Os lábios finos deram uma última tragada no cigarro, antes que este fosse dispensado no cinzeiro que ficava ao lado da porta do bar. A noite começara a cair, e mais uma vez as portas do Ekaterina se preparavam para ser abertas, recepcionando seus clientes com a atmosfera confortável e intimista. Luzes baixas refletiam nas garrafas coloridas e em algumas das paredes do local que eram feitas apenas de tijolos. A decoração e mobília, feitos todos de metal preto e retorcido com alguns arabescos, fazia daquele lugar a mistura perfeita entre o clássico e o moderno. O pequeno palco, onde alguns bancos e instrumentos descansavam, adicionava ainda mais charme a esta mistura.
Naquele pequeno canto do bar, aliás, que Sasha iria trabalhar durante a noite. Sempre assim. Não que precisasse de dinheiro- tinha sua pequena grande fortuna e, se fosse trabalhar, seria apenas por prazer. E bem, este era exatamente o motivo de, algumas noites por semana, ele servir como músico e cantor naquele local. Poucas coisas faziam os pêlos de seu braço se arrepiar mais do que a música. Uma vez que as demais coisas não poderiam ser praticadas lá (ah, uma pena!), restava para sua amada música trazer um pouco do frescor de tempos que, por mais que ele quisesse, não voltariam mais.
O russo suspirou quando adentrou o bar e viu alguns clientes precipitados já ocupando uma mesa. O barman o cumprimentara, começando a servir o chá gelado que Fyodor sempre pedia, antes de tocar ou cantar. Ele estranhou, quando se aproximou do palco para deixar seu violino, que tinham uma adição nova aos poucos instrumentos da banda. Um belo piano preto descansava no canto do palco, e o russo correu seus dedos magros por cada uma das teclas. "Desde quando você está aqui?" Ele murmurou para si mesmo - e para o instrumento - antes de se aproximar do balcão outra vez. Foi ao tomar seu copo em mãos que notou, com sua única orbe azul, uma presença um tanto diferente mas não desconhecida. Talvez a vira uma, duas vezes, sentando alí com a mesma cara mal-humorada que estava agora. O cheiro de cinzas, os cabelos ruivos, nada daquilo lhe era estranho. E apesar de não lembrar o seu nome - e nem saber o que ela estava fazendo ali outra vez. - Fyodor sabia que já vira aquela menina antes. Aquela presença jamais passaria despercebida por ele.
"Olha só quem resolveu voltar." Ele riu, se sentando ao lado dela e acendendo mais um cigarro. "Minha amiga ruivinha caolha. Resolveu vir passear por aqui?" Perguntou e, enquanto bebia um gole de seu cá, ofereceu um dos cigarros para ela.