Barganhando com a Morte
Quem nunca imaginou ser outra pessoa?! Quem nunca adormeceu pensando em acordar em uma vida completamente diferente daquela em que se deitou?! Quantas vezes nos pegamos pensando que tudo seria mais fácil se esse ou aquele detalhe fosse diferente?! Para todas essas pessoas eu digo apenas: PAREM DE DESEJAR ISSO PORQUE CEDO OU TARDE ALGUEM REALIZA ESSE SONHO.
A luz do sol entrava pela janela tingindo de vermelho minhas pálpebras, me virei na cama tentando esconder o rosto entre as almofadas, quando puxei o ar uma grande quantidade de poeira se desprendeu do algo felpudo que estava sob o meu rosto me fazendo tossir e levantar imediatamente. Esfreguei os olhos para afastar a sonolência, e encarei meu quarto sem realmente ver nada, joguei as pernas para fora da cama tencionando ir ao banheiro lavar o rosto, porem a macies do chão chamou minha atenção desviando meus olhos naquela direção. Meus pés estavam mergulhados no mais macio tapete de pelúcia que eu já tinha visto o que não seria nada demais se eu tivesse um tapete de pelúcia, o que não é o caso.
Olhei em volta e precisei de cerca de três segundos para perceber que ali não era meu quarto, olhei para cama outra vez temendo que a grande quantidade de bebidas da noite anterior houvesse me induzido a fazer alguma besteira, mas a cama estava vazia e aquele quarto sem duvida pertencia a uma mulher.
Olhei meu próprio corpo, algo parecia errado, eu não me lembrava de ser nem tão pálida e nem tão pequena, e sem duvida não me lembrava de ter comprado um pijama de cetim estampado com nuvens.
Caminhei em direção a primeira porta que encontrei que por sorte era o banheiro, talvez se eu lavasse o rosto e despertasse melhor conseguiria me lembrar de como fui parar ali. Juntei as mãos em concha diante da pia e com a agua acumulada molhei meu rosto algumas vezes antes de me encarar no espelho sobre a pia.
Minha primeira reação foi de susto, dei vários passos para trás antes de me chocar com o vaso e cair sentada sobre ele, respirei fundo algumas vezes antes de tomar coragem e me dirigir até o espelho outra vez, agora mais calma analisei o reflexo tocando a superfície fria para ter certeza de que não estava delirando.
A minha frente se encontrava uma menina que não poderia ter mais de quinze anos, longos cabelos loiros claríssimos lhe caindo até abaixo de onde o espelho poderia refletir, grandes olhos de um azul cristalino pontilhado por tons de violeta me encaravam com medo e curiosidade, uma boca rosada e tão bem desenhada como a de uma boneca francesa formava um gracioso O diante de mim, e pequenas sardas de um tom mais escuro se espelhavam pela pele alvíssima do seu rosto, e principalmente aquele reflexo definitivamente não era o meu.
Pelo que me lembro, tenho vinte e três anos, sem nunca sem sequer por um único dia em minha vida ter sido loira, ou pálida, ou parecida com uma boneca de porcelana, minha beleza sempre foi mais selvagem e indígena, eu não deveria me parecer com uma beldade europeia da época da Renascença. Contudo a imagem a minha frente se movia acompanhando meus gestos e expressões e ao que parecia estava vestindo o mesmo estupido baby-doll azul celeste salpicado de nuvens que eu.
O barulho da porta se abrindo me assustou outra vez, me fazendo agarrar o primeiro objeto que encontrei e me virar de costas encostada contra parede em posição defensiva. Uma senhora que deveria ter já os seus sessenta anos, me encarava da porta. Estava vestida formalmente como eu imagino que se vista um mordomo, ou no caso dela uma governanta. Seus lábios se repuxaram em um sorriso carinhoso quando ela me viu, fazendo-me abaixar a escova de cabelo que eu apontava em sua direção como se fosse uma faca.
- Senhorita Sophy, parece bem agitada hoje. – Disse ela entrando no banheiro sem cerimonia e se dirigindo até a banheira, logo depois ligando a torneira e deixando a agua enche-la com um vapor suave subindo pelas bordas.
- Sim. – Respondi depois de um momento incomodo de silencio.
Minha voz também era outra, mais doce e infantil, como você espera que seja a voz de uma criança bem-comportada, a qual eu nunca fui, o que já seria o suficiente para me deixar irritada, mas isso foi sobreposto no mesmo segundo que me lembrei que não me chamava Sophy.
- Fico muito feliz, já a muito tempo que não te vejo assim. – Disse a senhora caminhando em minha direção e suavemente prendendo uma mexa do cabelo atrás da orelha – Deveria tomar banho senhorita, ou vai acabar se atrasando para escola.
Acenei afirmativamente com a cabeça, e com mais um sorriso a senhora partiu, me deixando sozinha com minhas duvidas e o desespero que começava a me corroer de dentro para fora.
Me despi no automático e entrei na agua morna sentindo-a relaxar aos poucos meus músculos tensos, e deitando a cabeça sobre a porcelana fechei os olhos.
Aquilo era um sonho, só podia ser, eu estava sonhando e logo logo acordaria, mas eu estava errada, ao abrir os olhos outra vez ainda estava sentada em uma banheira de porcelana, encarando um banheiro que parecia ter saído de uma casa de bonecas, revirei os olhos, seja lá quem fosse a tal de Sophy não me parecia ter bom gosto.
Sai da banheira secando aquele corpo pálido e curvilíneo que não era o meu, me vesti com um roupão que estava pendurado ao lado, em seu bolso estavam gravadas as letras VSL formando um intrincado monograma, caminhei até o quarto, só agora prestando realmente atenção, ele parecia igualmente recortado de uma revista de decoração da casa da Barbie, cortinas brancas e repletas de detalhes de um material que me pareceu seda caiam até tocar o chão cobrindo as janelas que ocupavam a parede a frente da cama, uma escrivaninha também branca de designer antigo estava encosta ao pedaço de parede lisa entre as janelas, todas as paredes do quarto eram de um tom suave de rosa que poderia muito bem ser tomado por branco não fossem os moveis pintados dessa cor, a cama cujo o dossel eu não havia reparado, já se encontrava arrumada por várias camadas de cobertores e travesseiros ornamentais, na parede sobre a cabeceira encontravam-se estantes apinhadas de livros que mal cabiam lá, ao menos isso me agradou no quarto de boneca.
Um uniforme conservador estava disposto sobre uma poltrona aparentemente confortável e eu olhei para ele com desgosto. Uma saia de xadrez em vários tons de azul e branco parecia ser grande o suficiente para chegar aos joelhos daquele corpo, e blusa a gravata e o colete não pareciam muito mais promissores, sapatinhos pretos de boneca engraxados até brilhar descansavam ao lado da poltrona e um par de meias 7/8 estava sobre o acento, a roupa intima também estava ali e parecia limpa ainda assim me senti desconfortável por estar vestindo a roupa de outra pessoa.
Já vestida procurei um espelho e encontrei um entre dois grandes armários que ocupavam toda uma parede lateral, a imagem refletida era ainda mais perturbadora do que a primeira, eu comecei a pensar que tinha morrido na noite anterior e ido parar no inferno onde algum ser superior passaria o resto da eternidade brincando de boneca comigo. Nesse pensamento ouvi o som de alguém batendo na porta, ainda assim não me virei nem respondi então aquela mesma senhora entrou com uma bandeja na mão, o cheiro que vinha dos vários alimentos dispostos sobre aquela promissora bandeja fizeram meu estomago roncar e outra vez a senhora sorriu carinhosamente.
- Você está com fome! – disse ela com tanto alegria que poderia estar dizendo que acabou de ganhar na loteria.
- Sim, estou. – Respondi outra vez com aquela voz de cantora mirim.
- Faz muito tempo desde que você teve alguma vontade de comer! Venha, sente-se aqui na escrivaninha. – Disse ela ao colocar a bandeja sobre a mesa e puxar a cadeira para que eu pudesse me sentar, fiz o que ela queria e me vi diante de torradas frescas e geleia de morango, uva, e outros odores agradáveis que não permitiam identificação, um copo de suco também se via presente e pães de queijo completavam o pacote olhei para senhora que parou ao meu lado – Quer que eu traga outra coisa, qualquer outra coisa que você queira? – Perguntou ela solicita, fiquei tentada a pedir uma lata de cerveja para me sentir melhor, mas me contive.
- Não, nada, isto aqui está bom.
- Então coma, vou dizer ao motorista para parar o carro aqui na frente, você precisa levar alguma coisa além do material costumeiro para a escola hoje senhorita Sophy?!
Neguei com a cabeça incapaz de responder verbalmente, ela então acenou e se retirou do quarto silenciosamente.
Comecei a comer, e percebi que aquilo era ainda mais gostoso do aparentava, logo tinha comido todas as torradas e uma boa quantidade de pães de queijo, minha barriga doía me alertando de que não estava acostumada a ser recheada daquela maneira, tomei o ultimo gole de suco e parei de comer.
- O que está acontecendo?! – Perguntei para mim mesma.
No mesmo segundo um vento frio começou a se espalhar pelo quarto me causando um arrepio desagradável na nuca, olhei ao redor buscando qualquer coisa que pudesse tê-lo provocado, mas não vi nada, contudo uma voz sussurrante e fria se fez ouvir como se alguém estivesse parado exatamente ao meu lado.
- Você está realizando um desejo.
- Quem está ai?! Quem é você?! O que esta acontecendo?! - Perguntei me levantando bruscamente da cadeira e deixando cair a bandeja e os pães de queijo que restaram no chão.
Uma gargalhada fria entrou pelo meus ouvidos como um sopro, provocando outro arrepio.
- Quem sou não é importante...mas o que está acontecendo...bom é o que eu disse você está realizando um desejo.
- Não desejei nada disso. – Rebati irritada ainda buscando o corpo ao qual aquela voz pertencia.
- Não disse que era seu desejo. – Corrigiu-me a voz e antes que pudesse dizer algo continuou – Verbena Sophie Lansher é uma menina triste e muito machucada, seus pais nunca estão por perto, e quando estão nunca é algo natural, apenas uma encenação, ela vive uma farsa e na noite passada chegou ao seu limite...
- Não estou entendendo nada.
- Ela tentou tirar a própria vida, tomou uma grande quantidade de comprimidos e se deitou esperando não acordar e realmente não acordou.
- Eu morri?! Quer dizer ela morreu?! Morremos?! Explique o que aconteceu.
Outra risada de gelar o sangue pode ser ouvida e a temperatura caiu alguns graus fazendo-me abraçar meu próprio corpo com a intenção de manter o calor em mim.
- Sim e não. As duas deixaram seus corpos na noite passada, você bateu a cabeça com muita força e ela tomou comprimidos demais, porém nenhuma das duas estava pronta para partir, mas eu tão pouco poderia deixar que voltassem...então fiz um acordo com meu irmão, vocês perderiam suas vidas, mas não estariam mortas...
- Ainda não disse o que aconteceu...
- Você é uma menina inteligente, sempre foi esse credito devo dar a você. Então me diga...o que aconteceu?!
Eu pensei e a voz sem corpo ainda ria do esforço que eu estava fazendo, ela disse ter feito um acordo com o irmão garantindo que não continuaríamos a viver, mas também não estaríamos mortas...
- Qual seu nome?
- Você sabe a resposta! Não sabe?! – Quase pude ser sua fase tremeluzir diante de mim, e me senti mais fraca no mesmo instante, precisei me apoiar no tampo da escrivaninha para me manter de pé.
- Você é a morte! Por isso não posso te ver, os vivos não podem ver a morte. – Não a vi outra vez eu soube que estava sorrindo – Seu irmão é a vida, vocês trocaram nossas vidas para podermos continuar vivendo...então eu estou aqui e ela...
- Está lá! – Completou a morte.
- E o que acontece agora?!
- Você vive.
Sua presença se dispersou e o frio pareceu se esvair aos poucos, no automático recolhi as coisas que deixei cair quando a morte chegou, pouco depois a senhora entrou no quarto calmamente como se fosse totalmente normal ser visitada pela morte nas primeiras horas da manhã.
- Você comeu bem! Isso é bom, sinal de que está melhorando. Pegou tudo? – Perguntou ela me ajudando a colocar a mochila nas costas, acenei que sim e me deixei ser guiada até o carro parado na frente da incrível escadaria que se estendia diante de mim na saída do salão principal.
- Bom dia, senhorita Sophy! – Desejou um sorridente motorista, quando abriu a porta do banco de trás para mim.
- Bom dia! – Respondi educadamente na minha nova voz de soprano.
O carro percorreu um belo jardim antes de sair para a estrada publica, antes da primeira cursa eu olhei para a mansão que pelo que eu entendi seria minha casa agora, parecia fria e desabitada, quando ela sumiu de vista senti um aperto no coração e meio que pude entender os sentimentos da verdadeira Sophy. Desejei realmente que ela conseguisse ser feliz vivendo a minha vida e eu faria o meu melhor para ser feliz na dela.









