coxia
É dentro de um silêncio estridente que a tarde da sexta-feira chega a mim contaminada pelos efeitos da distância. Um assobiar constante mistura-se com uma música desconhecida que paira no ar. (Ah, meu amor, vem viver comigo). Aqui, do meu quarto, é como se nada pudesse suprir um sentimento que aperta o peito e que ainda não é possível ser nomeado por mim. Ali próximo da porta tentas disfarçar o interesse que toda a plateia sabe te corroer por dentro. Desloca-se assim para a primeira fila, a cada risada que ecoa em coro pelos corredores de nosso passado. Assim se mistura o ontem e o hoje, dando luz aquilo que de tua boca escapou no verão. Na voz da dupla que antecede o espetáculo tu tão bem reconheces os meu relatos de outrora. Aí eu olho pra direita, volto. Fujo do espectro que poderia tão bem atormentar um artista prestes a entrar em cena. Mas eles ali sentados no chão também desconfiam de tua intenção. Estamos adentrando em tempos sombrios. O mesmo vermelho da ponta do nariz do palhaço agora também é sangue derramado no ventre. E nesta desordem caótica de uma nação fragmentada, atiças ainda mais a minha desordem com a cabeça dura que te faz um teimoso parecido a mim. Ontem mesmo me voltou a cuca a constatação das desproporções. Enquanto eu continuo a lhe reservar poltrona VIP diante de mim, continuo também a ser destinado a tudo que está fora e insiste em entrar. Longe da criação monumental que só um sentimento real pode desenhar na gente, entra tantas esperanças novas de voltar a ter a doce recompensa. Então eu volto ao pó, de novo. A solidão neste local jamais compartilhado me coloca na velha dicotomia entre o real e o utópico. Em cada pensamento há uma briga singular na escolha do que aquilo há de significar aqui. E assim eu te ofereço uma maçã coberta de mel. Repousa ela dentro do vaso de abacaxi, na esperança quem sabe de um aperto de mãos no presente. O abraço necessário apenas pra desatar os nós dos dias de excesso. Sim, pois não consegui ser indiferente ao inferno que se fez em minhas entranhas ao avistar você se embrenhando novamente na areia movediça dos teus dias caóticos. Um caminhar na ponta dos pés que ignora as placas de aviso pelo caminho, que já te desenha o cenário antes conhecido. Era bem que eu fazia ao apertar o enter. Um bem tão bem desnorteado por coisas que não se controlam, mas mesmo assim intencionado por um apontar de mudança. Assim eu permiti ser cobaia, coloquei a minha própria digital nos males que vêm pra bem só na tempestade. Um bem que nunca haverás de entender, é verdade. Talvez nem a mim. Mas que me basta dentro da percepção de que nos bastou como advertência do tempo. Ah. Sinto talvez pelo que não consegui comunicar ao ser colocado contra a parede. Silencias agora somente pelo caráter fixo do aguadeiro que inunda teu mapa astral. Esqueces de novo que já não cola comigo aquela imagem que estrategicamente constróis como proteção do mundo. Lembras, afinal, que pude te ver pelo avesso? Ao me desdobrar para te encarar de todos os ângulos eu já abdiquei de eventualmente me fatigar com teus defeitos. E é este o ponto que insisto voltar, tentando te atentar para o óbvio. Talvez porque de fato não te passe pela cabeça que depois de tudo seria eu um dos poucos a te aceitar de fato como és, mergulhado em toda a lama que por vezes é preciso ser escondida do mundo. Num misto de estranhezas e perversidades, tão bem espelhadas também na minha face por ti. Num acrescentar de ingredientes excêntricos, acrescidos de uma gota doce que vem ao paladar apenas ao fim do provar. Mas eis que depois de tão gasto pela intensidade que carrego comigo, eu continuo aqui. Em pé e pronto pra te encarar de frente fora do personagem. Vítima quem sabe também de minhas moléstias históricas, mas aberto a um serenar de um mal estar desnecessário. Me veja além desta lente que te embaça a visão. Considere aí que do outro lado há um tanto de versões que nem imaginas, nos bastidores de dias que estivesses distraído no teu próprio palco. A confusão que me toma é a mesma que duvida da necessidade de um novo ir e vir. Abandonamos pelo chão qualquer pretensão. Não mais esqueças que nosso tempo se esgota cada dia mais. Logo podemos não mais ter a oportunidade de andarmos cheios de vida por aí, assim se anuncia o futuro próximo da nossa pátria. É diante disto que não mais adio o amanhã. O espetáculo está chegando ao fim.
Deixo tudo assim Não me acanho em ver Vaidade em mim Eu digo o que condiz Eu gosto é do estrago.
















