Sou daquelas que gostam de um garimpo. De tudo o que é jeito. Gosto de garimpar coisas, tecidos, lojinhas chinesas, camelôs, feiras, gente, receitas, velhos objetos, histórias, fotografias antigas, miçangas...
Nessa minha lida garimpeira já vivi momentos tão, tão felizes!..
Teve aquela vez em que subi pro Nordeste de Amaralina ao meio dia, em busca duma costureira.. fui seguindo até à Santa Cruz, o transito meio congestionado, as calçadas cheias de gente, tabuleiros de frutas e verduras, ambulantes, carrinhos de café...
de repente, num relance, vi quando o velhinho, bem velhinho, ergueu a colcha de retalhos no ar formando um balão colorido contra o céu azul, debaixo do sol de verão..
Meti o pé no freio e abri a sinaleira, sob os protestos irados dos motoristas.
Encostei o carro e fiquei vendo, nervosa, o velhinho manusear aquela miscelânea de cores estendida na calcada sobre um encerado azul-piscina, enquanto aguardava uma vaga pra estacionar..
Quando finalmente pude ver e tocar de pertinho aqueles panos multicolores tive uma surpresa maravilhosa: eram peças do tamanho de lençóis, feitas com retalhos de crepe de seda, uma coisa inacreditável!
Quando lhe perguntei o preço o velhinho me disse que cada lençol custava cinco reais. Quis saber quantos havia.
_ Trinta lençóis, dona. Vai querer? _ O velhinho me olhava, desconfiadíssimo.
Comprei todos. E fui radiante pra casa com aquele embrulho que logo seria transformado numa cortina de sonho!
Tenho até hoje a cortina e a história, que jamais esquecerei.
Garimpando eu já comprei carimbos africanos pra tecido, toalhas bordadas à mão, soldadinhos de chumbo, pingentes de cristal, pince-nez, mantilha de renda, pulseira de marcassita, panela de esmalte, um mundo de coisas que adoro..
Sou uma alma antiga. Gosto de ter coisas que contam histórias.
Por isso fico intrigada quando me deparo com alguém que deseja ardentemente comprar coisas muito novas, coisas brilhantes, modeeeernas demais, progressistas demais... Fico um pouco triste também, confesso.
P. S. Hotéis também são alvo de meu garimpo. Honestamente, não gosto de hotéis chiquérrimos. Não. Fico infeliz neles. São um pouco surreais, flutuam sobre a mortalidade humana. Preciso estar em hotéis que sejam humanizados pelos pequenos problemas quotidianos da vida. Já é um custo sair de casa, imagine ter que ficar num lugar onde tudo parece perfeito?
Mas eu não sou exemplo pra ninguém.
( História sem pé nem cabeça. Deve ser a idade.. )