Você já tem dezesseis, mas não sabe mais nada sobre o amor
Você tem treze anos, cursa o nono ano e é a revolta em pessoa, mas ninguém procura saber o por quê.
Português é sua matéria predileta no colégio, você ama escrever e entender o que já foi escrito, mas na verdade, é mais complicada que matemática. Os números são constantes e você consegue ser mais.
Você odeia Capitu e Bentinho e acredita, lá no fundo, que eles não sabiam nada sobre o amor e que até você, que é tão estabanada pode ter um romance melhor e mais bem vivido.
Seu pai e você não moram juntos, ele só volta pra casa dele de madrugada, e você sabe que as vezes ele nem volta. Ele e sua mãe não se falam desde que você tinha dois anos e isso te confunde, porque eles poderiam se completar e construir coisas incríveis juntos. Mas eles não querem... Um nem cita o nome do outro; então você resolve deixar isso pra lá de uma vez por todas.
Você nunca foi crente no amor, mas de um dia pro outro, o garoto começou a te perseguir. Quando você ia no shopping, lá estava ele. Quando você ia tomar açaí, lá estava ele. E então você começa a reparar, porque realmente é coincidência demais e chega a perecer proposital.
Você se matricula na natação e assim que veste aquela roupa ridícula, adivinha só quem estava na piscina? Isso mesmo. O sorriso malicioso, o moicano, aquela blusa da Everlast preta e o tênis da puma estão em todos os lugares, e em todas as pessoas também.
A primeira vez que vocês se esbarram no corredor do colégio é tudo muito rápido. Ele te abraça, te dá um beijo em cada lado do rosto e segura suas mãos enquanto pergunta se você está bem. Você sabe que ele acabou de terminar um relacionamento de três anos com uma menina baixinha, com olhos claros e a voz mais irritante que você já ouviu… Mas você não toca no assunto porque sabe o quanto ainda mexe com ele.
Ele já é maior de idade, faz uma faculdade que parece até afronta pros pais dele: Educação Física. O pai dele é engenheiro e ele foi criado a pão-de-ló pra que seguisse os passos do pai, mas como ele é marrento, ele quer fazer o que sempre fez bem pra ele, mesmo que não dê futuro algum. Por que é que você esperou pra se permitir reparar em todas as qualidades devastadoras que ele tem? A sua única certeza é que ele nunca terá olhos para você.
Numa terça-feira ele literalmente te esbarra na frente do bebedouro do colégio porque você está desatenta como sempre. Você só passou pelo colégio pra pegar um copo de água. Está pronta pra se encontrar com seu amigo: Com uma camiseta branca e um shorts jeans. Ele fala bem baixinho, quase que só pra ele: “Belas pernas”. Você pensa nisso pelo resto do dia.
A primeira vez que ele te vê chorando perto do vestiário da natação, ele te pergunta o que há e tudo o que você faz é apoiar as costas na parede e ir sentando o mais lento que você pode pra não causar um impacto nas suas costas. Você enfia o rosto entre os joelhos e ele só pergunta com a voz mais doce e ordinária do mundo o que houve. Você se sente especial. Por que? Porque você é frágil.
E a primeira vez que vocês se beijam? É festa na casa dele, você está lá e entra no quarto dele pra pegar alguma coisa, que na verdade, você nem se lembra o que é até hoje, porque o motivo de você ir pra lá é fuçar as coisas dele. Ele entra atrás de você e antes de perguntar alguma coisa, ele simplesmente encosta seu corpo na porta e te beija com uma vontade inigualável. Você se confunde.
Na semana seguinte, tem outra festa. Você bebe e nesse dia, você está realmente esperando um beijo dele, porque quer sentir se é tão bom quanto pareceu na primeira vez. Depois que você já está quase bêbada, ele senta numa cadeira num canto reservado da festa e te puxa pra cima dele. Você cede, porque é pelo que estava esperando e provavelmente o motivo de você estar nessa festa. Você sempre preferiu ficar em casa, mas nesse dia foi diferente. Seu lado bêbado fala mais alto e você tem coragem de abrir e fechar as mãos no cabelo dele pra poder ter certeza que ele é tão macio quanto parece: E é.
O álcool da boca de vocês se mistura. Tequila, vodka, catuaba e whisky. Você quase se culpa por não lembrar detalhadamente na semana seguinte, mas sabe que se não fosse pelo seu estado alterado, vocês não teriam se beijado.
Os meses passam e ele sempre arranja uma desculpa pra ir te ver, agora. Mesmo não assumindo pra ninguém, ele também tem a barriga agitada quando vocês estão jutos e ele assume isso pra você quando vocês estão de mãos dadas numa madrugada qualquer no seu quarto.
Um dos beijos mais marcantes entre vocês foi em um dia que ele foi na sua casa, e enquanto os pais dele e sua mãe conversam, ele vai até a garagem (que é seu esconderijo preferido), te encosta numa parede e te beija. A cintura dele está sendo pressionada contra você e você se sente a garota mais feliz do universo.
Vocês começam se ligar durante a noite e você mal se importa com as olheiras que estará no dia seguinte na escola as sete da manhã. As ligações duram três, quatro horas. Vocês dormem quase todos os dias no telefone, você está sempre desatenta e com sono… Mas quem se importa? Ele é seu. Sua melhor amiga praticamente tem uma síncope quando sabe que vocês estão juntos.
No verão, vocês viajam juntos pra praia e ele pula a janela do quarto dele e entra no que você está dormindo com suas primas. Ele esbarra nas coisas e acorda a casa inteira. Você tem que dar uma desculpa esfarrapada dizendo que estava morrendo de medo e jurava ter visto uma barata e chamou ele pra ir te ajudar. Enquanto isso, ele está na sua cama quase rolando de tanto rir.
Depois disso, todos vão dormir e você se senta no chão da sala com ele, de pernas cruzadas e vocês conversam sobre tudo e sobre a vida inteira. Você entrega todos os seus medos pra ele e ele faz o mesmo. Você finge não estar nervosa pelo fato de vocês estarem de mãos dadas há duas horas. Vocês vão dormir.
Na semana seguinte, suas primas voltam pra casa e você fica sozinha no quarto. Logo, ele foge do quarto dele todos os dias e pula sua janela as duas da manhã. Vocês dormem abraçados, trocam confissões em sussurros mas tudo é com um respeito inigualável. Vocês sempre se beijam e ele vai embora assim que começa amanhecer. Ele faz isso as férias inteiras.
Depois disso, vocês começam a trocar olhares bobos nos corredores do colégio ou quando se encontram em algum lugar, você realmente acredita que ele está tão perdidamente apaixonado quanto você; mas ele não está. Nunca esteve.
A primeira vez que vocês vão pra cama é no sofá da casa dele. Os pais dele foram ao mercado e ele te liga. Que droga, garota! Você não tem medo do perigo?
Como dessa vez não tem álcool no seu sistema, você se lembra de tudo. Da forma como as peças de roupa sumiram, da forma com que suas unhas marcavam as costas dele e da forma com que a cabeça dele sumia entre suas pernas. Você e ele tem os movimentos dos quadris compassados. Ele suspira seu nome entre as respirações pesadas.
Agora, vocês também trocam sorrisos. Você pensa que isso é realmente o começo de algo, mas não é.
Você anda desatenta e sua mãe percebe, ela te pergunta o que há de errado e você não sabe responder. Vocês discutem e ela diz que você é idêntica ao seu pai. Você se tranca no quarto pra chorar e liga pra ele.
Depois do que aconteceu no sofá você promete que nunca mais vai acontecer. E realmente, no sofá dele nunca mais aconteceu. Só no banco de trás do carro dele, no seu sofá e na sua cama. Você tenta imaginar que ele geme o nome de todas as garotas entre as respirações, move os quadris da mesma forma, tem o mesmo mimimi com todas… Você não quer ser só mais uma, mas como está vulnerável e se deixa levar, você é. E acontece de novo, e de novo.
Você senta na borda da piscina um belo dia e ele te pergunta umas dez vezes seguidas o que são aquelas marcas na sua perna e você reluta pra responder, chega a ser rude. “Não é da sua conta, garoto!”. Você mergulha antes dele poder dizer mais alguma coisa.
Depois da aula, ele te chama pra conversar e te puxa pelo braço. Você solta um gemido, porque seu braço está machucado e ele percebe. Ele olha no fundo dos seus olhos e diz: “Qual a graça de ficar se destruindo, garota? Você é retardada?”, logo ele entra no carro, olha pra você pela janela e diz que ele precisa contar isso pra alguém e você praticamente se humilha pedindo pra que ninguém mais saiba, já que você é tão discreta.
No sábado, ele vem na sua casa acompanhado dos pais e eles entregam o jogo pra sua mãe. Seu mundo cai. Você sobe correndo pro quarto e antes mesmo de poder trancar a porta, ele se coloca na frente e te abraça. Você sabe que ele faz mais por obrigação do que por realmente se importar, mas aquilo te faz confortável, então você permite.
A real? Você nunca foi a garota popular. Você nunca foi bonita, delicada, feminina… Nunca teve amigos e nem sabe como é isso. E não, você não é sem sal como as garotas dos filmes e livros que são descritas dessa mesma forma… Você é cheia… De você. De filmes e livros estranhos, de um gosto musical vasto e é rodeada por pessoas estranhas. Ninguém nunca prestou atenção em você, nem quando você se estressou e pintou o cabelo de vermelho sangue. Mas você se sente confortável e confiante. Sabe por que? Porque ele presta atenção em você.
Ele gosta que você solte o cabelo, que você arranhe as costas dele e de beijos no pescoço… Mas pera lá!, nada de chupões. Ele é macho demais pra andar por aí com a prova do efeito que só você pode causar nele.
O problema? Você ama estar por baixo dele, em todos os sentidos e gosta de se sentir humilhada e rebaixada, além de gostar da forma com que ele te chama de “boa garota”. Sua melhor amiga não entende por que você continua se humilhando pra ele se desde que ele descobriu que você tinha problemas com você mesma ele sumiu da sua vida de uma forma devastadora.
Sua professora de português descobre que você escreve e pede pra ver. Você mostra mas não conta sobre o que se trata, ela não iria entender. Sua psicóloga não te entende, sua mãe e você não conversam e seu pai sumiu no mundo. A única coisa que resta é realmente você escrever. Você mostra pra ela um texto todo cheio de olhos amendoados, sorrisos maliciosos, um amor doente por um cara que bebe, tem do bom e do melhor por conta dos pais e mesmo assim, é um tremendo babaca. Ela diz que é muito bom e como vocês estão estudando sobre crônicas, ela deixa o seu texto no mural do colégio por alguns dias.
Ele vê e vai te parabenizar. Solta a mão de uma garota que você não sabe quem é, vem, te dá um beijo no rosto e um abraço frio e diz “você pode ir longe com isso”. Mas ele não diz isso como quem leu e gostou, ou como quem odiou e queria mais rasgar aquilo. Muito menos como alguém que leu, soube que era o protagonista e quis ir te dar algum tipo de satisfação. Só como alguém que se sentiu praticamente sendo empurrado pra te dar um abraço frio.
A garota o puxa pelo braço e tudo o que você pensa é “será que ela sabe que ele tem que tapar minha boca pra eu não gemer tão alto?”, “será que ela sabe que o texto é sobre ele?” e o pior, “será que ele também chama ela de boa garota?”.
Tudo o que você quer é falar com um cara que você conheceu e que deve ter uns 15 anos a mais que você e perguntar se ele pode ir te abraçar, oferecer de dar uma surra no garoto babaca ou simplesmente… Saber como agir, já que ele já foi um garoto. Mas ele não te atende. Você sabe que ele se colocou no mundo e sumiu da vida de todo mundo, porque ele também não estava aguentando e por ser maior de idade, ele pode sumir pra respirar um pouco. Na verdade, falar sobre qualquer coisa com esse cara adiantaria, afinal, ele te faz rir do nada.
Você fica sozinha em casa, chama o garoto e pede pra ele não ser gentil e educado com você. E acontece. Sua mãe repara nas marcas roxas e redondas pelo seu corpo e você diz que caiu, você é tão estabanada! É mais fácil do que explicar pra ela que aquele garoto que ela ama que te faça companhia e você estão transando e que é só isso. Não que seja só isso pra você, mas é só isso pra ele.
Você mal escuta sua mãe, responde mal e ela te ataca. Vocês discutem feio e ela diz que você merece a vida que tem, que devia mesmo ir morar com seu pai. Você não fala com seu pai há semanas, aquilo te atinge e você se tranca no quarto. Você liga pra ele e ele vai te ver. Você está no seu limite, e ele percebe isso… Mas não se importa. Ao invés de perguntar o por que de você estar chorando, vocês transam e ele vai embora.
A partir daí, você se lembra da garota que anda de mãos dadas com ele… Você se lembra das fotos que eles colocam juntos e você se atinge. Por que é que ele não pode fazer isso com você? Se orienta, garota. Ele só te usa. Ele não quer te beijar em público, nem te cumprimenta e durante a madrugada ele diz que te ama e que ela é só alguém que ele teve uma atração física filha da puta por ela.
Você jura que nunca mais vai achar Romeu e Julieta uma história ruim. Você agradece por no seu romance não haver nenhuma morte.
O garoto não te lança mais olhares nem sorrisos, muito menos pula sua janela. Seus sms são ignorados, todas as chamadas caem na caixa postal. Se você soubesse que aquela era a última vez… Será que você é só mais um caso de “por que não?”?
Você se sente quebrada. Sempre há alguém pra estragar ou interromper o lance de vocês, por mais que ele negue que há sentimento: há.
Você tem quinze anos, daqui um mês completa dezesseis e o garoto que pulou sua janela durante dois meses e te colocou em segundo plano por quase dois anos toca a campainha depois de meses sem dar sequer um sinal de fumaça. Você saiu da natação, que era o único pretexto pra vocês se verem.
Ele entra na sala, pergunta se você está sozinha e você diz que sim. A imagem dele por cima de você, a lembrança de tudo volta e suas bochechas ficam coradas… Vocês nem se cumprimentam.
Você se recompõe, ele pede desculpas por tudo. Diz que foi rude. Diz que se arrepende até de coisas que você não sabia que era ele que tinha feito… Você quase amolece. Quase. Ele vem te beijar e você quase cede. Caralho, garota, você não aprende? Você quase quebra quando ele diz “eu queria poder voltar no tempo e ter sido menos babaca com você, amora”.
Você quer escutar, mas sabe que o mais racional é mandar ele embora e é isso que você faz. Ele desiste e vai embora por saber que não vai ter o que ele quer: sexo, pegação. Ele fez isso durante tanto tempo, por que ia ser diferente agora?
Agora, você tem dezesseis anos… E não sabe absolutamente nada sobre o amor.