A capa frontal com duas nuvens brancas sobre um azul algodoado e nada mais prenuncia a delicadeza encontrada nos dois poemas deste pequeno livro, “Um homem segurando um bebê” e “Empédocles”. Assim tem circulado a poesia hoje, se multiplicando por pequenas editoras forjadas na impressão caseira digital e na experimentação que une design com papel resultando…
Nos últimos anos, o Rio de Janeiro passou a abrigar uma nova geração de poetas. Comprometidos com a poesia enquanto objeto de fetiche e investigando a vida de seus principais ícones, esses jovens autores produziram textos tão agudos quanto sentimentais. Em suas páginas, referências a episódios de poetas mortos se misturam a observações sobre o trânsito e os preços no supermercado.
Diretamente de Florianópolis, Catarina Lins é um dos principais nomes dessa novíssima safra. Após a plaquete Músculo e o livro Parvo Orifício, ela surge em 2017 com este Teatro do Mundo, sua melhor obra. Poema épico de mais de 100 páginas, O Teatro do Mundo se assemelha a extenso álbum de fotografias navalhadas, onde cada pose possui lacunas para que o leitor complete-as. Dividido em doze partes, esse enorme canto moderno, com ecos de Pound, vai-se rompendo em cada linha, quase que como uma máquina de descosturar.
A principal imagem parece ser um casal se encontrando no centro do tal Teatro do Mundo, mas nem isso é possível depreender porque, em certo sentido, já não importa. O que vale na leitura de Catarina Lins é observar como ela deseja ser lida e como, em sentido amplo, conecta seus mundos internos e externos.
O rapaz que encontra a mulher no teatro do mundo parece ser belga, mas não o é. E esse leitmotiv vai sendo explorado e fragmentado até que as possibilidades se esgotem. Sexo, quando surge, é de forma altamente voltaica e carinhosa – raridade. Em certa altura, Catarina afirma que os poetas podem ser a melhor pessoa do mundo, e quase sempre o são. Eis a chave, portanto. Para compreender O Teatro do Mundo é preciso reconhecer que essa consciência, aliada a uma espécie de “lista do caos”, também verbalizada, eleva o livro ao patamar de poesia-fetiche.
E se estamos quase que uma arena deserta onde projeções do passado se futuram na arquibancada, nada mais justo que afirmar: o fetiche, principalmente se poesia, liberta. E é na libertação que Catarina Lins prova ser a grande poeta que é. Há excessos, lógico, nenhum poema de 100 páginas passa incólume por eles, mas também há que se louvar um poema de 100 páginas, surgido como o tour-de-force de referências & captura de geração no cenário cada vez mais repetitivo da poesia contemporânea.
Esqueça a cidade, esqueça a vida, você está no centro do Teatro do Mundo e Catarina é a guia. Eis o zeitgeist, pois.