Kompare e a publicação do fluxo
Nos dias 19 e 26 de abril, as aulas de 394 foram quase sobre o mesmo assunto que as de 719 que as antecederam, mas sob um olhar diferente. As duas aulas foram baseadas no texto "A Publicação do Fluxo: os Conjuntos de Caixas de DVDs de Séries e a Reconfiguração da Televisão", de Derek Kompare. Super recomendo a leitura desse artigo, muito bom mesmo. Ele trabalha com as relações de videocassete x cinema e DVD x televisão, além de abordar questões como a materialidade dos conteúdos midiáticos e o "fetiche da mercadoria". Fluxo e publicação A ideia de fluxo, da qual a gente já tinha falado nas aulas de 719, aparece também nesse texto. A programação televisiva se desenvolveu em cima da ideia de "fluxo", ou seja, transmissão ininterrupta. Esse desenvolvimento está relacionado ao fator cultural, porque não está ligado a imposições tecnológicas. Ou seja, a TV funciona através do sistema de fluxo porque essa necessidade cultural nasceu e a fez assim. O cinema, diferentemente da TV, se desenvolveu não a partir do fluxo, e sim da publicação. O conteúdo cinematográfico não é passado de forma interminável: existem sessões de filmes, que tem início, meio e fim. É comum dizermos que vamos ao cinema para "assistir a um filme", mas, quando estamos em casa, estamos "assistindo TV", e não a algo específico, apesar disso também acontecer, obviamente. Videocassete x cinema... A partir do surgimento e da popularização dos aparelhos de videocassete, a indústria cinematográfica enfrentou uma crise existencial, haha. Com a disponibilidade de assistir aos filmes em casa e por um preço mais em conta, os cinéfilos reduziram suas idas às salas de cinema. Dessa forma, podemos dizer que o videocassete abalou as estruturas cinematográficas na época em que surgiu, obrigando-a a se reinventar e buscar novas estratégias que permitissem que ela continuasse existindo e lucrando. O mesmo não aconteceu com a televisão. Por uma série de motivos, como limitações da própria tecnologia, por exemplo, o conteúdo televisivo não foi transformado em publicação. Os filmes lançados em vídeo tinham duas horas de duração, em média, e cabiam em uma única fita. Já programas de televisão como seriados, por exemplo, necessitariam de uma quantidade imensa de fitas para serem vendidos aos telespectadores na íntegra. Vamos pegar como exemplo O Clone, novela que a Globo exibiu às 20:00 em 2001 e agora reprisa no Vale a pena ver de novo (e eu assisto, hoho): Foram 221 capítulos de aproximadamente 65 minutos, como nos diz nossa querida Wikipédia. 221 x 65 = 14365 minutos, ou seja, aproximadamente 240 horas de novela! Em fitas com duas horas de capacidade, seriam 120 fitas! Essa limitação tornava inviável e impraticável o lançamento de conteúdo televisivo em videocassete, então a TV permaneceu inabalada. Até surgir o DVD. ... e DVD x televisão Assim como o videocassete interferiu no modelo cinematográfico, podemos dizer que o DVD reconfigurou a televisão, vide o sub-título do textinho do Kompare. O DVD tornou possível a publicação do fluxo televisivo, ou seja, o conteúdo da TV, como seriados e novelas, passou a ser lançado e disponibilizado para compra. A materialidade... Não sei vocês, mas eu ADORO ter meus DVDzinhos e meus CDzinhos naquele espacinho da minha estante aqui do quarto só para eles. Todos organizadinhos, enfileiradinhos... bem coisa de fã. Quem for fã de algo, entende, haha. Só não me entrego mais a esse louco desejo consumista de sair comprando tudo porque falta $$, né, então compro somente os favoritíssimos mesmo. Normalmente, quem gosta (muito) de um determinado artista musical, gosta de ter os discos dele. Ainda hoje, mesmo com a facilidade de obtenção das músicas pela Internet, tem muita gente que ainda compra o álbum físico dos artistas que ouve. Por que? É o lance da materialidade: é legal TER o objeto "disco" na mão, sabe? A caixinha, o encarte (muitos são criativos pra caramba), o disco por si só, tudo isso faz parte do "fetiche da mercadoria." McLuhan já pensava essa coisa de materialidade, do contato físico com a tecnologia como forma de interação. Lembra do "Meio é a Massagem"? Pois ééé, rs. A mesma coisa acontece com os fãs de séries e filmes: nós (sim, estou me incluindo!) gostamos de ter nossa coleção bonitinha e arrumadinha na estante. Para ilustrar o fascínio que alguns indivíduos tem por suas coleções, a prof. falou sobre o povinho que se filma avaliando os boxes das séries de DVD que compram e põem o vídeo no You Tube. Ela citou esse aqui, especificamente:
O carinha compra as caixas, percebe que, com o tempo, a qualidade do produto caiu e divulga essas informações no You Tube. Lindo, não? Muito poder na mão do consumidor, meu Deus. Não acredito que alguém que seja fã e queira as caixas deixe de comprá-las por causa da crítica dele, mas, com certeza, afeta a decisão de compra dos que estão na dúvida, não? ... e o DVD como amplificador da experiência midiática As informações contidas nos discos de DVD além do conteúdo principal (um filme ou os episódios de uma série, por exemplo) são os bônus. Esses extras são uma série de materiais que não intereferem diretamente na narrativa nem no conteúdo principal, mas ampliam a experiência midiática. Cenas de bastidores, entrevistas com o elenco, diário de filmagens, storyboards (e por aí vai) fazem com que o telespectador mergulhe completamente no universo de produção daquele determinado filme/série. Há quem diga que isso é coisa de gente desocupada. Há quem diga que isso é necessário para que se entenda qual mensagem os criadores do conteúdo estão tentando passar aos fãs. Eu só digo que é legal pra caramba, ahahaha :x















