Assim que ela abriu os olhos, percebeu que havia pegado no sono. A luz do sol invadia a sala através da janela, preenchendo o ambiente com luz natural, o que indicava que já estava amanhecendo. Ela virou o rosto e se perguntou quanto tempo havia dormido, olhando em direção ao relógio fixado na parede, ela nota que já havia se passado três horas; os ponteiros marcavam 6h5.
— Merda... — murmurou, levando a mão à testa. Seu corpo respondeu com um bocejo sonolento.
A ligação de Arkham no meio da noite a havia impedido de descansar direito antes de vir para o instituto. Ela levantou-se do sofá, esticando o corpo cansado enquanto uma leve tensão percorria seus músculos, e dirigiu-se à porta com a intenção de pegar um café na máquina que havia visto durante o tour de Lucille pelo local.
A maioria das celas estava em silênciosas, pois os detentos ainda dormiam, mas uma voz familiar fez-a parar instantaneamente.
— Oi, “bonequinha”, trabalhando tão cedo?
Ela tentou seguir adiante, como se não tivesse ouvido.
— Hey querida! — insistiu ele aumentando o tom, carregando uma falsa indignação, se aproximando ainda mais da divisória de vidro. — Não vai dizer “oi”? Que falta de educação. Achei que o Arkham tivesse padrões mais altos.
Ela sabia que não deveria morder a isca. Ignorá-lo parecia o caminho mais sensato a se seguir, mas, de alguma forma, algo dentro dela não conseguia resistir.
— Não sou sua “querida”, mister J.
Ele gargalhou de forma gutural, como se tivesse ouvido a piada mais engraçada do mundo, fazendo o som percorrer os corredores.
— Sabe, doçura, gostei de você. Principalmente do seu nome, Har-leen Quin-zel. — ele analisou o crachá dela e testou algumas variações do nome, enfatizando a sonoridade — Reformulando um pouco, chegamos a Harley…
Ela sabia exatamente para onde aquilo iria. E por isso, antes mesmo que o homem terminasse, ela o cortou, seca e cruzou os braços.
— Se for fazer esse tipo de piada, nem perca seu tempo. Já a ouvi mais de uma vez, e sempre termina igual: Harley Quinn. Se isso é tudo o que tem a dizer, então, com licença.
Ela virou dando-lhe as costas, retomando o caminhada até chegar no corredor principal que conectava as várias áreas do asylum. Onde além de encontrar uma máquina de café, ela encontra a Brooklynite que deveria estar acordada olhando as telas dos computadores, que passavam as imagens das câmeras de segurança do instituto.
Embora estivesse habituada à rotina de segurança, aquilo realmente a cansava. Mesmo nos momentos de alívio, apesar de seu espírito ativo e de sua energia contagiante, ela se sentia cada vez mais sobrecarregada pela repetição diária do trabalho. Se não fosse por uma pessoa presa ali dentro, ela sabia que jamais teria conseguido suportar trabalhar em um ambiente como aquele, por todo aquele tempo.
Assim que pegou os cafés, Harleen caminhou em direção à guarda, que apoiava a cabeça nos braços cruzados sobre o balcão.
— Bom dia, Lucy! — ela chamou num tom suave, estendendo um dos copos.
Crash se levantou em um sobressalto, apoiando uma das mãos no encosto da cadeira para não tombar.
— Caralho!! Quinzel! Quer me matar de susto?!
— Desculpa! — ela solta uma risadinha nervosa. — Não era minha intenção.
— Obrigada, eu realmente precisava disso — murmurou, pegando um dos copos e dando um gole do líquido quente, como se isso fosse suficiente para afastar algumas horas do cansaço acumulado.
Ela arqueou a sobrancelha, já mais relaxada, e lhe lançou um olhar divertido. — Então… já tem seu primeiro caso?
Ela se lembra dos relatórios que antes estavam sob a responsabilidade da Dra. Grayce, até que o Dr. Dawson passasse a conduzir os processos.
A maioria dos indivíduos haviam sido detidos repetidas vezes por aquele que a polícia e os cidadãos conheciam como "Batman".
Entre todos os internos, haviam casos à parte, como o de um paciente que não foi detido por ele em si, mas sim por sua parceira, e que ficaria sob sua responsabilidade, bem como Two-Face, Riddler, Scarecrow, Mad Hatter e Poison Ivy, a única paciente que Dawson nunca chegou a acompanhar. Harleen notou, com certo espanto, que ela estava sem acompanhamento terapêutico, há mais tempo do que o próprio Joker, que, apesar de seu histórico sangrento, ainda aceitava sessões ocasionais com o próprio Dr. Arkham — o que indicava que ele deveria gostar bastante dele para não tê-lo matado. Ou, no mínimo, achava divertido brincar com a vida do doutor.
Após a última captura de Pamela, suas sessões foram suspensas, já que sua ex-psiquiatra havia sido desligada, e ninguém foi colocado em seu lugar.
— Ela realmente me chamou a atenção. — confessou, colocou a cópia da ficha em cima do balcão da segurança com um gesto decidido.
— Assim que ela estiver na sala, você poderá começar a sessão. — disse a segurança após ver de quem se tratava.
[...]
— Se precisar de mim, é só chamar. Vou estar do lado de fora.
— Obrigada, Crash — sua voz saiu firme, mas havia um leve tremor escondido nas entrelinhas, que ela disfarçou com um breve sorriso antes de entrar na sala.
— Você está bem?
Os olhos da prisioneira se ergueram lentamente, encontrando a fonte daquela voz inesperada. Ela estudou a loira com desconfiança, parecia alguns anos mais nova que ela e carregava um semblante preocupado. Não estava acostumada a ouvir palavras gentis, principalmente alí. A não ser da sua ex-psiquiatra, daquele prisioneiro com quem havia realizado sessões em dupla, e de Crash quando ela conseguia trocar algumas palavras com ela.
— Dra. Pamela Isley, é um prazer conhecê-la. — apresentou-se com um sorriso caloroso, sentando na cadeira oposta. — Sou a Dra. Harleen Quinzel.
— Poison Ivy. — corrigiu a ruiva, fria.
Harleen engoliu em seco, ajustando os óculos. — Oh… hum… certo. Poison Ivy. Antes de começarmos… quero dizer que lamento pelo que aconteceu ontem à noite.
A paciente deu um riso baixo, carregado de cinismo.
— Por favor, não finja que você seja diferente!— ela retrucou, como se já estivesse cansada daquela jogo. — Grande parte das pessoas que trabalham em local como esses, no fim das contas, só estão pelo dinheiro.
A psiquiatra franziu o cenho. O dinheiro era bem-vindo, claro - quem diria que não? Mas não era só isso.
— Não posso falar pelos outros. Mas não estou aqui apenas por isso. Estou aqui pois quero que as pessoas se sintam melhor.
A ruiva inclinou a cabeça para o lado, os lábios curvando-se em um sorriso que denunciava descrença, arqueando a sobrancelha.
— Por que não começamos com você me contando como era sua vida antes de tudo isso? Antes de se tornar... uma criminosa ? — a Quinzel sugeriu a ela enquanto pressionava discretamente o mini gravador que Grayce usava para registrar as sessões, que ela havia encontrado na caixa de prontuários. — Pelo que li, você não teve um relacionamento muito bom com seu pai.
Os olhos da detenta se estreitaram ao baixar o olhar para o chão. Puxou os joelhos contra o peito, claramente lutando contra as lembranças daquele dia fatídico, que anos tentava deixar, mesmo que isso fosse aos poucos e tivesse ainda pesadelos.
— Podemos… Podemos começar de outro ponto de partida?— foi um pedido baixo, quase engasgado, que expôs uma fraqueza que ela odiava deixar transparecer.
— Claro. Não precisamos falar sobre ele. — fez uma pausa breve, observando a reação ruiva de anti a menção. — Talvez possamos falar sobre sua mãe?
Ivy, por um instante, mudou completamente. Uma expressão tênue brotou em seus lábios, mas a lembrança do que havia acontecido logo o apagou de seu rosto. Ainda assim, ela tentou não se abalar, agarrando-se às boas lembranças de quando ela estava viva.
— Minha mãe… ela adorava jardinagem. Passava horas cuidando do nosso pequeno jardim em casa.
Harleen inclinou a cabeça, encorajando-a a prosseguir.
— Ela dizia que, se eu ficasse bem quietinha, podería ouvir as plantas falando assim como ela disse escutava. — os lábios de Ivy se curvaram em um sorriso pequeno, nostálgico. — Acho que foi aí que tudo começou. Minha paixão pela botânica… a ideia de que as plantas não são apenas seres vivos, mas companheiras.
— Ela deve ter sido uma inspiração enorme para você — Harleen comentou com sinceridade.
Ela assentiu lentamente, ainda envolta das lembranças.
— Gostaria de me contar o que aconteceu ontem à noite?
A botânica bateu na mesa, fazendo com que as algemas tremessem com um tinido metálico, e gritou, deixando escapar a raiva em cada traço de seu rosto.
— Aqueles malditos estavam destruindo o único lugar onde me sinto em casa, nesse lugar!! Eles sabem o que minhas filhas significam para mim!!!
Harleen manteve a postura, mas sentiu o estômago dar um nó diante da intensidade que irradiava da mulher à sua frente.
— E foi por isso que você atacou os guardas…
Ivy assentiu devagar.
— Eles não entendem... — o olhar dela endureceu. — elas são a única família que me resta, e eu faria qualquer coisa para protegê-las até mesmo coisas que os outros chamariam de loucura.
— Pam... Poison Ivy. — a médica começou, mas logo se corrigiu, e indicou o ferimento que ela ainda estava se recuperando. — Mas pense: se você continuar se ferindo assim ou pior? quem vai cuidar delas? Você quer que suas filhas sofram porque você está presa, incapaz de protegê-las?
Ela soltou um suspiro longo, carregado de frustração.— E o que você sugere, doutora? Que eu apenas assista enquanto eles destroem tudo que amo?!
Harleen inclinou-se um pouco para frente, seu olhar se manteve firme.
— Talvez se você me der um voto de confiança, eu consiga convencer o Dr. Arkham a permitir que você volte ao jardim. Nem que seja em sessões controladas...
Antes que pudesse continuar, uma batida forte na porta a interrompeu, e Crash a avisou que o tempo da sessão havia acabado.
— Continuamos na próxima sessão — disse, desativando o aparelho no bolso do jaleco. Antes de se levantar, lançou um último olhar para ela.
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— Como foi lá dentro? — perguntou Lucille assim que a psiquiatra fechou a porta atrás de si. Sua voz carregava curiosidade, enquanto seus olhos a examinavam para ter certeza de que ela estava bem. Mesmo sabendo que a ruiva não pudesse ter causado nenhum dano real, já que estava presa por algemas que impediam que ela usasse os poderes, e a sala fosse feita do mesmo material.
— Ela não tentou me matar, então considero isso um bom começo. — ela comenta dando um pequeno sorriso em alívio.
Uma voz aflita de um dos guarda soou do rádio da segurança, chamando atenção das duas: Crash, precisamos de reforços com um dos pacientes do nível um!
Ela soltou um suspiro impaciente, passando a mão pelo rosto e, em seguida, revirou os olhos em direção ao aparelho.
— Sério?! — murmurou, apertando o botão do rádio. — Não conseguem lidar com um paciente de nível um sem me chamar?! Já estou indo!!
— Bom, doutora, parece que nos vemos mais tarde. — disse, voltando-se para ela, antes de seguir em direção ao local, deixando-a sozinha.
Harleen retorna para sua sala e, assim que entra, seus olhos são imediatamente atraídos pelo delicado botão de rosa ao lado de um bilhete sobre a mesa. Ela se aproxima devagar e apanha o papel, lendo-o mentalmente.
“Desça e venha me visitar uma hora dessas. Assinado, J.”
Ela fitou a rosa, perguntando-se se seria seguro cheirá-la , desconfiada do possível autor daquele presente. Seu primeiro instinto foi de desconfiança. Como ele poderia ter colocado aquilo aqui? Estaria subornando alguém? Ou pior… teria conseguido sair da cela sem que ninguém percebesse? Se fosse o caso, todos já estariam em alerta.
Ela deu um passo à frente, segurando a flor com cuidado, puxou-a do jarro e a analisou sob a luz. Era apenas uma flor comum, suspirou em alívio. Ela finalmente arrisca aproximar o botão do rosto, inalando seu doce e natural perfume, surpreendendo-se com a fragrância fresca que percorreu seus sentidos, fazendo-a relaxar momentaneamente, deixando escapar um pequeno sorriso sem que percebesse.
Sacudindo a cabeça, voltou ao controle. Ela coloca a rosa no lugar, guarda o bilhete no jaleco e caminha em direção a cela do responsável pelo mimo.
— Posso saber como isso foi parar na minha sala? — ergueu o bilhete de modo que apenas o homem deitado na cama, com as mãos cruzadas atrás da cabeça como se a esperasse, pudesse vê-lo, a sobrancelha arqueada e o tom firme, mas baixo, para que só ele ouvisse.
— Tenho meus contatos… até mesmo aqui dentro, doçura. — ele a respondeu no mesmo tom.
— Está dando propina aos seguranças? — Harleen estreitou os olhos, cruzando os braços.
— Quem disse que são os guardas?
Ela deu um passo à frente, encarando-o com dureza.
— Quem mais teria acesso a todas as áreas do instituto, facilitando suas pequenas “escapadas” e alimentando você com informações? Aposto que o Dr. Arkham adoraria saber que você tem comparsas aqui dentro.
— Se você realmente quisesse contar a direção… já o teria feito.— disse ele com um sorriso convencido.
— Mas… caso consiga alguma sessão comigo… — ele fala, num tom quase sedutor — eu poderia lhe contar algumas coisas. Nada… abertamente comprometedor, claro.
Ela sabia exatamente o que ele queria fazer. Sabia que era uma armadilha, mas considerava um desperdício não se aproveitar da situação e virar o jogo contra ele. Se conseguisse a chance de conduzir sessões com ele, poderia estudá-lo enquanto ele, em vão, tentava manipulá-la. Afinal, já havia decifrado sua estratégia, e não seria uma presa tão fácil assim.
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Teorias do próximo capítulo...?







