Desde o começo, as reações do mentor do Distrito 3 chamaram a atenção dos cidadãos de Panem. Primeiro o pesar, o luto antecipado de ver seu filho ser sorteado como tributo. Depois, o peito estufado, os olhos enraivecidos, a vermelhidão da face que era incapaz de esconder o ódio da Capital. Os vitoriosos mais antigos já conheciam a rebeldia e violência intrinsecamente ligados a Cassimer Kryos, que não media esforços para salvar todos que pudesse. Os tributos do Distrito 3, diziam, eram os mais sortudos, porque tinham alguém que ainda se importava. Daquela vez, mais do que nunca, a raiva do mentor crescia e, junto disso, as aspirações rebeldes de pai e filho também. Juntos, eles eram uma bomba relógio, contando os segundos para explodir.
Era o quinto dia dos tributos na Capital e os preparativos para o Desfile começavam a preencher boa parte da agenda dos tributos, mentores e equipes. Quando não estavam treinando sorrisos, tirando medidas e fazendo provas de maquiagem, os tributos estavam treinando. Aulas de todos os tipos eram oferecidas, das mais necessárias para combate às que garantiriam água potável, e todos foram instruídos a tirar o maior proveito do acesso à informação. Todos estavam lá, menos o tributo masculino do Distrito 3 e seu mentor.
O sinal alto que indicava o toque de recolher para os andares dos Distritos tocou mais cedo, mas ninguém reclamou. Estavam exaustos. Recolheram-se nos andares, usufruíram dos chuveiros com água quente, das camas macias e, mais tarde, do jantar farto servido. Dentro de cada andar, tudo estava calmo. Exceto no 3, onde, sem fazer barulho e sem que ninguém soubesse, uma grande equipe de pacificadores e idealizadores dos Jogos entravam e saíam, deixando a tributo e sua mentora trancadas num único cômodo, sem saber o que estava acontecendo. Muitas horas depois do jantar, quando a maioria já estava dormindo, essa mesma equipe passou correndo pelos corredores, dirigindo-se até o lado de fora com agilidade e sumindo na noite. Quem estava acordado de madrugada certamente viu pela janela quando a tropa completa correu na mesma direção.
No dia seguinte, o ar estava diferente. Havia alguma coisa errada, mas ninguém sabia dizer o que. As câmeras pareciam focar mais em todos, observá-los mais, se é que isso era possível. O café da manhã não tinha cheiro nem sabor, mas parecia emitir um sinal de alerta. A programação seguiu normalmente, com os últimos preparativos para o Desfile sendo organizado. Os barulhos da madrugada eram mencionados aos sussurros, mas ninguém sabia dizer o que havia acontecido, nenhum boato corria ainda.
Após o almoço, todos os tributos e mentores foram escoltados até o subsolo do Centro de Treinamento, escoltados por uma equipe de segurança muito maior do que o habitual. Quando as pesadas portas de metal se abriram, todos os olhos se voltaram à mesma direção e, tão logo todos entenderam o que viam, o horror e caos tomou conta.
No centro do espaço cinzento, grossas correntes de ferro desciam do teto. Os olhos mais atentos seguiram o brilho metalizado, que os guiava até o ponto central do espetáculo: o corpo ensanguentado de Cassimer Kryos, pendurado. Os braços se erguiam acima da cabeça, esticados, enquanto os ombros adotavam ângulos anormais, tornando a figura animalesca. Não parecia haver vida ali, mas o leve movimento do peito, buscando oxigênio, demonstrava o contrário.
Ao lado de Cassimer, o Chefe dos Idealizadores, Seneca Crane, mantinha a postura inabalável, embora a expressão indicasse que não dormia desde a noite anterior. Esperou que a equipe de pacificadores empurrasse os tributos para mais perto, a poucos metros de distância da poça de sangue no chão, para que começasse a falar de maneira calma, mas firme:
“Ontem à noite, Cassimer Kryos tentou acessar o sistema de segurança deste prédio. O objetivo era facilitar a fuga de seu tributo e esse é o preço desta infração gravíssima. Que sirva como advertência aos demais mentores e tributos: não confundam amor com subversão.”
As palavras saíram de forma robótica, sem demonstrar qualquer emoção sobre o corpo pendurado, muito menos com as reações dos tributos e mentores, que logo seriam contidos pela equipe de pacificadores. Exceto pela voz da tributo do Distrito 3, que se desvencilhou das mãos de sua mentora e avançava na direção de Cassimer e Seneca. O Chefe dos Idealizadores não se moveu um centímetro sequer, nem demonstrou qualquer interesse pelos gritos da tributo:
“É mentira! É mentira! Isso é manipulado!”
Ela gritava, entre lágrimas, antes de ser interceptada pelos pacificadores e carregada para fora.
Com um gesto rápido, todos os outros foram encaminhados para seus respectivos andares, onde ficaram pelos próximos dois dias.
✷ INFORMAÇÕES OOC ,
No Capítulo 3, estamos explorando do 5º ao 8º dia dos tributos e mentores na Capital.
⸻ 5º dia: Treinamento + agitação da madrugada.
⸻ 6º dia: Encontro com Seneca Crane.
⸻ 7º e 8º dias: Eles ficarão trancados no quarto.
Interações em todos esses dias estão liberadas. Aguardem o próximo Capítulo para interagir nos dias seguintes!
Lembrando que, trancados nos andares, eles são podem interagir com os membros do mesmo distrito.
Estou disponível para esclarecer qualquer dúvida! Sugestões para os próximos Capítulos são sempre bem vindas.
Com esse Capítulo, a página de pontos foi atualizada.
looking off 𝐢𝐧𝐭𝐨 𝐭𝐡𝐞 𝐧𝐢𝐠𝐡𝐭, search the horizon ʷ͟ᵃ͟ᵗ͟ᶜ͟ʰ͟ⁱ͟ⁿ͟ᵍ out for 𝒔𝒎𝒐𝒌𝒆 𝒂𝒏𝒅 𝒇𝒊𝒓𝒆 . you 𝑘𝑛𝑒𝑤 this day would come, you aren't the 𝒐𝒏𝒍𝒚 𝒐𝒏𝒆. and so it 𝐛𝐞𝐠𝐢𝐧𝐬 —— 𝖆𝖓𝖉 𝖘𝖔 𝖎𝖙 𝖇𝖊𝖌𝖆𝖓 .
havia risada, como sempre existia onde wallace se inseria, e o calor de ser acolhido por alguém que queria do fundo da alma que seu distrito prevalecesse na vitória; e era mais do que apenas o orgulho, o qual não nega em momento algum, mas sua questão havia se tornado do coração também — família por proximidade, sua primeira família —, como era suposto que simplesmente deixasse que aquele sangue se juntasse às máculas que se entalharam além de sua derme, marcam a alma, e perturbam a psique?
era paradoxal, porque desejar que vençam significa que deseja sobre eles todas as assombrações que seguem os dias sangrentos gloriosos, mas estariam vivos e não era isso que deveria importar? estariam vivos e as risadas — mesmo que regadas de nervosismo — que preenchiam o corredor até o centro do treinamento prevaleceriam. a equipe, ombro a ombro, voltaria para casa como chegaram ali — ele podia sonhar, certo?
havia risada e, então, havia nada. apenas o filete de sangue escoando pelos espaços entre os ladrilhos, o cheiro inconfundível — a morte estava ali. algo que não deveria ser — não era — estranho para wallace, mas naquele momento há a sensação que o sangue em suas veias se solidifica, o frio... ah, não se compara com o costumeiro ar frio do alojamento, a sensação é glacial. suas mãos se estendem para conter a sua equipe um passo atrás de si, como um escudo, não consegue impedi-los de ver aquilo, mas faz o que pode para não entrarem na zona de caos e impedir de serem compelidos pelos pacificadores — não queria que tocassem neles.
memórias da noite anterior invadem sua mente como se tomassem seus devidos lugares na narrativa, fazia sentido, no fim. os barulhos, o batalhão que se seguiu na escuridão, a tensão, o sangue no olhar de kryos — o mesmo de muitos ali, mas havia algo mais… algo suicida. bem, ultrapassaram aquela barreira quando o deixaram ali para morrer, como exemplo, era homicídio.
não havia vínculo concreto com o homem, mas a partir do momento em que são obrigados, anos após anos, conviverem sob aquelas circunstâncias macabras, é claro que se conheciam — conheciam a dor, o trauma, os pesadelos… aquele sangue nas palmas, prémios que todo vitorioso carrega, quer eles admitam ou não. e wallace… ah. guarda seus traumas com tanto afinco que, por meros instantes, ele consegue se convencer de que não estão, de fato, ali.
finge que a cena não o apavora, que apenas partilha do pânico geral… diz e repete para si mesmo que o suor frio que escorre pela nuca é uma reação normal, que as mãos trêmulas no bolso de dentro de seu casaco — onde manteria sua faca se pudesse — eram apenas um mecanismo de defesa… porque se admitisse para si mesmo que era uma memória muscular, então teria que admitir que sua memória falha e suas lembranças se embaralham; havia matado alguém e pendurado daquela maneira há algum tempo… deixou o sangue escorrer como uma mensagem… era… obra sua? aquele caos.
racionalmente sabe qual a resposta para aquilo, sabe o quão absurdo é sequer considerar alguma parcela de culpa… mas então ele encara a figura distorcida de cassimer kryos e enxerga nas feições torturadas o rosto sem cor do tributo do distrito oito, aquele que ace rasgou a garganta e pendurou… quase daquela maneira, para a sangria — quão cruel… era seu primeiro abate e sequer se recordava do nome, apenas a face petrificada em medo… como se não fosse uma pessoa, mas apenas um sentimento: trauma. —, e então está de volta à arena com a corda ao redor do pescoço e a faca na mão, matar ou morrer.
em algum momento seria capaz de agradecer pela dádiva de ter sido desprovido de cada lâmina que carregava em si como uma armadura, porque falha em responder por si quando os pacificadores avançam na tentativa de conterem e guiarem a plateia amaldiçoada daquele espetáculo barato com texto pobre — que caralho era subversão mesmo?! sequer existia aquela palavra em seu vocabulário limitado, mas uma palavra que ele conhecia se encaixava como uma luva para seneca: pretensioso do caralho —, os gritos da garota ecoam pelas paredes maciças enquanto deixam o centro de treinamento e seu cheiro pungente para trás, mas para ace soa como outra coisa, nunca está realmente para trás, está? gritos de uma presa apavorada em um campo aberto, estado de alerta e o instinto de aniquilar.