Salvando Belinha e outras descobertas que fiz no meio do caminho
Quando era mais novo, tinha uma tendência no finado Orkut de fazer um bom oversharing — algo que migrei para o Facebook e talvez para o Twitter e que me trouxe algumas situações desagradáveis, mas que também trouxeram paz e resoluções pessoais.
Foco, no entanto, em situações desagradáveis: por elas — e pelo medo da cultura de influencer — decidi falar menos de mim. Não sou interessante, não sou exemplo, não quero ter a minha vida (a qual acho uma tristeza) documentada para sempre na World Wide Web, ainda mais num país como o nosso.
Decidi deixar de lado esse barulho gigante por absolutamente nada e falar um pouco sobre o que está na minha mente esses últimos dias. Boa sorte pra você, que está lendo!
Eu não tenho uma boa relação com meus pais. Na verdade, especificamente com o meu pai. A minha mãe e eu nos falamos diariamente por telefone (não residimos na mesma cidade atualmente), e mesmo hoje tendo algum tipo de comunicação com ele, as coisas nem sempre são muito agradáveis. É complicado, porque a perspectiva que tenho hoje é a de um homem adulto que buscou compreender um pouco o contexto familiar e a história por trás de um relacionamento completamente inflamado, mas que ao mesmo tempo é trabalhador e, consequentemente, cansado pela rotina e outras coisinhas mais. Ou seja: quando adolescente, fazia o clássico EU e como EU me sinto — e tá tudo bem, porque não tem como fazer um exercício de empatia com as situações que era obrigado a conviver em quase todas as nossas visitas, especialmente quando estas incluíam degradar a imagem de minha mãe.
Porém achei importante compreender o que levou meu pai a agir de tal forma, porque realmente queria ter uma boa relação com ele. No fundo, a gente quer ter uma família completa e eu buscava incessantemente por uma figura paterna — algo que acabou amizades e gerou outras muito importantes, como a com meu professor-orientador do TCC — mesmo dizendo a mim mesmo por ANOS que aceitava essas coisas muito bem.
Mas chega um momento que embora você compreenda o histórico de abusos emocionais, manter uma relação é algo que requer trabalho de DUAS pessoas. E quando só uma demonstra algum empenho em compreender… lidar… fornecer conselhos… você não pode simplesmente permitir-se sofrer em prol de um vínculo, por mais significativo que seja.
Não vou entrar em detalhes, porém afirmo que embora não tenha a pretensão de cortá-lo de minha vida novamente, evitarei contato. Precisamos cortar o cordão e estou bastante cansado, exausto na verdade, de receber humilhações gratuitas e falsas promessas e do principal: ver como é fácil um pai abdicar do papel de “pai”, porque é muito conveniente simplesmente perguntar “e a sua mãe?” para tudo com o que você não quer lidar.
Na semana passada, fui acometido por uma doença. Nas semanas anteriores, a saúde de minha primeira gatinha, a Belinha, vinha declinando devido a sua resistência por não se alimentar de modo adequado. Tentei ajudá-la de todas as formas, gastei muito com medicina veterinária, e enquanto uma infecção que aqui chamam de “virose” (aliada a um emocional bem questionável e abalado) destruía minha saúde, cometi o maior erro de toda a minha existência: achar que poderia e/ou deveria recorrer ao meu pai para ajudar com a MINHA saúde, pelo menos.
Felizmente, pela mágica do ibuprofeno e da “medicina alternativa” (mel, chás, balinhas de gengibre e coisas assim), consegui recuperar minha saúde. Infelizmente, a medicina veterinária continua sendo uma coisa muito abusiva para quem simplesmente não tem condições, e os custos para manter Belinha no tratamento que ela precisa sobem mais que criança flutuando com Pennywise…
Consequentemente, cada dia dessa semana tem sido uma batalha diferente, pois cada dia se é solicitado refazer mais algum exame, mais algum teste… nesse momento, não saber se até o final da manhã conseguirei o valor restante para HOJE, aliado ao atendimento humano limitado e péssimo do espaço (que trata bem os animais, mas pessimamente os tutores) me atormenta bastante.
Mas não teria chegado até hoje com a ajuda de minha família. O lado bom tem problemas financeiros de verdade e não pode me ajudar… e vocês já viram como funciona o outro lado. Então o fato de que amigos simplesmente me ajudaram de diversas formas, afirmando no processo o quanto também estimam a minha gatinha, tem sido confortante DEMAIS.
São pessoas que não tem o infame “vínculo de sangue”, mas que contribuíram financeiramente ou me ajudaram a erguer o dinheiro de qualquer forma. Pessoas que não tinham a obrigação de fazer nada disso. Enquanto as que tinham…
Não me considero uma boa pessoa, porém tento fazer o melhor que posso, dentro das circunstâncias que me são oferecidas, para ajudar todos os meus amigos. As vezes este é, inclusive, um trabalho pesado: sou geralmente o amigo que pergunta se está tudo bem quando meus amigos são aqueles que somem por meses. Mas entendo a personalidade de cada pessoa. E hoje posso ver o quanto sou afortunado pois embora não seja herdeiro, tenho perto de mim uma quantidade absurda de pessoas dispostas a me ajudar.
Para elas, um muito obrigado.
Dizem que devemos enaltecer a família por ser um laço de sangue… houve um tempo em que a família era algo meio “no amor e no ódio estamos aqui, pois temos a obrigação”. Não é verdade isso pra mim, e sou grato DEMAIS pelas pessoas boas que apareceram em minha vida, porque sem elas não sei se ainda teria condições de estar aqui.
E se você quiser ajudar com os custos de Belinha, é só fazer um Pix para [email protected]. Muito obrigado também.















