Eram, por trás da carcaça fiel e esperançosa, trabalhadores de diferentes idades e estilos. Tinham suas próprias qualidades e defeitos, passados e anseios. As ruas os ligavam, dia e noite. Acasos e coincidências. Apenas. Nada mais os colocavam no mesmo recinto ou horário, exceto a fé.
Estava saindo do prédio de Meredith, ainda pensava naquele papel que tinha recebido e no meu primeiro cliente, não queria pensar muito a respeito de sua aparência, se era mais velho ou mais novo, provavelmente seria um homem bem elegante, Meredith não recebe homens de classe média e muito menos baixa para seu grupo de compradores, isso não me importava, a questão seria a minha primeira transa, não digo apenas com homem, é minha primeira transa de iniciante e será um com um homem, eu nunca transei e não sei qual é a sensação, minha primeira tentativa foi no segundo ano do ensino médio quando eu fui para casa do Edward fazer um trabalho da escola, mas acabamos que levando o trabalho mais a sério, começamos com beijos e depois carícias, até que ele sentou no meu colo e foi tirando a roupa, isso me levou a clima mais alto do meu corpo, que eu nunca tinha sentido isso antes, meu pau estava crescendo e me fazendo alucinar com os chupões que ele dava em meu pescoço, mas fomos interrompidos quando o pais dele chegaram, um pouco constrangedor para ambos, desde então, nunca mais tive a chance de perder a virgindade e hoje terei que provar tudo isso com uma pessoa que só irei conhecer no momento exato, um completo estranho, isso era demais para mim, demais para pensar nas consequências e demais para pensar no que eu não poderia mais voltar atrás, agora é só seguir em frente. Ao chegar na calçada, um carro preto estacionou bem a minha frente, eu tinha impressão de já ter conhecimento daquele carro, me parecia muito família. Logo em seguida o vidro da janela de trás abaixou e relevou-se um homem de cabelos loiros, altamente estiloso e de dar inveja a qualquer um, era Brandon, ele sorria radiante e eu tinha a leve impressão que se seus dentes tocassem a luz do sol, eles poderiam fazer um reflexo de tão brancos que eram. – Matthew, que prazer em revê-lo. – Digo o mesmo para você, Brandon. Sorriu acenando para ele, mas não conseguia evitar de olhar o quão ele era lindo. – Eu sabia que iriamos nos ver de novo. – Eu nunca duvidei. – Vai ficar ai ou não quer entrar no carro? Eu te levo até em casa, vamos. Me sentir um pouco desconfortável em dizer não aquele homem, ele era charmoso demais para dizer um “não” a ele, e tenho certeza que não fui o único a pensar e se sentir dessa forma. – Por mais gentil que fosse, hoje eu não estou com a Molly, resolvi vim no carro da minha amiga para não cometer um erros daqueles novamente, eu amo a Molly, mas as vezes ela me deixa furioso. Aliás, eu tenho que te agradecer, muito obrigado mesmo por ter... sabe? Consertado ela toda, não precisava.Ele riu, provavelmente lembrou da minha situação e do quanto eu fiquei envergonhado com tudo aquilo. – Eu adorei passar a tarde com a Molly, era o mínimo que eu poderia fazer por ela. Mas é uma pena que você não a tenha trazido, estou com saudades dela e tenho certeza que ela me daria uma forcinha e deixaria você vim comigo. Sorriu um pouco envergonhado e disfarço tentando olhar para baixo. – Sim, mas hoje ela infelizmente não está aqui. – Não seja por isso...Ele desce do carro e caminha em minha direção, me olha com um sorriso triunfante e vai até o motorista do seu carro. Meu Deus, como é lindo, eu juro que com um próximo sorriso desses eu beijo ele. Não consigo entender muito bem o que ele está conversando com seu motorista, mas presumo ser alguma solução para algo que estava preste a descobrir. O motorista sai do carro e vem seguindo ele até mim, Brandon para na minha frente junto ao seu motorista e diz:
– Já que você não pode sair comigo porque está com o carro da sua amiga, eu me dei a liberdade de mandar meu motorista Robert, levar o carro dela até sua casa, enquanto você vai comigo. Aliás, você está com fome Matthew?
Só com a pergunta dele pude notar que minha barriga estava doendo por dentro de tanta fome, suspirei para disfarçar meu mal estar e sorrir.
– Sim, eu estou com muita fome. – admiti.
– Ótimo, conheço um lugar maravilhoso que você vai adorar, te levarei para comer e logo em seguida para casa, tudo bem para você Matthew?
Confesso que fiquei um pouco desconfiado de tanta bondade, não é todo dia que você encontra um cara do estilo de Brandon no meio da rua e paga o concerto da sua bicicleta, depois te convida para jantar e logo em seguida te levar em casa, isso me soava estranho demais, mas a minha vida já estava completamente estranha para se pensar em demais coisas e preferi apenas me deixar levar.
– Tudo bem, vamos.
– Certo, apenas informe onde você mora para que Robert leve o carro da sua amiga até em casa.
Entrego as chaves do carro para Robert e informei onde ficava meu apartamento e da Vivien, ele parecia ser pai de Brandon, um pouco mais velho, pude imaginar que estivesse com ele a muitos anos e por isso seria de extrema confiança dele, o que me deixou um pouco relaxado. Logo em seguida entrei com Brandon em seu carro e saímos.
Paramos em frente a um restaurante luxuoso localizado dentro de um prédio enorme, pela estrutura poderia-se dizer que o prédio era antigo, típico prédios de ricos, ao sair do carro, localizei o nome estampado logo a cima, estava escrito de mármore branca “Carmine´s”, e suas paredes eram repletas de vidros, dando para ver quem estava dentro e quem estava fora. Brandon veio por trás de mim após entregar o carro ao porteiro e apoiou sua mão contra minhas costas me puxando para entrar, ele tinha bastante força e sabia muito bem como guiar alguém. O teto era repleto de lustres e ao som que vinha de algum lugar era um pouco mais calmo e agradável um pouco de violino talvez, estava lotado e todos bem arrumados, maiorias dos homens estavam vestindo seus ternos elegantes e as mulheres uns vestidos de tirar o fôlego, logo percebi que ali só frequentava pessoas da classe alta, logo fiquei com vergonha por está com uma roupa tão simples, perto de tanta gente elegante. A recepcionista nos guiou até o outro salão do restaurante e só ali pude notar que tinham cerca de três homens de meia idade se apresentando no palco principal tocando violino. Sentamos numa mesa de dois, as cadeiras eram super confortáveis, Brandon estava o tempo todo me encarando e quanto mais ele me olhava, com mais vergonha eu ficava. O garçom logo em seguida apareceu, cochichou algo no ouviu de Brandon e em seguida entregou os cardápios, percebi que ele apenas concordou com a cabeça e ele entendeu o recado e saiu. Abrir o cardápio e fingir que estava procurando algo saboroso para comer, mas confesso que estava um pouco incomodado com aquilo tudo e resolvi ir direto ao ponto.
– Você não acha que está muito exagerado não? – perguntei.
Brandon abaixou o cardápio mostrando seu lindo rosto, mas estava com uma afeição de duvida.
– Exagerado? O que?
– Isso tudo! Esse restaurante, essas pessoas elegantes, você elegante. Da para notar que você faz parte desse mundinho, mas já reparou que eu não faço parte dele? Isso é meio frustrante e vergonhoso pra mim, olha para minhas roupas, eu não me encaixo aqui. Não poderíamos ir ao menos comer um simples hambúrguer ou umas batatas fritas em qualquer esquina por ai? Eu já passei vergonha demais por hoje.
Brandon apenas riu e dessa vez era eu que já estava com uma afeição de duvida.
– Esse é o meu mundinho Matthew, eu apenas queria que você se sentisse familiarizado com ele, não quero te fazer passar por nada frustrante, pelo o contrário, mas se você não está se sentindo bem, podemos ir a outro lugar.
Me sentir um pouco constrangido por ter falado tudo aquilo para Brandon, mas já era tarde demais.
– Tudo bem. – concordei.
Brandon levantou-se e ofereceu-me a mão, eu a segurei e me levantei em seguida, sua mão era macia e delicada, era algo gostoso de se pegar, se contar no cheiro maravilhoso de avelã que elas tinham. Esse homem tem algum defeito? Ou ele é perfeito assim sempre? Saímos andando em direção a porta, mas alguém logo de imediato gritou pelo nome de Brandon e paremos para se certificar de quem era.
— Eu vou pegar algo pra beber, tu quer? – Gabriel perguntou um tempo depois, enquanto dançávamos uma música qualquer que tocava.
— Quero. – Falei. – Vou com você.
— Não precisa, fica aqui, eu volto rápido.
— Não, eu vou. Quero ver quais bebidas tem lá.
— Tu já viu... Ice, cerveja, vodca, catuaba, tequila... – Ele disse com as mãos em minha cintura, me impedindo de andar.
— Eu quero ir, Gabriel. – O encarei. – Algum problema com isso?
— Não... É que... – Ele gaguejou. – É melhor tu ficar, tá muito cheio e não quero nenhum cara te puxando.
— Não vão me puxar, eu estou com você. Vamos logo. – Falei já impaciente e saí o puxando.
Gabriel ficou meio relutante de ir comigo, o que me deixou bem nervosa, mas acabou indo. Durante o caminho fui olhando para os lados, encarando cada garota que passava por nós, alguma coisa tinha para ele não querer que eu fosse com ele. Chegamos ao bar e eu pedi uma Sex on the Beach e enquanto esperava me virei para o Gabriel e ele estava olhando para o lado, segui a linha do seu olhar e uma garota morena havia acabado de se virar se afastando dali, encarei-o e respirei fundo, me virando para o balcão novamente. A barman me entregou a bebida e a cerveja dele e nós saímos dali, voltando para onde estávamos. Terminei de beber minha bebida alguns minutos depois e fiquei ali com ele e os amigos dele por mais um tempo.
— Quero ir embora. – Falei.
— O que? Mas já?! – Ele me olhou surpreso.
— É, não estou me sentindo muito bem. – Menti.
— O que foi? Está passando mal?
— Não, é só dor de cabeça. Você me leva? – Ele olhou para o relógio com uma expressão de quem não queria fazer aquilo e suspirou. – Deixa pra lá, eu pego um táxi. – Falei me afastando.
— Não. – Ele me segurou. – Claro que não, eu vou te levar.
— Está na cara que você quer ficar, então fica Gabriel.
— Não, Luna. Eu te levo.
Ele falou alguma coisa com os amigos, que se despediram de nós dois e saímos dali. Caminhamos em silêncio pelo estacionamento e o caminho até minha casa foi do mesmo jeito, silêncio absoluto.
Chegamos à minha casa em poucos minutos e eu tirei o cinto pronta para abrir a porta.
— Não vai falar nada? Nem se despedir?
— Estou cansada, Gabriel. – Falei seca.
— Ah, qual é. Qual foi desta vez? – Ele perguntou nervoso.
Respirei fundo e virei-me para ele, pronta para a discussão que viria a seguir.
— Qual foi desta vez? – O encarei. – Bom, como se já não bastasse aquela Jade, depois você ficou me evitando o máximo que pôde, estava sempre tentando sair de perto de mim e aí quando fomos ao bar eu te peguei lançando olhares e tentando dizer sei lá o que pra uma garota que estava se aproximando de ti.
— O quê? – Ele se fez de desentendido. – Tu tá viajando, Luna! Como sempre tu tá viajando.
— Não, eu não estou viajando, Gabriel. Eu sei bem o que eu vi, e o seu nervosismo toda vez que eu dizia que iria contigo em algum lugar e, principalmente quando eu falei que queria vir embora, te entregaram.
— Não fode, Luna! – Disse ainda mais nervoso. – Tu só pesa na minha, não fiz porra nenhuma e tu fica nessa.
— Não fez desta vez, né? Por que tua “namorada grudenta” – Fiz aspas com as mãos – não saiu do seu pé.
— Não viaja. – Ele disse alongando as palavras.
— Boa noite, Gabriel. – Falei saindo do carro e batendo a porta com força.
Ouvi ele dizer algo mas não dei importância.
(...)
Acordei na terça às 14h e depois de enrolar um pouco na cama me levantei e fui almoçar um pouco, depois fiquei no sofá vendo televisão e mexendo no celular.
— Luna, a costureira ligou mais cedo e falou pra você ir lá fazer a última prova da sua roupa. – Minha mãe disse chegando na sala.
— Que horas? – A olhei.
— Qualquer hora, vai de uma vez.
— Tá, vou lá. – Falei.
Fui pro quarto dar uma olhada no espelho e do jeito que eu estava eu saí, a costureira morava a uns quinze minutos da minha casa, e chegando lá eu toquei a campainha e entrei, ela costurava na casa dela.
— Marta? – Chamei da porta da sala de costura.
— Oi, pode entrar. – Ela disse lá de dentro.
Abri a porta e ela estava sentada costurando uma roupa, quando viu que era eu se levantou e pegou a minha roupa que estava pendurada num cabide.
— Veste e me diz se ficou bom ou se precisa apertar um pouco mais.
Assenti e ela me ajudou a vestir a roupa, por causa dos alfinetes que fechavam a mesma, que ainda não estava costurada. Falei a ela para apertar um pouco mais no cós da saia e ela apertou. Quando falei que estava bom ela me ajudou a tirar e disse que eu poderia buscar no dia seguinte.
Voltei para casa e o resto do dia passei apenas ligando para alguns salões vendo preços de manicure e sobrancelha, depois de marcar eu fiquei atoa mesmo.
Na quarta-feira, depois de buscar minha roupa na costureira, liguei para Marina e Carol e pedi a elas para irem ao shopping comigo, pois eu ainda precisava comprar um sapato para a festa, pedi meu pai o cartão e ele, por um milagre de Cristo, me emprestou, dizendo apenas para eu não comprar nada muito caro, assenti e fui tomar um banho e me trocar, vesti uma roupa confortável composta por um short preto de pano, bem parecido com aqueles de corrida, mas um pouco diferente, uma blusa também preta frente única e um pouco larga e um tênis branco com duas listras pretas do lado, aqueles da adidas. Peguei uma bolsinha pequena preta e pronto. Saí de casa e encontrei as duas no ponto de ônibus, fomos para o shopping e chegando lá andamos um pouco olhando algumas vitrines até entrarmos numa loja, comprei uma sandália aberta e de salto grosso num tom de rosa mais escuro, que foi só um pouco cara e fiquei dando uma volta com as meninas.
— Como ficou sua roupa? – Marina perguntou, a Marta era tia dela.
— Ficou maravilhosa! – Sorri. – Bem do jeito que eu queria, e eu estava com muito medo de não ficar parecida com a da foto.
— Minha tia é uma ótima costureira mesmo. – Ela sorriu se gabando.
Andamos por mais um tempo e paramos na praça de alimentação para elas comerem, eu não estava com fome então comprei só um milk shake para mim. Fiquei bebendo enquanto elas comiam e nós conversávamos sobre coisas banais, principalmente sobre a formatura, sobre os casais da turma que se revelariam naquela festa, sobre quem achávamos que ficaria com quem e elas ficaram dizendo com quem elas gostariam de ficar.
— É uma pena você estar namorando, essa seria a chance de Zé Victor conseguir, finalmente, ficar com você. – Marina disse.
— Que pena pra ele. – Sorri.
Elas riram e voltaram a falar dos garotos, Marina estava de rolo com o Victor e pretendia ficar com ele lá, Carol iria com a família e, apesar de ela ser maior de idade, não podia fazer nada perto dos pais dela, pois os dois eram muito rígidos.
— Vocês vão ter que me ajudar, eu não vou suportar passar a minha festa de formatura sem beber. – Ela disse.
— É só você beber longe deles, ué. – Falei.
— É, mas do jeito que minha mãe é ela vai ficar acompanhando todos os meus passos, mesmo que de longe.
— Relaxa, ela nem vai pensar em você, Carol. Ela vai estar ocupada demais bebendo. – Marina riu.
— Minha mãe bebendo? Isso ia ser engraçado. – Carol disse e nós rimos.
Ficamos ali por mais alguns minutos até elas terminarem de comer e depois demos mais uma volta no shopping, ainda falando sobre a formatura. Havíamos acabado de descer para o segundo piso quando, um pouco afastado dali, eu vi o Gabriel, o que era bem estranho, pois ele não havia me mandado nenhuma mensagem dizendo que iria para o shopping, aliás, ele não havia mandado nenhuma mensagem dizendo nada. E não era por causa da briga que tivemos na segunda, pois, na terça, nós já havíamos nos entendido. Ele estava próximo a grade, conversando com alguém, mas não era possível ver quem era pois a pessoa estava bem atrás de uma grande pilastra.
— Aquele... É o Gabriel? – Perguntei, mesmo já sabendo que sim, era ele.
— É sim, o que ele está fazendo aqui? – Carol perguntou.
— Eu não sei. – Falei. – Ele não me disse que viria aqui. Nós nem conversamos hoje.
— Quem está com ele? – Marina perguntou.
— Também não sei, não dá pra ver.
Mas então eu vi, a garota pulou nos braços dele e o beijou, ele a segurou nos braços e sorriu enquanto retribuía o beijo dela. Era a mesma que eu havia visto na balada, eu sabia que era, e eu sabia que alguma coisa tinha naquele olhar dele quando ela foi embora. Mas que droga!
caindo sem noção do fim, sinto o impacto n’água. Sua imagem se perde na confusão. Um brilho surge impedindo meu afundar, jogando-me para fora. Sou lançado num banco de areia sentindo meu corpo desligar. Abro os olhos, aperto os dedos percebendo o solo. Escuto o agitar de águas. Levanto lentamente vendo o frenesi do lago à frente. O som grave da força do conflito entre energia e águas, teimando em te envolver. A queda jogou você em um estado de êxtase liberando qualquer carga disponível como um guarda irritado defendendo seu reino. Sua vida em perigo ativou estados de super consciência, impedindo-a de absorver a queda. Impedindo-me de te alcançar. Olho em volta tentando encontrar uma forma de te acordar, mas nesses estados a realidade se deforma. Tudo pode vir a ocorrer, inclusive ficar assim para sempre. Começo a escutar estalos de ossos, gemidos mortais por perto. Olho novamente e percebo brilhos telúricos no cabelo de um Crápula¹, emanando o seu espírito destrutivo como faíscas. Vejo alguns corpos por perto e percebo o brilho de uma espada. “Antes de alcançar você, eu preciso continuar vivo”. Meu corpo reclama, mas corro sem pensar. Pego a espada sentindo o peso de sua lâmina mantendo o movimento, arrancando-a do corpo e do chão impulsiono-a circularmente direto no Crápula. Seus ossos se partem, destruo seu tórax, coluna, crânio. O brilho apaga-se dos seus cabelos espetados. Respiro por todo o esforço ainda escutando as águas tentando te engolir atrás de mim. Levanto a cabeça para frente contando incessantemente, um após o outro, gerando faíscas, vários, muitos, um por um, apresentando os dentes ao invasor, se apresentando para mim. “Hoje não é meu dia de sorte”. Sinto a espada, aperto-a na mão. Sinto um furor surgindo dentro. A energia da manopla ativa alguma coisa na lâmina, um auxilio inesperado a criar um brilho frio, iluminando meu caminho, numa corrida sem fim, brandindo uma espada sem nome, esmagando ossos com socos, empurrando-os com chutes, seus dedos tocando meus braços ininterruptos. Derrubo um vendo três mais a avançar. Derrubo outro vendo mandíbulas tentarem me rasgar. Faíscas de seus cabelos me atordoam enquanto ainda destroço seus corpos. São muitos, não parece ter fim. São muitos. Sinto um impacto na cabeça e a dor me causa desequilíbrio. Meu corpo atordoado ajoelha-se e uso a espada como apoio com as duas mãos. Ao tocar o chão com a lâmina percebo o tempo parar. Uma explosão fria surge além do meu corpo congelando num círculo todos os Crápulas sobre mim. Sinto sangue escorrer do meu crânio. O mundo gira parado. As águas roncam nervosas. Percebo meu corpo sofrer com a insistente permanência da dor. Com a insistente permanência do terror. Ainda não acabou. Minhas manoplas brilham um pouco mais destruindo a montanha de Crápulas sobre mim, destroçando-os. Meu corpo treme, estou suando sangue do esforço sobre humano. Não posso ceder. Não posso parar. Não posso perde-la. E se só me for permitido perecer soterrado por esses ossos, que seja após o último maldito Crápula desse inferno que avança sobre nossas vidas. Contudo, isso é ainda melhor do que minha existência sob o vácuo da tua ausência. Ao menos se você acordasse, eu não cogitaria mais em deflagrar um último golpe em meu peito.
¹.: Espécie de morto vivo; tipo: “ossos caminhantes”. Tendem a surgir de batalhas sangrentas ou maldições. São incansáveis emitindo um brilho dos seus cabelos espetados quando possuem. São os mais antigos do tipo. O nome Crápula surgiu por eles emitirem algumas vezes sons que lembram o termo.
Kevin e Sara ficaram até tarde em casa, depois que eles se foram, me concentrei em deixar as coisas arrumadas para ir trabalhar no dia seguinte. Estava com uma calça de moletom e um cropped cinza larguinho que havia colocado depois do banho, meu cabelo preso em um coque qualquer e o rosto sem vestígio de maquiagem enquanto arrumava a bolsa da Angelina para a creche.
— Nunca gostei de mulher de moletom, mas até que você fica bem.
Virei-me assustada e encarei Brian em pé na porta do meu quarto com um sorriso de canto. Puxei minha blusa pra baixo na tentativa de tampar minha barriga à mostra, mas só fez com que ele descesse seus olhos.
— O que faz aqui? – tentei chamar sua atenção.
— Queria saber se o relatório das indústrias Schneider está com você.
— Podia ter me ligado, mas não, este relatório eu deixei em cima da sua mesa na quarta de manhã.
— Hm… E você está bem?
— Estou e você?
Ele deu de ombros e olhou pra baixo. Algo me dizia que Brian não tinha ido até minha casa somente por isso.
— Qual o real motivo de você ter vindo até aqui?
Ele suspirou antes de entrar no quarto e encostar a porta atras de si.
— Lembra que antes de te contratar eu perguntei se você podia viajar? – assenti – Então, eu vou ter que viajar para Londres e você irá comigo.
— Eu não posso, minha filha…
— Eu sei, tentei arranjar um modo de levá-la também, mas vamos ter reuniões e eventos a noite para ir, não da pra ter uma criança com a gente. Por isso, conversei com a Isabella e ela disse que cuida da Angel com muito prazer.
— Quem é Isabella?
— Minha segunda mãe. Ela quem cuidou de mim e do meu irmão desde pequenos.
— Mas como ela vai cuidar da Angel?
Ele ia responder, mas bateram na minha porta antes e uma cabeça castanha adentrou por ela. Meu pai olhou Brian sentado no sofá do meu quarto, depois olhou para mim em pé em frente a bolsa da Angel e sorriu fraco.
— Posso falar com você filha?
— Claro, pai. Espera ai, não mexe em nada!
Brian sorriu divertido e eu sai do quarto atras de meu pai até seu escritório. Tinha esquecido que ele estava querendo falar comigo desde o dia do evento com meu chefe. Ele fechou a porta logo depois que eu entrei e se sentou em uma das poltronas, me oferecendo a outra.
— Sabe filha, eu estive pensando durante esses últimos meses e notei algumas coisas que não me agradaram nem um pouco.
— O que pai?
— Sua mãe. O fato dela não tratar a Angel como qualquer avó trataria a primeira neta. O jeito como ela vem tratando você e essa constate discussão de vocês duas. A forma como isso tudo afeta a Angelina. Sabe? Essas coisas e não fico nem um pouco feliz de dizer que isso só está me motivando a pedir a separação.
— Oi? Você quer se separar da mamãe?
— Pietra, entenda, todos nós temos um lado que ninguém conhece. Esse lado da sua mãe… Isso que ela está se mostrando ser com você e minha neta desde que engravidou… Não é essa mulher que eu amo, não foi com ela que eu me casei e jurei amor até que a morte nos separasse. E por não ser ela, não tenho motivo pra continuar com isso.
— Você não precisa fazer isso pela gente. Eu tô juntando dinheiro, vou me mudar com a Angel logo, não vamos ter esse problema mais! Pai, não precisa, você já conversou com ela?
— Já filha, ela disse que ia mudar, eu estou esperando, mas não vi nem se quer ela se esforçar pra fazer algo diferente! Eu sempre notei que sua irmã era mais próxima a sua mãe, que as duas era puxa saco uma da outra, mas não achei que esse favoritismo dela, pudesse afetar até a Angel.
— Eu sei que essa diferença existe pai, sei que ela não ama a Angel, igual ama o Daniel, muito menos trata igual, mas eu vou me mudar, a mãe vai ter cada vez menos contato com a minha filha, até que ela perceba a cagada que fez.
— E enquanto isso não acontecer, eu não vou me deitar com essa mulher. Ela não é sua mãe, nem a minha esposa.
— E o que vai acontecer?
— Eu comprei um apartamento pra vocês, tá só esperando vocês irem pra lá. E vou dar um tempo com a sua mãe, se você aceitar que seu velho passe uns dias com vocês na casa nova, eu fico lá, senão vou pra algum hotel.
Eu congelei. Como assim? Como ele consegue falar tudo isso nessa calma toda? Muita informação, muita informação.
— Pietra? Você tá bem? Tá ficando meio pálida.
E tudo ficou escuro.
(…)
Acordei num quarto branco demais e com bips irritantes no meu ouvido. Droga, vim parar num hospital. Tinha um peso sobre a minha barriga que logo identifiquei como minha filha dormindo abraçada a mim e eu por pouco não morri de amores a esmagando, porque não dava, já que tinha uma grande agulha no meu braço.
— Pietra? – ouvi a voz do meu pai logo ao lado.
Ele estava com cara de cansado e sentado na poltrona pra acompanhantes do quarto. Sorri pra ele e senti uma leve pontada de dor na cabeça.
— Oi pai.
Ele respirou aliviado e sorriu.
— Como você está? Tá sentindo alguma coisa?
— Com um pouco de dor de cabeça, mas bem. O que aconteceu?
— Você desmaiou enquanto a gente conversava e bateu a cabeça. Sua pressão havia caído, você estava sem comer, despejei muita informação, você não aguentou.
— Mas eu comi no café com Sara e Kevin!
— Comer um mini churros não pode ser considerado como uma refeição.
— Mas foi só por eu não ter comido?
— O médico disse que você tem pressão baixa, por isso que ao ficar nervosa com as informações que te passei, você desmaiou.
— Mas precisava ficar internada?
— Ele quer entender o porquê da sua pressão ser baixa. Você vai fazer alguns exames.
— Vou embora logo?
— Creio eu que só daqui uns dois ou três dias.
— Mas e a Angel? Ela vai ficar com quem?
— Sara já disse que vai ficar com ela hoje, amanhã ela vai pra casa da Luísa pra festa de pijama da Laura, ai fica até domingo. Até lá, creio eu que você já tenha recebido alta.
— Menos mal. Ela tá dormindo a muito tempo?
— Não. Assim que você desmaiou, ela acordou chorando, Brian quem cuidou dela e a acalmou, depois eu fiquei com ela e ele trouxe você para o hospital. Mas sabe como é, Angelina não consegue ficar longe de você muito tempo, por isso a trouxe comigo. Você estava dormindo a pouco mais de 12 horas, ela deitou com você assim que chegamos e ai, dormiu. Faz 1 hora, mais ou menos.
Fiz carinho em seus cabelos, sorrindo fraco.
— Brian ainda está lá fora. Preciso avisar ao doutor e a ele que você acordou.
— Ele está aqui esse tempo todo?
Meu pai assentiu sorrindo e foi até a porta, já lá falou que já voltava. Respirei fundo, ainda fazendo cafuné nos cabelos da minha filha e olhei pra porta, assim que ela fez barulho alertando que alguém estava entrando. Brian colocou a cabeça pra dentro e sorriu ao me ver acordada, o observando. Fechou a porta e parou ao lado da cama com as mãos no bolso.
— Você não quer sentar? – perguntei ao notar que ele estava quieto demais.
Brian deu a volta, puxou a poltrona pra mais perto da cama e se sentou.
— Você está bem?
— Eu quem devo perguntar isso, Pietra. É você que está internada – riu.
— Você tá estranho, mas eu tô bem, caso queira saber.
— Claro que quero saber, você me deu um puta susto!
— Não precisa se preocupar, segunda-feira vou trabalhar.
— Você acha que eu me importo com isso?
— Não sei, você é meu chefe, deveria se importar. Um chefe normal se importaria.
— Eu também sou um ser humano que se preocupa com os outros. Você desmaiou do nada, me preocupou.
— Já estou bem.
— Fico feliz por isso.
— É… Meu pai contou que você quem acalmou a Angel quando ela acordou chorando logo depois que eu desmaiei… Obrigada por isso, não é todo mundo que consegue acalma-la. Ela nunca chora, mas quando chora… E obrigada por ter me trago até o hospital, meu pai não ia dar conta de mim e da Angel sozinho.
— Eu não fiz mais do que minha obrigação.
— Você não era obrigado, Brian, mas mesmo assim fez e eu agradeço.
—Não precisa agradecer.
Brian me olhava com tanta intensidade que eu me sentia pequena ao seu lado, até tentava retribuir, mas era mais forte que eu. Nossos olhares só se desviaram quando Angel fez sinal de que ia acordar, mas logo voltou a dormir e Brian logo voltou a me olhar, mas dessa vez com um sorriso malicioso de canto.
Sentia os olhos de Austin em cima de mim, ele queria falar algo, eu sentia isso, mas por algum motivo ele se segurava. Me mexi desconfortável no banco, ele percebeu e olhou pra frente antes de perguntar.
— Se conhecem a muito tempo?
— Não.
— Parece.
— Sei lá, temos uma conexão difícil de explicar, parece que a gente se conhece desde sempre.
— Hm.
Vi que seu maxilar estava sendo tencionado em um dos sinais de seu corpo de quando ele ficava bravo com algo. Ciúmes talvez? Mas ele não tem o porquê de sentir ciúmes, nós terminamos.
Senti o táxi parar, Austin deu uma nota de vinte dólares e desceu do carro, esperando por mim ao lado pra fechar a porta em seguida. Estávamos parados em frente à um prédio de estilo antigo e clássico.
— Onde estamos?
— Você verá, juro que vai gostar!
Ele sorriu e estendeu a mão, eu hesitei, mas a segurei como se fosse uma criança e ele o adulto. Austin tirou do bolso a chave e destrancou a porta, pedindo para que eu fechasse os olhos, ele me direcionou até algum lugar, me fez parar e pediu que abrisse os olhos e eu me surpreendi. Estava em um estúdio de dança, mas não era um estúdio qualquer, era da melhor escola de balé de Nova York, onde eu já havia falado pra ele que queria ter a chance de ter pelo menos uma aula lá.
— Gostou?
— Como conseguiu? – ele arqueou a sobrancelha – Quer dizer, como conseguiu a chave e me trazer aqui…
— A dona da escola estava devendo um favor ao meu pai, eu conversei com ela e ela me emprestou o espaço.
O estúdio é gigantesco. Todas as paredes são de espelhos com corrimões para uso dos bailarinos, nos cantos superiores há caixas de som e ao lado direito um piano de cauda branco, já na outra extremidade há um daqueles sofás que se abrem e viram quase uma cama de casal com algumas almofadas e pufês em volta.
Logo uma música clássica começou a ressoar das caixas de som e eu o encarei com a sobrancelha erguida, Austin apenas sorriu, culpado, e estendeu a mão.
— Dança comigo?
— Você me trouxe aqui pra conversarmos e não para dançar, Austin.
— Nós podemos conversar depois da dança. Só uma, amor.
— Já pedi pra não me chamar assim.
Fica difícil resistir a intensidade de sentimentos que surgem em mim toda vez que ele me chama de amor como se ainda estivéssemos juntos e a saudade que eu sentia junto era quase arrebatadora.
— Você sabe que sempre gostei de te chamar assim, não vou mudar agora.
— Não estamos mais juntos, Austin.
— Fale por você.
Um aperto no peito me fez sentir um certo ressentimento de mim mesma. Eu não queria que tudo acabasse, mas acabou do jeito que deveria e ele era o culpado, mas ainda sim do jeito que falava, era como se a culpa fosse toda minha e eu fosse o único empecilho atrapalhando nosso relacionamento.
Austin me puxa pela mão, mesmo com a minha recusa, me põe colada ao seu corpo e espera uma nova música começar até iniciar os movimentos. Era uma música já conhecida de nós dois, juntamente com a dança que já havíamos decorado cada passo devido a frequência que a executávamos. Depois de alguns bons minutos, meu corpo pedia por mais já que estava a alguns dias sem dançar nenhuma vez, mas eu não queria dar o braço a torcer, então ao fim da última nota, me encaminhei até o sofá e sentei em um canto, esperando Austin sentar no outro.
— Pode começar.
— Eu nunca quis beijar ela. Luanne sempre deixou explícito o que sentia por mim e eu sempre deixei claro que amo você, ela sempre respeitou isso, mas ainda assim não perdia a chance de demonstrar seu interesse. Eu nunca sequer pensei em trair você, amor…
— Mas fez, já aconteceu.
— Eu sei e eu sinto muito, mas deixa eu continuar. Então, Luanne naquele dia veio conversar comigo antes da apresentação, ela disse que sabia o quanto eu amava você, mas que seu amor por mim era tão grande quanto e disse que não iria desistir, garantiu que mesmo sabendo que era errado desejar o namorado dos outros, ela não podia abrir da felicidade dela e isso faria com que ela acabasse com a felicidade de outra pessoa, no caso a nossa…
— A minha, você quer dizer.
— Durante nosso último ensaio, ela tentou me beijar depois que caiu no colo no último passo, mas eu desviei antes e dei uma bronca nela. Aquilo não era certo de mil maneiras diferentes. Durante a apresentação, ela viu o quão nervoso eu estava porque nos apresentaríamos pra pessoas extremamente importantes, então ela fez o que achou que me acalmaria: ela me abraçou e pediu para mim fingir que era você no lugar dela. Como se eu fosse dançar com você e te visse ali. Mesmo sendo estranho, aquilo funcionou e eu me acalmei e entrei confiante na apresentação. No último passo, eu estava convicto de que era você lá correndo até os meus braços para que eu a jogasse para o alto e fizéssemos aquilo, terminando com chave de ouro. Era tão real, amor, juro. Porque Luanne passou o mesmo perfume que você usa, o cheiro dela estava muito parecido com o seu e eu vi você no meu colo levantando meu chapéu e sorrindo, por isso fiz o que fiz. Mas porque era você ali que eu estava vendo, não a Luanne.
Eu estava sem saber como reagir depois dessa avalanche de informação. Lembro bem da conversa que tive com Luanna por telefone onde ela garantiu que havia errado, mas que fora seu melhor erro na vida e lembro também de suas palavras fortes e confiantes de que o amava tanto quanto eu e mesmo sabendo que eu não deveria, que não era certo, eu corri para os braços dele, me jogando em cima de si e quase o esmagando de saudade.
Querendo ou não, eu acreditei em suas palavras. Eu mesma já havia visto Austin em outras pessoas por causa da saudade avassaladora que sentia quando ele se ausentava pra uma de suas apresentações, então não era completamente estranho ouvir que ele havia me visto em Luanne durante a execução do passo e por essa razão, havia a beijado.
— Eu sei que errei e eu peço perdão por isso, nunca mais farei algo parecido, prometo. E você sabe o quanto minha palavra vale para mim.
— É, eu sei.
Sorri e ele me beijou, tomando meus lábios para si de uma forma possessiva e eu derreti em seus braços. Minha parte racional sabia que eu não deveria ter cedido assim tão rápido e fácil, mas poxa, são dois anos de namoro e muito amor envolvido, eu o desculpei porque acreditei em seu lado da história, afinal Luanne gosta dele e tenho certeza que ela seria capaz de tudo pra ter ele para si, de certa forma deixou claro isso para mim nas entrelinhas de nossa conversa e suas atitudes, ou seja, ela poderia muito bem inventar coisas para causar briga entre nós dois e ela ter caminho livre com ele, não? Pelo menos é o que eu penso e me faz sentir menos culpada por já estar em meio aos braços de Austin.
— Eu, realmente, fiquei com medo de você não me perdoar nunca mais.
— Por que?
— Porque eu sei que quando você ama, você ama de verdade, de corpo e alma e sei também que odeia mentira e traição, esse caso se enquadrou nos dois, então já sabe…
— Mas estamos aqui agora, não é mesmo?
— É, e posso jurar que sou o homem mais feliz do mundo.