Dizer sim à existência
Um dos motivos de existirmos enquanto coletivo foi a vontade de um fazer compartilhado, de muitas mãos e para além das que compõem o Ágata. Por isso os projetos colaborativos nos são tão caros, engrossados por muitas vozes, fazem parte de um contexto em que buscamos relações mais horizontais de trabalho e criação. Ao nos aproximarmos, cada vez mais, do feminismo e de suas implicações passamos a entender melhor nossas práticas, fomos aprendendo como nos definir e como podíamos viver junto e construir mundos possíveis dentro desta perspectiva generosa.
Primeiro, realizamos a exposição coletiva "Sou uma mulher de tijolos à vista" (2015), uma reunião de 16 mulheres dividindo seus questionamentos, suas dores, seus posicionamentos e a necessidade de falar, ouvir e se reconhecer na história da outra. Depois veio "O corpo não aguenta mais tudo aquilo que o coage", um ciclo de conversas sobre fascismo, feminismo e arte, que se configurou como uma reação política tanto ao contexto social brasileiro, quanto a falta de protagonismo das mulheres no universo das artes.
Agora, propomos um novo projeto, "Dizer sim à existência", uma residência artística que pretende pensar a arte na intersecção do fascismo e dos feminismos, com a intenção de fazer parte do debate público e proveniente da necessidade de nos posicionarmos a favor da emancipação e da construção de relações mais amorosas e igualitárias.
O título é o mesmo do artigo escrito pela professora Margareth Rago, onde ela exalta o caráter positivo da obra de Foucault em relação a vida - não àquela totalizante e que nos assujeita, mas a que possibilita a criação de si, das singularidades e diferenças.
A arte nos permite habitar lugares ainda não habitados, não sistematizados, possibilitando outras experimentações estéticas, sociais e políticas. Esse potencial revolucionário que desestrutura a ordem é justamente o que faz esse tipo de produção ser cerceada pelo poder e vista como um desvio. Não é a toa que os regimes ditatoriais censuram artistas e suas obras e se utilizam da cultura de massa para disseminar seus ideais.
Pensando nisso, convidamos as artistas Caroline Kielmanowicz, Daniele Queiroz, Júlia Milward, Paola Ribeiro e Suelen Pessoa para nos acompanhar durante a residência e fazer desse desvio um campo frutífero para novas ideias e resistências.
A história nos mostra que os regimes totalitários nascem em momentos de crise política e econômica, encontrando em um certo nacionalismo e na criação de um inimigo do Estado o seu modus operandi. Fato que podemos observar nas manifestações pró-impeachment, que, majoritariamente, difundia um discurso ufanista. Entretanto, se pensarmos que as estruturas de poder criam suas próprias resistências, podemos localizar na força que os feminismos vem ganhando uma reação a essa emergência fascista no nosso país. Parece não haver dúvidas de que lado queremos estar e a vontade de nos posicionarmos de maneira positiva e propositiva frente a isso.
Esse projeto propõe uma residência entre os meses de agosto, setembro e outubro, em que acontecerão encontros, trocas de ideais, exercícios e falas de convidados com o objetivo de produzir uma intervenção urbana na Vila Anglo Brasileira, onde trabalhamos e temos nosso ateliê.
Escolhemos essa região e espaço para serem habitados por nós por também serem lugares combativos. O Condomínio Cultural é uma ocupação artística onde trabalham, alem de nós, mais de 60 pessoas em regime de autogestão, driblando todas as dificuldades que novos modelos de convivência em meio a um mundo capitalista pode enfrentar. A Vila Anglo Brasileira por ser um bairro que ainda não foi completamente engolido pelas grandes incorporadoras, preservando suas características históricas e de comunidade.
O feminismo, a arte e a rua são lugares de resistência e onde queremos transitar com o "Dizer sim à existência". Para frisar ainda mais o caráter público e coletivo desse projeto, vamos tentar que ele seja viabilizado por meio de financiamento coletivo, contando com o engajamento daqueles que também acreditam que sejam urgentes tais problematizações e desejem se posicionar politicamente. Além disso, é uma maneira alternativa de viabilizar projetos culturais em um momento em que as políticas públicas para esse segmento estão em questão.
Em breve vem mais informações por aí!











