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A Tia de Viseu
Capítulo I: O Fermento da Discórdia
Vila Nova do Grão era uma aldeia incrustada numa encosta da Serra da Estrela, onde o granito das casas parecia ter crescido diretamente da montanha por pura teimosia. Naquele inverno de 1935, o frio era tão cortante que as palavras saíam da boca em pequenos blocos de gelo, obrigando os habitantes a uma economia verbal que muitos confundiam com sabedoria ancestral. A monotonia da vida beirã, regida pelo sino da igreja e pela digestão lenta do cozido, foi subitamente interrompida pela chegada de uma camioneta que subia a estrada em ziguezague, soltando fumo negro como se fosse um incensário mecânico a purificar o ar da montanha.
No topo da carga, protegendo um saco de farinha com o próprio corpo, vinha o Mestre Pascoal. O novo padeiro era um homem circular num mundo de ângulos retos. Tinha o rosto afável de quem passou a vida a sorrir para a massa a levedar e uma barriga que parecia conter, por si só, uma fornada inteira de pão de mistura. Mas o que fez com que o Sr. Regedor deixasse cair o jornal O Século no chão do café não foi a volumetria do padeiro. Foi a visão daquela que o acompanhava.
Aurora.
A mulher do padeiro era uma afronta estética à sobriedade da Beira Alta. Enquanto as mulheres da aldeia vestiam camadas de lã escura que as faziam parecer pequenos montes de terra ambulantes, Aurora usava um vestido que, embora simples, denunciava curvas que o governo ainda não tinha tido tempo de censurar. Tinha olhos cor de mel de urze e uma pele que brilhava com o viço de quem nunca tinha carregado uma saca de batatas às costas.
— É a nova padeira — sussurrou a Ti Maria da Horta, cujas rugas eram tão profundas que pareciam o mapa das estradas de Viseu. — Aquilo não é mulher para forno. Aquilo é mulher para altar ou para o inferno, e eu cá suspeito que o caminho dela é o mais curto.
O Padre Custódio esperava-os à porta da paróquia, que ficava estrategicamente em frente à nova padaria. O Prior era um homem que via o pecado até na forma como o vento balançava os pinheiros. Ao ver Aurora, sentiu um formigueiro nas mãos que atribuiu imediatamente a um ataque súbito de reumatismo.
— Seja bem-vindo, Mestre Pascoal — disse o Padre, com uma voz que tentava soar paternal mas que saía como um grasnido. — A aldeia está órfã de pão desde que o antigo padeiro se finou em cima da tábua de amassar. Esperamos que a sua conduta seja tão branca como a sua farinha.
Pascoal, limpando as mãos enfarinhadas às calças de bombazina, fez uma vénia desajeitada.
— Senhor Prior, o pão é a minha religião. E com a minha Aurora a atender ao balcão, garanto que Vila Nova do Grão terá o pão mais doce da Beira. Ela é o sal da minha vida!
A ironia da frase não passou despercebida ao Professor Primário, o Sr. Oliveira, um republicano que guardava uma foto de Bernardino Machado escondida num dicionário.
— Cuidado com o sal, Mestre — atirou Oliveira, com um sorriso cínico. — Em excesso, o sal corrói o ferro. E nesta serra, o que não falta é ferro e gente com vontade de o usar.
O Marquês de Vila Nova (um título que ele próprio mantinha vivo apesar da República, à força de ter mais hectares de pinhal do que todos os outros juntos) cedeu o edifício da padaria. Para ele, o pão era um instrumento de ordem. Um povo de barriga cheia não reclama do preço da resina nem das ordens do Presidente do Conselho.
— Mestre Pascoal — declarou o Marquês, batendo com a bengala no chão de granito — instale-se. O povo quer pão quente e as comadres querem fofoca. O senhor já trouxe o pão, agora veremos quanto tempo demora a fofoca a levedar.
Aurora mantinha-se em silêncio, observando a aldeia com o olhar de uma rainha exilada num curral. Ela olhava para as penedias lá no alto, onde as ovelhas pareciam pontos brancos num mar de cinzento. Lá, um pastor de olhos selvagens e ombros largos observava a chegada do camião. Houve um segundo em que o olhar de Aurora cruzou o horizonte, e o silêncio da serra pareceu tornar-se subitamente mais pesado.
O primeiro dia foi uma coreografia de pó branco. Pascoal movia-se com a energia de um homem que acredita que a felicidade se compra com lenha e fermento. O forno, uma caverna de tijolo refractário que não via lume há meses, foi aceso. O fumo começou a sair pela chaminé, subindo em direção às nuvens carregadas de neve.
— Veja, Aurora! — exclamava Pascoal, radiante. — Este forno é o coração da aldeia! E eu sou o médico que o vai fazer bater!
Aurora, porém, estava mais interessada em limpar o balcão de madeira. Cada movimento seu, desde o inclinar-se para apanhar uma saca até ao simples gesto de afastar uma mecha de cabelo da testa, era acompanhado por uma audiência invisível. Atrás das vidraças das casas vizinhas, Vila Nova do Grão estava a pesar a nova padeira.
À noite, o cheiro a pão fresco começou a infiltrar-se pelas ruas estreitas. Não era o cheiro do pão industrial de Lisboa, era o aroma telúrico do Pão de Mistura, uma mistura de trigo e centeio que sustenta a alma beirã. No entanto, por trás do perfume reconfortante, pairava a tensão.
O Padre Custódio, na solidão da sua ceia, não conseguia deixar de pensar no brilho dos olhos de Aurora. O Professor Oliveira, no café, discutia a "dialética da côdea" para esconder que também ele estava impressionado. E o Marquês, no seu solar, pensava que, pela primeira vez em anos, teria um motivo para visitar a padaria pessoalmente em vez de mandar o criado.
A massa estava lêveda. O forno estava quente. Mas, como em todas as sátiras de costumes, o perigo não vinha da qualidade da farinha, mas da natureza humana. Pascoal dormia o sono dos justos, sonhando com crostas estaladiças. Aurora permanecia à janela, olhando para a lua que iluminava os picos da serra, onde o pastor Bento guardava o seu rebanho e, talvez, o rastilho para o incêndio que estava prestes a começar.
Em Vila Nova do Grão, o pecado estava pronto a sair do forno. Só faltava alguém com coragem — ou fome suficiente — para lhe dar a primeira dentada.
Capítulo II: O Forno Apagado
A manhã de terça-feira em Vila Nova do Grão não trouxe o sol, mas uma neblina espessa que descia da serra como um lençol de mármore. Era um frio que entrava nos ossos, o tipo de frio que só se cura com uma malga de caldo e uma fatia generosa de pão de centeio. No entanto, na rua da padaria, o habitual concerto de odores matinais fora substituído por um silêncio oco. Não havia o estalar da lenha, não havia o bater rítmico da massa na tábua, nem — o que era mais grave — o rasto de farinha à porta que costumava guiar os famintos.
O Sr. Regedor, um homem cujo bigode parecia ter vida própria e reagia a qualquer sinal de desordem pública, foi o primeiro a chegar. Bateu à porta com a autoridade de quem representa o Estado, mas o som que obteve foi apenas um eco metálico.
— Mestre Pascoal! — gritou ele, ajustando a gola do capote. — O povo está à espera! O pão é o alimento da Nação e a Nação está com as tripas a dar horas!
Do interior da casa, veio um soluço. Um soluço que não parecia de um homem, mas de um animal ferido. Quando a porta finalmente se abriu, o Regedor recuou dois passos. O Mestre Pascoal estava desfigurado. Não pela violência, mas pela ausência. Tinha o avental posto ao contrário e segurava uma forma de pão vazia como se fosse um escudo.
— Ela foi-se, Sr. Regedor — sussurrou o padeiro, e uma lágrima abriu um sulco na farinha que lhe cobria as bochechas. — A Aurora... a minha luz... foi visitar uma tia a Viseu.
A mentira era tão frágil como uma hóstia. Todos na aldeia sabiam que a única "tia" que a Aurora poderia ter em Viseu teria de se chamar "Pouca Vergonha" e usar calças de pastor. A notícia correu as quelhas da aldeia com a velocidade de um relâmpago. No Café Central, o Professor Oliveira, que bebia o seu café de cevada com a amargura de um intelectual incompreendido, soltou uma gargalhada seca.
— A tia de Viseu! — exclamou Oliveira. — Eis a metáfora perfeita para a fuga da beleza perante a tirania do glúten! O Pascoal ofereceu-lhe o forno, mas o pastor Bento ofereceu-lhe o horizonte. É a vitória do romantismo serrano sobre a pequena burguesia panificadora!
O Padre Custódio entrou no café, trazendo consigo o cheiro a incenso e a indignação moral.
— Isto é uma tragédia de proporções bíblicas, Sr. Professor! Não é apenas um adultério; é uma greve de fome involuntária! Sem o Mestre Pascoal ao comando do forno, Vila Nova do Grão vai cair no caos. Um homem que não tem a mulher para o governar, não tem cabeça para governar a massa.
Enquanto as autoridades discutiam a ontologia da traição, a realidade física impunha-se. Às nove da manhã, o Marquês de Vila Nova mandou o seu criado à padaria. Voltou de mãos vazias. Às dez, as mulheres que costumavam levar os seus tabuleiros de massa para cozer no forno comunitário do Mestre estavam amontoadas na praça, com os panos de cozinha a cobrir uma massa que começava a azedar.
— O pão não cresce! — gritava a Ti Maria da Horta. — A minha massa está morta porque o padeiro está em luto! Aquela gaja... aquela vinda de fora... levou-nos o fermento da vida!
A sátira beirã residia nesta hipocrisia: na véspera, Aurora era "a estrangeira", "a atrevida", "a polida". Hoje, era a "peça essencial" cujo abandono condenava a aldeia à inanição. A moralidade da Beira Alta era, afinal, muito sensível ao estômago.
Pascoal, entretanto, entrara num estado de negação maníaca. Começou a arrastar sacos de farinha para o meio da rua, gritando que ia fazer um pão tão grande que chegaria até Viseu para a Aurora comer. O Padre Custódio tentou intervir.
— Mestre Pascoal, acalme-se. A sua esposa... hum... a sua sobrinha... quer dizer, a sua mulher, há de voltar. Deus escreve direito por linhas tortas.
— Deus não percebe nada de padaria, Sr. Prior! — rugiu Pascoal, com os olhos injetados de sangue. — O pão quer-se com mãos de mulher! O meu pão tem o sabor dela! Se ela não está, o trigo é veneno!
A ironia atingiu o ápice quando o Regedor, temendo uma revolta popular (ou pior, um relatório negativo para o Governador Civil), decidiu que a fuga de Aurora era um assunto de Estado.
— Se a mulher não aparece, o Mestre não coze. Se o Mestre não coze, o Marquês não come rabanadas. E se o Marquês não come, ninguém nesta aldeia dorme descansado. Temos de caçar a "tia de Viseu"!
A aldeia transformou-se num tribunal de costumes improvisado. Os homens, que secretamente invejavam o pastor Bento pela audácia de ter levado a "peça de luxo" da padaria, fingiam indignação para não apanharem com o rolo da massa das esposas. As mulheres, por sua vez, organizavam vigílias que eram, na verdade, sessões intensivas de espionagem social.
O capítulo encerra com a imagem de Pascoal sentado no balcão da padaria, sozinho, na penumbra. O forno, aquele gigante de tijolo, estava frio como um túmulo de granito. Ele pega num resto de massa seca e começa a moldar, inconscientemente, a figura de uma mulher.
Lá fora, a neblina da Serra da Estrela engolia Vila Nova do Grão. A aldeia estava em jejum, e o único som que se ouvia era o balir distante das ovelhas de Bento, que algures na montanha, partilhava com Aurora o único pão que a moralidade beirã não conseguia digerir: o pão do pecado, comido à mão e sem necessidade de forno.
Capítulo III: A Greve do Trigo
Ao terceiro dia sem pão, a arquitetura social de Vila Nova do Grão começou a estalar como granito sujeito a uma geada súbita. Se o pão é o cimento que une as pedras da civilização, a sua ausência transforma qualquer comunidade num amontoado de indivíduos em estado de pré-agressão. Nas quelhas da aldeia — esses corredores sombrios onde o vento da Serra da Estrela assobiava com o escárnio de quem não precisa de calorias — o silêncio matinal fora substituído por um coro de estômagos ruidosos e murmúrios subversivos.
O Mestre Pascoal, outrora o homem mais solar da Beira Alta, atingira o nadir da dignidade humana. Trancado na oficina da padaria, o único "fermento" que utilizava vinha das garrafas de aguardente de zimbro que o Professor Oliveira, num gesto de solidariedade republicana (ou talvez para acelerar o colapso da ordem clerical), lhe passava pela fresta da porta das traseiras. O forno, aquele gigante de tijolo refractário que deveria ser o útero térmico da aldeia, permanecia frio, escuro e mudo.
— Estás a ver, Sardenta? — balbuciava Pascoal, dirigindo-se à gata da padaria, que o observava de cima de um saco de centeio com o tédio existencial de quem já viu impérios caírem por menos. — Ela diz que foi a Viseu. Mas a massa... a massa não é como as pessoas, Sardenta. A massa não sabe mentir. Se a mão que a acaricia não está cá, ela não cresce. Fica ali, no fundo da gamela, cinzenta e pesada como o remorso. Tu percebes-me, gata? Tu também tens saudades de ver a Aurora a espalhar a farinha como se fosse pó de estrelas?
A gata limitou-se a lamber uma pata, num gesto que Pascoal interpretou como um "sim" metafísico, mas que era apenas a remoção de uma teia de aranha.
Cá fora, a crise atingira o Grémio da Lavoura. O Marquês de Vila Nova, que raramente se misturava com o "povo miúdo" a menos que fosse para cobrar rendas ou inaugurar fontanários, sentia que o seu prestígio estava a ser corroído pela falta de glúten. Para o Marquês, um camponês com fome era um camponês que podia começar a ler os panfletos que o Professor Oliveira deixava "esquecidos" no café.
— Isto é uma insurreição gastronómica! — bramou o Marquês, batendo com o seu anel de sinete na mesa de nogueira. — Pascoal tem de ser obrigado a cozer! Se ele não o fizer por amor à esposa infiel, que o faça por decreto-lei! O Estado Novo não admite que uma unidade de produção pare por causa de um... de um desarranjo sentimental!
O Padre Custódio, cujas bochechas habitualmente rosadas exibiam agora um tom pálido-quaresmal, limpou o suor da testa com um lenço bordado.
— Senhor Marquês, não se pode legislar sobre a inspiração de um padeiro. Tentei falar-lhe através da fechadura, citei as Escrituras, lembrei-lhe que o homem não vive só de pão, mas ele respondeu-me que "sem a Aurora, nem de pão, nem de nada". O problema é que a aldeia vive, sim, de pão. Se não houver fornada até amanhã, as beatas da Confraria assaltam a paróquia para comer as hóstias!
O Professor Oliveira, ajustando os seus óculos de massa com um brilho de ironia nos olhos, deu um gole na sua cevada amarga e interveio:
— Meus senhores, o que temos aqui é o colapso da superestrutura sobre a infraestrutura. O Mestre Pascoal é o motor da economia local e a Aurora é o combustível espiritual. Vocês querem pão? Pois bem, parem de tratar o caso como um escândalo moral e tratem-no como uma emergência nacional. Vamos organizar uma milícia de busca. Não pela mulher do padeiro, mas pela "Padeira da Nação"!
A sátira desta "Greve do Trigo" residia no facto de que todos, do latifundiário ao sapateiro, estavam dispostos a perdoar o adultério mais flagrante desde que isso resultasse numa carcaça quente com manteiga. A moralidade beirã, outrora rígida como o gelo da Lagoa Comprida, estava a derreter sob a pressão dos sucos gástricos.
Nas quelhas, a Ti Maria da Horta liderava o sindicato das comadres.
— Ele diz que ela foi a Viseu, mas o meu neto viu o pastor Bento a subir para o Cântaro Magro com uma carga que não eram ovelhas! — gritava ela, enquanto sacudia um saco de pano vazio. — Se aquele marmanjo não acende o forno, eu mesma lhe atiro com uma pedra de granito pela janela! Estão as crianças a comer batata cozida a seco porque o senhor "Corno" decidiu entrar em luto!
A ironia atingia o auge: os mesmos que, há dois dias, chamavam "estrangeira" e "perdida" à Aurora, agora rezavam pela sua segurança com o fervor de quem pede a chuva em tempo de seca. A Aurora passara de vilã a messias, apenas porque detinha, por procuração, a chave da alimentação pública.
Ao final da tarde, o Marquês decidiu tomar uma medida drástica. Foi até à porta da padaria, acompanhado pelo Regedor, que levava a sua farda de gala para impressionar a farinha.
— Pascoal! — gritou o Marquês. — Em nome da ordem e do progresso, abra esta porta! Dou-lhe o dobro por cada pão! Prometo-lhe que, quando ela voltar, ninguém nesta aldeia lhe dirigirá um olhar de soslaio! Eu próprio lhe beijarei a mão no adro da igreja, se for preciso para limpar a honra da casa!
Lá de dentro, apenas veio a voz arrastada de Pascoal:
— O senhor Marquês pode oferecer o que quiser... mas quem é que vai pôr o sal na massa? A minha mão está trémula. O sal que eu tenho é o das minhas lágrimas, e pão de lágrimas faz mal ao fígado. Vão-se embora! Deixem-me morrer com a gata!
O capítulo encerra com a imagem do Professor Oliveira e do Padre Custódio sentados num banco de pedra, sob a luz de um candeeiro a petróleo que oscilava com o vento. Dois inimigos ideológicos unidos pela inanição.
— Sabe, Sr. Prior — disse o Professor, partilhando um cigarro de enrolar — se calhar o Pascoal tem razão. O mundo sem beleza é apenas uma padaria fria.
— Não diga asneiras, Oliveira — respondeu o Padre, sentindo o estômago roncar. — O mundo sem pão é que é o Inferno. E o Inferno, pelo que vejo, tem cheiro a aguardente de zimbro e farinha estragada.
Vila Nova do Grão mergulhou na noite mais escura da sua história. Não havia fumo a sair da chaminé da padaria. No céu, a lua parecia uma enorme fatia de queijo que ninguém conseguia alcançar, enquanto nas quelhas, o povo sonhava com o som da pá de madeira a bater no chão do forno — o único som que, naquela serra, podia verdadeiramente anunciar o início de um novo dia.
Capítulo IV: A Santa Inquisição das Comadres
Se a fome é o melhor tempero, em Vila Nova do Grão ela estava a tornar-se o único motor da ação social. Ao quarto dia de "forno morto", a civilização beirã começou a descascar como cal velha numa parede húmida. Foi então que, perante a imobilidade melancólica do Mestre Pascoal, a aldeia decidiu que, se o pão não vinha ao povo, o povo — ou pelo menos a sua elite pensante e punitiva — iria caçar o fermento à montanha.
A expedição de resgate, que o Professor Oliveira apelidou ironicamente de "A Santa Inquisição das Comadres", partiu ao amanhecer. O grupo era uma síntese grotesca do Portugal de 1935: o Padre Custódio, representando a autoridade divina (e um estômago que já não aceitava apenas o vinho da missa); o Professor Oliveira, armado com uma bússola republicana e uma lógica secular; o Regedor, que levava o seu bastão de autoridade para o caso de a moralidade precisar de um corretivo físico; e, por fim, a Ti Maria da Horta, que ia como representante do "tribunal das quelhas", munida de uma língua mais afiada que qualquer navalha de pastor.
— Vamos subir pela Ribeira da Nave — decretou o Professor Oliveira, ajustando os óculos que teimavam em escorregar com o frio. — Segundo a minha cartografia social, o pastor Bento não levaria a "presa" para as rotas habituais. Ele conhece os currais de neve como ninguém. Se a Aurora está com ele, estará onde o vento não chega e onde o Padre não a encontra sem guia.
— Poupe-me à sua retórica anticlerical, Oliveira — retorquiu o Padre Custódio, tropeçando numa lasca de granito. — Eu não procuro a mulher pelo prazer da perseguição, mas pela salvação do estômago da freguesia. O que temos aqui é um caso de "Transubstanciação Inversa": o pão transformou-se em pecado, e agora temos de transformar o pecado em pão novamente.
A subida era penosa. O granito, coberto por uma fina camada de gelo que os locais chamavam de "vidro do diabo", tornava cada passo uma aposta com a gravidade. À medida que subiam, a aldeia lá em baixo parecia uma maquete de brinquedo, um presépio de pedra onde o fumo da padaria — a única prova de vida que interessava — continuava ausente.
A sátira desta expedição residia no contraste entre as intenções. O Padre levava um frasco de água benta e um missal, convencido de que a Aurora fora vítima de um feitiço carnal que só a liturgia podia quebrar. O Professor levava um cantil de aguardente e um exemplar de Aquilino Ribeiro, acreditando que a fuga era um ato de libertação telúrica contra a pequena burguesia farinhenta. O Regedor, pragmático, só pensava que, se não trouxesse a mulher, o Marquês mandava-o varrer as cavalariças até ao Natal.
— Olhem! — gritou a Ti Maria da Horta, apontando para uma mancha escura junto a um afloramento rochoso. — É o Bento!
Não era o Bento. Era um sobreiro solitário que, distorcido pela névoa, parecia um homem de guarda. A frustração começou a instalar-se. O frio da serra não perdoa aos teóricos nem aos crentes.
— Se calhar ela foi mesmo para Viseu — murmurou o Regedor, já com o nariz vermelho de frio.
— Viseu? — riu-se a Maria da Horta. — Aquela gaja não aguentava duas horas numa camioneta sem se queixar do pó. Ela está cá em cima, a comer queijo de ovelha e a rir-se de nós, que estamos aqui a roer o granito!
A ironia atingiu o auge quando o grupo decidiu parar para descansar num abrigo de pastores. Sentados no chão de terra batida, o Padre e o Professor viram-se obrigados a partilhar o último bocado de chouriço seco que Oliveira trazia no bolso.
— Veja só, Sr. Prior — disse o Professor, cortando o chouriço com uma navalha. — O destino é irónico. Aqui estamos nós, a lutar pela moralidade de uma padeira, enquanto dividimos um enchido sem pão. É a prova de que a teologia e a ciência colapsam perante a ausência de uma carcaça de centeio.
O Padre Custódio, mastigando com dificuldade, olhou para o Professor com uma mistura de fadiga e complacência:
— Oliveira, o senhor vê o mundo como uma equação. Eu vejo-o como um drama. O Pascoal não é apenas um padeiro em greve; é a imagem da desolação. Ontem, vi-o a tentar amassar as cinzas do forno. Ele está a tornar-se cinza também. Se não encontrarmos a Aurora, não perdemos apenas o pão; perdemos a alma daquela padaria.
De repente, um som cortou a névoa: o toque melancólico de um chocalho. A Ti Maria da Horta, que tinha ouvidos de lince para qualquer sinal de vida alheia, levantou-se num salto.
— É o rebanho do Bento! Estão perto do Covão do Urso!
O grupo reiniciou a marcha com uma energia renovada pela fome e pela vingança social. O cenário era agora de uma beleza agreste e desoladora, típica das terras altas da Beira. As nuvens passavam tão baixo que pareciam algodão sujo a prender-se nos penedos.
Quando finalmente avistaram o curral, a cena que encontraram não foi a orgia bucólica que o Padre temia, nem o idílio romântico que o Professor imaginava. Aurora estava sentada numa pedra, envolta num capote de lã bruta, a olhar para o horizonte com uma expressão de tédio tão profunda que fazia a montanha parecer excitante. O pastor Bento, a uns metros de distância, estava ocupado a tratar da pata de uma ovelha, ignorando a sua "musa" com a indiferença de quem já tinha percebido que uma mulher bonita dá mais trabalho que um rebanho inteiro com sarna.
A "Santa Inquisição" cercou o local. O Padre Custódio adiantou-se, empunhando o seu frasco de água benta como se fosse uma granada defensiva.
— Aurora! Em nome de Deus e da fome de Vila Nova do Grão, volta para o teu marido!
A Aurora levantou os olhos cor de mel e, num gesto de uma ironia cortante, respondeu:
— O Pascoal já acendeu o lume? Tenho os pés gelados e este pastor só fala com as ovelhas em latim de cabreiro. Se houver pão quente, eu volto. Mas se for para comer o remorso dele, prefiro morrer aqui entre as pedras.
O Professor Oliveira sorriu. A pragmática da mulher superava qualquer dogma. A "Inquisição" tinha triunfado, não pela força da fé ou da lei, mas pelo simples facto de que até o pecado precisa de conforto térmico e de uma côdea que se possa mastigar.
Capítulo V: O Idílio no Curral
Se a literatura romântica que o Professor Oliveira tanto apreciava tivesse passado uma tarde de agosto num "choço" de pastores nas penhas de Vila Nova do Grão, o Realismo teria nascido muito mais cedo e com menos paciência para metáforas. Enquanto a "Inquisição das Comadres" subia a serra, a verdade sobre o que unia Aurora e o pastor Bento revelava-se como um exercício de sobrevivência entre o cheiro persistente a sebo e o tédio metafísico.
Bento, o pastor, era um monumento à natureza: calado, sólido e com a profundidade intelectual de um penedo de granito. Para Aurora, que passara anos a ouvir o Mestre Pascoal discorrer sobre a elasticidade do glúten e a humidade da levedura, o silêncio de Bento fora, nas primeiras doze horas, uma bênção divina. Nas doze horas seguintes, tornara-se uma patologia clínica. Nas quarenta e oito horas que se seguiram, era um insulto à sua existência.
— Bento — disse Aurora, abanando-se com um pedaço de cartão que outrora servira para transportar queijos — diz qualquer coisa. Qualquer coisa que não envolva o estado das patas da tua mula ou a probabilidade de nevar no Cântaro Magro.
O pastor, que estava ocupado a extrair um espinho da planta do pé com uma navalha que usava para tudo, desde cortar chouriço a castrar gado, olhou para ela com o olhar bovino das suas reses.
— O que é que há para dizer, mulher? A serra está cá, nós estamos cá. O resto é vento.
Foi neste momento que Aurora compreendeu que o pecado, para ser desfrutado, exige um mínimo de conforto e, de preferência, um chão que não seja composto por excrementos de caprino e granito pontiagudo. Enquanto a aldeia a imaginava em bacanais bucólicos, ela passava as horas a tentar evitar que as moscas varejeiras se instalassem no seu vestido de seda e a sonhar com o cheiro a lixívia dos seus lençóis na padaria. O seu "idílio" era, na verdade, uma estadia forçada num cenário de Aquilino Ribeiro, mas sem a poesia e com muito mais comichão.
A sátira beirã residia nesta ironia: a liberdade que ela tanto desejara revelava-se como um cárcere de horizonte infinito. O pastor Bento não era um amante; era um elemento da paisagem que ocasionalmente lhe oferecia um naco de queijo duro e uma manta que cheirava a lã molhada.
Quando a expedição liderada pelo Padre Custódio e pelo Professor Oliveira finalmente surgiu na neblina, Aurora sentiu uma alegria que não sentira no dia em que o Mestre Pascoal lhe ofereceu as primeiras joias. O som da discussão entre a Igreja e o Estado era o som da civilização — e a civilização, com todas as suas mentiras, tinha algo que a serra não possuía: pão quente e cadeiras com encosto.
O Professor Oliveira foi o primeiro a entrar no campo de visão, limpando o pó dos óculos com a dignidade de um explorador britânico.
— Ah, o idílio rousseauniano! — exclamou ele, com um sarcasmo que cortava mais que a navalha do pastor. — Vejam só! O "Bom Selvagem" e a sua "Eva Beirã". Lamento interromper esta comunhão com a natureza, mas a "Vontade Geral" — e por Vontade Geral refiro-me aos intestinos de Vila Nova do Grão — exige o vosso regresso.
O Padre Custódio, aproximando-se com a cautela de quem teme que o pecado seja contagioso através do ar da montanha, olhou para a cabana e depois para Aurora.
— Filha... as aparências aqui são... digamos... deploráveis. O teu pecado é uma montanha, mas a fome da aldeia é um abismo. O Mestre Pascoal atingira o nadir da dignidade humana. Ontem tentou confessar-se à Sardenta, a gata, porque diz que ela é a única que não mente. Se não voltares, teremos de o internar, e a padaria será entregue a um amador que provavelmente vai envenenar metade da freguesia com massa crua.
Aurora olhou para o Padre, depois para o Professor, e finalmente para o pastor Bento, que continuava sentado, observando a cena como se fosse um teatro de sombras chinesas.
— Ele não me vai bater? — perguntou Aurora, referindo-se a Pascoal.
— Bater-te? — riu-se o Regedor, que aparecia agora por trás de um penedo. — O Pascoal não te bate nem que tu lhe dês com uma pá de forno na cabeça. Ele quer-te lá para te adorar como se fosses a Senhora da Lapa, e para que tu lhe peses o pão. Ele está tão desesperado que até perdoava ao pastor se ele lhe prometesse carregar os sacos de farinha.
A negociação final foi uma obra-prima de sátira política do Estado Novo. O Padre prometeu-lhe uma indulgência plenária e o esquecimento de dois ou três mandamentos; o Professor prometeu-lhe que escreveria um artigo no jornal regional elogiando a sua "coragem emancipadora" (embora soubesse que nunca o publicariam devido à censura); e a Aurora, vendo que a vida no campo envolvia demasiados insetos e pouca farinha de qualidade, aceitou o regresso.
— Vou — disse ela, levantando-se com a dignidade de uma rainha vencida. — Bento, fica com a mula. E com o granito. E com as tuas ovelhas. Eu nasci para a brancura da farinha, não para o cinzento deste pó.
Bento limitou-se a acenar com a cabeça. Não houve lágrimas, nem gritos. Na Beira Alta de 1935, as paixões eram como as secas: profundas, mas silenciosas. Ele viu a Aurora subir para a garupa da mula da expedição, ladeada pela Ti Maria da Horta, que já estava a tirar notas mentais para a fofoca da próxima manhã.
Enquanto a caravana se afastava, o Professor Oliveira comentou para o Padre:
— Sabe, senhor Prior, o que acabámos de testemunhar é o fim do Romantismo e o início do Materialismo Histórico. Ela não volta por amor ao marido; volta por amor ao conforto da padaria. E a aldeia não a perdoa por caridade; perdoa-a por fome.
— Professor — respondeu o Padre, sentindo o estômago roncar — chame-lhe o que quiser. Eu chamo-lhe "Providência Divina". E se a Providência Divina puder ter o pão cozido antes das nove da noite, tanto melhor para a alma de todos nós.
O capítulo encerra com a imagem da caravana a desaparecer na poeira, deixando o pastor Bento sozinho no seu curral, que voltava a ser apenas um amontoado de pedras num campo imenso, onde o único som era o de uma ovelha que, finalmente, tinha conseguido saltar a cerca.
Capítulo VI: O Regresso da "Pródiga"
A chegada da caravana a Vila Nova do Grão, ao cair da tarde, teve a solenidade de uma procissão de Corpo de Deus, mas com o subtexto de uma feira de gado. A notícia de que a Aurora fora "capturada" (ou melhor, resgatada pelo tédio e pela fome) espalhou-se pelas quelhas mais rápido do que o rasto de pólvora. As portadas das casas, que durante dias estiveram cerradas como dentes apertados, entreabriram-se com o ranger do granito. Centenas de olhos espreitavam por trás das cortinas de renda, julgando a silhueta da padeira com a precisão de um tribunal da Inquisição.
Aurora vinha sentada na mula do Regedor, ladeada pelo Padre e pelo Professor, como uma rainha vencida, mas não humilhada. O seu rosto, agora limpo do pó da serra, exibia uma calma insultuosa. Ela sabia que a aldeia a odiava, mas também sabia que a aldeia precisava dela para que o Mestre Pascoal voltasse a ser um homem funcional. A sua moralidade era o preço do pão, e ela estava prestes a apresentar a fatura.
— Olhem para ela! — sibilou a Ti Maria da Horta, elevando a voz para garantir que a sua indignação era audível. — Vem com o queixo erguido como se tivesse ido à Senhora da Lapa a pé, em vez de ter andado a rebolar nos currais com um pastor!
O momento crítico ocorreu à porta da padaria. O Mestre Pascoal estava lá fora, sentado no degrau de pedra, abraçado à gata Sardenta. Era agora o retrato vivo da desolação, um monumento ao abandono esculpido em farinha: o colete de bombazina estava manchado de aguardente de zimbro, o cabelo parecia um ninho de ratos e os olhos tinham aquele brilho vítreo de quem já não distingue a vigília do delírio. Quando a mula parou à sua frente, o silêncio na praça foi tão absoluto que se conseguia ouvir o bater das asas de uma melga.
O Padre Custódio deu um passo em frente, tossindo para limpar a garganta da poeira e da ambiguidade moral.
— Mestre Pascoal... aqui está a sua... a sua esposa. Ela... hum... concluiu a sua visita à tia em Viseu. A senhora estava muito doente, como calculámos, mas a Aurora, com a sua abnegação cristã, conseguiu estabilizar a situação.
A mentira era tão descarada, tão grosseira, que até o Marquês de Vila Nova, habituado às falsidades da política de Lisboa, desviou o olhar. Pascoal levantou-se devagar. O seu corpo balançava levemente. Ele olhou para Aurora, que permanecia em cima da mula, desafiando-o com o olhar.
— Viseu? — perguntou Pascoal, com a voz rouca.
— Viseu, Pascoal — respondeu Aurora, com uma firmeza gélida. — A tia mandou-te saudades. E disse que devias cuidar melhor da gata.
Foi aqui que a sátira atingiu o seu ponto de ebulição. Em vez de uma cena de ciúmes, Pascoal optou pela negação criativa — a única ferramenta que lhe restava para manter a sanidade e a padaria. Ele virou-se para a gata Sardenta, que segurava nos braços, e começou a sacudi-la levemente.
— Ah, sua malvada! Sua viciosa! — gritou Pascoal para a gata, ignorando a mulher. — Voltaste, não foi? Fugiste para a serra com os gatos vadios e agora vens com fome! Deixaste-me aqui sozinho, a pão e água... quer dizer, só a água e aguardente, porque pão nem vê-lo! Estás a ver o que fizeste, gata desavergonhada? A tua dona teve de ir a Viseu tratar de assuntos sérios e tu aqui, a vadiar pelos penedos!
A aldeia inteira percebeu o código. Pascoal estava a repreender a gata para não ter de confrontar o adultério da mulher. Era um teatro de sombras onde a culpa era transferida para um felino indiferente para que a vida pudesse continuar. O Professor Oliveira, ao lado, murmurou para o Padre:
— É a catarse da conveniência, senhor Prior. O animal é o bode expiatório da libido beirã. Aristóteles ficaria orgulhoso desta palhaçada.
Pascoal continuou o seu monólogo lunático, agora dirigindo-se à Sardenta com uma fúria fingida que escondia uma dor real:
— Malvada! Ingrata! Fugiste com o primeiro gato que te apareceu à frente, não foi? Esqueceste-te do leite que eu te dava? Esqueceste-te da farinha quente? Pois olha, a tua dona voltou e agora vais ver o que é bom! Vais para o balcão trabalhar! E tu, Aurora... — ele finalmente baixou a gata e olhou para a mulher — ...entra. O forno está à espera. O fermento morreu, mas nós fazemos outro.
Aurora desceu da mula com a elegância de quem nunca saiu de casa. Ao passar por Pascoal, não houve um beijo, nem um abraço. Houve apenas o roçar de dois corpos que se conheciam demasiado bem e que agora partilhavam um segredo público que ninguém ousaria mencionar por medo de ficar sem pequeno-almoço.
O Regedor, sentindo que a ordem pública fora restaurada pela via do absurdo, bateu palmas.
— Pronto! Acabou-se a comédia! Toda a gente para casa! Amanhã às seis há pão quente! Quem for apanhado a falar de Viseu ou de tias doentes vai passar uma noite no posto da GNR por espalhar boatos subversivos contra a economia nacional!
O Marquês, satisfeito por saber que o seu Pão de Mistura estava garantido, retirou-se. O Padre Custódio, sentindo que tinha feito um pacto com o Diabo para salvar a paróquia da inanição, benzeu-se e foi rezar.
No interior da padaria, as luzes acenderam-se. Pela primeira vez em dias, ouviu-se o som da lenha a ser atirada para a fornalha. Pascoal e Aurora estavam sozinhos na penumbra, rodeados pelo cheiro a cinza e pelo silêncio opressivo do que não podia ser dito.
— Pascoal — disse ela, enquanto começava a prender o cabelo.
— Diz, Aurora.
— A próxima vez que deixares a gata fugir... certifica-te de que o forno tem lenha suficiente. Não quero que as vizinhas voltem a ter desculpas para me olhar daquela maneira.
Pascoal não respondeu. Pegou na grande pá de madeira e começou a remexer as brasas. A luz do fogo iluminava o seu rosto redondo, que agora exibia uma expressão de resignação absoluta. Ele tinha a sua mulher de volta; a aldeia tinha o seu pão. O preço era apenas uma "tia fictícia" e uma gata que, a partir de agora, carregaria todos os pecados de Vila Nova do Grão.
O capítulo encerra com o primeiro fumo branco a sair da chaminé, subindo para o céu estrelado da Serra da Estrela como um sinal de fumo de uma civilização que preferia viver na mentira do que morrer de fome.
Capítulo VII: Amassar o Pecado
A madrugada de quarta-feira em Vila Nova do Grão não nasceu do sol, mas do calor que emanava da chaminé da padaria. O fumo, denso e glorioso, subia aos céus da Serra da Estrela como uma oração de agradecimento que o Padre Custódio nunca conseguiria replicar no altar. O cheiro — aquele perfume inebriante de trigo, centeio e lenha de azinho — infiltrava-se pelas quelhas, penetrava nos sonhos dos aldeãos e despertava os estômagos com a violência de uma revelação bíblica.
No interior da padaria, o cenário era de uma opereta frenética. O Mestre Pascoal, movendo-se com uma agilidade que a sua volumetria não sugeria, trabalhava a massa como se estivesse a moldar o próprio destino. Ao seu lado, Aurora, de mangas arregaçadas e o rosto levemente enfarinhado, pesava os nacos de massa com uma precisão matemática. Não se falavam. O diálogo era feito de gestos: o bater da massa na mesa de madeira, o chiar da pá no chão do forno, o respirar compassado de dois seres que tinham assinado um armistício de conveniência sobre as cinzas do adultério.
A gata Sardenta, a grande vilã oficial da narrativa de Pascoal, observava tudo de cima de um saco de centeio, lambendo as patas com a indiferença de quem sabe que a sua reputação foi sacrificada no altar da paz social.
— Estás a ver, Sardenta? — exclamou Pascoal para a gata, enquanto retirava a primeira fornada. — A tua dona voltou de Viseu e tu ainda não lhe pediste perdão! Se não fosse a bondade da Aurora, hoje só comias farelo!
Aurora não sorriu. Limitou-se a colocar os pães quentes nos cestos de verga. A crosta do pão brilhava, estaladiça e perfeita. Era o Pão de Mistura da Beira Alta no seu apogeu, capaz de fazer um homem esquecer a honra, a política e a própria mãe.
Às seis da manhã, quando Pascoal abriu finalmente as portas, a praça já não era um deserto de desespero. Estava cheia. O Marquês de Vila Nova, o Professor Oliveira, o Regedor e metade da aldeia formavam uma fila que mais parecia uma romaria ao Santuário da Lapa. O ar era de uma alegria contida, mas tingida por uma curiosidade mórbida. Todos queriam o pão, mas todos queriam, acima de tudo, ver o rosto da "fugitiva".
Aurora assumiu o seu posto atrás do balcão. Estava impecável. O vestido de seda fora substituído por um avental branco, mas o olhar permanecia o mesmo: desafiador, quase divertido. Ela via a hipocrisia a desfilar à sua frente.
O primeiro a ser atendido foi o Sr. Regedor.
— Bom dia, Sr.ª Aurora — disse ele, tirando o chapéu. — Que bom vê-la de volta. A sua tia em Viseu... está melhor, espero?
— Muito melhor, Sr. Regedor — respondeu ela, cobrando-lhe o preço de tabela. — O ar de Viseu faz milagres, mas o ar da nossa serra... este sim, abre o apetite a qualquer um.
A transação foi rápida. O Regedor pegou no pão, partiu a ponta ainda a escaldar e meteu-a na boca. Naquele momento, se a Aurora lhe pedisse para queimar o arquivo da regedoria, ele fá-lo-ia. O pão era o perdão absoluto.
Seguiu-se o Professor Oliveira. O republicano olhou para a Aurora e depois para o Pascoal, que suava no fundo da padaria.
— Minha senhora — sussurrou o Professor — a sua "tia de Viseu" é a construção literária mais fascinante que esta serra já viu. O seu marido não é apenas um padeiro; é um mestre da ficção modernista.
— O meu marido é um homem que sabe que a verdade não enche a barriga a ninguém, Sr. Professor — retorquiu Aurora. — E o senhor, que leu tantos livros, devia saber que no granito o que não se diz é o que mantém as casas de pé.
O clímax da manhã ocorreu quando o Padre Custódio chegou à frente da fila. O silêncio voltou a imperar nas quelhas. O Padre olhou para a Aurora. Havia um conflito visível entre o seu dever teológico de condenar o pecado e o seu dever paroquial de garantir que o rebanho não assaltasse a hóstia por fome.
— O pão está... bom? — perguntou o Padre, com a voz vacilante.
— Está abençoado, Sr. Prior — disse Aurora, estendendo-lhe um pão de quilo. — O Mestre Pascoal diz que este pão limpa todos os pecados, até os que foram cometidos nas fragas mais altas sob a luz da lua.
O Padre Custódio pegou no pão como se fosse uma relíquia. Ele sabia que, ao aceitar aquele pão, estava a validar a farsa. Mas sabia também que a paz de Vila Nova do Grão dependia daquela cumplicidade coletiva. O pão era o corpo de uma verdade nova, amassada com o suor de um marido resignado e a astúcia de uma mulher que preferia o calor do forno ao frio da liberdade.
Ao final da manhã, a padaria estava vazia de pão e cheia de silêncio. Pascoal saiu do fundo da oficina e encostou-se ao balcão, ao lado da mulher. O seu aspeto situava-se agora algures entre o rescaldo de um incêndio e o fundo de uma pipa de sarrabulho, mas havia uma dignidade nova na sua derrota. Ele olhou para a gaveta do dinheiro, que transbordava. Nunca tinham vendido tanto.
— Eles voltaram, Aurora — disse Pascoal, sem olhar para ela. — Voltaram todos.
— Eles voltam sempre para onde há lume, Pascoal. Tu és o dono do lume. Eu sou apenas quem o mantém aceso.
Pascoal pegou na mão de Aurora. A pele dela estava coberta de farinha fina, branca como o véu de uma noiva que já não existia. Ele apertou-a com força, um aperto que dizia tudo o que a sátira não conseguia explicar: a dor da traição, o alívio do regresso e a aceitação de que, naquele Portugal das Beiras, a felicidade era um luxo, mas a sobrevivência era uma obrigação.
— Sardenta! — gritou Pascoal para o fundo da loja. — Anda comer! A tua dona trouxe-te um presente de Viseu!
A gata saltou para o balcão. Aurora olhou para o marido e, pela primeira vez, soltou uma gargalhada curta e irónica. O ciclo estava completo. A honra fora trocada por hidratos de carbono, a verdade fora enterrada debaixo de uma côdea estaladiça e a vida em Vila Nova do Grão voltava à sua letargia habitual.
A última imagem da novela é a de Pascoal a fechar a porta da padaria. No exterior, o sol de inverno batia no granito, deixando apenas a miragem de uma aldeia perfeita, onde o pão era sagrado e as mulheres, quando fugiam, iam sempre — e apenas — visitar tias doentes a Viseu.
Aquilino Ribeiro, Geografia Sentimental, 1951.2024 (ed.revista)
Portuguese Local Train on the Beira Alta at Trezoi—March 2019
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Deep in a valley, far from main roads, Portuguese Railways’ Beira Alta line soars across the village of Trezoi.
This a quiet place and the rattle of the train on the bridge momentarily wakes the town.
Exposed using my FujiFilm XT1 with 27mm pancake lens.
Brian Solomon is traveling in Portugal.
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