A little party never killed nobody. | Jesse & Paul | Flashback
ㅤㅤㅤㅤㅤFestas, como adorava repetir um muito alcoolizado Jesse Custer à pessoas desconhecidas, consistiam em uma simples equação com apenas quatro variáveis.
ㅤㅤㅤㅤㅤ“The first one”, dizia o rapaz enquanto estendia um de seus ossudos dedos. Os cabelos louros caindo por sobre os olhos em uma eterna teimosia aos constantes abanos de cabeça que tentavam ajeitar os fios prateados “It’s the place. You can’t have a party without a place. And the quality of it decreases in inverse proportion to the success of the night.” ㅤㅤㅤㅤㅤA essa altura, haviam no mínimo cinco pares de olhos voltados a ele. Era uma roda de amigos, no primeiro andar de uma casa velha e há muito abandonada. Não lhe importava se havia uma nota de impaciência oscilando por detrás da íris de um dos rapazes, ou se duas das meninas não se encontravam mais sóbrias o bastante para compreender suas palavras. Era a atenção que importava. Ele gostava de ser visto. Melhor: de ser notado. Jamais fizera diferença a ele sobre a impressão que ficaria, porém a ideia de ser importante o bastante para atrair a atenção de diversas pessoas em um único momento o fazia sentir vivo. Como se aquele breve momento no qual tentava balbuciar palavras por entre sua língua solta de bêbado o tornasse eterno. ㅤㅤㅤㅤㅤLembrariam na noite seguinte que Jesse Custer estava novamente dizendo besteiras. ㅤㅤㅤㅤㅤLembrariam que ele havia bebido tanto que desistira de tentar se pôr de pé e permanecera no chão, recostado a uma das paredes com a cabeça pesando por sobre os ombros. ㅤㅤㅤㅤㅤLembrariam dos rapazes com os quais arrumara confusão. ㅤㅤㅤㅤㅤLembrariam das garotas que ele beijara. ㅤㅤㅤㅤㅤE se, daqui a uns anos, qualquer pessoa tentasse se lembrar daquela festa, se lembrariam apenas de Custer. ㅤㅤㅤㅤㅤO eterno Custer. ㅤㅤㅤㅤㅤ“The second one, luv, is the music.” Ele sussurrou ao ouvido de uma garota de cabelos descoloridos que em algum momento havia se sentado em seu colo. Ela não ouviu - a música não permitia conversas – porém sorriu mesmo assim. Talvez em resposta ao roçar dos dedos do rapaz em sua bochecha. Estavam no segundo andar e tudo o que Jesse podia assimilar eram as silhuetas de corpos dançando a um único ritmo. “There’s no good party without music. People would have to talk then, and do you know who likes to talk? Old people.” ㅤㅤㅤㅤㅤEle não entendia, ao se lembrar na manhã seguinte, o que acontecia em por entre aos flashes de momentos da noite que voltavam à sua memória. De como havia saído do centro de um grupo de amigos e ido parar no andar de cima com uma garota em seus braços. Ou de como subira mais um lance de escadas, então, e encontrara Andy e mais três rapazes no banheiro, a revezar por sobre uma pilha de pó branco. ㅤㅤㅤㅤㅤ“The third one... The booze. And obviously… The drugs. How do you expect to have fun without any Heaven Dust? What are you, my grandma?” ㅤㅤㅤㅤㅤE ele piscava e não mais se encontrava na imunda cabine do banheiro. Havia uma suave brisa acariciando-lhe o rosto e movimentando o leve tecido de sua desalinhada camisa. Ele percebeu que estava no telhado do mesmo modo que soube que poderia voar caso se aproximasse demais da beirada: apenas roube. Pensou em fazê-lo e permaneceu por um instante com os braços abertos e os olhos fechados. A queda de três andares a poucos passos de si. ㅤㅤㅤㅤㅤHavia um rapaz, porém. ㅤㅤㅤㅤㅤPor mais que Jesse tentasse compreender o que se passara em sua mente naquela noite, não conseguia justificativas para que não houvesse saltado. Não havia motivo para que se afastasse da beirada e fosse em direção ao quieto rapaz de óculos recostado à parede próxima à porta da qual surgira. Talvez fosse sua estranha quietude, como se tivesse tanto a dizer que a melhor escolha fosse o silêncio, ou talvez ele apenas precisasse de alguém para terminar de contar sobre a última variável da equação. ㅤㅤㅤㅤㅤ“The fourth... And last one...” ele murmurou conforme caminhava pelo chão de concreto, sentindo como se os tênis surrados deslizassem por sobre a áspera superfície acinzentada. Ele se sentou ao lado do rapaz de cabelos muito negros e passou um dos braços por sobre seus ombros. “The people. You can’t have a nice party without nice people, am I right?” ㅤㅤㅤㅤㅤJesse Custer tinha o costume de ir a mais festas do que o recomendado. Se juntasse todas as memórias que tinha de todas as ações que fizera em todas as festas que contaram com sua presença, não poderia contar nos dedos de ambas as mãos. Se lembrava daquela, porém, com todos os detalhes à partir daquele momento. De como sentia seu coração acelerado e de como as estrelas pareciam pulsar em conjunto a seu ritmo cardíaco. E, ao mesmo tempo, de como sua fala era pausada, sua língua parecendo deslizar pelo fim de cada uma das frases ditas. Se recordava de como o vento lhe bagunçava os cabelos e do momento exato no qual decidira se deitar nas pernas do rapaz desconhecido a seu lado e de como ele prendera a respiração quando os dedos de Jesse passaram pelos aros negros de seus óculos e o retiraram de seu rosto. O louro os colocou e franziu o cenho diante da imagem embaçada diante de si. ㅤㅤㅤㅤㅤJesse jamais fizera questão de se lembrar de qualquer coisa que fizera em uma festa. ㅤㅤㅤㅤㅤExceto por aquela. ㅤㅤㅤㅤㅤPorque fora a festa na qual conhecera Paul Bailey.








