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o peso das escolhas não feitas
— sabe aquele negócio de ficar pensando no que poderia ter sido? ando meio obcecado com isso ultimamente.
— cara, todo mundo passa por isso. é tipo um esporte nacional ficar remoendo as portas que a gente não abriu, né?
— pois é, mas é esquisito porque a gente romantiza demais essas versões alternativas da nossa vida. tipo, eu poderia ter aceitado aquele trampo em outra cidade há uns anos, e fico imaginando como seria minha vida hoje.
— e aposto que na sua cabeça seria tudo perfeito, né? a gente tem essa mania de idealizar o caminho não escolhido.
— exatamente! como se não fossem vir outros problemas, outras frustrações. mas a mente faz esse truque bizarro de pintar tudo de dourado quando a gente não viveu aquilo de verdade.
— é porque a realidade tem textura, tem complexidade. e o que a gente imaginou não tem. é só uma ideia lisa, sem as rugosidades do dia a dia. por isso parece tão atraente.
— nunca tinha pensado assim, mas faz todo sentido. é tipo comparar uma foto de viagem no instagram com a viagem real. a foto não mostra o cansaço, a dor de barriga, a discussão boba no hotel.
— perfeito! e olha, tem um paradoxo nisso tudo que me deixa louco: quanto mais opções a gente tem, mais angustiado fica. meu pai teve tipo três empregos na vida inteira, nunca ficou se perguntando se deveria ter feito outra coisa.
— é verdade. a geração dos nossos pais tinha um roteiro meio pronto, né? estudar, arrumar emprego, casar, ter filhos, aposentar. pra gente é um menu infinito e a gente fica paralisado na frente dele.
— e aí vem aquela pressão de "otimizar" a vida, de fazer sempre a escolha perfeita. como se existisse uma vida perfeita esperando a gente lá na frente se fizermos tudo certinho.
— mas não existe, né? a vida perfeita é um mito que a gente inventou pra se torturar. qualquer escolha vem com seu próprio conjunto de alegrias e arrependimentos.
— sim! e tem uma coisa que percebi outro dia: a gente se arrepende mais das coisas que não fez do que das que fez. tipo, eu me arrependo muito mais de não ter falado com aquela pessoa do que daquela viagem maluca que deu errado.
— interessante isso. é tipo... os erros que a gente comete viram histórias, viram aprendizado. mas as oportunidades que deixaram passar viram fantasmas que ficam sussurrando "e se" na nossa cabeça.
— exato! e esses fantasmas são chatos demais porque você nunca consegue confrontar eles com a realidade. fica sempre aquela interrogação.
— mas espera, será que não tem um lado bom nisso? tipo, essas possibilidades não vividas mantêm a gente sonhando, imaginando. talvez seja isso que dá tempero pra vida.
— pode ser, mas tem uma linha tênue entre sonhar com possibilidades e ficar preso no passado, né? uma coisa é imaginar futuros, outra é ficar ruminando decisões de anos atrás.
— verdade. acho que tem a ver com direção também. se você tá olhando pra trás com curiosidade, tranquilo. mas se você tá olhando pra trás com amargura, aí complica.
— gostei disso. e tem outra: às vezes a gente acha que uma escolha definiu tudo, mas na real a vida é uma série de pequenas escolhas diárias. aquele emprego que você não aceitou, talvez não fosse mudar tudo tanto quanto você imagina.
— sim! a gente superestima o poder de uma decisão isolada. como se a vida fosse aqueles filmes onde tem uma cena pivô que muda tudo. mas é mais parecido com um rio, sabe? vai moldando o caminho aos pouquinhos.
— e mesmo quando você acha que tomou a decisão errada, às vezes ela te leva pra lugares que você nunca imaginaria. conheci minha melhor amiga porque perdi o ônibus um dia. se tivesse pego aquele ônibus...
— pois é, a vida é cheia dessas coincidências absurdas. e a gente tenta controlar, planejar, mas no fundo tá tudo meio caótico e imprevisível.
— o que é meio libertador quando você para pra pensar. tipo, se tá tudo meio fora do nosso controle mesmo, talvez a gente possa relaxar um pouco e parar de se cobrar tanto.
— cara, seria ótimo se a gente conseguisse realmente sentir isso, né? mas o cérebro não funciona assim. a gente sabe racionalmente, mas continua se martelando.
— acho que é um exercício diário mesmo. tipo meditação, sabe? você não fica zen pra sempre, tem que praticar todo dia.
— faz sentido. e talvez aceitar que a gente vai sempre ter uma pontinha de dúvida, sempre vai se perguntar sobre os caminhos não trilhados. isso faz parte de ser humano.
— é, acho que a paz não vem de eliminar essas dúvidas, mas de conviver com elas sem deixar que elas te paralisem.
— bonito isso. no final, a vida que a gente tem é a única que a gente realmente conhece. as outras são só histórias que a gente conta pra si mesmo.
— e histórias a gente sempre pode reescrever, né? o passado é fixo, mas a narrativa que a gente faz sobre ele é totalmente maleável.
— nossa, verdade. nunca tinha pensado nisso. a mesma história pode ser uma tragédia ou uma comédia dependendo de como você conta.
— exato. então talvez a pergunta não seja "fiz a escolha certa?" mas sim "que história eu quero contar sobre minhas escolhas?"
— gostei. é mais sobre autoria do que sobre acerto ou erro.
— isso. e dá um poder diferente, sabe? porque mesmo que você não possa mudar o que aconteceu, pode mudar o que isso significa pra você.
— cara, essa conversa ficou mais profunda do que eu esperava pra uma segunda-feira à noite.
— pois é, mas são essas conversas que a gente lembra depois. as que fazem a gente pensar diferente.
— verdade. e olha só, se eu não tivesse topado conversar hoje, nunca teria pensado nessas coisas assim.
— mais uma escolha que poderia ter sido diferente.
— ah não, agora você vai me deixar remoendo isso também?
— hahaha, desculpa. mas pelo menos dessa vez você sabe exatamente o que teria perdido.
sobre(viver): episódio quatro...