O Vasco e a Inês Falam de Coisas
Inês Afonso é uma podcaster com 23 anos que, com Fred Gomes tem um podcast chamado “O Fred e a Inês Falam de Coisas”, onde ambos se auto-intitularam de especialistas em coisa nenhuma. Neste podcast falam sobre de tudo um pouco, de masturbação, a saúde mental e até mesmo sobre as músicas da eurovisão. Sendo das novas caras dos novos media falámos do seu podcast e como o mesmo se encaixa neste Admirável Mundo Novo.
Vasco Alves: Como é que surgiu a ideia ideia de criar o podcast?
Inês Afonso: Na realidade a ideia surgiu um bocadinho por insistência minha por que eu andava há anos a dizer queria ter um podcast. A minha cena sempre foi virada para o áudio e para a rádio, e até cheguei a gravar um episódio do meu podcast sozinha, que se ia chamar Siga pa Bingo. Cheguei a gravá-lo mas depois quando fui para casa ao editar senti que aquilo não era bem o que eu queria, senti que era meio vazio.
O Fred, como qualquer pessoa que o siga sabe, é uma pessoa muito inspiradora e é aquela pessoa no grupo de amigos que está sempre a motivar e a dizer: “Porque é que não fazes? Faz!” Eu acabei por gravar esse episódio porque cedi à pressão dele mas cheguei à conclusão que não fazia sentido para mim fazer o podcast sozinha.
O que eu queria não era um pódio, queria era falar sobre os temas importantes e os temas que me importavam, e falar sozinha não me dava o suficiente.
O Fred que também é um consumidor de podcasts disse: “Nós estamos sempre a ter estas conversas porque é que não fazemos um podcast disto?” E fizemos.
Foi um desencadeamento engraçado porque era suposto ser o meu podcast, mas como o que queria era o debate, a discussão, as opiniões, isso não fazia sentido sozinha. Por isso o Fred acabou por entrar na aventura comigo.
VA: O fred é de Coimbra e agora está no Porto, mas tu és daqui de Oeiras, como é que se conheceram?
IA: Eu tenho uma irmã mais velha, a Joana, que tem um namorado chamado Leone e eles seguiam a banda do fred na Internet.
VA: O Fred tinha uma banda?
IA: O Fred tinha uma banda, os Oh Honey com a Daniela Maia e a Raquel Caldevilla.
Houve um fim de semana que a Joana e o Leone foram passear ao Porto e os Oh Honey estavam a dar um concerto, a Joana e o Leone foram ver o concerto e acabaram por beber canecos com eles até às tantas. A Joana começou a ir visitá-los com mais frequência, eu comecei a ir com ela e pronto, o resto é história.
“O podcast era uma coisa que tinha validade e credibilidade só por si próprio, não precisava de estar associado a uma rádio, não precisava de estar associado a nada.”
VA: Quais é que foram as tuas inspirações?
IA: Na realidade os podcasts que eu comecei a ouvir quando comecei a querer fazer um podcast não são necessariamente sobre as mesmas temáticas que nós tratamos n’O Fred e a Inês Falam de Coisas.
Eu sou obcecada pelo "And That's Why We Drink" que é um podcast de histórias do sobrenatural e true-crime, adooooro!
"Guys We F****d” que apesar de ter bastante activismo social nunca pensei fazer algo parecido.
Eu acho que aquele que mais me inspirou a começar o “Fred e a Inês” foi o "Millennial", que é a história de uma miúda que queria trabalhar numa rádio mas não conseguiu arranjar trabalho. Então começou um podcast a gravar no armário dela só com um microfone, basicamente aquilo falava sobre a vida de um millennial, as dificuldades de ser um millennial: Não tens ninguém a ajudar a pagar a renda, ninguém te dá trabalho porque toda a gente te pede experiência mas ninguém te dá experiência, por isso nunca vais arranjar trabalho. Coisas com as quais eu me relacionava quando estava a meio da faculdade, e fez-me pensar “é isto que eu quero fazer!”
VA: O “Millennial” é só essa rapariga sozinha?
IA: Era, entretanto o “Millennial” infelizmente acabou, mas eu gostei muito da forma como o “Millennial” aconteceu, porque ela começou literalmente dentro do armário a gravar, mas eventualmente começou a ter sucesso, a ter patrocinadores, a ter ads no podcast e eventualmente foi convidada para trabalhar numa rádio, que era inicialmente o sonho dela. Ora que ela chega à rádio e percebe que não é nada daquilo que ela quer, o que ela quer é fazer o podcast e que as duas coisas não são equivalentes.
O que ela acabou por perceber foi que o podcast era uma coisa que tinha validade e credibilidade só por si próprio, não precisava de estar associado a uma rádio, não precisava de estar associado a nada. Então mandou a rádio cagar e continuou a fazer o “Millennial”, que entretanto terminou porque ela foi produzir outros podcasts. Agora já é uma produtora de podcasts a sério que faz muita coisa, o “Millennial” teve o seu tempo, e eu até fiquei triste quando acabou mas percebi que fazia sentido terminar na altura em que terminou.
VA: Tiraste um curso de jornalismo na “Escola Superior de Comunicação Social", estás a trabalhar na área?
IA: Não, não na área de jornalismo. Eu estou a trabalhar numa agência de locuções, ou seja, é comunicação na mesma. Na realidade quando as pessoas me perguntam isso eu questiono sempre se me estão perguntar se eu estou na área do meu curso ou se eu estou na minha área? É que eu estou na minha área, porque a minha área é comunicação, mas quando as pessoas me fazem essa pergunta estão a perguntar se eu tou a fazer jornalismo e nesse caso, não estou, porque eu na realidade não quero ser jornalista, eu percebi muito rápido que não queria jornalista.
“Os jornalistas do nosso país não têm a liberdade para realmente tratarem dos assuntos que acham importantes para eles e para a sociedade.”
VA: Portanto não te consideras uma jornalista?
IA: Não, o meu problema é que tenho demasiadas opiniões para ser jornalista. Eu tenho muita dificuldade em arredar pé das minhas opiniões, e infelizmente, os jornalistas do nosso país não têm a liberdade para realmente tratarem dos assuntos que lhes são queridos, que acham importantes para eles e para a sociedade. Por isso eu nunca poderia ser jornalista. Porque eu nunca na vida iria conseguir lidar com alguém que me diz que, por exemplo, as pessoas LGBT não são importantes, ou que a história de uma mulher que foi brutalmente assassinada por um homem não é importante, eu não ia conseguir lidar com isso.
“Nesse sentido eu sou então uma jornalista, porque eu tenho sempre perguntas.”
VA: Mas não achas importante no papel do jornalista haver neutralidade e distância dos assuntos?
IA: Sem dúvida alguma, só não é é para mim. Aliás eu tenho muitos colegas que são de facto jornalistas e eu admiro-os imenso.
VA: Sentes que valeu a pena tirar o curso? Que te está a servir na área em que te encontras agora ou que te vai servir no futuro?
IA: No meu trabalho em si, não, na minha área sem dúvida, e na forma como eu me desenvolvi enquanto profissional, sem dúvida alguma.
VA: E para o podcast?
IA: Para o podcast acho que foi muito importante porque de facto motiva-nos muito a ser curiosos. Acho que a primeira coisa que me disseram quando entrei no curso foi: “Um jornalista é uma pessoa que tem perguntas”, e nesse sentido eu sou então uma jornalista, porque eu tenho sempre perguntas em relação a tudo, claro que ser jornalista não é só isso, quem me dera que ser jornalista fosse só ter perguntas. Mas de facto o curso motiva-nos muito a ser curiosos e para querermos saber, para dar mais um passinho do que as outras pessoas para descobrir a verdade.
Na realidade o que me ajudou muito para o podcast foram as minhas aulas de rádio, que na realidade é o que eu levo mais do curso. Tive um professor fantástico, o Francisco Cena Santos, que é maravilhoso, nem tenho palavras, é uma liberdade que ele dá aos alunos que eu não senti com mais nenhum professor durante a minha licenciatura. Ele ouve realmente os alunos. Tanto que com o decorrer dos anos locução e animação de rádio foi retirada do programa, porque a maioria dos alunos não estavam interessados nessa área, mas a minha turma em específico estava muito interessada nisso, então ele simplesmente decidiu que ia mudar o programa, foi incrível! Tivemos quase um semestre inteiro só a trabalhar locução e animação. Fizemos uma emissão dos Óscares com para aí 3 horas, foi muito maravilhoso. As aulas dele deram-me as ferramentas de comunicação que eu agora uso no podcast, por isso sem dúvida alguma que foi útil.
“São assuntos pesados e importantes para nós e por isso acabam por nos desgastar emocionalmente.”
VA: O que é que vocês, tu e o Fred, querem fazer com o podcast?
IA: Nós queremos ser, basicamente, a referência no que toca a histórias que mais ninguém quer contar, histórias que precisam de ser ouvidas. Mas também queremos ser aqueles parvinhos que estão no consultório sentimental a fazer as pessoas rir durante uma hora e meia. Isso é uma das coisas que eu mais gosto no nosso podcast, é que é tudo, é tudo porque é o que nós quisermos, temos toda a liberdade. O que eu sinto que é importante no nosso podcast obviamente que é a parte activista, e são as histórias que nós queremos contar que mais ninguém fala, isso é o que vai ficar, mas para os nossos ouvintes acho igualmente importante terem semanas em que é só brincadeira.
VA: Já aconteceu alguma vez terem um tópico Importante que querem abordar mas que já há 3 semanas que estão a fazer episódios assim e decidem fazer uma coisa mais leve?
IA: Sim, isso já aconteceu, mas nem é só por causa dos ouvintes, como o Fred mora no Porto, eu inicialmente ia lá gravar e nós fazíamos maratonas de 12 horas a gravar seguidas, o que é uma coisa muito violenta, por isso mesmo nós depois de 3 horas a falar de assuntos pesadíssimos já sentimos que temos que descomprimir, ir beber uns finos ou qualquer coisa assim, porque são assuntos pesados e importantes para nós e por isso acabam por nos desgastar emocionalmente. Portanto sem dúvida que nós temos que fazer essa gestão de assuntos pesados/assuntos leves não só pelos nossos ouvintes mas por nós próprios também.
“Sentimos uma responsabilidade para os nosso ouvintes, já não nos apetece tratar de um tema que nos seja querido mas que nós achemos que não lhe vamos dar o corpo, porque nós não somos aquele corpo.”
VA: Acontece nessas sessões de gravação de 12 horas emocionarem-se com um tópico e passar, por exemplo 3 horas a falar de uma só coisa, obrigando-vos a depois cortar outra coisa?
IA: Não. Nós nunca nos privamos de falar de algo que achamos importante. Se achamos que aquilo está a acontecer e temos coisas a dizer sobre isso, não vamos cortar só porque "ainda não falámos sobre isto”. Preferimos ter 2 episódios mais pequenos em que cada um tem o seu tema, do que estarmos a quebrar a nossa dinâmica. Também acho que é isso que as pessoas gostam no nosso podcast, literalmente as conversas que eu tenho com o Fred no podcast acontecem nas esplanadas, durante os jantares e enquanto estamos a cozinhar. Aquele tipo de conversa é algo que nós teríamos mesmo se não estivéssemos a gravar, por tanto nós nunca na vida numa conversa real, iríamos dizer: “Estamos há muito tempo a falar disto, temos que trocar de assunto”, e por isso nós nunca fazemos isso no podcast, porque vai contra a nossa premissa, que é falarmos o que tem que ser falado com a liberdade que lhe fôr necessária.
VA: Com esta liberdade que vocês têm de abordar todos os temas que acham importantes, acabam por abordar temas sobre os quais têm muito conhecimento mas também outros que provavelmente não estão informados o suficiente para os explorar em toda a sua complexidade. Como é que vocês dão a volta a isso?
IA: Isso é algo que acontece muitas vezes. Nós sentimos que por muitas opiniões baseadas em factos que nós tenhamos, começa a ser cada vez mais difícil apresentarmos, por exemplo, uma luta que não é nossa sem alguém do outro lado.
Nós temos uma lista imensa de temas que queremos abordar mas que não vamos tocar sem ter alguém que tenha sentido na pele o que nós podemos apenas especular. Por exemplo, nós queremos muito gravar um episódio sobre racismo, e não o vamos gravar só os dois, porque por muito que nós sejamos solidários com a luta e tentamos pôr-nos nos pés das outras pessoas, nós nunca na vida vamos conseguir sequer imaginar a sensação de ser discriminado pelo nosso tom de pele.
Nós agora já não somos capazes de fazer isso, o que tem um bocadinho a ver com o crescimento do podcast, porque no início nós tínhamos tipo 50 ouvintes, mas nós temos cada vez mais pessoas a ouvir-nos e a levar o que dizemos a sério, we can't fuck that up, sentimos uma responsabilidade para os nosso ouvintes, já não nos apetece tratar de um tema que nos seja querido mas que nós achemos que não lhe vamos dar o corpo, porque nós não somos aquele corpo.
“É uma vantagem enorme não ter medo de falar com as pessoas como pessoas.”
VA: Já gravaram algum episódio que no processo de edição descobrem que não conseguiram fazer justiça ao tema?
IA: Por acaso isso nunca aconteceu, mas aconteceu, por exemplo, no episódio sobre sex workers, nós fizemos o episódio e foi um bom episódio, tivemos um debate importante, mas tanto eu como o Fred quando o publicámos percebemos que precisamos de fazer uma parte 2 e trazer um/a sex worker aqui, porque está nos a faltar metade da história.
VA: O vosso Podcast serve também a função principal do jornalismo, que é informar as pessoas sobre temas relevantes do dia-a-dia, apesar disso não tem o formalismo e a rigidez comum nos velhos media. Quais são as vantagens disto?
IA: A vantagem é sempre a liberdade, eu sinto que as pessoas sentem muitas vezes que o jornalismo não é feito para elas, o que é uma coisa que me deixa um pouquinho triste, sinto que há muita gente que não se interessa mais pelas notícias e pelo jornalismo porque sente que não é feito para eles, e na realidade às vezes não é. Eu tirei jornalismo, sou uma pessoa interessada e uma pessoa que lê as notícias, e custa-me ler um artigo sobre o orçamento de estado, porque aquilo não foi feito para eu entender.
Acho que isso é uma vantagem enorme não ter medo de falar com as pessoas como pessoas, porque nós também não nos queremos estar a pôr num pedestal de entendedores de seja o que for, aliás somos especialistas de coisa nenhuma né? É precisamente o oposto que nós queremos fazer.
“Já que têm estagiários a trabalhar ao preço da chuva, então pelo menos dêem-lhes liberdade para eles fazerem o que acham importante, dêem-lhes formação, expliquem como é que a coisa funciona para que eles possam de facto crescer, mas não é isso que acontece.”
VA: Se o jornalismo como existe hoje na maior parte da indústria não é para as pessoas comuns é para quem?
IA: Na realidade não sei. Eu gostava de saber responder a essa pergunta.
Quer dizer eu sei né? É para o "rich straight white male", é para essas pessoas que o jornalismo é feito, porque na realidade as pessoas que escrevem irão necessariamente ser um reflexo das pessoas que lêem, visto que a esmagadora maioria dos "grandes jornalistas" são homens de meia idade sem grandes dificuldades na vida em geral, claro que eles não vão conseguir comunicar com os jovens que estão a sofrer imenso por não conseguir pagar a renda.
VA: Mas os jornalistas que entram agora são esses jovens que não conseguem pagar a renda.
IA: Mas é tudo mascarado, eles não têm liberdade para dizer "eu sou um estagiário que está aqui a ser escravizado há 3 meses e não recebo um tusto para estar aqui”, nem podem assinar peças!
É pá, já que têm estagiários a trabalhar ao preço da chuva, então pelo menos dêem-lhes liberdade para eles fazerem o que acham importante, dêem-lhes formação, expliquem como é que a coisa funciona para que eles possam de facto crescer, mas não é isso que acontece.
VA: E as desvantagens?
IA: Perde um bocadinho de credibilidade. Eu adoraria ser uma referência em termos de fonte. Se daqui a 7 anos houver um miúdo na faculdade a fazer um trabalho sobre homofobia, quero que pense: "Vou ouvir aquelas pessoas que podem ter coisas a acrescentar ao meu trabalho". Gostava muito de ser essa referência, mas é difícil de ter essa credibilidade quando és "só um podcast".
VA: Quando és especialista em coisa nenhuma.
IA: Exacto, é difícil ser considerada uma referência quando és especialista em coisa nenhuma.
Ainda assim as desvantagens não são maiores que as vantagens. Não me importo muita que as pessoas não possam pôr o podcast nas referências bibliográficas, importa-me mais que alguém que esteja bloqueado no raciocínio ou que sinta que não tem conhecimento suficiente sobre o assunto vá procurar o nosso podcast porque sabe que nós vamos ter uma discussão isenta e verdadeira. Não me interessa tanto estar nos livros, quero é que as pessoas saibam que no nosso podcast encontram debates e discussões que se calhar não encontram noutros sítios, e que vão aprender com isso.
“É só uma pessoa a querer saber das coisas e a tomar responsabilidade por não saber.”
VA: Então achas que a indústria deve seguir o exemplo de órgãos mais virados para os jovens?
IA: Eu acho que sim, eu não acho que tenha que ser uma coisa ou outra, porque as pessoas que para quem o jornalismo é feito agora continuam a existir, e não vamos simplesmente dizer "acabou-se o jornalismo". Acho é que se tem de dar mais credibilidade às coisas de forma mais livre.
A mim faz-me confusão como é que estamos em 2019 e ainda há tanto preconceito em relação à Internet, é verdade que está melhor, mas ainda não se dá credibilidade suficiente às coisas que acontecem na Internet. A Internet já não é o sítio ondes os miúdos vão para o chat falar sem se conhecerem, a Internet é um meio poderosíssimo, na minha opinião muito mais poderoso do que a televisão, e isso só ainda não foi declarado porque Portugal está sempre 10 anos atrasado em tudo.
VA: Mas nós também não podemos encarar a Internet como algo estritamente melhor, que nos vai deixar a todos mais bem informados, porque com o brexit, com as eleições norte-americanas, e agora mais recentemente nas eleições brasileiras houve uma forte utilização da Internet para criar e deturpar informação com fins propagandísticos.
IA: Verdade. Mas há tantas coisas boas na Internet, há mais coisas boas do que más, ou pelo menos mais oportunidades para fazer coisas boas do que más. É só saberes ir à procura, está tudo tão perto de ti que acho que é quase ingénuo nós não vermos este poder dos novos media.
Um dos meus podcasts favoritos é o "Getting Curious with Jonathan Van Ness" é um podcast que me faz pensar: "É isto que eu quero fazer", eu quero ser uma referência suficientemente grande para ter credibilidade e fazer o que ele faz, que é pegar em assuntos em que não percebe nada, mas sobre os quais está curioso e vai buscar especialistas que os expliquem. No primeiro episódio ele foi buscar um professor de uma faculdade bué pequenina de estudos do médio oriente e disse: “Eu preciso que tu em 20 minutos me expliques o que é que se passa na Síria.” É só uma pessoa a querer saber das coisas e a tomar responsabilidade por não saber.
VA: Achas que o "utilizador normal" da Internet, tem esse desejo de ir à procura de informação e de selecionar informação correcta, ou que a informação é que o encontra e que informação o encontra está dependente de quem a produz e distribui?
IA: Eu acho que está nas pessoas, porque eu posso perfeitamente ir todos os dias à Internet e ficar o tempo todo a fazer scroll no facebook.
“Eu saí da minha mãe a queimar o sutiã em praça pública.”
VA: Mas achas que a maior parte das pessoas vão à procura da informação ou ficam a fazer scroll no facebook?
IA: Ficam a fazer scroll no facebook. E isso é que me enerva, porque há aqui um potencial que não é bem aproveitado, as pessoas acreditam em tudo o que lêem na Internet. Porquê? Porque antigamente as pessoas acreditavam em tudo o que estava na televisão. Não nos sabemos adaptar e somos preguiçosos.
VA: Então achas que as pessoas vão desenvolvendo um cepticismo à medida que se vão habituando à Internet?
IA: Acho que é um cepticismo, sim. E que é um bocadinho 50/50, acho que por um lado a Internet continua a não receber a credibilidade que o seu potencial merece, e por outro lado precisamos de arranjar alguma maneira de tornar as pessoas mais interessadas. As pessoas têm que querer saber, eu sinto-me socialmente responsável por saber o que é que se passa na Chechénia, sinto que tenho que saber o que são os campos de concentração de homosexuais na Chechénia, porque é que existem, e como acabar com eles.
VA: Mas existem inúmeras coisas a acontecer com essa gravidade por todo mundo, como é que é possível uma pessoa saber de todas?
IA: Não têm de saber de todas, só têm é que ser interessados. Não é o que fazes é a forma como o fazes. Obviamente que há montes de coisas que eu não sei e quando não sei fico furiosa por não saber, mas isso também é porque como o meu pai diz, eu saí da minha mãe a queimar o sutiã em praça pública, eu gostava de fazer muito mais do que aquilo que faço. Mas o que importa é ser interessado pelo mundo. Nós, os jovens, temos tudo ali esbanjadinho em milhentas plataformas, há programas maravilhosos no Youtube, feitos com "production values" tanto ou mais altos do que na televisão, tens podcasts, blogues interessantíssimos, plataformas como o Shifter... As possibilidades são infinitas e nós estamos só a partilhar memes de gatinhos, que eu adoro, mas é importante sabermos aquilo que está acontecer.
“São as regras do jogo, tudo bem, vamos é jogar outro jogo.”
VA: Portanto o que tu queres fazer é criar essa ligação entre os jovens e temas Importantes?
IA: É isso que eu pretendo fazer. E para isso é preciso ir para onde eles estão.
Há pouco tempo perguntaram-me se achava que o meu podcast tem capacidade para avançar e evoluir para mercados mais competitivos, o que eu interpretei como se eu achava que o meu podcast tem potencial para chegar a uma rádio, porque neste momento em Portugal é esse o único caminho que os podcasts podem fazer para serem remunerados. Eu respondi que sim, acho que tem potencial para avançar para um mercado mais competitivo, mas esse mercado ainda não existe.
Eu quero criar esse mercado, e é isso que eu e o Fred queremos fazer com o nosso podcast: criar a indústria dos podcasts em Portugal que não existe como indústria, não existe a infraestrutura que permite fazer disto uma profissão, que já existe há 10 anos nos EUA e no Reino Unido, lá há pessoas que vivem dos podcasts, aqui é absolutamente impensável. O nosso foco não é de todo ir para uma rádio, porque sabemos que vamos ser censurados numa rádio, e não é que a rádio tenha culpa, são as regras do jogo, tudo bem, vamos é jogar outro jogo.
VA: Disseste que uma das razões principais que te levam a não querer ir para a rádio é o medo de ser censurada. Mas recentemente com por exemplo, a proibição de pornografia do tumblr e a desmonetização de canais LGBTQ no Youtube, essa ideia de poderes ser e mostrar ao mundo quem és tem vindo a perder poder na Internet. Continuas a ser optimista quanto à vossa liberdade na Internet?
IA: Continuo. Continuo a ser optimista porque as pessoas arranjam sempre uma maneira. Se há uma coisa que as pessoas na Internet são é perseverantes. "Ok já não nos querem dar pornografia no tumblr? Tásse bem a gente vai buscar pornografia a outro sítio". Para mim é muito triste porque acho que é uma censura errada por parte do tumblr, muda a comunidade, a cultura do site, muda tudo.
“Como é que eles se atrevem a ter drag queens no Youtube Rewind, enquanto ao mesmo tempo estão a demonetizar, bloquear e esconder canais educativos LGBT.”
VA: Mas para dar um exemplo mais concreto: Há uns bons anos haviam muitos vídeos de animação no Youtube, e a animação que existia era curta, porque produzir animação mesmo se só 20 segundos é sempre muito trabalhoso. Eventualmente o Youtube mudou as regras de monetização, em vez de pagar baseado no número de visualizações passou a pagar baseado no tempo de visualização, o que fez com que todos os vídeos curtos deixassem de ser lucrativos. E o que acabou por acontecer foi que a animação no Youtube desapareceu. Não te preocupas que isso aconteça com todos aqueles nichos que as grandes plataformas preferiam que deixassem de existir?
IA: Não. Esse é um óptimo exemplo porque a animação está a voltar a ter um sucesso enorme no Youtube. Porquê? Porque agora os vídeos são mais compridos e são sobre as pessoas. É storytelling em animação, as coisas adaptam-se. Quando uma história tem de ser contada irá adaptar-se.
O que me preocupa realmente em relação à Internet é de facto ficar cada vez mais corporate e não "a Internet". Eu estou sempre a dizer que sou uma pessoa da Internet e as pessoas, especialmente as mais velhas, não sabem bem o que é que isso significa. Não é só que eu tenha crescido com a Sónia do dabliu dabliu dabliu, cresci com isso e com os memes e com toda essa parte da cultura da Internet. Mas o que isto para mim significa é que eu faço parte da comunidade da Internet, e dentro da comunidade grande da Internet tens várias comunidadezinhas, e acho que isso não se vai perder, mas vamos enfrentar cada vez mais obstáculos corporate. Eu adoro o Youtube, mas eu tenho muitos problemas com o Youtube, o meu maior problema do Youtube é eles fazerem parecer que têm valores que não têm, quando este Youtube Rewind de 2018 saiu foi uma hipocrisia monstra, como é que eles se atrevem a ter drag queens no Youtube Rewind, enquanto ao mesmo tempo estão a demonetizar, bloquear e esconder canais educativos LGBT. Como é que eles se atrevem a fazer isso!? Isto é corporate. É o que é que vai vender.
VA: O vosso podcast já esteve no top 10 de podcasts do spotify, tem por volta de 800 seguidores no facebook, mais uns 600 no instagram e com 400 a 500 ouvintes regulares. Já deu lucro?
IA: Não. Nós entretanto tivemos merch portanto já conseguimos pagar algumas despesas que tivemos com o podcast. Esse dinheiro que conseguimos ajudou a pagar as minhas deslocações ao Porto para gravar, portanto, deu um bocadinho de nada de lucro mas não é bem lucro visto que nós vamos voltar a investir no podcast. Mas esse é um dos goals para 2019.
VA: Quais é que são as despesas da produção do podcast?
IA: É essencialmente o alojamento nos servidores. Para o nosso caso em específico a maior despesa são as minhas deslocações ao Porto. Para além disso nós já tivemos despesas em material, tivemos que comprar material porque o Fred tinha um material e eu tinha outro e percebemos que o som ficava muito melhor se tivéssemos o mesmo material. Eu também tive que mudar o meu computador porque percebi que o computador que tinha antes não era forte o suficiente para eu poder fazer o que queria fazer com o podcast. Portanto há esses investimentos que são inevitáveis.
VA: Acham que vão se conseguir sustentar com o podcast? Conhecem outros podcasters portugueses que conseguem?
IA: Não, portugueses não. Nós ambicionamos e vemos isso a acontecer. Se calhar não a viver apenas do podcast, mas pelo menos não dar despesa. Por exemplo o maluco beleza do Rui Unas, que apesar de ter vídeo, é um podcast e tem uma carrada de patrocínios.
VA: O Rui Unas é uma personalidade de fora que vem para o mundo dos podcasts e consegue ter um bom rendimento não porque faz um podcast mas porque é o Rui Unas a fazer um podcast. Achas que é possível criar a tua marca só no mundo dos podcasts?
IA: Eu acredito que sim porque eu acredito que a indústria dos podcasts vai crescer e que só temos que ser pacientes. Se calhar vamos falhar, mas nós temos a visão de que vamos motivar os outros podcasters a levar isto a sério, vamos criar nós a indústria. Tem sempre que começar por algum lado e nós temos essa ambição. Por isso se calhar sim, vamos conseguir criar uma marca forte o suficiente para podermos ser uma referência como o Rui Unas.
“É isso que eu e o Fred queremos fazer com o nosso podcast: criar a indústria dos podcasts em Portugal.”
VA: Achas isso possível só com o mercado português ou achas que se têm que expandir para outros mercados?
IA: Eu acho que é possível só com o mercado português, mas vai sempre ficar pequenino né? Porque nós somos de facto pequeninos. Por acaso temos vários ouvintes brasileiros e é muito fixe saber que eles estão do outro lado do mundo a ouvir-nos. Portanto é possível, mas vai ser muito mais lento e fica pequenino e eu acho que se nós podemos temos os PALOPs porque não?
“Outra coisa é quereres chegar a ela porque sabes que com ela vêm mais milhões de pessoas que te podem dar dinheiro.”
VA: Uma das coisas que nós vemos com, por exemplo, Youtubers portugueses que se apercebem que têm que se expandir para um mercado de língua portuguesa estrangeiro é que eles começam a adaptar o conteúdo deles para chegar a esse mercado. Vocês imaginam-se a fazer a mesma coisa?
IA: Não, eu acho que nós não vamos mudar a forma como nós comunicamos para poder chegar a mais pessoas. Acho que mais depressa adaptamos os nossos temas. Se calhar vamos prestar atenção ao que se passa no Rio de Janeiro e em São Paulo porque isso vai ao encontro daquilo que nós somos e da premissa do podcast. Também claro que é sempre fixe arranjar maneira de chegar a pessoas diferentes.
Acho que os content creators que têm que fazer isso, eu já reparei em alguns casos, e tem tudo a ver com a forma como fazes as coisas. Não há problema nenhum em tu quereres expandir o negócio. Agora se com as razões erradas já é outra conversa, uma coisa é tu quereres chegar a uma pessoa porque queres saber como ela vive, queres saber o que ela gosta de consumir, queres saber daquela pessoa. Outra coisa é quereres chegar a ela porque sabes que com ela vêm mais milhões de pessoas que te podem dar dinheiro.
VA: Tu não te vês como uma jornalista mas os podcasts, a formato dos podcasts, é extremamente útil para o jornalismo. O podcast mais ouvido do mundo é o Serial que é jornalismo de investigação. Mas uma das principais maneira de sustentar podcasts é através de merch e anúncios. Ambas as coisas que o código deontológico do jornalista proíbe aos jornalistas portugueses. Achas então possível ser criado um Serial em Portugal com estas restrições?
IA: Felizmente isso é possível porque se há coisa que é irreverente em si é a investigação, seja ela do que for. Se calhar não podemos é chamar as coisas pelo nome infelizmente porque ainda não chegámos lá. Mas eu até concordo com isso estar no código deontológico.
“Se eu acho que deveria ser feito na mesma pelo gozo de saber? Acho.”
VA: Eu falei dos podcasts mas podia ter falado da new media no geral. A new media não costuma funcionar à base de venda do produto mas à base dos rendimentos adicionais que tu consegues fazer à volta do produto. O que obriga um jornalista a ser um businessman ao mesmo tempo, algo que é proibido em Portugal.
IA: Infelizmente eu acho que a curto prazo não é possível fazer as coisas aqui como se fazem lá fora.
Com toda a cena toda do Serial eu não sei como é que ainda ninguém pegou na história do Rei Ghob e fez uma investigação a sério. Mas agora é que eu penso, se calhar é por causa desta questão que tu me colocaste. Porque vão perder meses e meses de trabalho em que não têm retorno porque não é possível em Portugal monetizar como se faz lá fora. Se calhar é por isso, se eu acho que deveria ser feito na mesma pelo gozo de saber? Acho.
“No dia em que estreou, teve mais visualizações do que o programa de televisão mais visto na América inteira, e ainda há pessoas que não dão credibilidade à Internet.”
VA: Para terminar. Recomenda três peças de media, podem ser vídeos do Youtube, podcasts, livros, reportagens, o que quer que seja. Nem precisas de achar relevante para esta conversa que tivemos.
IA: O podcast que eu vou sugerir é o “Without Fail”, basicamente o criador da Giblet media, que é uma produtora de podcasts, ele tem um podcast em que ele convida pessoas com que são notoriamente bem sucedidas mas que vão só falar daquela vez em que lixaram tudo e correu tudo muita mal.
É muito inspirador em relação ao falhanço e mostra como às vezes é bonito falhar. As pessoas esquecem-se muito facilmente que falhar é absolutamente necessário. Há tanta coisa que sai de cometer um erro que é quase bonito e portanto gosto muito desse podcast.
No canal do Youtube temos muito que prestar atenção ao Shane Dawson, as pessoas que seguem o podcast sabem que eu e o Fred somos absolutamente obcecados pelo Shane Dawson. Porque o Shane Dawson é o perfeito exemplo de toda a conversa que nós tivemos aqui. Ele é um gajo que está há mais de 10 anos no Youtube e adaptou o conteúdo dele já 30 mil vezes ao longo dos anos e nunca deixa de ser ele próprio.
Neste último ano ele mudou a forma como faz conteúdo e preferiu concentrar-se em fazer menos conteúdo quantitativamente mas melhor em termos de qualidade. Ele tem se concentrado em séries às quais ele chama “docuseries” que tem entre 3 a 8 episódios que tratam de um assunto até ao final. No dia em que estreou, teve mais visualizações do que o programa de televisão mais visto na América inteira, e ainda há pessoas que não dão credibilidade à Internet.
Na sexta feira à noite fui ver um espetáculo com o Ivo Canelas que se chama “Todas as Coisas Maravilhosas”, eu não quero parecer dramática ao dizer que mudou a minha vida, mas sendo dramática, mudou a minha vida.
A premissa é um miúdo que tem uma mãe deprimida com tendências suicidas, e depois da primeira vez que ela se tenta suicidar quando ele tem 7 anos ele começa uma lista de todas as coisas maravilhosas do mundo e depois essa lista acompanha-o ao longo da vida dele e de várias fases.
Aquilo mexeu comigo de tal maneira que ainda hoje, já passaram dois dias e eu acordei a pensar naquilo outra vez. Nós temos que nos expor a coisas que nos desafiem e as coisas que fiquem em nós de alguma maneira. Eu saí daquela peça e fartei-me de chorar mas enfim, eu sou uma chorona por natureza. O argumento estava tão bem escrito que eu saí de lá a pensar que há bué mais coisas maravilhosas do que coisas más, nós é que nos esquecemos e é tão fácil esquecer que é assustador. Tens que aproveitar as coisas pequenas que estão lá sempre e tu só não as vês. Uma Ucal quente, a voz da Elis Regina... As pessoas tem que ir atrás dessas coisas, atrás de conteúdo que as preencha. Essa peça só está até dia 20 de Janeiro mas se tiverem a oportunidade de ir digo que mudou pelo menos o meu estado de espírito para o resto do mês. Acho que isso é que é importante, coisas que nos mudem.










