores ou presentes, só os pensamentos, o rosto avermelhado e sem maquiagem do mesmo jeito que havia chegado em casa. Queria xingá-lo, que susto descobrir que a pessoa mais importante pra você está daquele jeito, mas mais triste ainda era não poder fazer nada.
O tempo todo desde que tinha conhecido o homem, se empenhava em não deixar que coisas ruins demais acontecessem com ele, tudo que estava em seu poder, fazia, qualquer coisa para deixá-lo bem, talvez, apesar de reclamar sobre as várias pessoas malucas e neuróticas obcecadas com que ele se relacionava, ela fosse a mais doida de todas e doía saber que mesmo assim não era capaz de mantê-lo seguro.
“Que saco, seria muito mais fácil se eu de fato fosse a Bella.”
Demorou muito mais do que esperava até que o choro parasse, e quando isso finalmente aconteceu, tomou coragem para se aproximar, esperou por mais tempo até ter certeza, era certeza de muitas coisas, mas a que mais se sobressaía pelo momento inoportuno era a de que faria o maior pudim já feito para o tatuado, ainda que soubesse muito bem que ele não gostava do doce.
Se aproximou como se ele fosse a coisa mais frágil do mundo, uma bolha de sabão prestes a estourar, os lábios tocaram a testa gélida por alguns segundos e finalmente se afastou, menos preocupada, e até sorrindo um pouco ao ver uma das lágrimas em sua bochecha e ter que limpar com o indicador. Os verdes mais vermelhos do que se tivesse se drogado por um mês todo, se sentia mais perdida do que jamais estivera, mas tinha certeza de que se algo ruim estava acontecendo com ele, talvez ele também se sentisse daquela forma.
— Desculpa por não ser a Rapunzel, mas eu to ligada que você tá bem, vou achar umas receitas de pudim pra te fazer, a cara que faz quando come doce é ótima.
Limpou por fim o próprio rosto novamente, se afastando, não faria mais nenhuma visita a ele, sabia que não, porque não conseguiria vê-lo daquela forma de novo, mas imaginava que ele soubesse de todas essas coisinhas, das peculiaridades, do fato de que ela não sabia nada lidar com aquilo ainda que tivesse se drogado por meses quando estavam na América.
Não contaria nada do que havia acontecido, não contaria porque ele não precisava saber e nem se preocupar ainda mais com alguma coisa, mas iria esperar impacientemente o momento que ele acordasse para voltar e encher o saco, mantendo o sorriso, claro, fosse ele falso ou não, desde que ele ficasse bem.












