eu sinto sua falta da forma mais estúpida possível — e, paradoxalmente, da forma mais verdadeira que alguém pode sentir. sinto falta de ouvir as batidas do seu coração enquanto minha cabeça repousava no seu peito, como se ali fosse o único lugar onde o mundo não me machucava. eu me detesto por todo o tormento que essa ausência me causa. me martirizar virou rotina. me culpar virou hábito. eu me culpo por cada centímetro de sentimento que ainda tenho por você. sinto falta de mergulhar em você, de sentir você dentro de mim, me olhando como se eu fosse inteiramente sua, como se cada parte de mim tivesse dono, e ao mesmo tempo me fazendo sentir que você também me pertencia por completo — sem dividir, sem esconder, sem escapar. sinto falta das mentiras com gosto de verdade que a gente sussurrava na cama, no carro, em qualquer canto onde nossos corpos se encontravam antes das palavras. eu fico ofegante só de lembrar. o ar me falta. o peito aperta. e quando as memórias vêm detalhadas demais, elas não doem — elas dilaceram. eu preciso tanto da gente outra vez, mesmo sabendo que o futuro não nos pertence e talvez nunca tenha pertencido. mas se eu pudesse, ao menos por uma última vez, te sentir outra vez, eu me daria com a maior entrega que alguém pode oferecer a outro alguém — sem defesa, sem orgulho, sem sobras. você me saciaria por inteiro, até o vazio, e talvez depois disso batesse em mim aquela esperança tola, quase humilhada, de que por obséquio, por misericórdia, você me pedisse para ficar.
- Bia Ramos













