Prólogo
A história será narrada por Paula e Victor.
PAULA
E após alguns longos meses enfim aquela turnê acabou. Desde o princípio eu devia ter ouvido minha mãe, aquilo não daria certo, sairíamos machucados e com um acúmulo de pressão psicológica três vezes pior do que quando tentamos anos atrás.
Entrei no saguão do hotel onde estava alguns equipamentos, microfones, jornalistas aguardando sua vez para nos dar entrevista, um longo banner na parede. Na foto, eu e o Vitor, abraçados e com o título do nosso projeto: O nosso jeito de mato – Paula Fernandes e Victor Chaves. Dei pequenos passos falando com alguns conhecidos e eis que nossos olhos se encontraram e um misto de dor e amor percorreu pelo meu corpo.
O fato é que nós estávamos sem nos falar após uma discussão feia no nosso último show. Agradeci por ter acontecido no camarim, assim ninguém saberia o que rolou. Foi duro e cruel a forma como ele me insultou, eu também não fiquei de fora. Despejei tudo o que me incomodava.
Enquanto lembrava daquela fatídica noite sentei ao seu lado, nós estávamos de frente para a jornalista de uma revista muito conceituada e que não escondia sua bela intenção de flertar com Vitor, ele também ofereceu um belo sorriso para a moça, me deixando assim, incomodada.
“Podemos começar?” ela perguntou e por dentro eu só sentia vontade de sair correndo. “Por favor” Vitor concedeu.
A moça mexeu no papel e começou como toda entrevista desde quando decidimos realizar aquele projeto. Assuntos bobos, elogios não só para mim como também para o Vitor. Eu fiquei desconfortável durante toda a entrevista, Vitor comandou tudo do jeito que ele adorava. Citou sobre como decidimos fazer esse projeto, da parceria que tínhamos e ali não parecia que tínhamos brigado noites atrás.
_Vamos fazer uma dinâmica divertida – a jornalista virou a folha para ler as perguntas – Paula, o que você acha do Victor? _Como profissional é uma pessoa excelente para trabalhar, como temos em comum a pontualidade, a fidelidade ao que fazemos, acho ele bacana. Já como Vitor... – olhei para ele. _Continua – aquela mulher queria mesmo era pôr fogo no parquinho, mas aproveitei. _Como pessoa é um pouco difícil de lidar – baixei minha cabeça, mas logo a ergui e achei minha mãe me olhando de forma estranha. _Eu poderia dizer o mesmo – senti no tom de voz de Vitor que ele havia se incomodado com minha resposta. _Então passo para você, Victor. O que acha da Paula? _Que é uma ótima cantora, profissional, mas como mulher é muito complicada. _Somos, não é? – o desafiei encarando-o. _Pelo o que estou vendo esses meses foram difíceis de trabalhar juntos, né?
Paramos de nos encarar e fitamos a jornalista, ela queria isso. Amanhã estaríamos em todas as matérias de fofocas falando sobre nosso mal-estar. Era exatamente isso o que minha mãe queria dizer por trás das câmeras, ela queria que eu desse um freio. E foi exatamente isso o que fiz. Desviei lançando um sorriso perfeito e tocando na coxa de Vitor, ele na mesma hora retesou o corpo por completo.
_Não foi difícil trabalhar com o Vitor, ele é uma ótima pessoa. Mas como todo mundo temos nosso momento de cansaço ao longo de um projeto. Foram meses em estrada, convivendo quase 24 horas por dia. _E você o Leo, Victor. Pretendem voltar? _Sim. Eu preciso de uns meses descansando, mas em breve voltaremos.
Aquela tarde passou lenta, a cada entrevista eu e Vitor já não suportávamos mais, era perceptível sentir o clima ali, mas para todos nada mais era do que cantores cansados após um show na noite anterior. Terminamos as entrevistas com fotos abraçados e selfies que os jornalistas pediam. Respirei fundo agradecendo que aquilo havia acabado e fui até onde minha mãe estava.
_Eu não aguento mais – virei meu rosto e olhei para Vitor que estava conversando com a primeira jornalista que nos entrevistou. _Falta pouco, esse show de hoje a noite será o último.
Balancei a cabeça e segui para fora daquele salão. Deixei minha mãe conversando com Marisa que estava ali também para presenciar o último show da noite e subi. Estava caminhando no corredor em direção ao meu quarto quando ouço o outro elevador se abrir, continuei, mas fiquei tensa quando senti aquele perfume e a voz de Vitor:
_Paula?
Me virei já demonstrando que estar perto dele já não era tão bom como no começo daquela turnê. Ele se aproximou e segurou meu queixo com um dedo, me olhando profundamente.
_Me desculpa? _Sobre? – já nem lembrava mais qual era o vacilo em meio a tantos que ele me fez naquelas viagens.
_Eu fui errado e te machuquei. _Sabe Vitor... – eu tentei me controlar para não falar besteira, mas já estava em um estado caótico – agora eu entendo quando meus amigos, minha mãe, todo mundo me alertou para que me afastasse de você. Nós, um perto do outro, fazemos mal para humanidade. Mas vamos encerrar essa turnê hoje com uma boa amizade que ainda nos resta. Eu já aguentei muito o que você me fez e essa vai pra conta. Agora volte e vá ficar com seu novo brinquedo. _Do que está falando? _A jornalista... – ele não deixou que eu completasse. _Para com isso, ela só me pediu uma informação... – Também não deixei que ele continuasse. _Não vem me dar satisfações da sua vida. Quantas mulheres você já ficou? Quantas já se deitou? – estava no auge da minha insanidade – Desculpe, eu...
Dei as costas e voltei a caminhar para meu quarto. Aquilo já era deplorável. Não precisava me humilhar daquela forma, sei o meu valor e agora é o momento de usá-lo.
_Eu sei que nunca iremos ficar juntos – a voz dele elevou. Apenas parei de caminhar, mas não olhei para trás – Agora me entende quando eu pedia para não falar para ninguém? Porque sou o cara que mulher nenhuma precisa, porque faço as pessoas sofrerem. Mas saiba de uma coisa, Paula... – eu senti que ele estava se aproximando de mim e respirei fundo quando sua voz sussurrou – eu te amo, um amor inexplicável, mas que sempre vai te fazer mal.
Se ele achou que eu iria revidar a frase com o mesmo romantismo se enganou. Me controlando ao máximo virei meu rosto e o encarei por cima do ombro para falar de forma fria:
“Até mais tarde, Vitor.”
Entrei no quarto completamente arrasada, retirei meus sapatos e fiquei refletindo. Eu o amava, mas dessa vez ele não teria a resposta.
Mal sabia eu que me arrependeria de não tê-la pronunciado para ele, aquilo iria me doer durante meses....
















