Capítulo 1 - 1857
Madeleine fala...
Às vezes penso: se eu pudesse escolher, quereria ser a Escolhida? A Grande Sábia? Provavelmente nunca saberei. Segundo meu pai, isso foi uma escolha minha, há muitos éons, mas nunca saberei. Nem mesmo quando o último soldado em batalha soltar seu último suspiro, entenderei o motivo dessa escolha.
Quando pequena, meu pai fez questão de me trazer ao acampamento e confirmar que eu seria a próxima áugure. Mesmo sendo recém-nascida, pude ouvir os “ohs” e “ahs” do Senado da época. Uma garota num cargo de importância. Um sacrilégio.
Fui levada para ser criada pelas seguidoras de Minerva. Desde pequena aprendi a arte de fiar e cantar, e me acostumei à vida sem garotos. Se não fosse por meu pai, teria sido rejeitada. De que serve uma garota, ainda mais cega?
Mas estou aqui, seguindo meu destino. Devo contar-lhe a história verdadeira. Contarei de momentos em que não estava presente, ou nos quais eu nem havia nascido. Eu não posso explicar como eu sei disso, pois nem eu entendo o porquê. Eu apenas sei.
***
Capítulo I
Fogo. Labaredas pareciam línguas lambendo a precária construção de madeira. A mulher corria desesperada, os homens rindo e apostando para saber em quanto tempo ela morreria.
- Cinco minutos? – John sorria com sua boca desdentada. Uma visão abominável.
- Menos. Aquilo está mais quente que o Inferno. – respondeu Seymour enquanto mascava fumo.
A mulher gritava loucamente enquanto corria. Suas palavras saiam embaralhadas, quase ininteligíveis.
- Minha filha! Ela está lá dentro! – repetia.
Não era possível ouvir o choro da criança. Já deveria estar morta.
A mulher entrou na casa. Logo depois um garoto chegou e entrou também. Quando saíram, a mulher estava com uma queimadura horrível em um dos braços. Tinha protegido a bebê com ele. No seu colo, a criança dormia com um leve sorriso nos lábios. A mulher e o garoto começaram a chorar de alegria. A garota estava viva.
- Cha – Charlotte – a mulher gaguejou.
- Minha menina de fogo – disse o garoto.
Não tiveram mais tempo para se alegrar. John segurava o chicote na mão e já chegara gritando:
- Voltem ao trabalho! Agora!
A mulher recebeu duas chibatadas: uma por ter realmente sido o alvo e outra por proteger o garoto. Ela engoliu o choro e disse para ele:
- Leve Charlotte para Cassandra e volte para o trabalho.
O garoto ficou olhando-a por um tempo até que ela gritou “vá, Louis!”.
***
- Então é por isso que você me chama de “menina de fogo”? – Charlotte perguntou.
- É. – Louis respondeu.
Eles estavam sentados de pernas cruzadas nas suas esteiras. Elizabeth costurava e conversava com outras mulheres numa esteira próxima. Era noite.
- Você falou isso com cinco anos de idade?
- É.
- Você só fala “é”?
- É.
Charlotte rapidamente percebeu porque seu irmão estava tão distraído da conversa. Sentou-se ao lado dele e ouviu as mulheres da esteira.
-... não podemos deixá-los – pegou Cassandra no meio de uma frase.
- Todos irão conosco, mas não poderemos parar. Mesmo sendo Natal, as pessoas não nos ajudarão. – falou a mãe de Abigail. Charlotte não se lembrava de seu nome.
- Podemos ir pela floresta atrás da casa. John e os outros homens nunca vão lá. – dessa vez era Elizabeth.
Uma mulher estava abrindo a boca quando John chegou à porta gritando. Estava tão bêbado que Charlotte podia sentir o cheiro da cerveja mesmo estando do outro lado da casa.
- Durmam logo, seus idiotas!
Ele estalou o chicote no chão. Todos correram para as suas respectivas esteiras, deitando-se. Cassandra demorou ao deitar por causa de sua barriga de oito meses de gravidez. Elizabeth, prevendo o que iria acontecer, cobriu os olhos dos filhos.
Todos ouviram calados. Uma, duas, três, quatro, cinco... Charlotte chegou ao seu limite ao ouvir a sexta chibatada. Seu coração encheu-se de ódio por John. Logo depois, ela ouviu um grito. Mas era um grito masculino. Sua mãe tinha tirado as mãos de seus olhos e cobria a boca com elas. O homem estava em chamas. Todos olhavam assustados para a garota. Ela podia ouvir os sussurros:
- Fogo... Dela... Do nada...
Louis olhava-a com admiração e terror ao mesmo tempo. Sua mãe olhou-a de cima a baixo com um olhar indecifrável. Aparentemente, a única pessoa que não tinha visto a origem do fogo era John, que gritava. Ele saiu da casa correndo, louco. Charlotte não queria prestar atenção nos olhares ao redor, então olhou a noite lá fora pela janela. Foi a única da casa a perceber os cabelos louros de Charles.
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