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Mojamiento + Apisonado
Ganso ou Pato
Luzes apagadas, créditos na tela, filme em vao. Lembranças, apenas lembranças. O mundo girava, Margarida não. Sua infância. A dócil voz do pai, narrava histórias de patos- ou gansos?
Frustrada. Sentia-se velha, velha e enrugada, uma ameixa seca. Solitária, condenada ao silencio, nítido som de seus pensamentos. Filhos distantes, nada de pedidos, nada de gritos agudos. Primeira vez só. Insuportável solidão!
Fuga, a Avenida. Enorme multidão. Seriam dezenas- ou centenas? Milhares? Repentinamente casal de gansos. Andavam as pressas, asas dadas, traje social. Espanto. Seria um delírio? A velhice? Miolos desgastados?
Abre e fecha os olhos. Gansos continuavam lá. Abre e fecha os olhos. Casal estava a andar em sua direção. Abre e fecha os olhos. Movimentos dos bicos, conversavam naturalmente. Muda direção. Não olha para trás, perde os de vista. Repentinamente lembranças do pai, fábulas de gansos. Vaga memoria. Ganso pai dizia, todos condenados, aprisionados nas cidades. Humanidade sem saída, possível auto destruição. Eram apenas gansos...
Pensamentos contaminando sua mente. Sentimento inédito. Ideias acumuladas, se atropelavam. E se usina nuclear próxima explodisse? Todos morreriam. E se encontrasse morte? Mente experimentava batalha frenética.
Pensava. Sua vida. Marido, filhos. Não mais rotina ordinária, reta, plana. Queria curvas! Do bico dos gansos voz do pai. “ Siga o fundo do coração”.
Mergulho, pensamentos. Destino projetado, muitas curvas. Excepcionalmente aliviada.
Daniella Motta
O Mistério das Paredes Vizinhas
Apenas um num conjunto. No conjunto. A união de diferentes espaços. De diferentes funções e pessoas. Todas diferentes e semelhantes. Todas juntas pelas rotinas, amizades e encontros. Surge então um belo silencio, rodeado pelas conversas, tímido. Maria do Carmo, o silêncio mais comentado de todos.
Dela nada se sabe. De seu apartamento vê-se apenas quem entra e sai. Paulistas esfarrapados, que se misturam rapidamente com a noite da avenida. Trazendo suspeitas àqueles que não entendem, não perguntam, apenas comentam. Drogas vêm à boca. Com elas uma nova certeza. O medo.
Com a segurança nos olhos, a policia recebe um chamado. Para acabar com o silencio que atemoriza. Chegam, os primeiros que entendem o que realmente se passa. Primeiros a ver as fotos. Imagens de pessoas. Todos os carentes e maltrapilhos, numa exposição que ocupava a vida toda. À qual se dedicara a vida toda, que fora julgada pela falta de conhecimento.
Depois do erro, a culpa tenta se redimir. Desculpa-se, convida Maria para um café. Quer saber mais sobre os personagens rasgados e apagados que retrata. A resposta ligeira e curta. Traz apenas o essencial: ”Está desculpada”. A curiosidade continua, e o buraco da fechadura ainda alimenta a imaginação.
Maria Luiza Corullon
A Vida nas Grandes Metrópoles
Olhava pela janela e via todos os seus sonhos refletidos no edifícios da cidade. Via o luxo e a fama que o futuro lhe reservava. A vida ainda fazia falta, mas o que queria era cantar. Queria mais do que tudo, e para isso trabalharia duro. Servia as mesas do bar todas as noites, menos uma: sua grande recompensa. Na quarta-feira, cantava. Cantava, e chegava mais perto de seu sonho cada vez que um cliente sorria ou a elogiava.
Porém, o tempo passou e seu sonho embaçou-se. Emagreceu, perdendo suas curvas antes vistosas. O bronzeado desbotou. Os olhos caíram e perderam o brilho. Surgiram as olheiras e a testa franzida substituiu o sorriso. Sua fascinação metamorfoseou-se por completo, dando lugar a uma irritação constante. O trânsito irritava-a. A rotina irritava-a. O clima, a correria, o trabalho, o barulho das buzinas, a poluição, era uma lista sem fim, e aumentava todo dia.
Cantar tornou-se fatídico e trivial. Perdeu o encanto. Não o fez mais. Tempo era algo precioso, mais precioso do que seu desbotado sonho. Ela não cantaria mais para aquelas pessoas que nem se deram ao trabalho de aprender seu nome.
Todos os dias eram o mesmo. Nada a empolgava, e por fim ela própria perdeu a vontade de empolgar-se. Acostumou se com a vida real. Estava tudo certo. Era muito natural. Continuou a servir as mesas. Casou-se, teve três filhos e não cantou mais.
Marina Rosa
O Assassinato
A cabeça de Dona Rosa contra o vidro frio da janela do ônibus. Da boca, escorria um fio de saliva pegajosa até o ombro. O ônibus freou bruscamente, a mulher abriu os olhos. Do lado de fora, um homem malabarista no farol, as máquinas passavam reto.
Destino. Levantou-se, faltavam 10 minutos. Suas pernas guiavam-na. Olhos mortos.
Empregada doméstica do Conjunto Nacional. Casal de classe média alta, filha de nove anos. Chegara: o casal no trabalho e a menina no colégio. Viu os sapatinhos e bolsinhas de Barbie espalhados pela sala branca. Arrumou a bagunça.
Agora, carne fervia, televisão ligada. Mulher jovem e bela na tela, cabelos loiros, parecia a Barbie, abraçava um homem alto. Sorriam. Em seguida, Jornal. Trânsito em São Paulo. Greve. Desejava que acabasse até a hora de ir embora. Rebeldes!
O Conjunto na tela. Um homem imóvel. Olhou para baixo, reconheceu-o. Parecia morto. Estava morto! Passavam sem ver. Cegos!
Coração apertado, acelerado. Nojentos, não notavam? Devia estar exalando podridão. Assasinado pela cidade. Fria. Corroida. Frio. Ânsia.
Saiu correndo. Ajuda! Deviam ajudá-lo. Refletiu. Saudade do mar, sol. Cidade natal. Sorriu.
Chegou ao homem. Se ar. Não estava morto! Era um bêbado! Maldito! Vagabundo! Ódio. Queria que morrese.
Maria Vitória Basile
À Margem
Madalena observava o apartamento. Um andar todo, admirável. Não conseguia olhar para fora. Apartamento cheio, difícil locomoção, muitos objetos. Antes, pequena casinha. Incêndio. Dinheiro do seguro. Se mudou. Bastava de perdas, não abria mão de nada.
Muitas tardes, janela, olhos nos passantes. Todo dia às sete uma senhora, cabelos grisalhos, vestidos coloridos. Esperava ansiosamente para ver. Sair? Medo da casa sozinha. Quem iria cuidar?
Chegou à janela tarde. Confusão. Vestido, asfalto, ônibus. Morte. Olhos úmidos. Nunca mais vestidos coloridos. Nunca mais janela. Olhou dentro. Móveis frágeis, senhora frágil. Prometeu cuidar móveis. Outra perda, não. Madalena não sabia que sempre que escolhemos algo, deixamos algo perdido atrás de nós.
Fernanda Susanna