Capítulo 101 - Porra, Matt!
Continuei abraçado com ela, tentando me convencer de que tudo o que tava acontecendo era mesmo verdade, até o Fred interromper.
Fred: Cara, muito legal vocês dois e tal, mas a gente já tá ficando constrangido aqui.
Alícia: Constrangido? Logo tu, Fred? Não to te reconhecendo...
Ele sorriu. Parece que curte quando as pessoas falam do seu jeito sem noção.
Fred: To zuando. Só to com fome mesmo.
Fred: Olha só quem fala! Quem te vê com essa cara de mendigo nem imagina que tu fumou a viagem inteira, né?
Alícia: Gente, eu não sei cozinhar nada que precise ser feito fora do microondas.
Todos se entreolharam, famintos.
Fred: Thommo, abortar missão. Tu não vai casar com essa aí.
Alícia: Mas a Mari faz os melhores lanches que eu já comi! Vem cá, Mari.
Eu sabia que aquela loira retardada era a Mari. Só podia ser. Quando a Alícia chamou, ela tava toda encolhida no canto, parecendo um cachorro que acabou de apanhar depois de fazer merda. E fui eu quem bati, aparecendo aqui do nada. Meio tímida e mal humorada, ela deu um sorriso falso e veio até a Alícia.
Alícia: Meninos, essa é a Mari, minha melhor amiga.
Meninas são engraçadas. Até meses atrás, a melhor amiga era a idiota da Maira, aquela guria doida que eu tirei a virgindade e até hoje não sei o que eu tava pensando quando fiz isso. Tenho a impressão de que conheço o Matt desde o útero, mas demorou uns bons anos até eu pensar nele como meu melhor amigo. E demorou mais ainda pra eu falar.
Alícia: Mari, esse é o Thom, meu namorado, esse é o Fr...
Beleza. Foda-se qualquer palavra que ela tenha dito depois daquilo. Eu olhava pra ela e via a boca se mexer, mas nenhum som saía de lá além da frase que ficou se repetindo na minha cabeça: "Esse é o Thom, meu namorado.... Esse é o Thom, meu namorado... Esse é o..."
Eu: Oi! - acordei. Acho que fiquei vermelho na hora.
Alícia: O Fred disse pra tu apresentar o Carlão, que é teu amigo.
Olhei pra ele, que tava meio preocupado com o que eu ia dizer. Eu tava proibido de mencionar qualquer coisa relacionada a Z Club por aqui. Muito menos tráfico de drogas e Crystal.
Eu: Ele trabalha comigo. No bar.
Ela olhou aquele carro foda por cima dos meus ombros, parado bem em frente a casa dela. É, talvez falar em bar não fosse tão convincente.
Eu: É, no bar. Um bar muito legal.
Carlão: Meninas, muito prazer. Conheço o Thom de uma rede de bares que nós trabalhamos. Nosso chefe é uma figura e gosta muito da gente, até emprestou o carro depois de ter ouvido a história do Thom sobre vocês.
Alícia: Tu fala da gente pras pessoas?
Ela ficou me encarando, sorridente.
Abraçou meu pescoço tão forte que eu parei de respirar. Boa, Carlão. Acho que ele já tá acostumado a ter que enrolar as pessoas com essa conversa de bar e chefe rico.
A Alícia me soltou e olhou meio assustada pro Matt.
Alícia: Tu parece que apanhou.
Matt: Sem querer incomodar, mas preciso comer alguma coisa pra melhorar minha cara.
Alícia: Claro! Vamos entrar.
A casa da Alícia era exatamente como eu imaginava. A sala, que ficava logo na entrada, era grande e espaçosa, com uma janela gigantesca em cima de um dos dois sofás de cor clara, que tinham tipo uma manta colorida por cima. Tinha uma TV não muito nova, mas grande, e um tapete no centro. Do outro lado da sala, tinha um som e uma estante com livros. No fundo, ficava uma mesa quadrada de madeira com quatro cadeiras e um balcão tipo de cozinha americana. Atrás do balcão, tinha uma cozinha. Óbvio. E do lado da cozinha, tinha uma escada vazada que dava pro andar de cima.
Tava tocando uma música bem calminha, do tipo que a Alícia gostava, e vinha um cheiro de pão torrado da cozinha. Nem preciso dizer o quanto a república dela era diferente da minha. Pra começar, a minha tinha cheiro de álcool e não de pãozinho. Enquanto a Alícia apresentava a casa pra gente, a chata da Mari manteve sua cara de cu, saiu andando na nossa frente e se sentou em um dos banquinhos do balcão.
Alícia: Gente, essa é a sala, ali atrás fica a cozinha e...
Assim que entramos, o Fred saiu correndo e se jogou em um dos sofás de mola, que o fez pular umas três vezes antes de se ajeitar.
Alícia: ... Fiquem à vontade.
Fred: Bem louco esse sofá, mano! Por que a gente não tem um desse?
Eu: O endinheirado é tu. Por que tu não compra?
O Fred me ignorou completamente, ligou a televisão e mandou o foda-se pra todos nós quando colocou os braços atrás da cabeça e relaxou no sofá.
Carlão: Só moram vocês duas nessa casa grande?
Alícia: Mais ou menos... Tem quatro quartos, de vez em quando moram outras meninas aqui por um tempo, mas só eu e a Mari ficamos direto.
Eu: Grande mesmo, cara. A gente mora em quatro em um apartamento de dois quartos. Vocês tão numa boa.
Carlão: Eu já cheguei a morar com vinte pessoas na adolescência.
Ficamos viajando nessa de morar com outras pessoas até o Matt interromper.
Matt: Olha, eu não quero atrapalhar, mas eu to quase vomitand...
Aí ele ficou branco e botou a mão na frente da boca. Coitado do Matt, o cara tava acabado antes da festa começar, como sempre. Eu lembro quando a gente era criança e ele sempre passava mal depois de almoçar na minha casa, mas mesmo assim almoçava. Acho que era pra não fazer desfeita pra minha mãe.
Eu: Aguenta aí, Matt. Onde fica o banheiro?
Alícia: No andar de cima. A primeira porta à direita.
Agradeci com um selinho e peguei o Matt pela mão pra levá-lo até o banheiro. É meio complicado subir as escadas com uma das mãos na boca e com vontade de vomitar, mas ele conseguiu. Entramos na primeira porta à direita e ele abraçou a privada como se fosse sua melhor amiga. Acho que era naquela hora.
Fiquei me olhando no espelho enquanto rolava a trilha sonora de vômitos do Matt. Pessoas normais ficariam com vontade de vomitar se estivessem no meu lugar, mas já tive que socorrer tanto amigo passando mal que nem me importo mais. Depois de alguns minutos, ele fez um som diferente.
Me sentei no chão, do lado dele. Tava mal, mas pelo menos tinha parado de vomitar. Acho que era porque já não tinha mais nada no estômago dele.
Eu: Relaxa. A gente já saiu do carro, daqui à pouco tu melhora.
Matt: Pode crer. Não precisa ficar aqui comigo. Pode descer pra ficar com a Alícia, se quiser.
Eu: Tranquilo. Fico aqui contigo.
Matt: Sério mesmo, pode descer.
Eu: Larga de cu doce, Matt.
Ele limpou a boca vomitada e sorriu pra mim, sem mostrar os dentes, meio exausto. Se sentou no chão também, encostado na privada.
Matt: É... As coisas tão começando a dar certo.
Ficamos quietos, pensando. Será?
Matt: O que tem? Tu falou com ela?
Não existe cara mais fechado do que o Matt. Nem eu consigo ser. É sempre assim: ele fica segurando e guardando tudo pra si, até que uma hora ele explode, como no dia em que ele ficou retardado e a traiu, depois chorou no meu ombro como se fosse uma criança. Foi o dia mais esquisito de todos. Acho que ele sabe tanto sobre as pessoas e sempre sabe o que eu to sentindo porque observa muito, sem nunca falar dele mesmo. Mas ele não precisava falar. Eu sabia que ele e a Larissa não tinham mais nada. O Matt não conseguiria ficar com ela depois do que fez na festa. Não o Matt.
Eu: Tá ligado que aqui ninguém te conhece, né? Tu pode fazer o que quiser.
Eu: Ficar bem louco, surtar, conhecer umas meninas. Fazer tudo diferente por pelo menos alguns dias.
Ele olhou pro nada, pensativo. Depois sorriu.
Eu: Tem todo o meu apoio.
Disse isso e colocou a mão no meu ombro, agradecendo.
Eu: Agora tira essa mão vomitada do meu ombro.
Matt: Hahaha! Ah. Não me faz rir, me dá vontade de vomitar de novo.
Eu: Hahah! Tu tá fodido, Matt.
Ouvimos alguém batendo na porta. Logo depois, apareceu a Mari.
Mari: Tudo bem aí, Matheus? Fiz um chá pra melhorar teu estômago.
O Matt demorou um tempo pra responder, porque nunca imagina que uma guria vai falar direto com ele quando tem algum outro cara junto. No caso, eu. Quando ele finalmente olhou pra ela, se assustou e respondeu, meio tímido:
Matt: Ah... Valeu. Eu to melhor. Eu... Já vou descer.
Ela sorriu pra ele, me olhou feio, e fechou a porta. Pra ser sincero, já to me acostumando com essa cara ruim. Nem ligo mais. Se fosse me importar com cada idiota que não vai com a minha cara, eu tava fodido.
Continuei sentado com o Matt e o vômito dele até ele se sentir melhor pra levantar. Quando descemos, o Fred ainda tava deitado no sofá assistindo sei lá que porra na televisão, e o Carlão tava sentado na mesa conversando com a Mari e a Alícia, que pareciam bem interessadas no assunto. O cara é mesmo muito simpático.
Carlão: Aqui as praias são boas pra surfar?
Mari: A praia Itaipu, que fica aqui do lado, é mais calma. Mas a praia Brava é boa pra surf.
Carlão: Já surfei bastante, agora só brinco...
Assim que a Alícia nos viu, ela perguntou:
Alícia: E aí, Matt? Tá melhor?
Matt: Um pouco. O teu banheiro que não ficou dos melhores... Mas eu limpo depois, prometo. Agora não vai dar.
Alícia: Hahaha! Não tem problema! Toma esse chá, a Mari que fez.
E a Mari abriu um sorrisinho. Pra ele, lógico, não pra mim.
Fred: Só vou te respeitar se isso aí for chá de cogumelo, Matheus.
O Matt não respondeu o comentário do Fred, nem o sorrisinho da Mari. Pegou a caneca de chá de cima da mesa, se sentou na cadeira mais próxima, mas longe de todo mundo, e deu um gole. Quieto, como sempre. Eu puxei uma cadeira e me sentei do lado da Alícia, e ela me abraçou.
Mal tínhamos chegado e o clima já era de praia. O Carlão contando as histórias dele, eu abraçado com a Lícia, a Mari ouvindo com atenção, o Matt viajando na caneca e o Fred deitado, assistindo TV. Até o capeta oxigenado tava tranquilo e quietinho. Parecia mentira.
O Carlão tem uns 40 anos, mas parece ter duzentos pela sua quantidade de... “vida”. Ele já surfou em todos os lugares do mundo, conheceu gente famosa, teve umas mil namoradas, morou em vários lugares, fala várias línguas, tem uma filha. E, no fundo, acho que tudo isso não vale nada perto desse último “item” da vida dele, com quem ele não tem mais contato. Suspirei pensando nisso.
Carlão: ... E aí, quando a gente tava perto da muralha da China...
Fred: ALGUÉM TEM UM BECK?
Pulei da cadeira com o grito fora de contexto do Fred.
Matt: Se eu fumar um agora, eu morro.
Fred: E morre feliz. – ele se levantou do sofá. – Sério, to atrofiando de ficar deitado naquele sofá. Fiquei ali a tarde inteira. Vamos fazer alguma coisa.
Eu: Cara, faz 20 minutos que tu tá aí.
Fred: Foda-se. Vamos fazer alguma coisa. O que tem pra fazer aqui?
Ele perguntou olhando pra Alícia.
Fred: Balada, show, bar, shopping, cinema, teatro, museu, caralho a quatro?
Alícia: Hahahaha! Não sei se tu lembra, mas tu tá na pr...
O Matt derrubou a caneca na mesa.
Fred: VAMO PRA PRAIA!!! Larga de contar história de surf e vamo surfar, Carlão!
Fred: Tem alguma coisa nesse mundo que eu não saiba fazer? Vamo, Matt! Levanta daí!
Alícia: O Matt tá mal ainda. Não querem comer nada?
Fred: A gente come camarão na praia.
Fred: O MAR CURA, MATT. LEVANTA!
Acho engraçado como o Fred simplesmente se empolga com as coisas. Quando a gente tá em casa, ele nunca fala nada de praia, nem lembra que isso existe. Mas é só a gente vir pra cá que ele vira surfista. Foi a mesma coisa quando a gente foi pra casa da minha vó e ele começou a surtar porque amava cavalos. Oi?
Depois de muita gritaria, ele conseguiu convencer todo mundo de ir à praia. Até o Matt que, na real, tava topando qualquer coisa naquele estado. Aproveitamos pra tirar as malas do carro pra nos trocarmos. Faz tanto tempo que eu não piso na areia que nem tenho roupa pra isso. Peguei uma regata branca, meu único shorts e um chinelo. A mesma roupa que usei na festa na casa da Mirella. É meu uniforme de piscina e coisas assim. Não que eu vá muito nesses lugares. Na moral, não trouxe nem sunga, porque esse negócio da Alícia morando na praia me pegou de surpresa.
Me troquei no banheiro do andar de cima e, quando desci, já tava todo mundo milagrosamente pronto na sala, menos o Fred, que tinha sumido.
Cara, é muito engraçado ver as pessoas com roupa de ir pra praia. Eu me lembro quando era criança e ia com meus pais. Meu pai sempre saía muito cedo de casa e voltava muito tarde, quando eu ainda tava dormindo. Por isso, nas poucas vezes que a gente se via, ele tava sempre de roupa social. E, de repente, ele aparecia bêbado de sunga falando asneira na praia. Era muito estranho.
Aqui também. Era muito estranho descobrir que o Matt tinha canelas. E olha que elas não eram tão brancas quanto as minhas. E mais do que isso, ele deixou de lado a camisa xadrez (!) e tava vestindo uma camiseta verde com shorts de praia estampado. Aposto minhas bolas que foi a mãe dele que comprou. E essa roupa toda alegre não tava combinando nem um pouco com a cara de doente dele, sentado no sofá e olhando pro nada.
O Carlão não tava muito diferente de antes. Só trocou a camiseta amarela por uma regata amarela e continuou com o mesmo shorts. A Mari conseguia ser mais branca que todos nós, mesmo morando na praia, por isso ainda tava cheia de roupas. Sei lá como se chamam esses panos que as gurias usam enrolados no corpo quando tão de biquíni.
A Alícia tava linda. Como sempre. Ela conseguia ser linda sem fazer quase nada. Tava usando biquíni preto, shorts jeans e óculos escuros. E pronto, não precisa de mais nada pra me fazer feliz. Eu juro que não entendo essas gurias que passam massa corrida na cara, um negócio melado na boca que só serve pra grudar quando te beijam, e terminam passando pó de tijolo nas bochechas pra ficarem laranja. Tem várias dessas na minha faculdade. E eu sei que elas não relaxam nem na praia. Pra quê?
Alícia: No que tu tá pensando com essa cara de paisagem?
Assim que eu perguntei, pude ouvir o som do carro ser ligado lá fora. Tocou qualquer música dessas que tão na moda e o Fred gosta, e logo apareceu ele com uma garrafa de vodca em cada mão, chapéu, óculos escuros e bermuda de nadar, como se tivesse nascido na praia. Pena que a cor nada saudável dele falava o contrário.
Fred: QUEM VAI BEBER PRIMEIRO?
Eu: Fred, na boa, vamo chegar na praia primeiro e...
Ele não meu ouviu, claro, e tirou uma espécie de tubo de ensaio do bolso da bermuda. Na real, acho que era mesmo um tubo de ensaio. Nem quero saber de onde ele tirou isso. Dançando com a música do carro, ele encheu o tubo com vodca pura e veio na minha direção.
Eu: Mano, vai pro inferno com isso. Não vou beber agora.
Fred: Desde quando tu tem hora pra beber? Tem alguma coisa marcada pra mais tarde?
Fred: Pode relaxaaaar, Thommo! Já chegamos, tu já encontrou tua musa inspiradora...
Fred: ... Tá um sol muito louco e tem uma praia aqui perto. Bebe essa merda!
É, ele me convenceu. Acho que fiquei tanto tempo tenso com tantas coisas que fiquei até mais responsável. Mas na boa, aqui não é lugar e nem é hora de responsabilidade. E, na boa, se eu fosse responsável, nunca teria aceitado esse negócio de Z Boy, nunca teria vendido Crystal pra ninguém e não estaria aqui. Peguei o tubo de ensaio do Fred e bebi de uma vez. Desceu tipo água.
Fred: Aeeeeeeeeee! CARLÃO! CARLÃO!
E assim foi. O Fred fez o Carlão beber, depois gritou o nome da Alícia e a fez beber, e assim foi, até chegar nele mesmo.
Fred: FRED! FRED! FRED! - ele virou o vidrinho goela à baixo. - Vamo embora! Já começa a bolar o beck aí, Matheus!
O Fred pode ser maluco e encher o saco pra caralho, mas ele sabe animar qualquer lugar, como ninguém. Em menos de cinco minutos de vodca no tubo de ensaio, música alta e gritaria, já tava todo mundo correndo em direção ao carro e cantando.
Eu ainda não conseguia acreditar que a gente tava com aquele carro foda. Eu nunca nem tinha encostado num carro que custasse mais que a minha casa, mesmo com todos os roles de playboy que eu insisti em fazer e sendo amigo da Nath. E agora eu tenho um carrão foda com motorista.
Assim que o Carlão deu partida, todo mundo já colocou a cabeça pra fora do carro pra gritar qualquer idiotice e mexer com as pessoas na rua. Até o Matt que mal conseguia parar em pé até pouco tempo atrás. Quando saímos do bairro da Alícia e caímos no calçadão, parecia um clipe da música hit do ano.
Eu costumava me lembrar de praia como um lugar tedioso e cheio de gente sem o mínimo de senso de ridículo. Tipo gordas com mais de 40 anos usando biquínis menores que os da gurias novas, tios parecendo camarão, crianças choronas fazendo sujeira na areia, enfim. Nem preciso dizer que mudei totalmente de ideia depois de 1km no calçadão. Vi tanta guria bonita que perdi a conta. Claro que todo mundo tinha cara de rico esnobe sem nada na cabeça, mas duvido que eu vá ter uma conversa profunda com qualquer um deles. O importante, aqui e agora, é ter uma boa paisagem.
Eu e o Fred nos sentamos nas janelas do banco de trás, e no meio ficaram a Mari e a Alícia gritando que a gente ia cair e morrer, mas dando muita risada. No banco da frente tava o Matt com uma cara não muito boa. Percebendo isso, o Carlão ligou o som bem alto e colocou o chapéu do Fred, que tava no chão do carro, na cabeça do Matt.
Carlão: Acorda, Matt! - disse sorrindo.
Alícia: Segura em mim senão tu vai cair, Thom!!
Fred: Dá essa garrafa aqui, Alícia.
Ele pediu pra ela, mas no fim não fez muita diferença, porque ele pegou da mão dela antes de esperar a resposta. Abriu a garrafa de vodca e virou na boca. Metade caiu na rua, mas a cena foi engraçada.
Fred: Se eu não ficar bêbado em 5 minutos, eu me mato!
Fred: Se eu não ficar bêbado em 5 mi...
Fred: VOU ENCHER A CARA DE VODCA, PORRA!
E assim foi até a gente chegar na praia. Todo mundo gritando alucinado tentando ficar imbecil o mais rápido possível. Assim que o Carlão estacionou o carro, o Fred pulou da janela e a Mari saiu correndo atrás.
Carlão: Os dois tão animados.
Eu: A Mari é retardada tipo o Fred?
Perguntei enquanto a gente descia do carro. O Matt continuou com a cara de quem não tava curtindo nada. Eu tava louco pra dar um abraço na barriga bonitinha da Alícia, de biquíni, e foi a primeira coisa que fiz quando saí do carro.
Carlão: Ei, Thom. Preciso falar contigo.
Matt: Alguém sabe onde posso comprar uma água? To mal ainda.
Alícia: Eu te mostro, Matt. Te encontro na praia, tá?
Ela me disse sorrindo e saiu com o Matt. Fiquei olhando enquanto os dois iam embora naquela paisagem bonita de praia. Parecia um sonho estar junto com a minha namorada e o meu melhor amigo num lugar desses depois de tanta merda que eu passei ultimamente.
Carlão: Seguinte, Thom... A gente saiu com pressa do Z Club ontem e o Digo nem teve tempo de te explicar umas coisas, então vou te falar.
Eu: Tá. - assenti com a cabeça.
Carlão: Primeiro, parabéns por ter conseguido tudo isso. - ele sorriu. - Tu deve ser muito bom, porque o Doctor tá te tratando como um rei. Ou melhor, o príncipe dos Z Boyz.
Carlão: Então, cara, além do carro, ele também liberou um cartão de crédito pra tu usar como quiser aqui.
Um cartão de crédito?! Liberado pra eu usar no que quiser? Só podia ser mentira. As coisas tavam ficando cada vez mais loucas. E fodas.
Carlão: Não, cara. Acostume-se. A vida no Z Club é sem noção.
Eu: Posso usar como eu quiser? Mesmo?
Carlão: Quero dizer, na viagem. Não vá querer comprar uma mansão com o cartão de crédito.
Eu: Hahahaha! Eu entendi.
Carlão: Bebida, hotel, compras no shopping, qualquer coisa que faça tua viagem melhor.
Eu: Caralho, Carlão! Que animal!
Carlão: É, amigão. Vai ser um fim de semana inesquecível. E te digo, se tu continuar agradando os caras, tua vida vai ser assim todos os dias.
Meus olhos brilharam na mesma hora. Foi como se eu tivesse ficado milionário de um dia pro outro, ganhado na loteria. Claro que não era exatamente isso, mas eu tava perto de ter uma vida que nunca imaginei. Puta que pariu!
Carlão: Tu é gente fina, garoto. Tu merece.
Eu: Caralho. Valeu! Sei lá!
Carlão: Mas tem uma condição, é claro. Algumas condições.
Carlão: O Digo me pediu pra trazer um monte de Crystal pra tu vender por aqui.
Eu: Como vou fazer isso aqui?! Todo mundo tá sempre na minha cola, e eu não posso contar dessas coisas.
Eu: Sou, sei lá... Ou não. Na boa, como vou vender isso aqui? Não conheço ninguém.
Carlão: De qualquer forma, teu fim de semana tá garantido. Pode curtir à vontade, usar o carro, o cartão de crédito e fumar toda a maconha que o Digo te mandou de presente. Mas se não vender nada, pode dizer adeus pra tudo isso quando a gente voltar. Te digo isso porque já vi acontecer com outros garotos.
Puta merda. O que eu faço? Aproveito o fim de semana e que se foda esse negócio de Z Club e Z Boy? Ou tento vender alguma coisa, por mais difícil ou impossível que seja?
Carlão: Confia em mim, Thom. To te dizendo isso porque gostei de ti, e vou ser sincero: é melhor vender.
Carlão: Os caras do Z Club são generosos, mas também são exigentes. Nem queira saber o que pode te acontecer se tu der mancada com eles.
Eu: Ahn? Que merda é essa? Algum tipo de máfia?
Eu perguntei grosso e sem pensar, como sempre. O Carlão ficou quieto por alguns segundos, depois fez que "sim" com a cabeça. Em que merda eu me meti?
Eu: Caralho... - disse enquanto passava a mão no meu cabelo, tentando arrancar uns fios de nervoso.
Carlão: Mas, calma, Thom! Não é tão difícil quanto parece, e a tua recompensa vai ser boa. Muito boa. As próximas serão melhores do que esse fim de semana. Tu vai poder ter o que quiser nessa vida, acredite em mim. Eles só precisam confiar em ti.
Fiquei quieto, pensando se eu conseguiria fazer aquilo. No quanto valia à pena. Como um filme na minha cabeça, passaram trechos do meu pai me privando de fazer as coisas, minha mãe querendo dar palpite, eu sem um puto no bolso pra sair no fim de semana, meu pai me cobrando notas na faculdade depois de anos de escola sem nem saber em que série eu tava, meu pai falando que só uso o dinheiro dele pra comprar maconha, meu pai me enchendo, meu pai me enchendo, meu pai me enchendo...
Carlão: Claro que topa. - ele sorriu. - Como te falei, já vi muitos garotos na tua situação, e boto fé em ti.
Carlão: De verdade, Thom. Geralmente eles contratam moleques riquinhos por causa dos amigos ricos e drogados deles, que pagam qualquer preço por um pouco de pó. Já tava na hora de mudar pra um garoto esperto como tu.
Aquele monte de coisas que ele disse me deixou meio sem graça, mas eu agradeci. Não sei receber elogios, nunca sei o que responder. Ou acho que tão me zoando, ou que vou parecer muito metido. Deve ser porque não recebo muitos. Não verdadeiros.
Carlão: Vou te dizer algo que vai te animar.
Eu: Que tu tava brincando?
Carlão: Haha! Não! Tu realmente vai ter que vender. Mas tenho uma notícia muito boa. Enquanto tu tava com o Matt no banheiro, o Digo me ligou pra avisar que tem um Yago, uma Layla, uma Natacha e mais umas sete pessoas procurando por um tal de Thomaz que vendeu Crystal pra eles.
Carlão: Confia em mim. Tu é bom, e vai vender pra caralho.
Eu: Por que eles não me ligaram?
Carlão: Essas coisas são arriscadas, não dá pra tu ligar pro celular de alguém pedindo um monte de droga. Esse pessoal que usa coisas assim já tá ligado. E as notícias correm... Pode crer que já tão sabendo que só o Z Club vende Crystal, e já falaram direto com eles.
Eu: Caralho. Eu não faria esse corre todo só por uma cheirada.
Carlão: É... - ele desconversou. - Mas é isso aí. Vamo curtir a praia?
Sério, eu gosto de maconha. Gosto muito de maconha. Acho que não fico nem um dia sem fumar, principalmente por causa do hábito. Mas nunca roubaria ninguém na rua pra conseguir uma paranga, nem arrancaria a torneira da minha própria casa pra vender pra traficante, muito menos chuparia um pau por 5 reais como muitas viciadas fazem por uma pedrinha de crack. Eu já usei tanta merda nessa vida, mas ainda bem que não cheguei nesse nível. Tu tem que ter estar no fundo do poço pra se atrever. Ou não. Quem sou eu pra julgar?
Descemos do deck pra pisar na areia, e confesso que pensei algumas vezes antes de tirar os chinelos. Como já falei, eu não tenho boas lembranças de praia, e ainda tava meio confuso sobre gostar de tudo aquilo ou não. Ou acho que foi o Carlão que me deixou sóbrio demais depois daquela conversa de...
Fred: CHEGOU O CARA MAIS BRANCO DA PRAIA!!!
Não vi de onde tinha vindo aquele grito infeliz, mas tive a inocência de olhar pro Carlão pensando que talvez ele fosse o cara mais branco da praia. Mas óbvio que era eu. E todo mundo que tava me olhando também pensou o mesmo. O Fred sabe que eu odeio ser o centro das atenções em qualquer merda de lugar, mas em menos de 1 segundo eu já tava conhecido como "o cara mais branco da praia" praquele monte de sulistas bronzeados. Até a Alícia já tinha pegado uma corzinha desde que tinha se mudado pra cá.
Que se fodam esses idiotas que pensam que são melhores que eu só porque têm mais melanina na pele. Os valores das pessoas tão cada vez mais confusos. Tirei o chinelo como se fosse o rei da praia e caminhei até o Fred quando o vi acenando feito um retardado, embaixo guarda sol mais próximo do mar. Eu sentia que tava todo mundo me encarando, como se eu fosse o aluno novo e misterioso da escola. Esses lugares onde todo mundo se conhece me incomodam um pouco por isso. E também porque são bastante tediosos.
Mas eu preciso parar de me incomodar por um tempo. Quando cheguei bem perto do Fred, perguntei:
Eu: Não sei o que tu tá falando de mim se eu consigo ver todas as tuas veias daqui.
Todo mundo ficou quieto por meio segundo, mas no fim até a Mari deu risada. Ela fingiu que não e colocou o canudinho do copo na boca, mas eu vi.
Fred: HAHAHAHA! PAU NO CU!
O Fred tava em pé pra poder chamar os caras do bar e pedir umas cervejas. A Alícia tava passando protetor solar, a Mari tava sentada numa cadeira embaixo do guarda sol tomando sei lá o quê, e o Matt tava parecendo um gringo que nunca viu praia, sentado na sombra com chapéu, óculos escuros, camiseta e shorts. Não botava nem o pé no sol. O Carlão saiu andando pra mais perto do mar e eu fiquei com cara de nada, sem saber o que fazer. O que se faz na praia?
Me sentei numa cadeira do lado do Matt.
Eu: O que tem pra fazer na praia? - perguntei pro além.
O Matt deu de ombros, a Mari me ignorou e a Alícia sorriu.
Fred: E pode beber agora.
Ele me deu uma latinha que a moça do bar trouxe.
Fred: Tu também pode surfar, caminhar na praia, dormir, fumar um beck, xavecar umas gurias. - ele olhou de canto pra Alícia. - Ou não.
Eu tava sentindo um calor do caralho e não tava achando graça nenhuma nas ideias.
Eu: Mano, isso aqui tá o inferno de tão quente.
Fred: Vai lá. - o Fred apontou pro mar.
Eu: Na boa, para com as drogas. Tu tá ficando burro.
Fred: E tu tá ficando um ranzinza do caralho. OPA! TU SEMPRE FOI!
Alícia: Gente, eu e a Mari vamos dar uma volta. Peçam umas cervejas aí, um peixinho pra comer, que logo isso aqui fica mais animado. Agora tá meio cedo.
Pensei comigo mesmo: "aham." Eu devo ser muito bipolar. Odeio gente que se intitula "bipolar" como se fosse bonito e não uma doença, mas há meia hora atrás eu tava achando a praia muito legal. Devia ser porque eu tava dentro do carro.
Dei um beijo na Alícia, a Mari continuou fingindo que eu não tava lá, e as duas saíram andando. O Fred se sentou na cadeira do meu lado e nós três ficamos quietos por uns segundos. Fiquei olhando enquanto a Alícia ia embora. Como ela é bonita.
Fred: Gostosinha, hein, Thommo?
Derrubei ele da cadeira. Simples assim.
Fred: Ô, ZÉ LOCO! - ele berrou, se levantando do chão, todo sujo de areia. - Tô falando da Mari!
O Matt tava parecendo uma ameba. Respondeu com as sobrancelhas.
Fred: Velho, o desânimo de vocês tá me deixando desesperado. Eu vou dar um jeito nessa merda dessa praia.
Ele se levantou, colocou o óculos de sol e saiu andando.
Fred: Mas a Lícia também tá bem gostosinha.
Terminou de ler? Clica aqui e avisa a galero!