Isso se dá porque
(No último sábado, dia 4/06, fizemos uma entrevista aberta com o artista Bruno Kurru, durante o encerramento da exposição "Isso se dá porque", na Zipper Galeria e que teve a curadoria de Galciani Neves. Deixamos aqui registrado o caminho do nosso pensamento a partir da observação das obras e de conversas anteriores com o artista. As "respostas" estão no vídeo que pode ser visto no https://www.facebook.com/zippergaleria/)
"Não posso me impedir de pensar em uma crítica que não procurasse julgar, mas que procurasse fazer existir uma obra, um livro, uma frase, uma ideia; ela acenderia fogos, olharia a grama crescer, escutaria o vento e tentaria apreender o vôo da espuma para semeá-la. Ela multiplicaria não os julgamentos, mas os sinais de existência; ela os provocaria, os tiraria de seu sono. Às vezes, ela os inventaria? Tanto melhor, tanto melhor. A crítica por sentença me faz dormir. Eu adoraria uma crítica por lampejos imaginativos. Ela não seria soberana, mas vestida de vermelho. Ela traria a fulguração das tempestades possíveis."
Michel Foucault
Nós começamos a criar uma aproximação com o seu trabalho há pouco tempo, mas nos arriscamos a dizer que a problematizacão da linguagem é o seu fio condutor. Você nos levou pra este lugar e é por isso que antes de começarmos esta entrevista, gostaríamos de avisar a todos que ela não vai ser bem uma entrevista, já que entrevista pressupõe perguntas e respostas. O que queremos fazer são provocações para disparar reflexões. Então não esperamos sair daqui com certeza de nada.
Esse lugar da incerteza também nos é muito caro, pois é onde localizamos o processo criativo; e ao nos depararmos com o seu trabalho e a maneira como você se posiciona, percebemos que existe uma grande preocupação em não se apegar aos lugares estabelecidos, ao totalitarismo das palavras e dos conceitos, mas um impulso de habitar o entre, esse não-lugar que ainda permite a criação de novas gramáticas e relações.
Gostamos de pensar essa postura como resistência. Daquele que está sempre atento e forte as imposições do mundo, que cria suas próprias estratégias de enfrentamento, de insubordinação, mas que também está sujeito as falhas. E é a partir desse lugar da resistência que elaboramos nossas reflexões.
* Nossas mentes foram para muitos lugares depois das conversas que tivemos, dos conteúdos que nos passou e também a partir dos trabalhos aqui na exposição. Ficamos pensando sobre as limitações que a materialidade impõe e como você é obrigado a se render a isso, fazendo concessões. Ficamos com a impressão de que você lida melhor quando é barrado pela materialidade dos elementos que compõe as obras do que com os embates com o cotidiano. Será que isso faz sentido? Quais outras estratégias você desenvolve para lidar com inquietações não consegue traduzir por meio dos trabalhos aqui presentes?
* Você criou este momento. Convidou o Ágata para essa fala e o Ariel para fazer uma intervenção poética, além de outras pessoas com quem dialoga e são interlocutores com conhecimentos distintos. Para você e seu trabalho, o que estamos fazer aqui agora? Sabemos que você já criou este tipo de momento antes, como exemplo na residência em Brasilia. Você usa estes momentos como insumo para novas criações?
* Neste lugar da fala que você tanto aprecia, toma cuidado com cada palavra por conta dos conceitos e potências que elas carregam, você não teme que as vezes esta "verborragia" possa te levar para lugares não espontâneos, improdutivos ou até mesmo didáticos?
* Também pudemos observar que esta postura da resistência se reflete no seu comportamento ao lutar contra uma posição de artista profissional, ou seja, aquele já apreendido pelas estruturas do circuito. Para citar alguns exemplos, podemos falar na busca de uma maior horizontalidade na relação com a curadoria, privilegiar o conteúdo do trabalho perante questões comerciais nos embates com a própria galeria ou mesmo na forma como você se mostra nas redes sociais. Ficamos nos perguntando se isso também faz parte do seu trabalho. O que acha?















