Aprender a deixar de lado seu egocentrismo e aceitar dividir a figura mais importante de sua vida com outro ser humano parecia ser um dos maiores desafios enfrentados por Manuella até então. Embora a relação com o mais novo irmão tivesse começado de maneira conturbada, e atualmente eles sequer morassem na mesma cidade, Otávio conseguira conquistar todo o espaço disponível em seu coração, e hoje, Manu não apenas pensava no sorriso do pequeno todos os dias, como também se divertia cumprindo a função de irmã. Ou pelo menos o que ela acreditava ser tal função. De brinquedos à roupas, Manu repetia o comportamento de Paulo Dantas, e não media o menor dos esforços para ver o brilho nos olhos de Otávio ao ganhar um novo mimo. Observá-lo crescer através da tela de um IPhone era tarefa fácil. O que ela não contava, era que realmente se fazer presente na vida de uma criança podia ser mais trabalhoso do que imaginara. Na última semana, seu pai e toda a família havia voltado de Nova Iorque para visitar uma tia-avó doente de Mariana e matar as saudades da vida paulistana. Como resultado dessa abstinência, João Pedro saíra com os amigos, enquanto Paulo e Mariana conheciam o Seen, mais novo restaurante da alta sociedade, deixando Manuella incumbida da função de babá. Apesar de doce e carinhoso, seu irmãozinho lembrava um pouco da sua própria conduta quando criança, posto que, por ter tudo como e quando queria, agora esperneava pedindo para comer sorvete de chocolate no jantar. Cansada de escutá-lo gritar sem saber como exercer autoridade, Manu cedeu. Cerca de meia hora depois, se arrependeu da sua fraqueza. Otávio agora esperneava por um motivo diferente. Seus gritos desesperados e choro alto eram provenientes de uma forte dor na barriga. Aflita por não ter coragem de ligar para seu pai, e se sentindo completamente desamparada, ela pegou a criança no colo e correu para o único lugar que era garantida ajuda imediata. Sabia que naquela noite Giovanna estava trabalhando num evento da Avon, e Alexandre não dava plantão nos finais de semana para ficar com seus filhos. A única pessoa conhecida capaz de sorrir naquele hospital até numa sexta-feira à noite era ele. “Boa noite Pâmela, cê pode chamar o Natan, por favor? Avisa que sou eu.” Solicitou à enfermeira, enquanto balançava seu irmãozinho nos braços, pedindo com a voz suave em inglês que ele parasse de chorar. Assim que seu ex namorado chegou, ela correu na direção dele. “E-Eu não sei o que fiz pra ele ficar assim. A gente só jantou e de repente... Eu não queria vir aqui, Natan, mas meu pai confiou em mim... Cê precisa me ajudar.” Pedia, com as orbes azuis emaranhadas e a voz embargada, prestes a chorar junto à criança em seu colo.













