caindo sem noção do fim, sinto o impacto n’água. Sua imagem se perde na confusão. Um brilho surge impedindo meu afundar, jogando-me para fora. Sou lançado num banco de areia sentindo meu corpo desligar. Abro os olhos, aperto os dedos percebendo o solo. Escuto o agitar de águas. Levanto lentamente vendo o frenesi do lago à frente. O som grave da força do conflito entre energia e águas, teimando em te envolver. A queda jogou você em um estado de êxtase liberando qualquer carga disponível como um guarda irritado defendendo seu reino. Sua vida em perigo ativou estados de super consciência, impedindo-a de absorver a queda. Impedindo-me de te alcançar. Olho em volta tentando encontrar uma forma de te acordar, mas nesses estados a realidade se deforma. Tudo pode vir a ocorrer, inclusive ficar assim para sempre. Começo a escutar estalos de ossos, gemidos mortais por perto. Olho novamente e percebo brilhos telúricos no cabelo de um Crápula¹, emanando o seu espírito destrutivo como faíscas. Vejo alguns corpos por perto e percebo o brilho de uma espada. “Antes de alcançar você, eu preciso continuar vivo”. Meu corpo reclama, mas corro sem pensar. Pego a espada sentindo o peso de sua lâmina mantendo o movimento, arrancando-a do corpo e do chão impulsiono-a circularmente direto no Crápula. Seus ossos se partem, destruo seu tórax, coluna, crânio. O brilho apaga-se dos seus cabelos espetados. Respiro por todo o esforço ainda escutando as águas tentando te engolir atrás de mim. Levanto a cabeça para frente contando incessantemente, um após o outro, gerando faíscas, vários, muitos, um por um, apresentando os dentes ao invasor, se apresentando para mim. “Hoje não é meu dia de sorte”. Sinto a espada, aperto-a na mão. Sinto um furor surgindo dentro. A energia da manopla ativa alguma coisa na lâmina, um auxilio inesperado a criar um brilho frio, iluminando meu caminho, numa corrida sem fim, brandindo uma espada sem nome, esmagando ossos com socos, empurrando-os com chutes, seus dedos tocando meus braços ininterruptos. Derrubo um vendo três mais a avançar. Derrubo outro vendo mandíbulas tentarem me rasgar. Faíscas de seus cabelos me atordoam enquanto ainda destroço seus corpos. São muitos, não parece ter fim. São muitos. Sinto um impacto na cabeça e a dor me causa desequilíbrio. Meu corpo atordoado ajoelha-se e uso a espada como apoio com as duas mãos. Ao tocar o chão com a lâmina percebo o tempo parar. Uma explosão fria surge além do meu corpo congelando num círculo todos os Crápulas sobre mim. Sinto sangue escorrer do meu crânio. O mundo gira parado. As águas roncam nervosas. Percebo meu corpo sofrer com a insistente permanência da dor. Com a insistente permanência do terror. Ainda não acabou. Minhas manoplas brilham um pouco mais destruindo a montanha de Crápulas sobre mim, destroçando-os. Meu corpo treme, estou suando sangue do esforço sobre humano. Não posso ceder. Não posso parar. Não posso perde-la. E se só me for permitido perecer soterrado por esses ossos, que seja após o último maldito Crápula desse inferno que avança sobre nossas vidas. Contudo, isso é ainda melhor do que minha existência sob o vácuo da tua ausência. Ao menos se você acordasse, eu não cogitaria mais em deflagrar um último golpe em meu peito.