«Objetos Cortantes» é o primogénito da escritora. Este livro, há muito esperado por mim, comecei, por ato inconsciente, a digerir o prato final — «Lugares Escuros» —, induziu-me a adiar algumas leituras que tinha para começar assim que eu soube que o seu lançamento se aproximava.
A sinopse, apelativa, conta-nos:
Recém-chegada de um internamento breve num hospital psiquiátrico, Camille Preaker tem um trabalho difícil entre mãos. O jornal onde trabalha envia-a para a cidade onde foi criada com o intuito de fazer a cobertura de um caso de homicídio de duas raparigas.
Há anos que Camille mal fala com a mãe, um mulher neurótica e hipocondríaca, e quase nem conhece a meia-irmã, uma bela rapariga de treze anos que exerce um estranho fascínio sobre a cidade.
Agora, instalada no seu antigo quarto na mansão vitoriana da família, Camille dá por si a identificar-se com as vítimas. As suas pistas não a conduzem a lado algum e Camille vê-se obrigada a desvendar o quebra-cabeças psicológico do seu passado para chegar ao cerne da história. Acossada pelos seus próprios fantasmas, terá de confrontar o que lhe aconteceu anos antes se quiser sobreviver a este regresso a casa.
Aqui, a história reúne formas ácidas, de retificação desnecessária, para a constituição de um todo incomum. Mas não é só história ficcional que Gillian Flynn faz com o seu léxico, comparações acutilantes sem marcas de limites, que discorrem pelas páginas, são a forma certa para urdir um thriller; pois é graças à sua expressividade que senti, como narrador, cada ação desenrolada.
Bem mais acessível do que as duas outras obras da escritora, este livro não me dificultou a suposição, o querer descobrir por mim mesmo quem era quem. A dado momento consegue-se determinar o perpetrador, suspeitar da personagem.
Mais uma vez ficamos a conhecer a mente tenebrosa da escritora com esta história modelada a si.
Em tom de final, é sempre uma gratidão ter uma obra nova da Gillian Flynn por estrear e um prazer torná-las lidas. Mesmo desconhecendo o que aí vem, encho-me de entusiasmo de cada vez que vejo algo de novo seu.
Leia o «Objetos Cortantes», passe pelo «Em Parte Incerta» e acabe em «Lugares Escuros».
Os meus pais sempre me apoiaram e me incitaram a escrever desde a terceira classe, altura em que declarei que, quando crescesse, queria ser escritora ou agricultora. A agricultura nunca chegou a pegar, por isso espero que gostem do livro.