O deslize de Fitz
[..] segundos depois, minha visão turva volta ao normal e posso enxergar os pêlos de meus braços sumindo e minhas unhas encurtando novamente. A única coisa que escuto é o som de minha própria respiração e de meus batimentos cardíacos cada vez mais acelerados. Apoio minhas mãos na grade da sacada e dou um profundo suspiro, olhando para o corpo inerte de Daisy no jardim dos fundos, que estava cercado pelas margaridas que mamãe havia mandado o jardineiro plantar semana passada. Que irônico. Não me lembro de detalhes do que acabara de acontecer, como se restassem apenas flashes e não uma memória íntegra. Mas as evidências estão absurdamente claras: em um momento de desequilíbrio, eu havia deixado meu lado lobo assumir o controle por alguns segundos e empurrado minha própria irmã da sacada de seu quarto, direto para a cova.
Volto para dentro do quarto e limpo as muitas gotas de suor que escorriam por minha testa, desesperado enquanto pensava em como iria explicar aquela situação para tod... Não! Ninguém poderia saber a verdade sobre o que acabara de acontecer. Não somente o soro anti-raiva que uso havia falhado, como descobri que não precisava da lua cheia para me transformar - bastava um ataque de fúria. Meus amigos se afastariam de mim, com medo e me chamando de assassino. Meus pais, sabe-se lá qual atitude tomariam. Me levariam para um sanatório? Me trancariam numa jaula, acreditando que eu representava perigo? Não importa o quão poderosos eram, não havia magia no Código dos Bruxos que pudesse trazer alguém de volta à vida. Talvez a decepção por perderem a filha favorita fosse tão grande, que não pensariam duas vezes antes de me mandarem para a cadeia.
Depois de andar incessantemente de um lado para o outro, vou ao banheiro lavar o rosto para acalmar os ânimos e, finalmente, desço para a festa no salão do andar de baixo. O ar cheira a perfume amadeirado e frutos do mar, e consigo reconhecer a maioria dos colegas de trabalho de papai. Aquele tipo de ambiente nunca foi para mim, e sim para Daisy. E agora, ela nunca mais teria a oportunidade de frequentá-lo. Tento tirar imediatamente esse pensamento da cabeça pegando uma taça de champanhe, sem me importar que eu ainda não tinha completado 21, quando vejo papai de longe, vindo em direção a mim com passos largos. "Fitzgerald, onde está Daisy?", pergunta ele, sem ao menos dizer boa noite. Confrontando sua expressão preocupada, penso em ignorar tudo o que havia dito a mim mesmo e contar-lhe a verdade. Mas, por alguma razão, as palavras não querem sair. É como se minha própria consciência implorasse para que eu inventasse alguma história, insistindo que eu estaria no fundo do poço se desse qualquer passo em falso que os fizesse perceber minha culpa. Então, começo a pensar em alguma. Poderia dizer que Daisy escorregou em alguma coisa e caiu da sacada. Ou então que ela pegou no sono e, acidentalmente, caminhou para a sacada e pulou (caso não saibam, Daisy era sonâmbula; mamãe sempre trancava as portas da sacada com medo de que algo assim pudesse acontecer algum dia). Mas aquelas desculpas seriam difíceis de engolir, e, pra falar a verdade, eu nunca soube manter uma história falsa por muito tempo sem esquecer de algum detalhe que colocava tudo a perder. Se não posso mentir, a única coisa que me resta fazer no momento é omitir o que sei. Então, esboço meu melhor semblante confuso, e digo a coisa mais simples que me vem à cabeça: "Eu não sei.... Achei que já tivesse descido".











