Act One: The things that bind us
#livtask10
Annabel voltava em casa após um dia um tanto quanto exaustivo. A readaptação à rotina e o planejamento do próximo ano da empresa de sua família, sem falar nas negociações que tinha em andamento, estavam tomando mais tempo e demandando mais esforço do que o costume. Hoje, em particular, ela só queria chegar em casa e tomar um longo banho, talvez nadar um pouco e deitar para ler algo com sua Criaturinha. Mas, se tinha algo que Annabel estava percebendo, era que paz não faria parte de sua vida tão cedo novamente. Ao chegar, ela percebeu de imediato. Um carro que conhecia bem, revirou os olhos, respirando fundo e se preparando para o encontro desagradável e desavisado que estava por vir. Desceu de seu veículo com a cachorrinha em seu encalço, hoje a coleira dela era vermelha como a blusa que a bailarina escolhera, uma de gola alta que desenhava bem seu corpo e se perdia por baixo da cintura alta da calça pantalone preta.
- Eu não me lembro de tê-lo convidado para uma visita, irmão. - Ela comentou no segundo que entrou em sua residência, e seu tom deixava claro o desagrado pela presença que realmente surgiu de sua sala de estar;
- É uma bela residência, Annabel. Combina com você. Confesso que cansei de esperar por seu convite... É assim que recepciona o Duque de Westminster, e seu irmão mais velho? - O loiro disse, naquele tom de cinismo que tinha de ser de família.
- É assim que eu recepciono quem aparece sem aviso, sendo um Grosvenor. Caso fosse um estranho, seria recepcionado de uma forma bem menos educada. - Não pestanejou ao retrucar, vendo o olhar maldoso do mais velho cair sobre sua cachorrinha e sentindo o estômago virar. - Sebastian. Leve-a para meu quarto e fique lá com ela. Não a perca de vista. - Comandou seu mordomo, sem tirar os olhos do irmão, que agora a encarava com um sorriso tão maldoso quanto seu olhar.
- Desde quando você tem pets, Annabel? Achava que já havia aprendido… A não se apegar a nada. Pois não há nada que eu não possa tirar de você. - Ele comentou ao se aproximar, pegando em uma mecha dos longos fios da bailarina e a levando ao rosto, cheirando-a e fazendo com que Annabel tivesse de conter a vontade de se encolher de nojo. Ela virou o rosto para longe do dele, olhando a escada pela qual o mordomo levara sua filhotinha, e sentindo o gelo de sua raiva se espalhar por seu peito.
- O que faz aqui, Hugh? Seja breve. Eu não te convidarei para jantar. - Seu tom, cortante como o frio que a dominava, e a voz estável, apesar do arrepio de descontento que percorreu sua espinha ao sentir a mão do Duque deslizar por seu braço. Cerrou os punhos, sentindo as unhas afundarem na própria palma. Percebia, com o canto do olhar, seus funcionários todos se aproximando pouco a pouco, discretos, mas a um comando de distância de fazer o que queriam com o sucessor dos títulos dos Grosvenor. Mas não se moveu. Permaneceu ali, parada, a postura impecável e o rosto, impassível.
Hugh Grosvenor aproximou os lábios da orelha de Annabel, deixando-os tocar-lhe por tempo suficiente para ser incômodo, o que, quando se tratava dele, não era mais que um segundo. Sorriu, ali, os dentes roçando a pele alva da irmã, e a mão apertando-lhe o pulso, com força, força suficiente para deixar ali uma marca que ela veria por dias, uma lembrança dele, sim. Ele gostava disso, de tentar enlouquecê-la aos poucos. Hugh nunca superara o favoritismo dos pais, nunca esquecera que se não fosse pelo machismo implícito na realeza, o título que carregava e o posto ao qual fora encarregado seriam da mais nova. Annabel o lembrava de sua irrelevância. Então, ele a lembrava de sua “superioridade”, essa sendo algo existente unicamente em sua cabeça. O fizera a vida dela toda, com pequenas maldades, crueldades. Tirando dela, de fato, tudo o que Annabel demonstrasse qualquer apego à, inclusive, sua paz, a encurralando e deixando desconfortável de toda forma que conseguisse.
Não que Annabel não desse o troco. Não, ela dava, a tortura dele era pior, pois ela não precisava fazer nada; O testamento do pai deixara claro, que tudo ficava no nome dele, mas pertencia à ela. Ele era apenas a cortina, e ela, a atração principal. E isso acabava com o segundo filho, o único homem. A “obrigação”, não o “querido”. Hugh soltou o braço da morena após erguê-lo e admirar o roxo que ali se formava. Sorriu, satisfeito, e então, tirou do próprio casaco um envelope decorado, um que estendeu à ela.
- Você foi convidada para o Baile Real. Claro que foi você a única a receber o convite. Representante da família, ou melhor dizendo, a puta Grosvenor.
- Conheço putas melhores que você jamais vai ser em qualquer coisa nessa sua vidinha miserável, irmão. Se é isso que sou, me orgulho de o ser. Pois até assim, sou superior a você. - Annabel cuspiu as palavras na cara do mais velho, e observou o olhar dele mudar, seu rosto avermelhar de raiva e o punho se erguer para ela. Mas estava pronta, a arma que sempre carregava consigo encostando nas costelas dele levemente, mas o suficiente para que ele a sentisse, e seu olhar se voltasse para o brilho metálico e que a mão abaixasse vagarosamente. Um sorriso incrédulo tomou-lhe o rosto, e ele se afastou, largando o convite aos pés da bailarina e se virando em direção à porta.
- Boa sorte com a realeza. Se cuide, irmãzinha. - Era claro, aquilo era uma ameaça, não uma sugestão. Hugh sabia o quanto Annabel detestava a realeza, o quanto abominava aqueles que era “obrigada” a respeitar.
Ela assistiu o mais velho se distanciar e entrar em seu carro, sumindo de vista. E ficou ali, congelada, os olhos acompanhando o nada e imaginando-o indo embora, imaginando a violência de sua ira e como ele a expressaria, provavelmente, se afogando em bebida, ou batendo em algo, ela esperava que não alguém. Hugh enganava a todos, com sua simpatia, sua amorosidade inexistente.
Na verdade, ele era um grandessíssimo filho da puta. Sentiu os braços de seu cavalariço lhe envolvendo, os olhos dele, doces, e ele nada disse, apenas a segurou quando suas pernas lhe falharam e Annabel desabou, não de dor ou medo, mas de ódio, o mais puro e doloroso ódio à família idiota a qual pertencia, pois sim, ela era apenas uma posse de seu nome, um objeto, obrigada a fazer o que fosse, suportar o que precisasse, para manter o poder. Desabou, sim, e não saberia dizer quanto tempo ali ficou, até sentir as lambidinhas suaves de uma preocupada Criaturinha que surgia junto de seu mordomo e governanta. Respirou fundo, algumas vezes, pegando a peludinha no colo e o envelope na mão ao retomar a calma, a postura, se erguendo e batendo os saltos no chão ao bater também as portas, trancando-as e fechando os olhos, levando a mão que não carregava a filhote aos cabelos negros e sentindo o fantasma do toque daquele a quem ela tanto odiava.
- Seu banho está pronto. - Elena disse, com sabedoria no olhar e voz.
Annabel assentiu, entregando-lhe o envelope e subindo as escadas, um passo de cada vez, ansiosa, mais que nunca, por um banho que queimasse de si o degradante toque de seu familiar, e sua dança, para que esquecesse, para que exaurisse o sentir, para que se fortalecesse, se murasse.
Afinal, eles só estavam começando aquela nova batalha de sua infindável guerra.
E ela tinha um Baile Real a se preparar para.















