Enfrentando medos parte 1: de bike no trânsito
Muita gente me achou corajosa quando viu nossas fotos no Skydeck, observatório no 103º andar de Willis Tower, o 6º prédio mais alto do mundo. Mas subir na plataforma de vidro que poucas semanas antes havia quebrado foi fichinha perto de dois outros medos que enfrentei desde que cheguei em Chicago. E as surpresas boas que vieram depois superaram a sensação incrível de olhar a cidade linda a 412 metros do chão. Medo 1: bibicleta na cidade Tentei andar no trânsito de Porto Alegre algumas vezes, mas acabava empurrando a bicileta até a ciclovia mais próxima, ou voltando pra casa. Mas Chicago é uma cidade bem mais 'bike friendly', com ciclofaixas em muitas vias, cultura de respeito ao ciclista e, pra completar, chegamos aqui na Bike Week, com uma série de eventos pra estimular o uso das bicicletas. A cidade tem um sistema de aluguel de bikes bem eficiente, o Divvy, mas nosso host tem duas bicicletas pra emprestar. Fomos a uma das inúmeras lojinhas-oficinas de bicicletas pra dar uma geral, comprar um capacete pra mim e: bora pra rua. Na primeira pedalada perto de um carro, congelei sob a sensação de fragilidade. Como assim? Eles vão me dar um peteleco e eu vou morrer, era minha certeza. Vou morrer. Vou morrer. Vou morrer. E o que é pior: vai doer. Tranquilas jovens em suas românticas bikes com cestinha e saias rodadas passavam por mim só pra lembrar do ridículo do meu fracasso. Mães de família com um bebê nas costas e outro na cadeirinha. Velhinhas. E meu marido, experiente ciclista em avenidas bem menos amistosas, cuja paciência e incentivos estavam começando a me irritar. Porque é irritante ficar paralisada de medo, ainda mais com plateia. Qualquer tentativa de ajuda é uma prova da incompreensão sobre os nossos sentimentos. Eu simplesmente não conseguia. Mas se eu não tentasse em Chicago, com toda sua bikefriendlyzisse, eu não ia tentar e lugar nenhum, então não tinha muita opção.
Só tava rindo porque tinha ciclofaixa! O que funcionou pra enfrentar o medo: - Acreditar quando o Daniel disse que os carros também estavam me vendo e cuidando de mim (em Porto Alegre eu duvidaria um pouco mais). - Descer da bike quando precisava dobrar à esquerda - aliás, não ter vergonha de descer da bike quando precisasse. - Aprender o trajeto pelo Google Maps e acompanhar com um fone de ouvido (acho que é proibido, mas saber pra onde estava indo me dava mais segurança). - Observar que a cada desafiozinho superado (por exemplo, arrancar com a bike lado a lado com um carro no sinal), eu me sentia melhor. - Ser humilde e pedir ajuda. Eu e o Dani quase brigamos, mas entendi que ele tava tentando me incentivar e fui franca sobre como eu estava me sentindo. Demorou um pouco, mas chegamos a um sistema legal pra andarmos juntos. O que eu ganhei: - Depois de já ter explorado a cidade a pé, de metrô, de ônibus, de carro e de barco, a bike deu uma nova perspectiva pros passeios. É clichê, eu sei, mas se conhece a cidade de um outro jeito. Prestamos atenção nos lugares por dentro, sentimos o vento no rosto, podemos parar e seguir em frente quando queremos. - Muitos sorrisos de outros bikers! Parece que a galera fica feliz de ver mais gente entrando no clube. - Entender um pouco mais porque alguns amigos são tão loucos por bicicleta - e mandar fotografias orgulhosas pra eles. :) - Aquela sensação (nem sempre tão boa) de colocar o corpo em movimento. - Ainda mais parceria com o Daniel, já que agora posso curtir com ele a cidade do jeito que ele mais gosta.
Me sentindo à vontade na RiverWalk O que não achei tão legal: - Pra sair de bike, o dia tem que ser um pouco mais planejado. Se a previsão for de chuva, melhor não. Tem que achar um lugar pra deixar a bike (o que é bem comum em Chicago, mas chato pra paradinhas pequenas). A sensação não é de 100% liberdade como eu imaginei que seria. - Bikers mais experientes (aka que andam rápido na cidade) podem ser quase tão amedrontadores quanto carros quando estão te ultrapassando a 5 cm de distância. - De uma hora pra outra, a ciclofaixa acaba e você se vê numa selva. Tem que respirar, lembrar que o mundo é bom e seguir em frente. A melhor supresa de todas: - Entre o Navy Pier (porto com uma série de atrações turísticas) e o Field Museum (aquele com o Tiranossauro Rex), existe uma trilha na beira do Lake Michigan, a Chicago Lakefront Trail. Melhor do que fazer esse trajeto lindo de bike é não saber que ele existia e parar lá por acaso, seguindo o trajeto sugerido pelo Google Maps. Naquela hora, o vento bateu, a vista arrebatou, e senti (desculpem) #gratidao por ter tentado.
Suspiro... não ia ser tão legal a pé Não acho que superei o medo, talvez ele faça parte de mim. Mas já sinto falta de andar de novo. E vontade de fazer de Porto Alegre um lugar mais amistoso pra essas aventuras. :) No próximo capítulo de "Enfrentando medos": a aula de improvisação no Second City.












