Aquela manhã de segunda-feira estava sendo a mais tensa de todas. Eu andava de um lado para outro no meu apartamento, queria resolver meu problema logo com Fernando, dar um fim na nossa história e suplicar para que ele entendesse meu lado. Não sabia como seria sua reação e ciente disso, estava preparada até para o pior quando a campainha tocou.
Eu já podia sentir quem estava por trás daquela porta, e justamente por perceber que o porteiro não informou que alguém estava subindo fui logo me preparando. Quando abri fui acolhida por um abraço maravilhoso, mas que não me dava sentimento maior do que amizade. Fernando permaneceu agarrado a mim e logo procurou meus lábios. Nunca me senti tão mal por beijar alguém e sem emoção alguma, enquanto que para ele era mais um beijo de casal para mim era somente... mais um beijo. Deixei que ele se acalmasse para nos afastarmos e em poucos segundos estávamos entrando e o mesmo colocando sua mala próximo ao sofá.
Com essa pergunta eu lembrei daquela noite de sábado onde desfrutei da melhor noite ao lado do cara que eu amava de verdade. Respirei fundo enquanto olhava para a varanda só para não demonstrar minha mentira.
_Sim – busquei logo outro assunto para cortá-lo – E a viagem, como foi?
_Bem. Mostrei os resultados da minha experiência. Estamos ainda fechando um acordo na indústria farmacêutica, mas está quase certo. Antes fui obrigado a mostrar para alguns médicos e eles talvez aprovem.
Aquele mundo era maravilhoso, eu me empolgava verdadeiramente quando o assunto era medicina. Fernando continuou narrando como foi sua reunião naquele final de semana e só conseguia vir em minha mente a voz de Victor:
“Quando eu voltar quero te encontrar... e solteira”
Aquilo parecia como umm ácido, descia rasgando dentro de mim. Eu precisava falar a verdade, porém, Nando me envolvia em tantos outros assuntos. Até um momento onde fiquei literalmente contra a parede. Suas mãos seguraram as minhas, logo acariciando-as e sussurrou próximo ao meu ouvido:
_Eu estou com outro tipo de saudade...
Senti todo o sangue se esvair de dentro de mim. Eu precisava acabar com aquilo ou iria me sentir a mulher mais imunda da face da Terra!
Empurrei-o de leve quando senti que ele iria se aproximar para me beijar e tratei logo de iniciar:
_Nando, precisamos conversar.
_O que aconteceu? – me perguntou com a maior inocência.
_Eu passei esse final de semana pensando muito em nós dois e cheguei a conclusão de que não dá mais.
Como resposta recebi um silêncio que quando ergui o rosto achei Fernando aguardando uma explicação melhor da minha parte e voltei a falar:
_Olha, o problema não é com você, é comigo.
_Está com algum problema? Posso te ajudar.
_Esse problema somente eu posso resolver – passei calmaria para ele com um sorriso terno – Quando você voltou ao Brasil eu estava apaixonada por outro, mas para tentar esquecer achei que veria em você uma solução.
Eu não sei porque, mas quando olhei para Fernando senti que ele lançava um sorriso enviesado, travesso talvez, e tive a confirmação quando ele voltou a falar:
_Será que eu sei quem é o tal rapaz por quem a minha doutora está apaixonada?
Jamais iria confessar para ele que Victor era o dono do meu coração, até me assustei como se estivesse escrito em minha testa. Contestei:
_Não! É um homem que conheci naquele congresso do Rio Grande do Sul que te falei.
Ficamos em silêncio por eu achar que tinha o convencido. Até virei meu rosto e mais uma vez a varanda foi minha distração. A voz de Nando voltou a surgir com uma breve gargalhada que me fez voltar a olhar para ele e perceber que eu estava encrencada mais ainda:
_Lucy, você como mentirosa é uma ótima médica.
_O que disse? – indaguei para ganhar mais tempo.
_Você acha mesmo que não notei quando eu tentava puxar assunto sobre a dupla e você se esquivava de alguns detalhes?
_Ainda não entendi.
_Eu notei o clima que estava quando nós subimos no palco e te abracei por trás. O Victor ficou desconcertado, até meu avô que era cego, se estivesse vivo, iria sentir o clima que estava acontecendo ali. Pior ainda foi quando o Leo o chamou para me apresentar a ele.
_Nando, o Victor é só meu amigo.
_Seu amigo até quando você quiser, sejamos sinceros. Aquele homem te ama e se ainda não se declarou não vai demorar muito para acontecer.
Santo Deus! Até meu namorado havia notado o que ocorreu naquela noite do show. O que eu mais temia aconteceu. Fiquei calada por não saber nem o que dizer para ele, até baixei minha cabeça para não demonstrar um sorriso por dentro que seria perceptível. As mãos de Fernando mais uma vez seguraram as minhas, mas dessa vez era com outro sentimento, o de amizade.
_Eu te apoio a lutar por esse amor. Entre nós dois não daria certo, mas tenho que te agradecer por me dar tantos momentos bons desde que cheguei aqui no Brasil. Sinceramente? Também só te enxergava como uma amiga, mas não posso ser tolo de dizer que você transa bem e faz qualquer homem enlouquecer entre quatro paredes.
Entre lágrimas deixei um sorriso escapar. Busquei seu abraço e logo achei carinho da parte dele.
_Obrigada Nando – sussurrei em seu ouvido em meio ao abraço.
_Acho que vou querer esse agradecimento com você fazendo aquele macarrão gostoso.
Ficamos aquele dia inteiro com conversas bobas, contei também sobre o descobrimento da minha paixão por Victor, mas para não decepcionar meu amigo fui obrigada a esconder algumas coisas, entre elas a parte de Victor se declarar e a noite maravilhosa que tive.
Os meus dias se tornaram mais felizes, saber que meu sentimento para Luciana era recíproco me motivava cada vez que conversávamos ao telefone. Agora era doce ouvir sua voz, até mesmo sua forma de falar sobre nosso amor. Em uma dessas ligações eu estava saindo do quarto de hotel onde faríamos shows com o celular contra o ouvido e sem notar que Leo abria a porta do seu quarto e logo me acompanhava falei:
_Mas não trabalha muito. Estou indo ali fazer o show, então faz assim: me manda uma mensagem informando que vai ficar acordada de madrugada e aí eu te chamo. Está bom?
_Eu vou tentar Victor, juro – aquela era a noite em que Luciana estava de folga – Vou ler alguns relatórios de exames das pacientes e aí tento te ligar. Agora vai lá e faça um bom show. Te adoro.
Antes de desligar deixei um riso rápido escapar enquanto respondia a sua declaração:
_Também te adoro, não vejo a hora de estar aí com você...
Desliguei e a voz de moleque travesso que só meu irmão fazia nas horas de tirar onda com a minha cara surgiu:
_Tá apaixonado, Nego Véio?
Senti meu corpo congelar, até que ponto ele devia ter ouvido? Girei sobre meus calcanhares devagar para ganhar tempo de achar alguma desculpa:
_O que disse?
_Perguntei se está apaixonado. Tá aí conversando no telefone falando sobre saudade... – aquele sorriso fraco e cínico do meu irmão eu conhecia bem.
_Vai pescar, Leo – apertei o botão para que o elevador chegasse.
A partir daquele dia notava Leo sempre desconfiado, mas logo descobri que ele não sabia de quem se tratava, achava apenas que era só mais um rabo de saia que eu estava buscando por aí. Em um dos shows o achei conversando com duas garotas, uma delas eu sabia quem era, a moça era apaixonada no meu irmão e não cansava de publicar fotos com ele demonstrando segundas intenções, mas a outra que estava do seu lado era desconhecida e se fosse antes de descobrir o amor que sentia por Luciana já estava próximo daquele grupo e puxando a bela moça para uma conversa para que, no fim, conseguisse seu número de telefone para marcarmos umas horas de sexo.
_Vitor, essa é a Ju – com essa frase eu já entendia que Leo já tinha conversado com a outra fã e juntos estavam tentando empurrar a moça bela para mim.
_Ela é victete roxa – a fã conhecida deu aquele empurrãozinho.
_Prazer – segurei a mão da bela mulher – Tudo bem?
_Sim – notei que era um pouco tímida, mas seu olhar era uma tentação para uma noite selvagem.
Ainda fiquei ali no camarim conversando com elas apenas por educação, mas bastou o produtor avisar que começaria o show para me despedir delas e ir para o palco.
_Fala logo quem é – Leo surgiu ao meu lado enquanto eu caminhava até o palco.
_O quê?
_Cê não me engana, Nego Véio. Tem mulher fixa na parada.
_Já disse que não estou com ninguém – continuei caminhando até o palco.
_E porque recusou a amiga da Leidinha?
_Porque não estou afim hoje – parei o encarando – Me deixa em paz, Leo.
A situação estava ficando tensa a cada vez que uma bela mulher surgia em um camarim, porque o “eu” de antes já teria investido nem que fosse em uma troca de olhares para deixá-la caidinha por mim, mas em minha vida agora existia apenas uma...
Naquela manhã acordei muito disposta. Até fui à academia para malhar. Cheguei no consultório e antes mesmo de desejar bom dia Raquel me deu uma informação:
_Lu, a Carol disse que fosse à sala dela.
Eu até já imaginava do que se tratava. Tinha contado para ela sobre o término com Fernando por WhatsApp, pois naqueles dias quase não nos víamos. Apenas nos esbarrávamos em alguns plantões e quando eu estava no consultório, ela estava em uma emergência e vice e versa. Antes de entrar bati na sua porta, logo a abri deixando apenas minha cabeça surgindo.
_Posso entrar?
_Entra Lu – estava sentada olhando os papéis.
Entrei e sentei na cadeira de frente para ela. O pouco que conhecia minha amiga sentia que a mesma queria me dizer algo, mas tomei a iniciativa:
_E aí, quer falar comigo?
_Não, só quero saber o motivo desse sorrisão na cara.
Baixei minha cabeça completamente envergonhada. Nos últimos dias estava feliz, cada vez que desligava o celular após conversar com Victor falava com todos e sempre estava rindo com tudo. O problema era que não conseguia desabafar nem mesmo meus sentimentos para minha amiga.
_Ah, sei lá – deixei escapar mais uma vez um sorriso débil.
_Sei não... – Carol continuou lendo algum exame enquanto sussurrava – Termina um namoro e continua feliz? Me dá a receita.
_Não tem nada de extraordinário, Carol.
_Tem, certeza?
Bastou minha amiga erguer apenas o olhar para eu sentir que precisava falar com ela, desabafar para aquele sufoco todo preso em minha garganta não me deixar louca e explodindo sozinha de tanta felicidade.
_Tá, segurei todo esse tempo, mas preciso desabafar.
_Já sei que é sobre o deus grego do Victor – ela largou as folhas do exame e focou sua atenção em mim.
_Ká! – repreendi minha amiga com um riso bobo e entregando a situação. Carol deu uma gargalhada gostosa.
_Pronto! Só me diz em detalhes porque esse rosto corado já me revelou.
Eu me sentia uma adolescente boba, mas aquele era meu momento. Amar e ser amada não tinha preço, saber que o melhor cara que conheci na minha vida também estava louco por mim era inexplicável. Deixei minha voz fluir e fui narrando cada momento em que passei por aquela paixão avassaladora.
_Enfim, foi isso – dei um longo suspiro quando finalizei.
_Eu estou impactada! Que história perfeita. Mas espera, foi preciso você namorar outro para ele perceber? Que tonto.
_Não fala assim dele.
_Era só o que me faltava, vai começar a defendê-lo.
_Não é bem assim – tentei, mas não consegui esconder meu sorriso largo. Olhei as horas no meu relógio de pulso e logo me levantei – Eu tenho que ir.
_Vai lá. Depois conversamos mais.
Saí da sala de Carol e enquanto circulava pela Lucadan senti uma leveza em meu corpo. Era exatamente isso o que precisava, de alguém para contar meu segredo e como quebra receber alegria, alguém que me apoiasse.
Aquele dia foi muito corrido e na ausência de Victor era assim que gostava. Já estava quase encerrando o expediente quando chegou uma nova mensagem que fez meu coração palpitar:
Vih: Estou chegando em Uberlândia. Vai pro nosso cantinho que hoje a noite rende... Beijos.
Mais uma vez naquele dia estava me sentindo uma adolescente boba. Li aquela mensagem e um sorriso bobo dançava em meus lábios. Eu não sabia nem como reagir, mas meu coração estava ciente e já tinha vida própria, palpitando ao ponto de achar que eu iria enfartar ali mesmo. Acordei do transe e fui logo para meu apartamento. Eu precisava caprichar, pois agora tinha bons motivos para tal ato. Mal entrei e revirei meu closet escolhendo a melhor roupa para ocasião. Agora não tinha tanto tempo, ele estava prestes a chegar e eu queria fazer valer cada minuto. Completamente pronta fui para casa de Victor e preparei aquele macarrão da maneira como sabia que ele gostava, separei um bom vinho, podia sentir até minha excitação só de ânsia por saber que logo o veria. E aconteceu. Com direito a toda aquela bomba de sentimentos me tomando só de ouvir o barulho do seu carro.
Mesmo ciente de tudo o que ele havia me dito nos dias anteriores, ainda sentia um medo me percorrer. Será que ele sentia o mesmo que eu?
_MORENAAA! -
_Shiu! Tô aqui. Para já de gritar e vem aqui me dar um abraço – falei da cozinha.
Tive a confirmação quando nossos olhares se cruzaram e demos um sorriso perfeito. Victor largou a mala no chão da sala e veio ao meu encontro me abraçando com força, o mesmo abraço de quando nos vimos da última vez.
_Não só quero um abraço – falou após nos afastarmos – quero um beijo gostoso.
Eu poderia beijá-lo mil vezes, todas elas teria a sensação de anular as anteriores. Nossas bocas buscavam um encaixe perfeito quando sentíamos nossas línguas nos acariciando, e quando eu menos esperei, estava sendo pressionada por ele na parede e sua excitação me mostrando o quanto estava empolgado.
_Calma – sussurrei após o beijo.
_Quero você hoje. Vamos matar a saudade.
_Mas antes vamos jantar. Vem...
O levei para a mesa e iniciamos o jantar com conversas bobas sobre suas viagens, os problemas enfrentados, os shows. Em dado momento Victor tocou em um assunto que me preocupou:
_O Leo está desconfiado.
_Como assim, Victor? Todos sabem que somos muito amigos.
_Ele percebeu que venho recusando convites de algumas fãs que sempre tinha casos.
_E você, o que disse?
_Desvio do assunto. Melhor assim.
_Mas uma hora ele vai te pressionar.
_Eu sei.
_E vocês são muito amigos, o Leo vai desconfiar que você não está falando nada.
_Eu sei como acalmar ele – segurou minha mão. – Fica tranquila. Mas você sabe que uma hora teremos que falar.
Ele tocou em um assunto delicado, isso eu sabia.
_Sim, mas não acha melhor aproveitarmos assim, sem compromisso? Imagina se não der certo? Não quero clima estranho.
_Te entendo – beijou minha mão com carinho.
Limpamos a bagunça que eu havia feito com conversas, nada havia mudado. Alguns momentos Victor contava suas piadas, me fazendo rir demais. E foi nesse embalo que deitamos no sofá e ficamos apenas com a TV ligada, pois estávamos matando a saudade entre beijos, carícias. Aquilo nos levaria a algum lugar...
_Lu, vamos matar a saudade?
_Não já estamos matando-a? – fui irônica e recebi como resposta uma expressão séria dele, me fazendo rir.
_Eu falo de outro tipo de saudade. Foi muito rápido naquele dia, nem deu pra apreciar seu corpo.
Não me contive e dei uma risada alta. Adorava vê-lo em uma versão que nunca imaginei.
_Bobo. Só vou pro quarto de você me levar...
E nesse clima, com direito a esbarrões nos móveis e risos nossos, ele me levou para seu quarto.