O balanço da cadeira
Eram quase dezoito horas, o sol se extinguia atrás de uma árvore e nos olhos de uma senhora, cabelos longos e grisalhos, na varanda como de costume, um ritual de anos, vasos de flores nos cantos, acomodada numa cadeira de madeira. Não rangia, escolheu com o marido há tempos, no colo uma coberta xadrez e o exame com o diagnóstico de esquizofrenia, está que ela julgava falsa e motivada pelo interesse dos filhos na herança.
Uma xícara de chá esfriava em uma mesinha ao lado da cadeira, amava a mesa, pediu ao marido numa visita a uma loja de antiguidades, desgastada, cada detalhe e arranhão guardavam uma lembrança de bons tempos.
Sentia as costas no fim da tarde, pontadas que começavam no pescoço e as vezes se via curvada, o braço direito não erguia além do ombro, trabalhou anos como digitadora, algo que lhe renderam vários problemas nas articulações.
Ao lado do chá um livro, capa amarela e um casal abraçado, o homem sem camisa, bronzeado e a mulher ao lado com as unhas no peito dele "romances com o pescador", seus prediletos, as vezes se aventurava em algo mais profundo mas costumava cansar da leitura e largava o livro.
Ergueu as cobertas, levou até o pescoço e o por um momento pensou ter cinco anos novamente, escondida, apenas a cabeça para fora aguardando seu pai carrega-la no colo até a cama.
Do outro lado da rua a luz acendeu no poste, logo a temperatura cairia e decidiu entrar em casa mas as forças fugiram, não conseguiu mover o corpo, o ar ficou preso em seus pulmões.
Uma risada contida brotou atrás dela, como se a pessoa colocasse a mão na boca abafando o som, os pelos do braço da mulher arrepiaram, a cadeira balançou, havia algo atrás dela, um cheiro de queimado inundou o ar, conseguiu ver na xícara o reflexo disforme, só podia dizer que sorria e um negrume tingia o corpo.
Juntou forças no peito, na própria alma para se mexer, mas nada, estava sendo presa no próprio corpo por uma força maior, uma figura surgiu atrás do poste, pequena, observava de longe, a mulher em pensamento gritou por ajuda, a cadeira balançou novamente com mais força. Pequenos barulhos surgiram no quintal, soavam como vento encanado, a grama começou a ser rasgada, dela criaturas cinzas surgiam, cochichavam. Duas delas seguiram lado a lado se atrapalhando por vezes, uma das criaturas não tinha pernas, arrastava-se e a outra faltava os braços, pararam em frente a escada de apenas cinco degraus que dava acesso a varanda.
A cadeira parou de balançar, a criaturinha que não tinha bracinhos sorriu para a mulher, então a outra omeçou a come-la. Devorou rápido pensou a senhora, não sobrou nenhum pedacinho, do outro lado da rua a criatura do poste continuava escondida, olhava e logo voltava a mesma posição.
Na grama já haviam brotado várias criaturas, lançavam olhares intimidadores, se empurravam, davam pulos, outros eram tão deformados que só conseguiam se arrastar, mas o faziam com certa rapidez.
Outra risada surgiu, mas agora não foi contida, era banhada de escárnio, a muljer sentiu o ombro gelar, com o canto do olho conseguiu ver uma mão enorme, negra e com longas unhas podres pousar. No chão a pequena criatura que devorou o companheiro rugiu, as outras emitiram sons estridentes em resposta, deixaram pequenos dentes a mostra, a mão desapareceu do ombro rapidamente, como se uma briga ocorresse e o vencedor nem precisasse mostrar sua força.
As criaturas começaram a se aglomerar, deitavam uma ao lado da outra e ficavam encolhidas, sobrou apenas a criatura em frente a escadaria. Os olhos desta ganharam uma coloração amarela, a criatura do outro lado da rua caminhou em direção da casa, passou pelos arbustos que davam acesso ao quintal e deitou junto das outras. A grama tornou-se vermelha, as criaturas acordaram, algumas seguiram para a escada, escalavam os degraus, davam apoio umas as outras.
Se aglomeraram ao redor da cadeira, em uníssono juntaram as forças e balançaram, uma, duas e na terceira vez a cadeira virou, a senhora rolou escada abaixo como um boneco sem vida.
Rolando, saltando, os pequenos agarraram nas roupas, dedos, cabelos da mulher e começaram a arrasta-la para o meio do quintal, uma poça vermelha começou a surgir e afundou em si mesmo formando um buraco.
Um feixe de luz perpassou o céu, iluminou o local, aos poucos a mulher foi sendo levada, centímetro por centímetro, antes de afundar totalmente no buraco conseguiu mover o pescoço, viu a casa e a cadeira a balançar, nela um corpo jazia, reconheceu-se, atrás uma figura enorme, totalmente negra sorria compulsivamente enquanto empurrava a cadeira.
-LPN








