Enamorada
O amor chega, não pede licença e simplesmente faz a gente respirar mais ofegante, sorrir involuntariamente e não prestar atenção em nada. Quando menina, fui tomada por uma avassaladora paixão platônica (sempre platônica, se brincar até hoje) e me via perdida em mim mesma, divagando em dimensões de descobertas inéditas que só pertenciam a mim e ninguém precisava saber.
Ia ao colégio e em alguns momentos era como se eu não tivesse ido. Era como se de repente eu viajasse para encontrar comigo mesma em um lugar que nunca fui. Era tomada por aquela sensação única olhar pela janela e fixar olhar num ponto distante e apenas curtir o silêncio ou até fingir que estava prestando atenção na aula, mas o professor, ou a tia, simplesmente estavam inaudíveis porque na minha mente apenas ecoava o som da música mais romântica que para mim poderia existir: se enamora. Pra que mais?
Eu era quinta série e ali tinha tanta coisa bacana e muito esperada pra curtir como estudar no primeiro andar (os pequenos ficavam embaixo), usar caneta (antes tudo era a lápis), não ter mais o caderno recolhido pela tia – sem contar que alguns professores deixavam de ser “tia” e passavam a ser professor Fulano. Mas eu pouco estava me importando para aquilo que um dia tinha dado tanta importância. Eu estava simplesmente apaixonada.
Alguns professores foram bem emblemáticos para esse momento. Tia Rosa, de geografia, chegava com um sorriso lindo toda feliz para dar a aula. Antes de tudo, ela pousava seu material no birô e ia para o quadro desenhar uns bonecos com calça boca de sino para explicar o seu assunto que eu só iria entender mesmo às vésperas da prova quando teria que estudar. Tia Telma, professora de português, que toda organizada, levava seu próprio giz (em um isoporzinho, enrolado num saco plástico) e apagador que, realmente, era muito melhor que o do colégio, explicava pronomes, substantivos e verbos – só queria saber do verbo amar (essa foi brega, mas o amor é brega). Professor Décio (não era mais tio), meu primeiro professor homem todo sério sisudo (acho que a matemática faz isso com as pessoas) com cara de mal e letra de garrancho – um dia me deu dez e eu nem entendi – seria uma “riscadeira” mesmo ou o amor que tinha me deixado cega?
Eles ficavam nlá falando o conteúdo e sabe onde eu estava? No meu mundo em que eu fantasiava como seria a mão dele? Ele pegaria na minha? Ouviríamos juntos “se enamora”? Eu simplesmente respirava amor em mim e a ele já me dedicava com toda devoção. Platônico, sim, tanto é que levo até hoje e ainda suspiro quando lembro do sorriso daquele rapaz.
Dedico essa crônica às minhas queridas tias Rosa e Telma e ao sisudo professor Décio.








