As Faces de Victoria Bergman I, II e III
Cinquenta páginas lidas e os recantos mais negros da mente humana já havia dilacerado presas. Foi assim que me exprimi num post, que se encontra entrelaçado aqui na timeline, quando comecei a ler A Rapariga-Corvo.
Quanta maldade a mente humana é capaz de infringir a uma alma vivente?
As Faces de Victoria Bergman obteve o Prémio Especial da Academia Sueca de Escritores de Crime e foi a estreia literária para Jerker Eriksson e para Håkan Axlander Sundquist.
É a primeira vez que leio uma história construída com a dor de inocentes: a pedofilia, meninos-soldados e atos de tortura e de violência prolongada e sofisticada contra rapazes jovens foram os temas escolhidos pela dupla. Muito do que li acredito ser uma horrenda realidade.
Os pormenores da sujeira dos atos dos perpetradores não foram poupados pela dupla. O bem-estar, a felicidade, o amor, as coisas boas do coração, foram proibidos à entrada. Só o negrume da alma, tão negra como alcatrão, respirou. Os pulmões inalaram vidas e expeliram conspurcação.
O que me mais marcou, dado a incompreensão natural em cada humano, foram os casos de pedofilia. Certamente que, quem não está ligado a ela, profissionalmente há quem esteja, pouco ou nada saberá relatar. Os autores foram mestres em descrever o raciocínio de um molestador de crianças. O raciocínio provocantemente irracional dos pedófilos foi descrito com a nitidez de um espelho polido. Sabem que a tendência não tem cura. Acreditam que no fundo não é errado nem para eles, nem para as suas vítimas. Mas a mente desprezível deles, dos pedófilos, consegue ir mais longe, acreditam tratar-se mais de um erro de construção social e cultural. Foi assim que um dos personagens descreveu os seus atos.
O desaparecimento súbito de crianças das ruas de Estocolmo, sendo todas elas imigrantes, também preencheram os requisitos da dupla — chocante. Crianças roubadas cuja falta não é sentida por ninguém é alvo fácil em qualquer país.
Todos os personagens e suas histórias foram criados meticulosamente, tornando alguns ambíguos e obscuros, mentalmente perigosos, fazendo com que alguns fossem autênticos enigmas, tal como Victoria Bergman, figura fulcral para a conceção desta ficção, mas que a mantiveram como uma luz com a pulsação que cessa e recomeça com intervalos descontínuos até que…
As palavras do jornal Arbetarbladet ditam na perfeição os dois livros primeiros livros da trilogia. No primeiro volume, conheceu-se apenas o esqueleto de Victoria Bergman. O segundo foi praticamente dedicado a si, dando-lhe carne e sangue, vida. O terceiro e último foi a apoteose. Foi o desmurar doentio que lhe cercava.
Como um aficionado de thrillers, não pude deixar de saborear esta a iguaria. O que inicialmente seria um petisco rapidamente se transformou num banquete. Fiquei maravilhado com o que li. Foram quase 1200 páginas de uma «psicanálise hipnótica e cativante em forma de ficção criminal» que se tornou no meu alimento durante um mês e quinze dias.
Os erik axl sund abandonaram um mundo — o musical — e agarram outro — o literário.
A inteligência e mestria de ambos espalharam-se por toda a história. Toda a espécie de representação mental exposta foi uma agudeza de inteligência e complexidade que não se encontra em muitas mentes auxiliadas por duas mãos e um software de escrita.
Histórias não são difíceis de se criar. Difícil é dar-lhes vida. Criar vida através da ficção. Eles fizeram isso. Criaram uma obra-prima. E não vos falo só da história, falo-vos também da escrita. É dura. É experiente. É quase inacreditável que esta trilogia seja o resultado da primeira vez que escrevem. Todas as palavras de elogio à dupla não deverão ser tidas como um exagero.
No A Rapariga-Corvo, cada capítulo lido transformou-se numa esqualidez, e cada vez que li os desalinhos mentais que descaracteriza cada ser humano como individualidade física e espiritual, transvertendo-o num perpetrador, vi o quão horrendo conseguimos ser. Os detalhes de difícil projeção foram acalmados nos livros Fome de Fogo e As Instruções da Pitonisa. Conseguimos (arrisco em falar em nome de todos nós) aceitar melhor os pormenores dos atos cometidos, que levaram ao vazamento de vidas dos corpos vitimados, por um simples motivo: a violência foi imposta aos seus merecedores.
As Faces de Victoria Bergman foi o âmago do mal entre vítimas e perpetradores. Foi uma amálgama de decomposição mental de seres idênticos a nós, mas inanes, ínfimos nos seus sentimentos; seres com a capacidade de elevar o mal sobre o bem.
Mas nem tudo foi execrável e é por este motivo que vos vou recomendar a trilogia. Se gostam de thrillers, não deixem de ler os três volumes. Se decidirem fazê-lo, façam um esforço para chegarem ao final do livro A Rapariga-Corvo, talvez seja esse que nos possa repugnar mais.
E para aquele que se decidir pelo embarque aviltado, denotará que não se criou apenas ficção criminal nesta trilogia. A dupla, no seu momento mais desafiante — a pesquisa — trabalhou arduamente. De grande ajuda foi a vivência de Jerker com a sua ex-companheira, psicóloga de profissão, e a sua enriquecida estante de livros, onde reluzia obras relacionadas com a profissão da mesma.
E para terminar, «imprudência ou convicção?» foi a questão com que iniciei um post quando comprei os dois volumes, cegamente, sem ter lido um sequer. Convicção é a minha resposta. Estava convicto de que ia gostar da trilogia, tanto que a adorei!