Quero alguém para me abraçar e mentir que tudo vai ficar bem.
Ressaca de Insônia
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Quero alguém para me abraçar e mentir que tudo vai ficar bem.
Ressaca de Insônia
Eu sei o que é o amor. Por isso escolhi não senti-lo.
Ressaca de Insônia
Não posso ser decepcionada. Eu sou a decepção.
Ressaca de insônia
Barganhando com a Morte
Quem nunca imaginou ser outra pessoa?! Quem nunca adormeceu pensando em acordar em uma vida completamente diferente daquela em que se deitou?! Quantas vezes nos pegamos pensando que tudo seria mais fácil se esse ou aquele detalhe fosse diferente?! Para todas essas pessoas eu digo apenas: PAREM DE DESEJAR ISSO PORQUE CEDO OU TARDE ALGUEM REALIZA ESSE SONHO.
A luz do sol entrava pela janela tingindo de vermelho minhas pálpebras, me virei na cama tentando esconder o rosto entre as almofadas, quando puxei o ar uma grande quantidade de poeira se desprendeu do algo felpudo que estava sob o meu rosto me fazendo tossir e levantar imediatamente. Esfreguei os olhos para afastar a sonolência, e encarei meu quarto sem realmente ver nada, joguei as pernas para fora da cama tencionando ir ao banheiro lavar o rosto, porem a macies do chão chamou minha atenção desviando meus olhos naquela direção. Meus pés estavam mergulhados no mais macio tapete de pelúcia que eu já tinha visto o que não seria nada demais se eu tivesse um tapete de pelúcia, o que não é o caso.
Olhei em volta e precisei de cerca de três segundos para perceber que ali não era meu quarto, olhei para cama outra vez temendo que a grande quantidade de bebidas da noite anterior houvesse me induzido a fazer alguma besteira, mas a cama estava vazia e aquele quarto sem duvida pertencia a uma mulher.
Olhei meu próprio corpo, algo parecia errado, eu não me lembrava de ser nem tão pálida e nem tão pequena, e sem duvida não me lembrava de ter comprado um pijama de cetim estampado com nuvens.
Caminhei em direção a primeira porta que encontrei que por sorte era o banheiro, talvez se eu lavasse o rosto e despertasse melhor conseguiria me lembrar de como fui parar ali. Juntei as mãos em concha diante da pia e com a agua acumulada molhei meu rosto algumas vezes antes de me encarar no espelho sobre a pia.
Minha primeira reação foi de susto, dei vários passos para trás antes de me chocar com o vaso e cair sentada sobre ele, respirei fundo algumas vezes antes de tomar coragem e me dirigir até o espelho outra vez, agora mais calma analisei o reflexo tocando a superfície fria para ter certeza de que não estava delirando.
A minha frente se encontrava uma menina que não poderia ter mais de quinze anos, longos cabelos loiros claríssimos lhe caindo até abaixo de onde o espelho poderia refletir, grandes olhos de um azul cristalino pontilhado por tons de violeta me encaravam com medo e curiosidade, uma boca rosada e tão bem desenhada como a de uma boneca francesa formava um gracioso O diante de mim, e pequenas sardas de um tom mais escuro se espelhavam pela pele alvíssima do seu rosto, e principalmente aquele reflexo definitivamente não era o meu.
Pelo que me lembro, tenho vinte e três anos, sem nunca sem sequer por um único dia em minha vida ter sido loira, ou pálida, ou parecida com uma boneca de porcelana, minha beleza sempre foi mais selvagem e indígena, eu não deveria me parecer com uma beldade europeia da época da Renascença. Contudo a imagem a minha frente se movia acompanhando meus gestos e expressões e ao que parecia estava vestindo o mesmo estupido baby-doll azul celeste salpicado de nuvens que eu.
O barulho da porta se abrindo me assustou outra vez, me fazendo agarrar o primeiro objeto que encontrei e me virar de costas encostada contra parede em posição defensiva. Uma senhora que deveria ter já os seus sessenta anos, me encarava da porta. Estava vestida formalmente como eu imagino que se vista um mordomo, ou no caso dela uma governanta. Seus lábios se repuxaram em um sorriso carinhoso quando ela me viu, fazendo-me abaixar a escova de cabelo que eu apontava em sua direção como se fosse uma faca.
- Senhorita Sophy, parece bem agitada hoje. – Disse ela entrando no banheiro sem cerimonia e se dirigindo até a banheira, logo depois ligando a torneira e deixando a agua enche-la com um vapor suave subindo pelas bordas.
- Sim. – Respondi depois de um momento incomodo de silencio.
Minha voz também era outra, mais doce e infantil, como você espera que seja a voz de uma criança bem-comportada, a qual eu nunca fui, o que já seria o suficiente para me deixar irritada, mas isso foi sobreposto no mesmo segundo que me lembrei que não me chamava Sophy.
- Fico muito feliz, já a muito tempo que não te vejo assim. – Disse a senhora caminhando em minha direção e suavemente prendendo uma mexa do cabelo atrás da orelha – Deveria tomar banho senhorita, ou vai acabar se atrasando para escola.
Acenei afirmativamente com a cabeça, e com mais um sorriso a senhora partiu, me deixando sozinha com minhas duvidas e o desespero que começava a me corroer de dentro para fora.
Me despi no automático e entrei na agua morna sentindo-a relaxar aos poucos meus músculos tensos, e deitando a cabeça sobre a porcelana fechei os olhos.
Aquilo era um sonho, só podia ser, eu estava sonhando e logo logo acordaria, mas eu estava errada, ao abrir os olhos outra vez ainda estava sentada em uma banheira de porcelana, encarando um banheiro que parecia ter saído de uma casa de bonecas, revirei os olhos, seja lá quem fosse a tal de Sophy não me parecia ter bom gosto.
Sai da banheira secando aquele corpo pálido e curvilíneo que não era o meu, me vesti com um roupão que estava pendurado ao lado, em seu bolso estavam gravadas as letras VSL formando um intrincado monograma, caminhei até o quarto, só agora prestando realmente atenção, ele parecia igualmente recortado de uma revista de decoração da casa da Barbie, cortinas brancas e repletas de detalhes de um material que me pareceu seda caiam até tocar o chão cobrindo as janelas que ocupavam a parede a frente da cama, uma escrivaninha também branca de designer antigo estava encosta ao pedaço de parede lisa entre as janelas, todas as paredes do quarto eram de um tom suave de rosa que poderia muito bem ser tomado por branco não fossem os moveis pintados dessa cor, a cama cujo o dossel eu não havia reparado, já se encontrava arrumada por várias camadas de cobertores e travesseiros ornamentais, na parede sobre a cabeceira encontravam-se estantes apinhadas de livros que mal cabiam lá, ao menos isso me agradou no quarto de boneca.
Um uniforme conservador estava disposto sobre uma poltrona aparentemente confortável e eu olhei para ele com desgosto. Uma saia de xadrez em vários tons de azul e branco parecia ser grande o suficiente para chegar aos joelhos daquele corpo, e blusa a gravata e o colete não pareciam muito mais promissores, sapatinhos pretos de boneca engraxados até brilhar descansavam ao lado da poltrona e um par de meias 7/8 estava sobre o acento, a roupa intima também estava ali e parecia limpa ainda assim me senti desconfortável por estar vestindo a roupa de outra pessoa.
Já vestida procurei um espelho e encontrei um entre dois grandes armários que ocupavam toda uma parede lateral, a imagem refletida era ainda mais perturbadora do que a primeira, eu comecei a pensar que tinha morrido na noite anterior e ido parar no inferno onde algum ser superior passaria o resto da eternidade brincando de boneca comigo. Nesse pensamento ouvi o som de alguém batendo na porta, ainda assim não me virei nem respondi então aquela mesma senhora entrou com uma bandeja na mão, o cheiro que vinha dos vários alimentos dispostos sobre aquela promissora bandeja fizeram meu estomago roncar e outra vez a senhora sorriu carinhosamente.
- Você está com fome! – disse ela com tanto alegria que poderia estar dizendo que acabou de ganhar na loteria.
- Sim, estou. – Respondi outra vez com aquela voz de cantora mirim.
- Faz muito tempo desde que você teve alguma vontade de comer! Venha, sente-se aqui na escrivaninha. – Disse ela ao colocar a bandeja sobre a mesa e puxar a cadeira para que eu pudesse me sentar, fiz o que ela queria e me vi diante de torradas frescas e geleia de morango, uva, e outros odores agradáveis que não permitiam identificação, um copo de suco também se via presente e pães de queijo completavam o pacote olhei para senhora que parou ao meu lado – Quer que eu traga outra coisa, qualquer outra coisa que você queira? – Perguntou ela solicita, fiquei tentada a pedir uma lata de cerveja para me sentir melhor, mas me contive.
- Não, nada, isto aqui está bom.
- Então coma, vou dizer ao motorista para parar o carro aqui na frente, você precisa levar alguma coisa além do material costumeiro para a escola hoje senhorita Sophy?!
Neguei com a cabeça incapaz de responder verbalmente, ela então acenou e se retirou do quarto silenciosamente.
Comecei a comer, e percebi que aquilo era ainda mais gostoso do aparentava, logo tinha comido todas as torradas e uma boa quantidade de pães de queijo, minha barriga doía me alertando de que não estava acostumada a ser recheada daquela maneira, tomei o ultimo gole de suco e parei de comer.
- O que está acontecendo?! – Perguntei para mim mesma.
No mesmo segundo um vento frio começou a se espalhar pelo quarto me causando um arrepio desagradável na nuca, olhei ao redor buscando qualquer coisa que pudesse tê-lo provocado, mas não vi nada, contudo uma voz sussurrante e fria se fez ouvir como se alguém estivesse parado exatamente ao meu lado.
- Você está realizando um desejo.
- Quem está ai?! Quem é você?! O que esta acontecendo?! - Perguntei me levantando bruscamente da cadeira e deixando cair a bandeja e os pães de queijo que restaram no chão.
Uma gargalhada fria entrou pelo meus ouvidos como um sopro, provocando outro arrepio.
- Quem sou não é importante...mas o que está acontecendo...bom é o que eu disse você está realizando um desejo.
- Não desejei nada disso. – Rebati irritada ainda buscando o corpo ao qual aquela voz pertencia.
- Não disse que era seu desejo. – Corrigiu-me a voz e antes que pudesse dizer algo continuou – Verbena Sophie Lansher é uma menina triste e muito machucada, seus pais nunca estão por perto, e quando estão nunca é algo natural, apenas uma encenação, ela vive uma farsa e na noite passada chegou ao seu limite...
- Não estou entendendo nada.
- Ela tentou tirar a própria vida, tomou uma grande quantidade de comprimidos e se deitou esperando não acordar e realmente não acordou.
- Eu morri?! Quer dizer ela morreu?! Morremos?! Explique o que aconteceu.
Outra risada de gelar o sangue pode ser ouvida e a temperatura caiu alguns graus fazendo-me abraçar meu próprio corpo com a intenção de manter o calor em mim.
- Sim e não. As duas deixaram seus corpos na noite passada, você bateu a cabeça com muita força e ela tomou comprimidos demais, porém nenhuma das duas estava pronta para partir, mas eu tão pouco poderia deixar que voltassem...então fiz um acordo com meu irmão, vocês perderiam suas vidas, mas não estariam mortas...
- Ainda não disse o que aconteceu...
- Você é uma menina inteligente, sempre foi esse credito devo dar a você. Então me diga...o que aconteceu?!
Eu pensei e a voz sem corpo ainda ria do esforço que eu estava fazendo, ela disse ter feito um acordo com o irmão garantindo que não continuaríamos a viver, mas também não estaríamos mortas...
- Qual seu nome?
- Você sabe a resposta! Não sabe?! – Quase pude ser sua fase tremeluzir diante de mim, e me senti mais fraca no mesmo instante, precisei me apoiar no tampo da escrivaninha para me manter de pé.
- Você é a morte! Por isso não posso te ver, os vivos não podem ver a morte. – Não a vi outra vez eu soube que estava sorrindo – Seu irmão é a vida, vocês trocaram nossas vidas para podermos continuar vivendo...então eu estou aqui e ela...
- Está lá! – Completou a morte.
- E o que acontece agora?!
- Você vive.
Sua presença se dispersou e o frio pareceu se esvair aos poucos, no automático recolhi as coisas que deixei cair quando a morte chegou, pouco depois a senhora entrou no quarto calmamente como se fosse totalmente normal ser visitada pela morte nas primeiras horas da manhã.
- Você comeu bem! Isso é bom, sinal de que está melhorando. Pegou tudo? – Perguntou ela me ajudando a colocar a mochila nas costas, acenei que sim e me deixei ser guiada até o carro parado na frente da incrível escadaria que se estendia diante de mim na saída do salão principal.
- Bom dia, senhorita Sophy! – Desejou um sorridente motorista, quando abriu a porta do banco de trás para mim.
- Bom dia! – Respondi educadamente na minha nova voz de soprano.
O carro percorreu um belo jardim antes de sair para a estrada publica, antes da primeira cursa eu olhei para a mansão que pelo que eu entendi seria minha casa agora, parecia fria e desabitada, quando ela sumiu de vista senti um aperto no coração e meio que pude entender os sentimentos da verdadeira Sophy. Desejei realmente que ela conseguisse ser feliz vivendo a minha vida e eu faria o meu melhor para ser feliz na dela.
Como se conta uma história?
A chuva caia, fazendo meus cabelos grudarem na minha testa e dificultarem minha visão, eu os afastava calmamente de meus olhos fazendo o possível para não perder a alvo que se movia devagar uns vinte metros abaixo de mim. Preparei a mira de minha arma, um único tiro resolveria o problema. Não hesitei nem por um segundo, e o corpo desabou no chão, em um beco qualquer, silenciosa e discretamente eu me retirei, qualquer outra coisa não fazia parte do meu trabalho. Disquei o numero de sempre, em menos de dois toques ouvi a voz de alguém do outro lado da linha.
- Sim?!
- Serviço realizado.
- Testemunhas?
- Nenhuma.
- Bom trabalho, retire-se dai com discrição.
Desliguei o telefone, colocando o de volta a minha mochila juntamente com minha arma, levantei o capuz e me esgueirei como uma sombra de volta ao meu apartamento. Tudo estava exatamente como eu deixei e o silencio e a escuridão me acolhiam como o abraço de uma mãe. Comecei a retirar minhas roupas encharcadas no meio da sala mesmo, ansiosa por me livrar daquela sensação fria.
- Nossa! Agora eu tenho direito a show particular? – ouvi uma voz arrastada pronunciar atrás de mim. Em segundos eu empunhava minha pistola apontando para a escuridão – Você anda malhando não é Agatha? – Disse ao se aproximar do centro da sala e se deixar mostrar pela luz do luar.
Abaixei a pistola.
- O que quer há essa hora Sebastian? – perguntei, voltando ao exercício de tirar a roupa molhada, ignorando seus olhares maliciosos, já tão comuns.
- Vim te ver. Não posso? – Perguntou esparramando-se no meu sofá sem nenhuma cerimônia.
- Você nunca vem aqui por nada. Do que você precisa? – Rebati, olhando-o de esguelha enquanto seguia para o quarto em direção ao chuveiro.
Tomei um banho quente e demorado, deixando a agua relaxar meus músculos tensos, depois de alguns minutos, enrolei-me no roupão e me dirige a sala para atender meu convidado indesejado. Ele me estendia um envelope pardo, que eu peguei e abri ao me sentar no sofá da frente cruzando as pernas. Apos analisar seu conteúdo guardei tudo novamente e lhe devolvi o envelope.
- Dispenso.
- Por quê? É bem o seu estilo. – resmungou ele, sem se abalar recolhendo o envelope.
- Não sou mais uma freelancer! – Respondi com um sorriso irônico estampado no rosto.
- Estou sabendo. Agora é uma feliz funcionaria da Prisma. – Riu ele – A quem está querendo enganar Agatha, você nunca fez o tipo que se reporta a alguém, por que está brincando de trabalho em equipe?
- Isso não diz respeito a você, diz Sebastian?!
- Como quiser. Vou procurar alguém para fazer o serviço, mas se mudar de ideia, me procure.
- Como se eu fosse conseguir te encontrar. – Eu disse, me deitando no sofá e fechando os olhos com a intensão de adormecer ali mesmo.
- Vai dormir no quarto criança, assim vai acordar com dor nas costas! – Disse ele empurrando minhas pernas de forma implicante.
- Deixe me em paz Sebastian, a anos que não preciso que cuidem de mim! – Respondi sem ao menos abrir os olhos para encara-lo.
- Velhos hábitos não morrem! – Respondeu ele, antes de sumir na escuridão, da mesma forma que apareceu.
Dolorosas Desventuras
Eu tinha apenas 3 anos quando aconteceu, eu não me lembro de nada daquele dia, absolutamente nada, mas tudo mudou por causa dele, tenho certeza de que se nós soubéssemos o que aconteceria teríamos ficado em casa, não teríamos chorado e insistido para brincar no parque ao lado do rio, como eu disse eu não me lembro, mas forcei Theodora a repetir a história tantas vezes que é como se realmente lembrasse, se me concentrasse podia sentir o sol da manhã tocar meu rosto, o barulho da agua correndo apressada a pouca distância de nós, o sorriso de Ellijah enquanto corria com a bola no alto mantendo-a longe de mim. Também não me lembro como Ellijah se parecia, mas sei que éramos tão iguais que se não fosse a diferença de idade poderíamos ser gêmeos, ele tinha seis, o dobro da minha idade na época, mas Theodora disse que cuidava de mim como se já fosse um adulto, meu pai nunca estava presente, eu raramente o via assim como hoje, sua esposa que sempre teve a mente frágil era incrivelmente instável, Theodora disse que ela era muito bonita e inteligente quando mais jovem, e ainda era bela, mas sua mente esplendida havia se perdido a muito tempo, depois da morte da mãe ela ficou muito abalada, e pelo que sei ficou ainda pior quando meu pai apareceu comigo nos braços, sua filha recém-nascida, uma menina idêntica a seu primogênito, mas filha de outra mulher que teve a infelicidade de morrer no parto, a mulher que meu pai amava de verdade. Ela nunca teve especial simpatia por mim, mais eu a idolatrava naquela idade, tão bonita, tão inumana e atemporal sentada naquela cadeira na biblioteca, com a expressão fria e distante, para mim parecia uma rainha ou uma deusa, eu não sabia que aquilo era uma doença. Graças a essas coisas, Ellijah tomou para si a responsabilidade de me dar carinho e conforto, ainda que fosse tão jovem.
Naquele dia, o tempo estava nublado e as nuvens cinzentas nos ameaçavam lá de cima, mas não demos atenção, era final da tarde e Theodora nos levou ao parque, tudo estava perfeito, me dizia ela todas as vezes e então acabou.
Ellijah jogou a bola alto demais e eu sem sentir o perigo corri em direção ao rio para recupera-la, ele viu o que aconteceria e eu não, ele não chamou Theodora, sequer gritou ou fez qualquer barulho, então nenhuma de nós sabe o que realmente aconteceu, só o que se sabe é que eu estava abraçando meu irmão como se de alguma forma pudesse traze-lo de volta, mas o sangue empapava minha camisa e tingia a agua que corria de vermelho.
Semanas depois eu voltei a falar, passei quase um mês inteiro sem dizer uma palavra, e todo dia ouvia minha madrasta gritar que eu tinha matado seu filho, é claro que eu não me lembro, mas Theodora sim, ela me disse que eu sequer chorava ao ouvir essas palavras, apenas ficava lá parada encarando os olhos da minha madrasta, até mesmo quando enraivecida ela me dava um tapa. Então um dia quando Theodora foi me acordar eu não estava mais lá, ela me procurou em todo lugar, exceto no quarto da minha madrasta, quando ela não viu outra possibilidade ela foi até lá, e me encontrou deitada nos braços de minha madrasta vestindo as roupas do meu irmão, meu cabelo jazia no chão, caído de qualquer jeito em mechas negras irregulares por ter sido cortado descuidadamente com a tesoura de papel, ela me chamou assustada e eu apenas respondi com um sorriso no rosto, e a calma mais infantil e inocente possível.
- Elliah morreu naquele rio Theo, estou triste, não fique chamando ela assim.
Minha madrasta me apertou mais forte, me embalando e dizendo que eu não poderia ter evitado, que aquela menina era e sempre foi deslocada e incontrolável, eu chorei pela minha morte e desde aquele dia nunca mais fui Elliah.
Olhar Malfadado
Sabe aquele momento em que você percebe que você é na verdade o vilão das historias de amor?! Aquele momento em que tudo a sua volta parece um romance britânico piegas e você está do lado errado da historia, que você na verdade é aquele personagem subversivo que faz da vida do casal principal um inferno, aquele que seduz a mocinha ou tenta o mocinho para tira-lo do caminho ao qual está destinado?! Bom provavelmente não sabe, porque quando você é o vilão você não se importa com os sentimentos alheios e nem com quanto mal você pode causar ao coração de alguém…mas pra mim que acabei aqui contra a minha vontade e sem me dar conta é mais do que triste, é doloroso e agonizante, mesmo que eu ainda mantenha a mesma expressão despreocupada e suave no rosto, por trás de meus olhos a tristeza se estende e a raiva de si mesma cresce mais a cada dia, não sou o tipo de pessoa que lamenta ou se arrepende de seus atos e escolhas, nem é isso que estou fazendo agora, as coisas que passaram não podem ser mudadas, eu só gostaria que no futuro, meus atos não se pareçam tanto com mal feitos, não preciso de uma historia de amor ou uma grande paixão, tal coisa nunca fez o meu estilo, eu apenas gostaria de encontrar alguém que eu não consiga magoar, alguém com quem eu possa ser essa mesma confusão, ser estranho sem ter que me preocupar com o efeito que isso terá sobre o seu coração e mente, é um pedido assim tão difícil?
Desconhecidos
Não sou uma sem teto, longe disso, então o fato de estar perambulando pela rua no meio da madrugada enquanto uma chuva torrencial cai sobre minha roupa não tem nada a haver com minha condição monetária. Ok, talvez eu tenha sido muito literal na análise do termo sem teto, eu tenho uma casa, bom não é minha casa, mas eu moro lá, o que não quer dizer que eu me sinta bem com isso, acho que não estou sendo clara o suficiente, deixe-me começar outra vez.
Sou órfã, ou pelo menos fico repetindo para mim mesma isso desde que me entendo por gente, pois não posso aceitar o fato de que meus pais biológicos me largariam em um orfanato qualquer de quinta categoria se estivessem vivos, enfim…fiquei naquele orfanato a maior parte da vida, mesmo que fique alternando entre ele e as famílias que me adotam esporadicamente, admito que sou uma pessoa um tanto ruim de se lidar, mas duvido que você também não seria se em cada uma das famílias em que te colocaram tivesse uma pessoa com intenções estranhas em relação a você. Teve uma família que queria que eu servisse de modelo para as pinturas de uma senhora estranha que me vestia de boneca e puxava e posicionava como queria, ela tinha o olhar meio vidrado e as vezes me dizia que bonecas não deveriam resmungar, então eu me convenci de que ela era louca e eu não deveria levar aqueles puxões e empurrões para o lado pessoal, mesmo assim não deu certo, e teve também uma outra família que me adotou, mas me tratava como uma empregada, porém como sou o ser humano mais desastrado que conheci não deu muito certo para ninguém, mas a pior foi a mais recente, como atualmente tenho quinze anos o esperado é que ninguém quisesse me adotar, ainda assim um casal me adotou a duas semanas, eles tinham um filho apenas dois anos mais velho que eu e disseram que era um menino muito solitário que seria uma boa experiência para ele ter uma irmãzinha, e nos primeiros dias estava tudo certo, eles eram o exemplo do que uma família de classe média deveria ser, foi no começo da segunda semana que o garoto começou a me procurar e tentar coisas improprias para irmãos comigo, eu como sempre tive muito bom humor para o meu bem levava tudo na brincadeira e por vezes fingia não entender, mas não foi o suficiente, pois ele ficou cansado disso e me ameaçou com um canivete, não que um pirralho com um canivete que roubou do papai conseguisse me machucar, mas depois de pegar o mesmo canivete e enfiar na coxa dele, achei que seria uma boa ideia sair de lá, o que nos traz a agora.
Cansei de andar eu já não tinha mesmo um lugar para ir e estava muito frio agora, sentei na marquise da primeira loja que me pareceu razoavelmente limpa e abracei minhas pernas para tentar manter o calor no corpo. Não me lembro de ter dormido, mas ao abrir os olhos outra vez percebi que já estava clareando, as poucas pessoas que passavam provavelmente rumando para seus trabalhos me olhavam com pena, então imaginei que deveria estar parecendo uma mendiga, dei de ombros involuntariamente e meus ossos estalaram protestando contra o tempo que passei na mesma posição.
- Ei, pirralha! – Ouvi uma voz grave e olhei para cima para ter certeza de que estava falando comigo, um homem alto com estranhos cabelos claros me encarava segurando uma jaqueta bege sobre os ombros e parado em uma pose totalmente arrogante – O que está fazendo parada aí?
- Morrendo de frio! – Respondi no mesmo tom ignorante em que ele tinha falado comigo.
- E por que está fazendo isso na porta da minha loja? - Ele ergueu uma sobrancelha e aquilo me irritou mais do que qualquer coisa.
- Não te interessa! – Respondi me levando e batendo na roupa como se assim pudesse afastar a sujeira.
- Se não interessasse não teria perguntado! Agora seja uma pirralha educada e me responda!
- Estava chovendo e sua porta parecia mais limpa do que a maioria! – Dei de ombros e mais uma vez eles protestaram, talvez tivesse dado um mal jeito.
- E por que não ficou em casa se estava tão frio? Posso ver pela sua roupa que não é uma mendiga!
- É costume seu se meter assim na vida das pessoas?! – Foi minha vez de erguer uma sobrancelha.
- Não, mas também não é costume meu encontrar pirralhos encharcados cochilando na minha porta! – Ele suspirou, mas sua voz se manteve perfeitamente indiferente – Entra, venha tomar um café, estou ficando com frio só de olhar para você.
Em qualquer outra situação ou em qualquer outro dia eu não teria entrado, teria dado uma resposta malcriada e me afastado dali o mais depressa possível, mas hoje era hoje e só de ouvir a palavra café um arrepio passou por todo o meu corpo.
- Você não é um aliciador ou qualquer coisa assim certo?! – Perguntei me sentando em um banco na frente do balcão enquanto ele jogava a jaqueta em qualquer lugar e ligava a máquina de café.
- Não seja ridícula! Não tenho um pingo de interesse em crianças! – Juro que minha vontade era de xinga-lo, mas o aroma da cafeína já estava empesteando o ambiente então apenas resmunguei de descontentamento.
- Não sou criança.
- A partir do momento em que eu tenho idade para ser seu pai, você é sim uma criança, e você não pode ter muito mais de onze anos! – Disse ele me olhando de lado sem dar muita atenção.
- Quantos anos tem? – Perguntei curiosa apesar da ofensa, ele não parecia velho mesmo com os cabelos brancos.
- Não importa! Olha é o seguinte, no mínimo você fez alguma besteira e seus pais te colocaram para fora por uma noite para ver se aprendia uma lição, mas tenho certeza de que no fundo eles te amam e se você disser com carinho e convicção que está arrependida vão te deixar voltar! – Disse ele ao depositar a xícara fumegante na minha frente, aspirei aquele agradável aroma e tomei um gole antes de responder.
- Não volto para aquele lugar! – Eu disse quase ronronando enquanto o calor ia lentamente reaparecendo em meu corpo, mas não passou despercebido quando ele revirou os olhos.
- Então tome o café, lave o rosto e vá para onde quiser! A questão é que você não pode ficar. – Ele agora estava caminhando pela loja acendendo luzes e abrindo cortinas, pude perceber que aquela era uma livraria misturada com lanchonete e como vi alguns computadores achei que era aquilo que chamavam de sibercafé.
- Não tenho a intenção de ficar! – Disse mais seca do que seria necessário.
- Bom! – Ele nem se virou para mim ao dizer isso, engoli mais uma vez meu orgulho por causa da curiosidade.
- Passo nessa rua todos os dias e nunca tinha reparado nessa loja.
- Você não é o tipo de pessoa que combina com esse lugar!
- Você não me conhece, por que diz isso? – Perguntei irritada outra vez.
- As pessoas que frequentam esse lugar dificilmente estariam sentadas na porta de qualquer loja as cinco e pouca da manhã, menina! – Sua voz parecia conter um sorriso irônico, mas não pude vê-lo em seu rosto quando olhou para mim.
- Eu tenho nome! – Não tinha uma resposta para aquilo na verdade, mas não pude simplesmente ficar calada e me dar por vencida.
- Não importa, você está de saída! – Disse ele retirando uma mochila gorda debaixo do balcão e arremessando para mim a peguei por puro reflexo e quase a deixe cair devido ao peso, olhei para ele com perguntas no olhar – Não vão servir tão bem, mas com certeza é melhor do que pegar uma pneumonia.
- Valeu! – Eu disse totalmente confusa com as atitudes desse cara.
- Não se diz “Valeu”, se diz "Obrigado" ou "Obrigada" no seu caso! – E ele deu mais um daqueles sorrisos de lado, eu não respondi atravessado porque o cara por mais irritante que fosse estava me ajudando.
- Obrigada! – Mas meu agradecimento saiu tão ácido que até mesmo eu me surpreendi.
- Viu, não foi assim tão difícil, foi?! – Pela sua expressão não podia ter certeza se ele disse aquilo com a intenção de ser implicante, mas foi definitivamente assim que pareceu – Agora se manda, vou abrir em alguns minutos! Você tem escola certo? – Disse ele consultando o relógio ainda com essa mesma cara de coisa nenhuma.
- Estou indo! – Respondi me lembrando que a escola seria o primeiro lugar onde iriam me procurar, pensando rapidamente eu percebi que só teria um lugar para ir, e a perspectiva não me pareceu agradável – Tem algum banheiro para eu me trocar?
- Lá no final da loja, mas seja rápida!
Não respondi nada, apenas lhe lancei um sorriso amarelo antes de entrar no banheiro, tirei a roupa molhada, mas não tinha o que fazer sobre a roupa intima, vesti uma das roupas que estava dentro daquela mochila gorda e me olhei no espelho para ver em que estado lastimável eu deveria estar, mantive a minha camiseta mesmo também já qualquer outra coisa daquela bolsa teria ficado grande demais, uma calça cargo masculina fazia eu parecer uma militar o que ainda piorava já que eu também calcei meus coturnos de volta, botei um casaco imenso de moletom e eu quase poderia parecer uma recruta, suspirei derrotada e fiz uma trança no cabelo para deixar meu aspecto um pouco menos selvagem, lavei o rosto e sai do banheiro logo depois de colocar aquela mochila nas costas.
- Até que não ficou tão mal! – Disse ele ao me ver sair do banheiro, ele estava de braços cruzados encostado ao balcão e me olhava de forma que quase pareceu divertida.
- Está tentando fazer uma piada?! – Perguntei amarga – Por que você tinha uma mochila cheia de roupas jogada embaixo do balcão?
- Estavam separadas para caridade, eu só não esperava que a caridade viesse buscar.
- Então eu vou indo…muito obrigada! – Eu disse realmente sincera, aquele cara esquisito e irritante tinha me ajudado mais do que qualquer pessoa que eu me lembrava na vida, menos talvez do que…
- Ei, menina, um conselho…arranje um lugar para ficar e um emprego, as pessoas não serão gentis.
- Acredite eu sei! – Eu disse com mais pesar do que pretendi, ele ergueu uma sobrancelha para mim parecendo curioso pela primeira vez.
- Muito obrigado! – Eu disse acenando com a cabeça quando já estava na porta e acho que ouvi ele dizer “ Se cuida garota”, mas não poderia ter certeza.