Nos vimos uma vez. Só uma. Mas foi o suficiente para ele me mostrar um mundo inteiro. Em uma noite, ele me apresentou São Paulo como se a cidade fosse uma extensão da alma dele. Linha por linha do metrô, estação por estação, como se cada parada contasse uma história que ele queria que eu soubesse. Ele me deu o que podia naquele curto tempo: um pedaço dele, do que ele amava, do que ele era. E eu aceitei tudo, sem pensar no depois.
Nos beijamos, e esse momento ficou gravado em mim como se tivesse acontecido ontem. Não era apenas um beijo – era um grito silencioso, uma promessa quebrada antes mesmo de ser feita. Ali, no meio do barulho do metrô, das conversas alheias, da cidade que nunca para, ele me segurou como se o mundo fosse acabar. Talvez, para nós, tenha acabado mesmo ali.
Eu lembro do jeito que ele me olhou naquela noite. Era um olhar que falava de coisas que nós nunca dissemos em voz alta. Um olhar que dizia: "Eu queria que fosse diferente, mas isso é tudo que eu posso te dar." E eu olhei de volta, tentando memorizar cada traço dele, tentando guardar cada segundo como se soubesse que, quando a noite acabasse, seria isso. Apenas isso.
Nós nos amávamos. Não há dúvida disso. Não era paixão passageira ou algo que se dissipa com o tempo. Era amor, tão claro e tão cruel porque sabíamos que nunca seria suficiente. Ele nunca me pediu para ficar, e eu nunca perguntei se ele viria comigo. Porque a distância, a vida, as escolhas que já tínhamos feito estavam todas lá, como um muro invisível que nenhum de nós ousou derrubar.
Eu me lembro do gosto da urgência, das mãos dele segurando meu rosto, dos corpos colados como se isso fosse suficiente para preencher todos os espaços que o tempo e a vida insistiriam em criar entre nós. Foi um beijo que não dizia "adeus", mas também não tinha espaço para "fica". Era só agora, o presente que nos escapava pelos dedos a cada estação que ficava para trás.
Mas naquela noite, naquele pequeno intervalo de tempo, éramos só nós dois. Não havia distância, não havia futuro, não havia ninguém além de nós. E, por algumas horas, eu me senti inteira. Eu me senti viva de um jeito que nunca soube ser possível. Ele me mostrou um mundo e, ao mesmo tempo, me deixou sem chão.
Hoje, eu sonho com ele. Não sempre, mas o suficiente para que a saudade nunca me deixe. Nos meus sonhos, estamos juntos de novo, andando pela cidade, rindo de algo bobo, como se o tempo tivesse nos dado uma segunda chance. E quando eu acordo, há um peso no peito que não sei descrever. Culpa, talvez? Por ainda pensar nele, por sentir falta dele mesmo agora? Ou talvez seja só a tristeza de saber que o que vivemos, por mais real que tenha sido, nunca teve a chance de ser mais do que uma memória.
Ele seguiu em frente, e eu também. Ambos com outras vidas, outras histórias. Mas às vezes, em silêncio, eu me pergunto: ele também sente isso? Ele também pensa na noite em que rodamos por São Paulo como se o resto do mundo não existisse? Ele também sente o peso do que poderíamos ter sido?
A verdade é que a saudade não é justa. Ela não te deixa escolher. Ela simplesmente invade, sem pedir licença, sem considerar o que você construiu depois. Eu amo a vida que escolhi, mas a saudade não se importa. Ela é uma visita indesejada, um eco de algo que nunca foi inteiro, mas que ainda vive, de alguma forma, dentro de mim.
E eu odeio isso. Odeio como uma única noite pode pesar tanto, como um único encontro pode durar para sempre. Odeio como ele me deixou com um pedaço de si, mas levou tanto de mim com ele. Porque o que tivemos não foi suficiente. Nunca será. Mas foi tudo o que podíamos ter.
E talvez seja isso que torne a saudade tão cruel. Ela não é só falta; é o amor que nunca pôde ser, o momento que nunca voltou, o pedaço de mim que ficou perdido na linha amarela do metrô em São Paulo.