Me nego a ser quem sou. Ou quem fui. Pouco importa. Importante agora é o que vou ser. Não quero mais ser preocupada. Muito menos preocupante. Quero ser, mas não quero estar. Sempre fui. Fui mãe, fui amiga, fui fiel à todos. Cuidei mais que cuidei de mim. Vivi as dores particulares de todos que me olhavam cabisbaixos. Hoje? Sofram sozinhos. Não vou pagar pelas minhas palavras. E se eu pagar, também, pouco importa. Não importa nada, aliás. Nem pouco e nem muito. Minha conjugação de verbo vai ser no futuro, agora. E singular. Sempre fui plural, presente, perfeito. Mas não quero mais. Não quero fui, quero ser. Ser minha e depender de cada pedaço de mim. Quero ser dependente do meu sorriso, dos meus problemas, do meu verbo e do meu verso. Dos meus textos. Dos meus momentos. Singulares. Que ninguém faça parte. Ninguém mesmo... Nem aquele par de olhos claros que tanto me tinha. TINHA. Quem me têm sou eu. Tudo meu. Pra mim. E só. Não quero estar irritada, alegre, sorrindo à toa, chateada. Tanto faz. Não quero estar nada. Quero ser. Me conjugue como quem serei... Quem fui acabou. Quem sou não faz mais parte. Ou melhor, não me conjugue. Eu tomo conta disso porque agora pouco me importa alheios. Não entederá nada do que aqui foi escrito. Prescrição minha. Nada importa sua falta de entendimento. Nada importa você, seja quem quer que esteja lendo. NÃO ME IMPORTA! Não me importa o corte, a dor, o sangue, o coração maltradado. Nem o último capítulo de Avenida Brasil. Nem a tarracha perdida, o anel desbotado e o cordão arrebentado. Que arrebentem-se todos. E tudo. Nada importa. Nem o filme lançado, a palavra escapada, o cd do LH. Nem os dentes tortos, o cigarro apagado, o vento empoeirado. Os pés cansados, a cerveja em falta e a ausência que ela me faz. Nada mais importa... A indiferença que eu fiz todos temerem está em questão. Ou não. Nada está. Vai ser. Vou ser. No singular. Eu!
Letícia Mourão








