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Ouvia as palavras de Alexandre olhando diretamente para ele, mas mesmo assim mexendo a cabeça negativamente, parecendo não acreditar em nenhuma. - Se você tivesse certeza, vocês teriam me dito a muito tempo. Desde o começo, e não me fazer descobrir assim. - levantou as mãos como se apontasse para toda aquela situação - Por que se vocês estavam, como vocês estavam, no seu escritório, no hospital onde você trabalha, certamente vocês não estavam com medo de serem vistos. - passou a mão no rosto andando de um lado para o outro - E ainda mais a porta destrancada. Eu tenho medo do que eu poderia ter visto se eu tivesse aparecido 5 minutos mais tarde. - mexia a cabeça para afastar seus próprios pensamentos. - Antes do Carnaval? - perguntou incrédulo fazendo as contas de quanto tempo tinha passado sem perceber nada, além de que nesse tempo sabia que Alex ainda era casado. Ia continuar a falar quando Bianca o interrompeu, e Natan continuava a escutar mas ainda sem acreditar em toda situação que tinha se metido. - Não falei que só ele está errado. Vocês dois estão. - falava agora olhando para a irmã - Mas você está errada em um sentido moral e de confiança em relação a mim que sou seu irmão. Você não é besta e nem boba, Bianca, sabia no que estava se metendo e sabia como eu ia ficar. Mas você é minha irmã e sabe exatamente o que eu acho sobre esses segredos. Merda de segredos. - suspirou mas ainda com os olhos diretos no dela - Mas ele - agora apontava para Alexandre sem o olhar - Ele é o mais errado, ele tinha feito uma promessa, ele tinha um relacionamento, ele tem filhos. O relacionamento poderia estar ruim, mas ainda não tinha acabado. A mulher dele merecia o mínimo de respeito. Por que se ele fosse homem de verdade,se gostasse mesmo de você, ele teria esperado ou acelerado o divórcio ou até falado com a esposa. E não ficar nessas escondidas. - Natan então olhou para Alexandre - Você não foi homem suficiente para admitir seus erros e assumir as consequências desde o começo. E só admite agora que vocês foram descobertos. - olhou para ele e então deu alguns passos para trás, foi então agora de costas que ouviu as próximas palavras de Bianca, o que fez Natan soltar uma risada até desconfortante baixa, como se não acreditasse que ela estivesse falando disso agora. - Não venha culpar meu relacionamento com Manuella, como razão para esconder a traição que vocês dois cometeram. - olhava para baixo esfregando suas mãos na nuca e no cabelo, já inquieto de continuar ali.
Entre a existência de duas personalidades distintas, Alexandre definitivamente fazia o tipo proativo, daqueles que não deixa o problema para depois, prefere resolver tudo o mais rápido possível. Contudo, era o reflexo do completo oposto que agora tinham ali. Havia adiado tanto aquele confronto, aquela realidade, que só então conseguia enxergar a distorção para algo gigantesco e problemático. Seu instinto primordial foi claramente receber toda a culpa, pois assim achava certo. Ele era o mais velho; ele quem havia sido casado; ele se permitiu a tentação; ele mentiu; ele insistiu ao ir atrás de Bianca; e ele era ele, homem, criado para arcar com as consequências de seus feitos. O ar pesado pareceu se desfazer por um segundo ao ouvir a voz feminina cortar a discussão. Alexandre estava acostumado a brigar por algo sozinho, defendendo somente a si em uma relação conturbada. Estar do mesmo lado pela primeira vez era no mínimo reconfortante. Sua mão apertou a dela enquanto a olhava durante a fala, até mesmo segurava um pequeno sorriso nos lábios. Mas este logo se desfez, fechando os olhos ao escutar o nome de Manuella. Além de trabalhar juntos, Natan também era seu amigo, um dos mais próximos, por isso sabia muito bem o peso do término de seu relacionamento e por um segundo até pôde sentir a dor daquela menção. A dor foi rapidamente substituída pelo queimar da raiva, lentamente lhe consumindo ao ouvir Natan vomitar o discurso duvidando de sua moral, e isso Alexandre não aceitaria. Não abaixaria a cabeça ao ouvir alguém, que da sua história não sabia um terço, lhe julgando com falsa propriedade. Sabia seus erros, todos eles, e lutava diariamente para se perdoar e consertar as coisas, mas jamais deixaria alguém duvidar de sua moral. Por isso, pela primeira vez naquela discussão, Alexandre ergueu sua cabeça e abriu o peito ao atravessar a sala em direção a Natan. - Chega! - Exclamou, com uma expressão brava. - Eu entendo que você esteja surpreso, com raiva, confuso, mas você não tem o direito de abrir a boca pra falar do meu casamento, muito menos dos meus filhos. Eu aguentei calado porque reconheço meu erro nessa história toda, mas tá na hora de você se acalmar e começar a enxergar as coisas como elas realmente são. - Alexandre mal piscava ao proferir com certeza todas aquelas palavras e pouco se importava se podia ser ouvido pelos corredores agora. - Tá na hora de você parar de viver nesse mundo perfeito e certinho e vê que a vida não é simples assim, Natan. Eu sou muito mais homem do que você - bateu no peito ao falar pausadamente. - Eu aguentei anos em um relacionamento infeliz em prol da minha família. Eu tive a coragem de ir contra tudo e todos pra finalmente ser feliz, mesmo correndo o risco de perder a guarda dos meus filhos. Eu to arcando com as consequências disso tudo diariamente porque finalmente encontrei alguém que eu amo e que vale a pena. - Parou por um segundo, engolindo em seco ao perceber que ainda não havia admitido aquilo para Bianca, mas sem muito tempo para pensar no assunto, ele apenas continuou. - E sim, eu traí minha ex mulher e não tá certo, é uma merda, pronto. Era isso que cê queria? - Doía-lhe um pouco admitir aquilo, mas ele não estremeceu. - Ouvir que eu reconheço o quão errado eu fui? Fui mesmo, mas aconteceu. Merda. Porque a vida não é perfeita, você não é perfeito. As pessoas erram. Não importa o quanto você fantasie esse mundo, as coisas não acontecem como você planeja, Natan. E no fundo… Quer saber porque eu não te contei? - Franziu o cenho e tinha a postura leve, de quem chegou a uma conclusão libertadora. - Porque não é da tua conta. É a minha vida. É a vida da Bianca. Minha ex mulher e ela são as únicas que precisam me perdoar nessa história toda, porque eu errei sim e nunca neguei isso, mas tua irmã teve muito mais coragem que você ao passar por cima de tudo isso e escolher ser feliz. Enquanto você tá aí, se escondendo atrás de valores e regras, com raiva da vida porque as coisas não estão no lugar que você queria - parou, soltando uma respiração pesada por ter falado demais. Percebendo que por impulso talvez tivesse sido muito rígido, Alex abaixou a cabeça e diminuiu a intensidade em seu tom de voz. - E eu vou pedir desculpa, mas só pela forma como você descobriu. Não foi profissional, muito menos amigo da minha parte. Mas não vou pedir desculpa pelas minhas escolhas, porque como já disse, quem tem que me desculpar, já me desculpou. - Finalizou, correndo os olhos de Bianca até parar em Natan.
A sensação que Bianca vivia agora era estranha. Nem na pior das hipóteses havia imaginado que seria assim que seu irmão descobriria do caso com Alexandre. Okay, ela entendia que o tal desfecho certamente não aconteceria da maneira ideal, com uma conversa respeitosa e civilizada, mas também não pensava que haveria aquela explosão de ofensas e tanta raiva sendo proferida de ambos os lados. Calada, Bianca se perguntava se as coisas seriam diferentes caso Natan estivesse com o emocional equilibrado, ou pelo menos, feliz. Reconhecia o erro cometido ao mencionar Manuella. Aquela jamais fora a sua intenção. No entanto, com tudo acontecendo mais rápido do que seu cérebro podia processar, as ações e falas que lhe escapavam certamente não estavam sendo filtradas pelo cérebro. Tudo parecia correr. Antes que percebesse, já havia passado mais um grito. Era torturante ver duas das pessoas que mais gostava se atacando de tal maneira, principalmente porque sabia que eles tinham tanto carinho um pelo outro quanto ela por eles. Entendia a decepção de seu irmão, mas nada justificaria as ofensas que despejava sobre Alexandre. Talvez se fossem duas pessoas distantes, aquilo não doesse tanto, mas ver que ela própria era a causa daquele embate a deixava tão cabisbaixa que sequer conseguiu aproveitar sua primeira declaração de amor. Como poderia processar o fato de que seu namorado havia acabado de admitir que a amava se o gesto estava perdido no meio da troca de farpas? Ainda com a mão entrelaçada à de Alex, Bianca o acariciou de leve, olhando para aquele encaixe em silêncio, na tentativa de acalmá-lo ao mostrar que sim, ainda estava ali, e sempre estaria. Assim que percebeu o fim do discurso explosivo, ela reergueu o olhar, cheio de lágrimas, se desvencilhou, e caminhou até seu irmão. Uma vez próxima o suficiente, buscou o encontro das orbes verdes. “Será que a gente pode conversar sobre isso depois? Só eu e você?” Pediu, com o tom de voz baixo e frágil. “Eu não quero que vocês briguem.” Admitiu, deixando os ombros caírem ao assumir uma postura reclusa. “Eu e o piá tamo nessa pra valer, Nat. Nunca foi qualquer coisa. Sabe aquele ditado que quando não der pra fugir é amor? Pois então, não deu pra fugir... A gente bem que tentou.”


















