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Capítulo 83
Capítulo LXXXIII
Daisy estava presa num sono pesado e sem sonhos, até porque, levando em conta a noite anterior, seria uma verdadeira surpresa se ela não estivesse exausta – física e emocionalmente. Ela havia literalmente caído na cama e apagado na noite anterior, nem sequer vira Harry sair do banho ou acordara quando ele começara a beijá-la no pescoço e felizmente, Harry também não insistiu muito, porque ele sabia que ela merecia um minuto de descanso.
Naquela manhã, ele acordou mais cedo do que ela, porque não estava acostumado com o colchão da casa que agora eles compartilhavam. Ficou olhando por cerca de uns dez minutos para o teto, enquanto ela ressonava silenciosamente ao seu lado.
Ele tomou aqueles dez minutos para se sentir mal consigo mesmo... Ele havia ido deitar se sentindo mal, mas acordara se sentindo péssimo. Péssimo pela noite anterior, porque por mais que eles estivessem ‘bem’, ele não se sentia daquela forma por dentro. Ele simplesmente não podia suportar brigar com ela.
Capítulo 83 - Donnie Darko
Peguei o metrô e não conseguia parar de pensar nela durante o caminho. Eu tava feliz, mas tava na bad. Era estranho. Dei um tapa na minha cabeça pra ver se pensava em outra coisa e reparei numa mulher me olhando com receio. Não bastava eu estar com a cara toda fodida, tinha que dar um tapa na minha própria cabeça pra parecer mais maluco. Arregalei os olhos pra ela, que parou de me encarar. Porra.
O Sick Boy e o Luc dividiam um apartamento muito louco que ficava próximo à Mondal. Eu digo muito louco no sentido mais forte da palavra "louco". Um lugar onde os dois moram não poderia ter outro adjetivo pra descrever. O Luc é artista e acho que isso já explica bastante. Teve uma vez que eu cheguei lá e ele tava fazendo um quadro de... Carne. Beleza. Quanto ao Sick Boy, acho que nem preciso dizer nada. Quando cheguei lá, o porteiro do prédio nem perguntou meu nome nem nada. Ou ele se lembrava de mim ou não tava nem aí. Eu seria um péssimo porteiro, na boa. Não vou culpá-lo. O prédio deles era bem legal, tinha cara de ser muito velho, e devia ser mesmo. Esses prédios que ficam ao redor da Mondal são todos da época em que fundaram essa porra de cidade, ou sei lá. Pelo menos é essa a cara que eles tem. Fred: Whazzuuup! O Fred gritou assim que eu abri a porta. Outra coisa legal da casa deles é que eu posso simplesmente abrir a porta, sem bater nem nada. Me deparei com a sala mais bagunçada da história, repleta de caixas com coisas estranhas dentro e espalhadas por todo lado: roupas velhas, máscaras, uns acessórios tipo nariz de palhaço, cartola, chapéu de reggae. Eu: Que isso, velho? O Luc tava sentado no sofá amarelo e velho vendo um livro de fotografias enquanto o Fred e o Sick Boy comentavam cada coisa estranha que achavam nas caixas e o Fred analisava uma máscara de cachorro. Fred: A gente tá escolhendo uma fantasia. Olha esse chapéu, Thommo!
Ele colocou uma cartola gigante daquelas de mágico. Engraçado foi que eu conseguia imaginar o Fred andando com uma daquelas na rua normalmente. Ele jogou a cartola pra mim e continou caçando. Sick Boy: Olha esse vestido, mano. Hahahah! O Sick Boy achou um vestido brilhante, vermelho e bem curto. Tinha umas plumas e umas coisas penduradas. Cara, por que eles tinham aquelas coisas? Sick Boy: Luc, eu vou de cafetão. Usa esse vestido pra tu ser minha puta. Luc: Quê? Fred: HAHAHA! To vendo que essa porra vai demorar. O Matt não falava nada, mas parecia que também tava gostando de olhar aquelas coisas que cheiravam velharia. Me joguei no sofá do lado do Luc, porque era o único jeito de chegar até lá. Se fosse andando, teria que pisar naquelas tranqueiras do chão. Eu: Que livro é esse? Luc: Achei aqui. Ficamos brisando nas fotos do livro que ele tinha achado no meio da zona enquanto os caras brisavam nas roupas. Depois de um tempo, o Fred começou a surtar. Fred: Mano, já é quase meia-noite e ninguém sabe como vai, caralho! Sick Boy: Calma, maluco. Tu também não sabe como vai ainda. Fred: Sei sim. Eu: Vai do quê? Fred: Surpresa. - sorriu. Eu: Larga de ser viado. Me fala do que tu vai. Fred: Surpresa. Levanta essa bunda daí e escolhe alguma coisa. Eu: Eu vou assim. Ele fez uma cara de bosta pra mim e começou a me jogar umas coisas. Tava tudo cheirando coisa guardada e eu perdi a paciência quando ele jogou uma lanterna no meu dente. Eu: Ô, CARALHO! Fred: Matt, bota isso! Ele jogou uma máscara parecida com a do Robin do Batman pro Matt. Sick Boy: Hahaha! Muito boa! Pega um lençol lá no quarto pra usar como capa. O Luc se levantou e começou a procurar algo pra vestir também. Que merda, não vão me deixar ir sem usar nada. Luc: Tem mais coisas lá no quarto, se tu quiser dar uma olhada. Fazer o quê?
Percebi que não ia conseguir ir vestido como um cara normal pra essa festa e fui pro quarto atrás do Matt. Caralho, a casa dos caras é uma zona sem fim. No quarto, tinha mais uma caixa cheia de tralha. O Matt colocou a máscara do Robin e amarrou um lençol amarelo no pescoço pra servir como capa. Eu fiquei fuçando na caixa pra ver se encontrava alguma coisa, mas eu tava muito sem criatividade. O Matt olhou pra mim com cara de nada e eu tive que rir. Eu: Hahaha. Essa festa é idiota mas tua roupa ficou muito boa. O melhor foi que ele ainda colocou o óculos por cima da máscara. Acho que o Matt não enxerga nem o próprio pé sem o óculos dele. Ele deu de ombros e foi me ajudar a encontrar alguma coisa pra vestir. Cada hora ele tirava um objeto da caixa e me dava uma idéia de fantasia, mas eu não curtia nada. Acho que a gente ficou fazendo isso por horas. Do nada, surgiu o Fred. Fred: Se liga! Olhamos pra ele, que tava vestindo umas roupas muito normais pro estilo dele. Uma regata branca, calças pretas, tênis vans, o cabelo bagunçado pra caralho, o bolso cheio de cigarros e uma mancha roxa no olho. Ei, peraí! Fred: Alguém tem um beck, caralho? To puto. - ele imitou minha voz com uma cara de lesado. Matt: HAHAHA Não acredito que tu vai fantasiado de Thom! Eu: Idiota. Caralho, o Fred é muito idiota. Ele ficou mais um tempão me imitando. Tive que rir quando ele simulou uma briga minha com o meu pai. O Sick Boy e o Luc apareceram e aí sim eu tive um surto de tanto dar risada. O Sick Boy tava vestido de Amy Winehouse, com uma porra de peruca nojenta, uma blusa preta e uma saia vermelha muito curta. O Sick Boy é magro pra caralho e cheio de tatuagens, tava muito bom. Eu: HAHAHAHAHAHAHAHAHA! Caralho!
O Sick Boy tirou um cigarro do bolso do Fred e acendeu como se nada estivesse acontecendo. Tava mesmo a cara da Amy Winehouse. Olhei pro Luc e não entendi nada. Ele tava em frente ao espelho ajeitando a gravata do terno. Ele vai fantasiado de homem de negócios? What the fuck? Eu: Que porra é essa, Luc? Tu vai de terno? Luc: Não, espera! Ele saiu do quarto todo sorridente e deixou todo mundo curioso. Do nada, ele voltou com uma cabeça gigante de urso de pelúcia, colocou na cabeça e abriu os braços. Luc: Que tal? Silêncio. Fred: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! UM URSO DE TERNO! - ele apontou. Luc: É!! Quê? Eu e o Matt nos entreolhamos. Fred: Muito boa, Luc! Só um maluco pra entender o outro. Beleza. Eu era o único que ainda não tinha escolhido a fantasia. Os caras saíram do quarto e foram pra sala pra começar a beber e fumar uns. Eu fiquei sozinho no quarto procurando alguma coisa que me servisse. Conforme eu ouvia as risadas altas da sala, eu ficava ainda mais impaciente. A sorte era que ninguém tava indo muito bem fantasiado. Quero dizer, o Sick Boy pegou um treco preto que chamou de cabelo e colocou na cabeça e umas roupas de gurias que esqueceram aqui. O Matt pegou uma máscara e amarrou um lençol no pescoço. E o Luc... É. Caralho! Acho que encontrei minha fantasia. No meio da bagunça, tinha uma máscara de coelho de plástico com cara de poucos amigos. Era cinza, tinha o olho meio estranho e dentes. Parecia um monstrinho. Coloquei, achei muito foda e fui pra sala pra beber com os caras. Fred: PUTA MERDA! - o Fred quase derrubou a garrafa quando me viu. Luc: O Donnie Darko! Na verdade a intenção não era me fantasiar de Donnie Darko, mas beleza. Sick Boy: Donnie Darko é o cara do filme, Luc. Não o coelho. Luc: É verdade. Qual o nome do coelho?
Matt: Frank. Sick Boy: Isso. Mereço esses três discutindo sobre o filme quando eu to é com vontade de beber. Eu: Que seja. Passa a garrafa. Fred: "Passa a garrafa." Eu: Pára de me imitar, caralho. Ele riu e me deu a garrafa Jack Daniel's. Terminei de beber no bico mesmo, porque já tava acabando. O Matt reclamou um pouco, mas não liguei. Bebemos, fumamos uns, tudo pra ficar no ponto pra festinha. Sinceramente, eu não tava botando muita fé de que seria boa. Fazia uns mil anos que o Sick Boy não falava de nenhum amigo maluco dele, nem sei se os caras ainda sabem como dar uma festa. Antes, quando ele me chamava, eu não tinha idade pra ir. Sem contar que fico puto com essa história de fantasia. Logo chegaram o Ale e o Pizza de carro pra nos buscar. A mãe do Ale tinha prestado atenção em casa objeto da casa pra garantir que o filho não fosse dar uma festa maluca. Mas, pelo visto, tinha se esquecido de contar a quantidade de gasolina no tanque do carro, porque lá estava ele dirigindo com dezessete anos. Ale: Olha o Sick Boy! HAHAHA! O Ale tava todo enrolado em esparadrados, provavelmente com a intenção de ficar parecido com uma múmia. Acho que funcionou. O Pizza podia estar fantasiado de pizza pra gente dar risada, mas resolveu aparecer vestido de hippie. Até que ficou legal. O melhor era a camiseta dele escrita "I Love LSD" com tinta. Entramos no banco de trás, todo mundo zoando da fantasia um do outro.
Eu odeio andar de carro quando tô bêbado porque fico meio enjoado, principalmente com esses malucos que não sabem dirigir. A cada curva eu sentia que ia vomitar meu estômago na cabeça do Ale, mas até que não demorou muito pra gente chegar na tal festa. Paramos em frente à uma casa branca que ficava em uma rua tranqüila, um pouco afastada da cidade. Engraçado existir um lugar daqueles não tão longe do centro, onde o Sick Boy e o Luc moravam. Fred: A enfermeira é minha. Pizza: Pode ficar. Acabei de ver uma policial. Sick Boy: Tem uma capetinha! Fred: Vixi, a capeta é minha! O Fred e o Sick Boy ficaram se estapeando pra ver quem conseguia sair do carro primeiro, como se isso fosse mudar alguma coisa. Nenhum dos dois malucos ia chegar na guria fantasiada de diabinha agora. Acho que só tavam querendo banalizar. O Sick Boy conseguiu sair primeiro, mas o Fred correu mais rápido até a porta da casa. Quando desci do carro, comecei a achar mais graça nesse negócio de fantasia. Era engraçado estar num lugar com um monte de gente vestida daquele jeito. Na real, acho que o problema dessas festas é arranjar a droga da fantasia. Depois que tu já tá na festa, fica engraçado. Matt: To meio enjoado. Eu: Sei como é. Ale: UHUUUU! O Ale e o Pizza saíram correndo atrás do Fred e do Sick Boy. Acho que a festa tinha acabado de começar, porque a porta tava meio tumultuada. Dei idéia pro Matt de a gente fumar um cigarro até as coisas se acalmarem, e ele concordou. Ficamos do lado do carro fumando e ouvindo os caras gritarem nosso nome lá na frente. Mostrei o dedo do meio. Matt: Tá engraçado tu fumando com essa cara de coelho louco. Eu: Tu também, Robin. Matt: Eu não to de Robin. Eu: Não? Tá de quê? Matt: Sei lá. Um super herói qualquer.
Eu: Super Matt. Ele arqueou as sobrancelhas, meio desanimado. Parecia que não tava se sentindo um Super Matt naquele momento. Como não sei lidar com o sentimento dos outros e fico desconfortável só de imaginar que alguém tá de bad do meu lado, fiz uma piadinha pra... Nem eu sei. Eu: Tu tem poderes legais, cara. Tu sabe ler mentes, bola um beck como ninguém e sabe as respostas pra tudo no mundo. Com certeza aquela cara de bosta tinha a ver com a Larissa. Não era bem uma cara de bosta completa, mas uma cara de quem tava desanimado consigo mesmo. Cara de bosta é a minha quando percebo que minha seda acabou. Eu: Puta merda. Algo me diz que tu também não tem seda. Ele fez que não com a cabeça. Porra, Matt. Tu já foi melhor nessas coisas. Ficamos olhando em volta procurando uma alma viva que estivesse fumando um beck. Mas parecia que, de repente, todos os viciados do mundo tinham desaparecido. Incrível. Tem dia que eu vejo maluco fumando maconha no meio da rua, e agora não tem ninguém do lado de fora da festa. Eu: Que droga, cara. Eu queria muito fumar um. Matt: Relaxa, Thom. Os caras devem ter. Eu: Mas eu queria muito. Queria agora. Eu tava com uma vontade louca de fumar um beck, puta merda. Acho que eu tava tendo uns dias confusos demais, precisava relaxar. Às vezes tudo acontece tão rápido que eu preciso fumar um beck pra ver o mundo girar mais devagar. Comecei a ficar ansioso. Senti minha respiração mais forte e difícil, minhas mãos inquietas. Matt: E aí, vamos entrar? Eu: Preciso fumar um, cara. Matt: Os caras devem ter lá dentro. Vamos entrar. Eu: Eu quero agora. Vai demorar pra encontrar alguém. O Matt travou e ficou me encarando. Não gosto quando ele faz isso, realmente não gosto. Sinto que ele tá dando uma de Super Matt e entrando na minha mente. Eu: Que foi, porra? Ele levou um susto. Matt: Nada. Vamos procurar alguém que tenha então.
A maioria das pessoas tava parada em frente à casa de paredes brancas, onde tava rolando a festa. Era um lugar bonitinho, mas com cara de coisa velha e meio abandonada. Não sei bem explicar. Parecia aquelas casas que a gente vê em filme de terror americano, onde mora uma mulher solteira com dois filhos que vêem gente morta. O que eu to dizendo? Eu só quero dar um trago numa porra de um beck. Matt: Aquele moleque vestido de palhaço tem cara de quem fuma maconha. Eu: Tem cara de serial killer, isso sim. Palhaço sempre tem cara de serial killer pra mim. Eu: Mas tem cara de nóia também. Deve ter até mais do que maconha. Matt: É. Mas tu que vai falar com ele. O Matt é tão tímido que me irrita às vezes. Eu não gosto de falar com os outros, muito menos com quem eu não conheço, mas acho que não tem nada a ver com timidez. Eu só não gosto. Quero dizer, às vezes eu fico meio tímido perto de alguém, mas não acontece com frequência. Na maior parte do tempo eu só to com preguiça de fazer social. Eu: Tu já pensou em procurar um psicólogo por causa dessa tua timidez? Perguntei enquanto a gente ia até o cara vestido de palhaço. Matt: Já. Eu: E aí? Matt: Fiquei com vergonha de falar com a minha mãe sobre isso. Por que eu não me surpreendo? O maluco de palhaço tava fumando um cigarro junto com um outro cara vestido de roqueiro, ou sei lá que porra era aquela. O palhaço usava um chapéu vermelho, uma peruca laranja, uma maquiagem muito bem feita e uma roupa colorida e brilhante, que contrastava com o seu all star branco, velho e sujo. O roqueiro tinha cabelos grandes, usava uma bandana de caveira, umas porras de couro e calças rasgadas. Pra mim, tava parecendo um viadão. Eu: E aí. O palhaço arqueou uma das sobrancelhas e o outro nem olhou pra mim. É estranho pedir um beck pra quem quer que seja, mesmo que se trate de um nóia fumando um cigarro vestido de palhaço.
Eu: Vocês tem um rolê? O palhaço olhou pra cara do roqueiro, que deu uma risadinha. Será que eles eram um casal? Espero que não. Espero que nada. É melhor não esperar nada dessa nossa juventude, como diria meu frustrado pai. Palhaço: Nem. - ele sacudiu a cabeça. Eu: Sabem de alguém que tem? Palhaço: Qualquer pessoa, cara. Ele apontou precisamente pra um grupo de três gurias que tavam do lado da casa, mas um pouco afastadas. Agradeci o palhaço e ele me abriu um sorriso de dentes amarelos. Que medo desse cara. Eu: Tu que vai falar com as minas agora. Matt: Eu? Por quê? Tu que quer o bagulho. Eu: E tu não vai fumar se eu conseguir um? Matt: Vou, mas... Eu: Então fala com elas. Se o Matt não perder um pouco dessa timidez dele agora, não vai perder nunca. Não quero que ele vire um Fred da vida, não só porque eu não aguentaria dois Freds, mas porque não quero mudar o jeito do Matt. Só acho que ele perde muita coisa na vida por medo de falar e agir. Paramos do lado das três gurias e eu fiquei encarando. O Matt ia me assassinar com um garfo de pudesse, mas um dia vai me agradecer por isso. As três gurias tavam vestidas de colegial, gatinha e noiva. Deve ser foda pra guria escolher uma fantasia. Se tu é mina, ou usa uma fantasia idiota ou uma de vadia. A noivinha tava usando um vestido curto e branco, um véu na cabeça e segurando umas flores nas mãos. A gatinha tava toda de preto, com orelhas e maquiagem de gato no rosto. A colegial tava a coisa mais gostosa desse mundo, fim. Elas começaram a rir quando perceberam que eu tava olhando sem disfarçar. Noiva: Ahn... Oi? Fiquei quieto. O Matt ameaçou sair de perto, mas viu que eu não me mexi e mudou de idéia. Eu não ia falar nada enquanto ele não falasse, não tava incomodado. Elas se entreolharam como se a gente fosse louco. Continuei olhando. Eu sentia o nervosismo do Matt de longe.
A guria vestida de noiva era a mais bonita, e talvez por isso fosse a mais metida. Fez uma careta pra mim como se eu fosse um idiota, mas eu sei que não sou. Ela tinha o cabelo bem preto num corte reto que ia até os ombros, a pele bem branca, o nariz bonito e um sorriso de filhinha de papai. Acho que eu tenho uma certa queda por patricinhas. Matt: Voc... Vocês... Vocês tem um rolê? Colegial: Quê? A colegial tinha os cabelos loiros e compridos presos em duas trancinhas, que caiam em cima dos peitos unidos no decote da camisa branca de botão. Colegial é mancada, cara. Essas saias de pregas ainda matam alguém. Matt: Maconha. Elas se entreolharam de novo, segurando o riso. Noiva: Pff.. HAHAHAH! Eu: Tem ou não? A gatinha tirou um papelote de maconha de dentro da bolsa preta que tava usando. Caralho, eu não tinha reparado até agora, mas a mina tinha ainda mais cara de nóia do que o palhaço. Ela abriu a mão e colocou uns torrões na palma. Colegial: Outro, menina? Hahahahah! - Ela riu e abraçou a noivinha. Tava na cara que aquelas idiotas tinham acabado de fumar. A guria vestida de gata só ficou me olhando. Ela tava visivelmente chapada, com os olhos pesados, o cabelo bagunçado, um sorriso que não enganava ninguém. Noiva: Ei, não dá pra eles! Colegial: Calma! Eles tem que fazer alguma coisa em troca. Noiva: É. Eu não queria maconha, caralho. Maconha eu sempre tenho, só precisava da seda, mas fiquei quieto pra ver o que elas iam pedir. Noiva: Se beijem! Hahahaha! Colegial: HAHAHA! Tu é louca! Olhei pra cara do Matt, que não parecia muito feliz. A guria continuou com a mão de maconha estendida pra mim. Tem momentos na vida em que tu pode agir como alguém normal e dizer que não precisa da maconha delas, mas quem disse que eu gosto de ser assim? Eu: Vocês primeiro.
Todo cara que se preze gosta de ver duas gurias juntas. Eu não sei explicar o motivo, apesar de ser um cara e de gostar também. Não tenho essa brisa de comer duas gurias ao mesmo tempo, nem sei se dou conta, mas é muito louco ver minas se pegando. O Matt deu uma risadinha muito sem graça, como se quisesse mostrar que eu só tava brincando. Eu não sabia o que esperar daquelas malucas e não ia perder nada tentando me divertir um pouco.
A noiva e a gatinha riram pra gente, se olharam e, puta que me pariu e pariu o Matt junto... Se pegaram! O Matt pareceu ter engolido uma mosca na hora, porque ficou de boca aberta, olhos arregalados e parou de respirar. Numa boa, eu dei idéia mas achei que fosse levar um tapa na cara. Eu podia ir embora aquela hora, porque a festa já tinha valido à pena pra mim. Duas gurias se pegando, puta merda, uma de vestido branco e outra de gatinha. Elas nem fizeram nada de mais, só deram uns beijinhos que duraram segundos, mas foi o bastante. Noiva: Agora vocês. Ô mina gata do caralho. Nem sei o que faço se pego ela. Eu: Nem fodendo. Eu saí dando risada pro alívio do Matt, que tava mais branco do que a roupa da guria noiva. Elas ficaram me xingando e dando risada. Eu tava bem ansioso pra fumar um, mas, depois dessa, até agüento mais um pouco. Depois que passou o choque e o nervosismo, o Matt não conseguia parar de rir. Matt: Não acredito que tu fez aquilo. Hahaha! A porta do lugar tava menos lotada do que antes, então não foi tão difícil entrar. O problema maior era que o dono da festa, vestido de cafetão, tava lá cumprimentando a galera. Eu sabia que era o dono da festa, porque reconheci o amigo do Sick Boy. Sem contar que um cara vestido de cafetão só poderia ser amigo do Sick Boy ou do Fred.
O maluco cumprimentou a gente como se fosse super brother. Eu sorri de volta e o Matt acenou. O cara falou qualquer coisa sobre a minha máscara mas eu nem ouvi. Procuramos os moleques com o olhar, mas tava difícil encontrar qualquer pessoa lá dentro. A casa era legal, mas não era muito grande e tava bem lotada. Talvez parecesse ainda mais lotada por causa das fantasias, que são mais coloridas e espalhafatosas do que roupas normais. Eu: Achou alguém? O Matt fez que não com a cabeça. Já deu pra entender que a gente não vai encontrar ninguém tão cedo. Fica difícil reconhecer a galera no meio de um monte de gente com máscaras e roupas estranhas. Eu e o Matt desistimos de perder nosso tempo procurando os caras e fomos atrás das bebidas. A ida até a cozinha foi complicada, primeiro porque a gente não sabia onde era, segundo porque já tinha muita gente bêbada que não sabia mais o que era dar licença. O Matt encontrou um cara que tava distribuindo copos e pegou dois pra gente. Agora o jeito era ir atrás de algum maluco que tivesse uma garrafa, coisa que não demorou muito pra aparecer. Assim que vi um cara com uma garrafa de Absolut, estendi meu copo pra ele. Não curto beber vodca pura, mas era o que tinha. Curto é ficar bêbado, então tudo bem. Tava rolando um som legal. Parecia ser uma música da Uffie, só que mais pop e com uma batida mais forte. Eu não sei, não gosto e acho gay dançar, mas às vezes tu precisa agitar um pouco pra entrar no clima. Geralmente é o Fred quem alopra comigo e com o Matt pra que a gente se mexa, mas como ele não tava por perto, eu mesmo comecei a pular e puxei o Matt junto. Ele derrubou metade do copo em mim, mas acho que já to ficando acostumado com isso.
Caralho, quando eu acho que o Sick Boy tá deixando a doideira de lado, eu conheço os amigos dele. Dava pra ver de longe que tinha muita gente alucinada de ácido, ketamina e os caralhos. Quero dizer, uma mina não sobe no sofá de vestido e começa a dançar com um cara vestido de gogo boy se estiver sóbria. Mas gosto de festas assim. Gosto mais ainda porque não conheço quase ninguém. Eu e o Matt podemos ficar pulando e batendo em todo mundo em volta feito idiotas, que ninguém tá nem aí. Acham que a gente tá malucão também, então tudo certo.
Nosso copo nunca tava vazio, porque sempre passava alguém oferecendo mais bebida. A gente tava surtando de dar risada da cara um do outro. Não é todo dia que tu vê um projeto de Robin de óculos pulando nas pessoas. O Matt consegue ser mais fraco do que a minha mãe pra bebidas, tenho certeza de que ele já tava bem louco. Quando eu achava que tava me divertindo muito, vi de longe duas cabeças enormes e amarelas no meio da galera. Mano, eu não conseguia acreditar. Eram dois caras vestidos de Bananas de Pijamas, e fumando um beck. Eu: Olha aquilo! HAHAHAH! - apontei. Matt: HAHAH! Só na festa do Sick Boy tu vai ver os Bananas de Pijamas fumando um! Quando recuperei o ar depois de tanto rir, fui atrás dos Bananas. Se alguém tinha seda, eram aqueles dois. Arrastei o Matt antes que ele fosse engolido por alguma super heroína maluca de ecstasy. Cutuquei o cara vestido de Banana. Quando ele se virou, eu nem consegui falar. Quando perceberam que eu já tava passando mal de tanto rir, os dois se abraçaram e começaram a dançar. Eu nem me lembro de nada do que eu falei, mas acabamos ficando amigos dos caras e eu fumei uns na faixa. Ah, essa vida errada. Sempre unindo as pessoas.
Fiquei doidão fumando com os Bananas de Pijamas. Bom saber que tenho muita história pra contar quando eu ficar velho, se ficar. Eu olhava em volta e não conseguia parar de rir. Tinha fantasia de tudo, inclusive umas que não dava pra tu adivinhar o que era, tipo a do Luc. Acho que a maioria das pessoas fez como a gente, só pegou um monte de peças estranhas que tinha em casa e vestiu. Vez ou outra caía alguma coisa estranha na minha mão, tipo um guarda-chuva, ou uma coroa. Hein? Terminei de virar o resto de bebida que tinha no meu copo. O meu problema é que eu não sei a hora de parar de beber. To ligado que, quando eu acordar surtando de dor de cabeça, vou ficar pensando nos momentos em que deveria ter parado de beber na festa. Mas não dá, eu não tenho esse controle de saber a hora de parar. Quanto mais bêbado, mais eu bebo. O Banana, muito brother, viu que meu copo tava vazio e me deu o dele. Eu tava pronto pra beber tudo que tinha no copo dele também. Botei o copo na boca e me veio um puta cheiro de Coca-Cola. Não acredito que esse doido tá vestido de Banana, fumando maconha e tomando... Refrigerante. Olhei estranho pra ele, mas resolvi beber a Coca. Quando ameacei virar o copo, o Luc pulou na minha frente com sua cabeça de urso e tirou o copo da minha mão. Eu: Que isso, maluco? Dá meu copo. Luc: Nem fodendo, tu vai ter um surto se beber isso. O Luc simplesmente jogou o copo longe. Que isso, velho?! Eu: É Coca-Cola! Luc: Tu acha mesmo que o cara ia beber só refrigerante? Tem GHB no meio. Cerrei os olhos mostrando que eu tava pensando no quanto ele era louco. Luc: Sério, tu tá numa festa dos amigos do Sick Boy.
É, faz sentido. Ninguém naquela festa ia beber "só" alguma coisa. Tomei GHB uma vez, e to ligado de que tu não pode misturar com bebida alcóolica. É perigoso tu simplesmente parar de respirar ou, como dizem por aí, "apagar de G". Tanto que os noiados só colocam na água ou no refrigerante. GHB é um líquido claro, salgado e sem cheiro, que tu nem sente quando mistura com alguma coisa. O Sick Boy gosta de tomar depois de usar alguma outra droga pra acentuar os efeitos. O Luc ficou me encarando como se eu fosse lamber a Coca com GHB do chão. Eu, hein. Eu: Relaxa, velho. Olhei pro Matt, que tava mais brisado do que sei lá o quê, paradão olhando pro nada e com um copo na mão. Só pra garantir, dei um tapa no copo dele pra que caísse no chão. Vai que aquela Banana doida botou GHB no bagulho. O Matt acordou da brisa e me olhou sem entender nada. Luc: Fica esperto, Thommo. Se quiser usar alguma coisa, pede pro Sick Boy. Não confia nessa galera. Se o Sick Boy é o cara mais confiável do lugar, acho que o negócio tá complicado. Como sou meio nonstop com essas coisas, realmente tava a fim de usar alguma coisa. Não costumo ser um noiado tipo o Sick Boy, só fico no álcool, na erva e uns comprimidos de vez em quando. Mas um lugar assim pede uma brisa mais alucinada. Chamei o Matt e o Luc e saímos procurando o Sick Boy. Foi bem fácil achar, bastou perguntar pra umas duas pessoas se alguém tinha visto o Sick Boy. Todo mundo conhece ele. Me apontaram um maluco que tava com a saia mais torta do que tudo e jogando aquelas porras de espuma de carnaval em todo mundo.
Sick Boy: UHHHHHH! Ele tava dando tipo uma chave de braço numa guria vestida de gatinha. Devia estar pegando ela, por mais que a cena não parecesse muito romântica. Sick Boy: FALA AÍ, ZÉ LOUCO! O Sick Boy tava mais sick do que nunca, com o olho arregalado e todo preto por causa da pupila dilatada de tanta merda que já usou hoje. Nem preciso dizer que tava a Amy Winehouse perfeita. O Luc falou no ouvido dele. Deve ter sido alguma coisa sobre eu querer ficar bem louco, porque logo o Sick Boy tirou um saquinho do bolso. Junto com o saquinho, caiu mais um monte de comprimidos, cápsulas e papéis de ácido, mas ele nem tava ligando. Deu um beijo no saquinho de pó branco e jogou pro meu lado. Eu: Que porra é essa? Parecia cocaína, mas nunca se sabe. O Sick Boy tava maluco demais pra responder. Só deu um puta beijo na guria que ele tava segurando e saiu jogando bebida pra cima. O Luc sumiu de repente e o Matt ficou lá paradão comigo, olhando pro saquinho. Eu: Tu sabe o que é? Matt: Pode ser várias coisas. Passamos mais uns segundos olhando, até que a guria vestida de gatinha apareceu no meio de nós dois. Gatinha: É Speed. Eu: Hein? Gatinha: Anfetamina. Das boas. Eu e o Matt nos olhamos, depois olhamos pra ela. Matt: Como tu sabe? Acho que ele não gosta quando sabem das coisas antes dele. Gatinha: Ah, eu só sei. Ela falou de um jeito bonitinho e sorriu. Quando ela olhou com a aquela cara, reconheci. Era a mesma menina que tava lá fora, que beijou a guria vestida de noiva pra gente ver. Resolvi confiar nela e acreditar que aquilo era anfetamina. Era bom que fosse, pra eu poder ficar felizão.
Fiquei olhando pra ela meio desconfiado, mas pela cara de nóia da guria, até que dava pra acreditar no que ela dizia. A guria, que já tava com os bigodes de gato borrados no rosto, abriu um sorriso no meio do monte de cabelo bagunçado que cobria seu rosto. Olhei pro Matt, que tava mais alucinado do que nunca, e provavelmente não ia me encher o saco com nada. Vamos ver qual é a desse pózinho.
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Capítulo 83
Manuella Narrando Acordei em um lugar diferente. O que era aquilo? Onde eu estava? Quando tempo eu fiquei aqui? Minha cabeça doía tanto. O que tinha acontecido? Logo percebi que estava em um quarto de hospital. Eu tava confusa. -Alguém me tira daqui! -Eu tentei gritar, mas estava sem forças quase pra falar De repente, a Roberta entrou no quarto e quase pulou em mim. -Manu! Manuella, você tá viva! Manuella.. eu te amo? Eu já disse que te amo? Manu! -Ela gritava -Calma Roberta! Eu to com dor de cabeça não grita! Por que eu to em um hospital? O que aconteceu? -perguntei Ela me explicou tudo o que tinha acontecido e eu fiquei confusa. Ela chamou um médico e ele veio me examinar, disse que era necessário ficar ali por mais alguns dias para ver se realmente estava tudo bem. E que era um milagre eu ter sobrevivido depois de tudo, ele realmente não acreditou ao me ver ali, falando normalmente, como se nada tivesse acontecido. -Por que o espanto ao me ver bem? -perguntei -Por que de acordo com os teus exames, você estava entre a vida e a morte, e não tinha chance alguma de estar aqui agora, assim, bem! -ele respondeu Isso tudo só me deixou mais confusa. Então não era pra eu estar viva? E se não era, por qual motivo, ou como o próprio médico disse, por qual milagre eu sai do coma? Pedro Lucas Narrando A Roberta mandou todos irem pro hospital, mas chegando lá ela não apareceu, ninguém dava notícias. Eu não aguentava mais aquilo e fui em direção ao quarto da Manuella, a Roberta só podia estar lá. Quando abri a porta me deparei com uma cena que eu quase não acreditei. Será que era possível? Ou meu Deus, eu estava sonhando? A Manuella tava deitada na cama, mas já não estava com todos aqueles aparelhos, ela estava olhando pra parede, pensativa, e quando eu entrei e vi que ela estava bem dei um grito -Manu, você tá viva! Ela se espantou com o meu grito, mas não disse absolutamente nada. Logo a Roberta e o médico me explicaram o que aconteceu e foram contar pros outros que esperavam na sala. Todos ficaram muito felizes, aquilo era um milagre. Mas algo estava estranho. A Manuella não fala, ela realmente não falava, era como se o corpo estivesse ali mas a aula em outro lugar. Fiquei observando ela… -Manu.. olha, desculpa por tudo, eu te amo tanto, eu não podia te perder! To tão feliz! -Dei um abraço nela mais ela não correspondeu
Manu Narrando O médico veio ao meu quarto e disse que eu já estava liberada, a Sofi pegou as minhas coisas e um enfermeiro veio com uma cadeira de rodas me buscas. Me levaram até o carro onde o Diego me esperava, me colocaram ali dentro. Ele e a Sofi me levaram até em casa, abriram a porta do apartamento e uma verdadeira festa esperava por mim. Balões, bolos e brigadeiros não faltavam. Os meninos estavam ali, as meninas, até minha mãe maridinho dela estavam lá. Umas amigas minhas lá do trabalho, uns amigos meus do teatro, e mais uma galera que eu conhecia das baladas. Todos estavam lá, e pra minha surpresa até o Pedro Lucas estava lá. Eu olhei aquilo com total desprezo, era piada com a minha cara só pode. Eu acabo de sair de um coma de mais de 3 meses, chego em casa e de vez de sossego eu encontro uma verdadeira festa? Não é possível. Afinal qual o motivo da comemoração? Minha ‘quase’ morte? Que coisa mais ridícula. Fingi ignorar aquela verdadeira cerimônia dentro do meu apartamento, forcei um sorriso e fui pro quarto, sem dar explicações. Diego Narrando Achamos que a surpresa iria animar Manu, mais pelo contrário, ela pareceu detestar, não só não ficou ali, como saiu correndo pro quarto deixando todos nós com cara de espanto. O que dizer agora pros convidados? Todos ficaram preocupados. -Ela tá cansada, precisa de descanso, desculpem qualquer coisa! -A mãe dela falou e foi até o quarto Pedro Lucas Narrando Eu tava triste por não terem deixado eu ir buscar a Manuella no hospital, mais me animei ao saber da festa, só não esperava a reação da Manu. Ao ver tudo o que tínhamos preparado, ela detestou e foi pro quarto. Fiquei confuso! Vai ver a mãe dela tinha razão, ela devia estar cansada! Mais eu nem podia imaginar o que estava por vir com aquele atitude… Fiquei sentando em um canto pensando, ela precisava de tempo, não era hora de ir lá falar com ela.