Minha mãe tinha negócios no litoral, me chamou às pressas, convidei minha namorada e o cãozinho dela veio junto, disse que seria legal, no carro éramos em quatro com minha irmã que foi para tirar fotos. Chegamos rápido mesmo sendo final de semana, tivemos de pedir um apartamento e negociar com o gerente alguns colchões pois estava lotado, o evento foi breve e após ele ficamos aproveitando o sol, piscina e a comida do litoral, normalmente peixe, petiscos.
O ar da praia sempre me deixou exausto, tem uma atmosfera de outro mundo, dormi a noite toda, apenas levantei para ir ao banheiro e percebi que o ventilador fazia um barulho irritante.
Passeei com o cãozinho, levei um tombo elegante correndo atrás dele quando num impulso dele a coleira escorregou das minhas mãos, fazer chekin, carregar as coisas para o carro, não eram muitas mas me parecia-me cansativo.
Na volta pegamos trânsito, ocorreu um acidente com vários mortos na serra, nunca me preocupei com isso, são as mínimas probabilidades ocorrendo e sendo jogadas na mídia como algo corriqueiro, fazem uma novela para ganhar audiência.
Na serra a neblina era linda, com nuvens baixas, a floresta muito verde ao redor e o ar condicionado do carro gelando minhas pernas, tentei não reclamar disso, mas uma hora parecia que iam congelar, minha mãe dirigia sempre gesticulando com uma mão e isso causava atrito entre ela e minha irmã, quanto a minha namorada essa desmaiou em meu braço e dormia profundamente.
Escureceu e havia menos carros na estrada, às vezes um caminhão, alguém acima da velocidade como se estivesse numa fuga, o pequeno cão dormia em sua casinha de viagem, pairava um silêncio no carro, todos respiravam cansados, as árvores na estrada eram altas, pinos, pinheiros e outras que não conheço, após as primeiras árvores uma escuridão enorme dominava, me deixava aflito, a floresta adentro parecia uma entidade, vazia, sem nenhuma luz.
Pedi para darmos uma parada, minha bexiga já estava me matando, tomei cerveja e água antes de sair, péssima combinação, minha mãe parou no primeiro acostamento e enfatizou “seja rápido, leve o cachorro para ele esticar as pernas”, fui eu e o pseudo guardião com sete quilos.
Senti um alívio na alma, até o cãozinho ao lado aproveitou para fazer o mesmo, estava meio amuado e cansado de tanto caminhar beira mar, foi quando me toquei da altura das árvores à minha frente, eram imensas, conseguia ver até a terceira árvore, depois tudo era escuridão.
Um caminhão passou atrás de mim, o cãozinho se assustou e correu, tentei segurar mas o ar húmido fez meus olhos fecharem, apenas senti a coleira na ponta dos dedos e depois se foi, ele correu para as árvores, gritei mas foi abafado por um vento forte, olhei para o carro e elas falavam entre si, ninguém tinha visto o que ocorreu.
Fui atrás dele, pude ver quando chegou na primeira árvore, ele me olhou depois observou a árvore e vi algo como uma mão sair detrás dela e puxar ele, corri o mais rápido que pude, quando cheguei na árvore o vento parou, o cãozinho não estava ali, nem havia sinal dele, olhei para o carro e lá estava ele na porta parado, minha namorada abriu e pegou-o, olhou para mim mas parecia não me ver.
Fiquei atônito, o vento veio forte atrás de mim e tinha um cheiro agradável de flores e folhas, não percebi quando aquela mão esverdeada pousou em meu ombro, foi rápido, cravou as unhas me puxou violentamente floresta adentro. O carro sumiu, a luz diminui e vi alguns raios de sol, depois era como a noite, escutei vozes, uma língua que não compreendia, soltei o corpo e deixei os olhos semi abertos, a dor no ombro era intensa mas não a ponto de me arrancar ruídos, algo dentro de mim mandava eu manter silêncio absoluto, me veio à mente como alguns animais se fingem de mortos para sobreviver.
Me arremessaram para um monte de folhas, amaciou a queda mas senti pequenos gravetos penetrarem na pele, agora estava de lado e conseguia apenas ver de relance o que me arrastou, engoli a respiração e soltei o ar lentamente, a criatura era magra e muito alta, com braços longos e totalmente verde, olhos negros grandes numa cabeça enorme, outra criatura saiu das árvores e eles se entreolharam, foi quando aquilo veio, a luz diminui, as duas criaturas pareceram ficar aflitas.
Quando surgiu uma das patas pisou ao meu lado, podia ver garras enormes, o corpo inteiro era negro, não houve nenhum barulho, a criatura que me trouxe desapareceu, escutei algo ser mastigado e um braço com garras caiu ao meu lado, a outra criatura rugiu e saltou para atacar, uma pata enorme se moveu tão rápido que partiu ao meio no ar e apenas a cabeça caiu ao chão, agora eu via uma cabeça e um braço.
Senti a adrenalina no corpo misturada ao terror que começou a pulsar, olhei para cima, parecia um borrão desenhado por uma criança, aquela imagem distorcida na TV, levantei e corri sem pensar em nada, saltei em alguns barrancos e senti galhos cravarem na carne, o ar entrava arranhando minha garganta.
Devo ter corrido quase uma hora ou alguns minutos não sei dizer, não encontrava nenhuma luz, às árvores escondiam até o céu, cai em algo parecido com um lago, tive dificuldade para me desvencilhar da lama negra, mas o desejo de sair o mais rápido daquele sonho me demoníaco imperava, mas minhas forças já estavam exauridas, parei em uma árvore com cheiro de eucalipto, controlei a respiração até virar um suspiro, o local tinha mais luz, no topo das árvores o céu azul aparecia num pequenino pedaço entre duas árvores, minha visão já estava quase adaptada ao escuro.
O silêncio imperou durante alguns minutos, depois escutei algo se mexendo, olhei para os arbustos a minha frente, conseguia ver as folhas largas deles, porém uma das folhas era diferente, com uma coloração mais clara que as outras, em certo momento perecia que ela se deslocava de lugar, depois balançou, mantive os olhos fixos nela, não era uma folha, tomava forma a medida que saia do arbusto, me lembrei de uma criança caminhando na praia, a figura se assemelhava a ela, mas as proporções dos braços e pernas eram desproporcionais.
A criatura parou na minha frente, depois sorriu e pude ver seus dentes, eram de um branco impecável com grandes presas, foi seguido de uma risada baixa, parecia aflita, olhava para os lados e depois em meus olhos, fiquei imóvel até a voz estridente sair “humano perdido, deve partir”, compreendi cada palavra, após respirar fundo “como saio daqui?”, a criatura me olhou depois coçou a cabeça “as árvores ligam os mundos, deve pedir a elas” - achei engraçado, quase ri com a ideia de pedir a uma árvore algo.
A pequena criatura me olhou séria, tinha algum receio e chegou até meus pés encolhida “ele está atrás de você, te observando”, depois disso segurou o rosto, olhou para os céus e gritou, seus olhos sangraram, rasgou o rosto com as mãos e a pele começou a cair e pegar fogo, era azul, o grito cessou e a criatura caiu, ao menos o que restou o fogo se espalhou e o que sobrou foi um pequeno boneco.
Peguei ele, estava gelado, tinha a mesma forma dá criatura, coloquei no bolso da calça e fiquei observando as árvores, só aí percebi que eram diferentes, algumas tinham um brilho sobre a casca, outras as folhas pareciam molhadas e gosmentas, uma delas me chamou a atenção em demasia, lembrava uma araucária e eu sempre reconheci elas no primeiro olhar, em frente a árvore só conseguia ver até alguns metros seu topo estava oculto na escuridão “árvore, me leve pra casa”, mas não houve resposta, falei com ênfase e alto e nada, mas quando coloquei a mão sobre ela meu corpo todo estremeceu, várias imagens vieram a mente, um caminho pela mata, algumas criaturas estavam nele, se atacavam, alguns pareciam humanos outros eram disformes e lembravam quadros onde a forma da pessoa é apenas um borrão, a voz da árvore soou na minha mente “este mundo é a conversão de vários num único ponto, aqui você pode conseguir algo que não existe”, havia calma naquela voz, fui tomado pelo desejo, pensei em todas as coisas que queria e até o medo passou.
Esfreguei terra pelo corpo e um pouco de lama que encontrei, segui rápido pela rota que a árvore mostrou, agora havia corpos por ela, eu sabia que ele tinha passado por ali, a criatura imensa que desmembrou as outras, agora parecia furioso, as árvores ao redor estavam todas arranhadas, então me ocorreu tocar uma delas, deviam mostrar mais imagens, encontrei uma pequena e vermelha, sua voz era arrogante e as imagens acordaram meus medos mais profundos, ela tinha raízes no inferno, saltei e senti uma dor imensa na mão, surgiam cicatrizes nela formando um círculo.
Levantei com a mão latejando e corri, não encontrei mais nada no caminho, ao longe pude ver luz e o céu com muitos raios, uma árvore colossal multicolorida, ao me aproximar percebi que as raízes pulsavam como um coração, em um dos galhos estava ele sentado, agora podia ver sua forma e mesmo assim não consigo descrever, era como o medo saindo do abstrato, toquei uma das raízes e as imagens vieram, as criaturas eram versões minhas em outros mundos, vislumbrei a vida de cada um, seus planetas e até mesmo o universo que habitavam e não possuíam sequer consistência.
Ele saltou na minha frente, o chão afundou com seu peso e consegui escutar seus pensamentos “o último”, senti vontade de vomitar, lembrei do boneco no bolso e peguei para ver mais uma vez, ele era uma versão minha que tentou me ajudar, as cicatrizes da mão foram para o boneco, um furor enorme veio ao meu corpo e gritei, queria aquele combate, me abaixei e peguei terra nas mãos, ele era muito rápido a primeira patada quase me pegou, arremessei com uma das mãos em seus olhos e rugiu irritado, estava feliz por estar ali, lembrei da minha vida inteira em poucos segundos, tudo veio à mente, quando meu outro eu se pôs em pé para saltar eu arremessei o boneco e atingiu seu peito, um fogo vermelho surgiu, era do próprio inferno, começou a consumir, não sobrou nada, agora só estava eu ali, sozinho, uma esfera negra surgiu na minha frente, tinha poucos centímetros, podia sentir uma força nela, como se o mundo dos sonhos estivesse contido dentro, abri a boca e ela veio direto, seu gosto era indescritível, continha o desejo de todos, alguns eram simples, mas o do último era o fim de tudo, do próprio universo que vivia, estava imerso em ódio.
Foi quando percebi que não tinha nenhum sonho, eu era o mais vazio de todos eles, caminhei pela floresta e visitei cada árvore, a história de cada um, de outros mundos, passaram-se anos e me perdi em mim mesmo, esqueci do céu, não sentia fome ou sede, nem tinha vontade de voltar ao meu mundo, era o pior de todos, apenas caos e maldade comparado aos que as árvores mostravam, não busquei mais a saída e permaneci escutando o universo, às vezes ecoavam vozes na minha mente, rostos que nem lembrava mais o nome.