Meu primeiro || POV
A essa altura da minha vida eu já havia descoberto o submundo, o que acontece por detrás das cortinas da justiça, por debaixo dos panos quentes de alguns oficiais policiais. Meu dinheiro era fruto do tráfico de drogas o suficiente para conseguir sobreviver, mas nada que desse alguma estabilidade. Minha cidade natal, Londres, a muito já havia sido deixada para trás junto com a criança que um dia eu já fui.
Liverpool, Manchester, Southampton, Glasgow, Edimburgo. Eu era um nômade. Uma pessoa sem raiz, sem laços que ia onde o dinheiro me levava. Usuário de drogas leves, traficante de drogas pesadas -- e leves nas horas vagas. O dinheiro sempre foi o meu foco, pois quando se cresce sozinho, e nas ruas, te faz crescer com outra mentalidade.
Era tarde num sol quase poente em um horizonte de prédios de concreto, em um céu alaranjado pincelado com nuvens de um tom cinza quase escuro manchadas pela luz do sol. Eu corria. Eu corria muito, mas como todo começo tem um fim...
- E agora?
Eu tinha provocado pessoas que não deveria. Tomado como posse um ponto de drogas que não era meu -- ou melhor, que eu não sabia que havia um dono.
- Merda! - Sussurrei.
Eu não estava exatamente em um beco, mas se assemelhava a um. Às minhas costas um muro de mais de quatro metros de altura. À minha esquerda a parede de um prédio de seis andares e à minha direita um espaço cheio de entulhos por detrás de uma grade com um portão. Me escondi. Agachei perto de uma pilha de madeira ao lado de um entulho de areia, pedras e tijolos quebrados. Meu esconderijo era óbvio.
- Cadê aquele filho da puta?
Em suas mãos tinha um cano enferrujado e nas de seus amigos garrafa quebrada e um pé de cabra, nas dos demais apenas os punhos cerrados e pulmões ofegantes. Por precaução tapei a minha boca, queria diminuir qualquer ruído.
- Vamos voltar. - Um deles disse. - Devemos ter perdido ele naquela esquina.
Por um instante me senti aliviado. Meu corpo relaxou sob o chão sujo e o suor começou a escorrer pela minha testa, costas, braços. Quando eu achei que estava livre senti uma pancada na cabeça.
Minha vista escureceu e senti meu corpo amolecer. Não percebi ser arrastado até para fora da grade, quando dei por mim estava sendo segurado por um deles enquanto o outro me socava a barriga como se não houvesse amanhã. O ar era expulso dos meus pulmões e o sangue já subia meu esôfago se misturando com o da minha boca, pois já tinha levado soco no rosto. Enfim me soltaram e fui ao chão.
- Dois contra um? Que luta justa, héin. - Debochei em resposta em meio a um riso tão enfraquecido quanto eu, mas sentia as forças voltarem.
Não estava conseguindo ouvir muito bem, tinha um zunido forte em meus ouvidos, mas percebi uma palavra ou outra enfurecida vindo de um dos caras que me bateram soando quase que como um aviso -- ou talvez era. Quando achei que já havia acabado, agora foi a vez do outro que vinha em minha direção com uma garrafa quebrada em uma mão e uma faca na outra.
Por mais que eu me lembre daquele dia, por mais eu ainda viva ele algumas vezes em sonhos e devaneios, eu jamais vou saber te responder o que aconteceu. Por algum motivo, por alguma coisa e de algum jeito eu saí de mim. Foi como se outra coisa tomasse conta do meu corpo. Lembro de sentir uma força descomunal, mas não lembro de estar consciente.
Eu gritava, disso eu sei. Voltei à mim com as mãos e roupas cheias de sangue e uma pedra de concreto nas mãos. Um dos caras que me bateram me olhava espantado com o que estava vendo, me olhando sentado em cima do colo do amigo dele provavelmente com alguma expressão demoníaca numa mescla de dor e raiva. No chão, abaixo de mim, já sem vida havia um homem desfigurado deitado sobre uma poça de sangue escuro e espesso.
“Acabou”, pensei. A adrenalina já esvaia aos poucos e eu senti o cansaço começar a se fazer presente. Outra pessoa, provavelmente, teira ficado transtornada, pensativa numa mistura de sentimentos por ter matado alguém, eu não. Comecei a apedrejá-lo em outras partes do corpo. Eu estava gostando daquilo. Foi bizarro. O amigo dele assistia a tudo, parado como se nenhum músculo o obedecesse, pois era nítido que ele queria correr.
Quando acabei tinha rosto cheio de changue, assim como meus braços e agora ainda mais as minhas roupas. Levantei o olhar para ele e me levantei. De certa forma achei aquilo engraçado já que ele estava chorando.
- Por favor, não...
Ele caiu de joelhos, chorando, implorando para eu não fazer nada. Ele tremia, isso eu consegui perceber.
“Que sensação de poder maravilhosa”.
De repente, era como se eu não quisesse parar. Segurei seu rosto com uma das mãos e a sujei de sangue enquanto apertava as bochechas sem dó e nem piedade. Me aproximei o suficiente para que ele sentisse o cheiro de sangue do meu rosto e do meu hálito.
- Agora eu sou o seu chefe.












