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uma noite
Mas na manhã seguinte Não conta até vinte, te afasta de mim Pois já não vales nada, és página virada Descartada do meu folhetim. (Chico Buarque)
Oh, doce delírio. Eu te proponho uma noite. Uma chance para trepidarmos no tempo, para abdicar do que foi e do que será. Sem perguntas, sem fuçar dentro da gente qualquer curiosidade suicida. Uma noite que já aconteceu, mas que jamais poderá vir a ser. Um passar de horas no escuro, na companhia apenas da fome. Pra saciar o que de mais primitivo há em nós, pra fazer de conta que nunca aconteceu. Mais um capricho, pra lembrar o que foi bom e o que poderia ter sido se o tempo paralisasse no primeiro toque. Dois, na singularidade da madrugada. Desvairados protagonistas de um enredo impossível, solitários de sentires tão antagônicos. Me alcança uma borracha? Em uma noite qualquer, depois de uma mensagem que venha do nada, que surpreende o capricho mais egoico. Quando encenaremos uma sequência cinematográfica da vida real, fingindo ser estranhos novamente. Cê topa? Agora, onde olharei pela primeira vez nos seus olhos, e não projetarei em ti nada mais do que o saciar da sede de teu corpo. Onde desfrutaremos daquilo que de mais animal temos em nós. Uma loucura, só mais um parênteses uraniano em nosso trilhar conturbado. Sós. Dessas coisas que a gente faz no impulso, que nos reconecta com a imprudência de ontem. Amalgamados pelo desejo carnal, pela incapacidade de verdadeiramente não sucumbir ao nosso próprio veneno. Na noite que não ocorreu, mas que poderá vir a ser. Onde faremos um pacto de esquecimento mútuo, em que nem mesmo o nosso nome seja lembrado após o raiar do dia. Ali, logo após o tardar da noite. Uma proposta indecente jogada ao mar, fisgando mais uma vez o peixe pela boca. Onde irás adentrar um lugar que tens a vaga impressão de conhecer, mas que jamais saberás de onde. Somente teu corpo há de decodificar memória tão antiga. Agora, afinal. O depois não existe. Em uma única e desvairada noite, capaz de alimentar esse vazio dolorido que corrói meu estômago dentro desse quarto escuro. Quando teu corpo nu será minha coberta, quando tudo não tiver passado apenas de um sonho confuso. Sem rastros! Eu olharei nos olhos da escuridão. Quem mesmo é tu? Delírio, apenas delírio. Este é o teu codinome.
minha ficção
Três bocas se abrem à minha frente. São como portais que relampejam memórias. Forjo assim uma nova camada sobre o monte de evocações de uma mesma lembrança, revisitada a cada instante que o presente cobra um novo acerto de contas comigo. Já não basta dizer o óbvio, sinto que a escrita agora é um simples capricho meu. O cheiro de canela consente. Eu sei que o sentido deve estar cada vez mais perdido num labirinto infinito, destinado ao cansaço, a percepção de que não adianta o que fazer pois não há mais caminho possível. Porque buscar o que nunca sequer deve ter existido? Um novo assombro me assola a cuca. Reflexos projetados de um cubículo onde dois indivíduos encenam uma provocação mútua. Corpos nus se excitam com sua própria descoberta, voyeurs embriagados pelo desejo que salta das situações mais vis. A água corre, os pelos se encharcam de arrependimento antes mesmo do ato. Permanece na garganta um troço qualquer que nunca desce. Um desconforto por ser afetado com coisas tão desprezíveis. Um confessar mútuo entre familiares, que reacende aqui dentro sentimentos cambaleantes, que tantas vezes já caíram da corda bamba rumo ao precipício, neste sem fim que chamo de peito. Escrevo difícil para que não notes, para que os subterfúgios soem apenas como um estilo literário de um pretensioso escritor amador, um texto toscamente rebuscado demais para te interessar. A ficção sou eu. Afinal de contas, lembrar é tão somente uma atualização constante daquela versão que nós escolhemos contar a nós mesmos. Escritos se acumulam na esperança de um leitor interessado, em um futuro hipotético onde revisitar essas linhas possam ser a única possibilidade concreta de conhecer melhor um alguém tão estranho ao status quo. Um banquete para um pesquisador sedento por quebra-cabeça, como se pudesse desvendar aqui um enigma que nem mesmo a vida dá conta. Ilusão de pertencer, de fazer uma grande descoberta através do banal. O primeiro amor: um marco ao qual reserva-se graça ou importância. Há quem faça os dois, já não sei se é questão de escolha. É mesmo ridículo falar sobre o que deixou de importar, trata-se de uma espécie de isca jogada em um aquário vazio. Minto se digo que escrevo pra mim. A minha esperança é utópica, por isso não paro. Queria ser capaz de falar a coisa certa no momento certo, mas este é um jogo de azar mais difícil que uma loteria. Me pego construindo mundos paralelos, abandonando certezas tão óbvias apenas pela doçura que a ignorância pode ter por vezes. Aí volto a si. Mesmo continuando a sonhar com desculpas que possam servir de pretexto para um novo trocar de palavras, para um estopim de algo há tanto tempo idealizado por mim em meus pensamentos mais inconfessáveis. Recordo assim de um caderno amarelo, da curiosidade insaciável de descobrir quem eu era quando o hoje era só suposição, quando sentir era sinônimo de confusão. Olhando para o meu quarto redecorado, me flagro num capricho bobo de te supor aqui perto, fuçando entre os vinis e penduricalhos que agora fazem deste um lugar tão diferente. Um ambiente que por si próprio ilustra as tantas mudanças no que sou, nas tantas gavetas que também abri dentro de mim. Três da madrugada, de novo. Suponho não mais ter o encantamento necessário de alcançar seu sonho aí tão distante. Resta a crueza da vida. O ruído do ar condicionado, o som da chuva que cai discreta lá fora… os suspiros na parede. Ao menos meu quarto continua sendo este irresistível convite ao adormecer.
o que me atravessa
Não, eu não sei de nada. Por mais que um dia tivesse tido a pretensão de saber, foi somente ilusão. Nunca de fato soube o que poderia estar se passando por aí, e esta constatação é recíproca. Já não é tempo para presunções! De fato, é tarde demais. E daí? Um contexto muda tudo. Já não dá mais pra falar de ontem, de algo que se perdeu dentro do medo. Sou um moleque amedrontado, mais um que também não entende as próprias sombras. Esse monstro escondido no escuro, que salta debaixo da cama na madrugada e invade o sono! O que talvez tenha acontecido é que eu te reconheci, mesmo negando o espelho. No fundo o que me atravessou foi somente o xérox invertido, aquilo tudo que tu sempre evidenciou sobre mim mesmo. Minhas dores, a carência de afeto. Uma falta compartilhada no ser diferente de tudo que nos é familiar. No que deveria ser, ao menos. Coisas que não dão pra explicar. Sim, eu te disse. Falei que a intuição me dizia que o nosso lugar era no amanhã, num dia onde tivéssemos maturidade pra entender a estranheza do outro. As diferenças que na realidade são apenas sementes trocadas. Algo que continuará a brotar no outro sempre que não entendermos o porquê. Porque o outro fez isso? Dá de explicar? Veja, olha de novo nos meus olhos. Dá de explicar? Fazer merda têm todas, e também nenhuma explicação. É fogo nas ventas, é imaturidade pra dar conta de tanto sentimento. Se ver enrolado numa bola de neve, num caminho sem volta... Abdicar do sentido e sentir o peso quando a razão vem! Acontece que a gente não pode ter outra escolha se não a de se acolher, juntar os cacos pra se reinventar. Perdoar o que pro outro sempre será incompreensível. Mas o que fazer depois de tudo? Será suficiente? Pra quem? Não tive força para o que queria, é preciso reconhecer. E mais uma vez a gente segue fazendo o melhor que dá. Certo de que tudo é passageiro, que o mundo gira, e há de girar. Sem dúvida! As vezes é preciso admitir o contraditório, o rebuliço que é ter sentires tão diferentes traduzindo tais situações. O doce na amargura, o bom que brota no ruim. O desconhecido. Este que talvez tenha nos pregado tantas peças, muito antes do que podemos imaginar. Ah, menino. Foi bom chegar um pouco mais próximo, ser ouvido quando tu não tinha com quem contar. A cada instante me agarro apenas as lindezas para que não sucumba a beleza. Do que foi depois de ti, das coisas que eu não te contei... De como era incrível vigiar teu sono tendo por certo o quão breve aquilo seria, de acordar nas noites ao teu lado e buscar aproveitar o máximo daquele instante sabendo do quanto o tempo galopava! Corria como um diabo da cruz, como o pássaro com sede de voar. Assim escondo, deixo bem lá no fundo a dor. Essa incapacidade nossa de se entender de verdade, de abandonar as vaidades e apenas reconhecer o quanto somos parecidos nas diferenças. Muito maiores do que qualquer desviar do rumo, nisso que foi tão lindo quando conseguimos trocar de verdade com o outro. Chegar assim tão perto não é rotineiro, jamais se poderá diminuir sua potência, não importa o tempo que passe. Fica. Pois sempre iremos preservar aquilo que nos é mais essencial. O que fez o encanto rolar, a admiração pelo que este outro sempre há de representar. Será que tudo se desfaz de verdade? Deixemos a dor de cotovelo de lado, nos desfazemos do despeito disfarçado de pura proteção. Hoje eu já não falo como amante, pendurei no cabide a fantasia de ser desejo apenas na ideia. Que tolice me colocar no lugar de instrutor quando tanto aprendi contigo. As águas rolaram e depois do turvo que foi admitir ao mundo toda a minha sujeira, já não faz sentido querer insistir no que faliu. Camadas muito mais profundas foram mexidas depois de tudo, não és o núcleo de nada. Apenas um afeto em desacordo, uma frase tão importante na história que ainda não soube encontrar seu lugar de destaque no texto. O preservar do doce na amargura, a luta que eu travo comigo por te desejar tão bem mesmo diante de tudo. Ainda me atravessa apenas essa impossibilidade dos pingos nos is, de admitir que já somos outros e que o agora abre mão de bagagem.
Que destino, ou maldição Manda em nós, meu coração? Um do outro assim perdido, Somos dois gritos calados, Dois fados desencontrados, Dois amantes desunidos.
anistia
Me desfaço de tudo que eu escrevi, do puro ressentimento, abdico de ações desastradas que já te custaram tanto a paz. Numa praia lotada eu volto desesperadamente a te procurar entre rostos vazios, em um amontoado de gente que é apenas figuração em mais um sonho meu. Que mundo é este que estamos, eu te pergunto?! Revela-te. Espera um pouco, eu te imploro. Senta ai e se permite viajar comigo somente por ínfimos minutos. Que memórias estão vivas por aí?
— Fecha os olhos, escuta a música
Deixa que o relampejar daquelas imagens de ontem te tomem, no mínimo te façam recordar do sentimento bom de estar ali. Do que te fazia voltar, daquilo que te fazia acreditar que era válido pegar a estrada. Respira fundo, olhos de metralhadora!
Volte a conversa na praça, para a barraca, dance nos fundos de sua casa... Ajude a pegar a lenha pro luau, tome minha regata. Não esquece de trazer os livros, precisas vir pegar teus sapatos, afinal. Já é tarde, eles estão nos esperando. Não há problemas, podes dormir aqui! Pega essa toalha e vá tirar a graxa do corpo. Não, não chores... trouxe esses dois presentes. Amarelo. Olhe para esse box, parece que está derretendo! Eu, a Gretchen? Seu umbigo! Preparei pastel, e também tenho... CATUABA. Cerveja na praça? Dedos entrelaçados no cinema. Não faz essa besteira, volta e faz do jeito certo. Vamos ali, na frente do espelho. Pega um Uber. Vâmo acordá, Arroio do Silva! Traga o cigarro. Te apresento Holden Caulfield. Queres mesmo desenhar? O filme na sala. Dois. Olha o Johnny Deep jovem... cry baby. Que horário é teu voo? Debaixo da figueira, no colchão de massagem, caminhando lado a lado pela rua. Presos no banheiro. Calma! Se eu quero ir lá fora com você? Seu Gosto. A festa de aniversário. Um círculo ao entorno do sol... da lua! No banco do instituto, na beira rio.Toma um chá. Uma cueca? Caçando cogumelos embaixo do sol. A reconciliação, os desentendimentos. Uma foto? Vídeos. Não, a gente nunca fez isso. Textos e mais textos. Sozinho.
É sempre momento de ressignificar o que foi, e eu apenas gostaria de não deixar que tudo isso se perca. Eu sei de tudo, a gente sempre faz o nosso melhor. Com este sentimento eu desato os nós, liberto as mágoas que se acumulam neste engolir profundo na garganta. Repara como a gente parece brigar consigo mesmo quando recorda. Parecemos lutar contra nós mesmos para que prevaleça aquela versão que a gente escolheu, a historinha que contamos a nós mesmos sobre um ontem tão distante. Não é louco? A realidade, no entanto, é que nos apegamos a poeira. Rastros imprecisos, nada confiáveis, apenas marcas antigas de um eu que já não mais existe. As imagens voltam, foram significativamente carregadas de emoção naquele momento, e agora parecem ganhar novas cores com o outro que já és. Mas e as coisas esquecidas? Tudo aquilo que não surge assim tão fácil... Pode ser que ainda estejam em algum lugar, que despertem com o gosto do cogumelo, ou no cheiro do macarrão ficando pronto. Outras já foram de vez. Ou talvez estejam gravadas numa memória estrangeira, no outro que estava ali do lado e que num gesto tão banal, como o de ensinar o outro a tragar um cigarro, foi capaz de fixar algo que jamais nos será revelado. Percebes? Não lidamos apenas com pessoas, mas também com capacidades distintas de serem impactadas, versões em constante aprimoramento de algo que sempre nos será um mistério. Esse que, como na canção, sempre há de pintar por aí. Mas será que nos permitimos a ele? Como explicá-lo?
Mistério. substantivo masculino: “algo que é incompreensível, que não se consegue explicar ou desvendar; enigma”.
Sigo tateando um mistério, isso tudo que segue impregnado como um cheiro que não sai. Mas não te preocupes, tudo é menos estranho do que parece. Pratico um revisitar de coisas que já são peças de museu, apenas para que não se perca o valor do que é especial. Foi, e não por isso se revela como menor. É, pois é parte significativa do que sou depois de tudo. Será, pois o que é gigante não se apaga. Mas poderia de ser muito mais leve, muito menos carregado desse sentimento que está tão distante do ocorrido. Sim, pois não pense que em consequência de tudo que acabou sendo aquilo deixou de ser menos especial. Apenas falhei no meu melhor naquele instante. Falhamos. E é neste reconhecimento de que fizemos o melhor que estava em nosso alcance, que promovo uma anistia. Perdoo as tempestades, abro mão de qualquer busca que não seja a de resgatar essa amizade capaz de brotar de cada história romântica. Não é mais tempo de guerra, de fuçar num passado dolorido por ter prazer em ser o que era. Nem é mais necessário ter esperanças do impossível. É hora apenas de ressignificar a beleza em meio a sujeira, de brotar como uma flor de lótus pro amanhã. Assim me desculpo, ao mesmo tempo que me desfaço do peso de erros que não são mais meus nem seus. Foram do ontem. Te escrevo aqui porque este é nosso lugar, eu já não consigo chegar tão perto. Queria te dirigir uma carta, mas já não saberia teu endereço. Em que número se esconde tua altiva residência? Deixa pra lá. Quando for a hora me passe as coordenadas, para que eu finalmente possa enviar uma carta registrada.
Tão natural o movimento De se apegar à própria invenção Já que chorou e sofreu muito Arquitetando essa ilusão Mas será mesmo isso preciso Ou só um peso que te faz sofrer Pense bem O que você criou é o que você vai ter
mensagem de aniversário
Hoje eu escrevi uma mensagem de aniversário, e, como tantas outras vezes, decidi por não te enviar. A deixei quieta nas minhas anotações, como se por si mesma ela já tivesse cumprido a sua missão. É difícil colocar na balança tantas coisas, ter sempre de pesar sentimentos tão antagônicos aqui dentro. Colocar isto em palavras é sempre estar em dívida comigo, nunca conseguindo chegar perto da imensidão que me habita. É um dia importante, e não sei se em algum momento você poderia supor o quanto esta data mexe comigo desde muito. Esta distância machuca. E não estou falando exclusivamente da física. Como é complicado pesar visões e formas de ser tão antagônicas... Pois é. Parece loucura no seu mundo encarar este remoer de coisas tão ao longe, quando aí dentro uma facilidade imensa de se fazer pedra é sempre o que te guia. Tolice não olhar pro amanhã e não reservar o que fora ontem ao lixo. É natural, eu sei. Tanto quanto esta angústia diante de coisas não resolvidas por aqui. Aí por vezes se torna impossível não apregoar-te como sendo insensível, com essa frieza típica do ar que te envolve o mapa astral. Mas aí entra a razão. Que grande crescimento é constatar o quanto isso me faz crescer na oposição, no sentir ao mesmo tempo sentires tão contraditórios. Sinto muito, e eu não consigo entender o quanto reconhecer isso pode parecer interessante pra ti. O quão verdadeiro pode soar. Porque sim, há uma parte ainda desesperada pelo que não tive, pelo utópico de achar que algum dia terei. Machuca ainda reconhecer aqui um querer tão lindo, um desejar de alma para que tu seja feliz pela vida fora. Porém, quão dolorido é constatar valores tão distintos, querer a tua felicidade mas sentir o quanto a tua fonte por vezes me soa vazia. Eu não sou uma pessoa horrível. E negar a existência alheia só poderia ser considerada em meu mundo diante de tal entendimento. Aí não faz sentido pra mim essa barreira, confunde sentir-se assim quando também sei o tanto que igualmente tudo me machucou. Mas sei bem que a vida não trata-se de um cabo de guerra sobre quem sente mais, sobre quem é o mais maduro. E esse olhar empático diante de nossa pequenez, de tudo que ainda precisamos aprender, me deixa triste. Pela incapacidade de aproximação, por não saber dizer tantas coisas sem parecer invasivo ou perturbado da cabeça. Por ver que a vida nos convence a acreditar que o mais saudável é de fato deixar tudo de lado. É difícil entender? Eu imagino que muitas coisas distintas possam passar por aí. E ter de simplesmente aceitar cada realidade no seu quadrado é reconhecer que falhamos como pessoa. Nas capacidades mais lindas que temos: de amar e dialogar. Sinto como se tudo que viesse de mim fosse um ataque a ti, e isso me leva ao recolhimento. Não só por sua incapacidade de receber críticas, certamente por já ter se sentido deveras machucado. Mas também pela minha imaturidade de não ter conseguido pesar tudo, de as vezes ter de me blindar nisso como proteção. Culpa. Sei o quanto luto para acolhê-la com carinho, não permitindo seu remoer além da validade. Ser duro assim conosco de fato é danoso. Porém, como lidar de tudo sozinho? Por vezes eu queria só um abraço, e sei bem o quanto me seria fácil colaborar para que tudo estivesse bem. Sem cobrança, sem mais fuçar, apenas ofertando ao outro o que precisa pra se libertar. E essa é a ferida. Esse dar o braço a torcer que nunca lhe parece conveniente. A incapacidade de lembrar de um passado onde tudo foi diferente. Sim, eu errei. Digerir o que houve foi como se eu engolisse algo maior que a mim. E não gostaria de relativar. Só me é claro que a gente nunca entende de fato o outro, por isso é importante ver seus pontos de vista. Difícil, eu sei. Mas do mesmo modo que a cada instante me cobro e me forço a isto, também esperaria de ti. Minhas dores são outras, nem menores nem maiores. Elas apenas me fazem a sentir e ter comportamentos que nascem de outras problemáticas. E aí, te ver se perdendo para coisas que me assustam tanto causou uma reação além de mim. Um medo enorme por ti, mesmo sem tu destinar àquilo algo de perigoso. Tão bem soubesses dar o troco, naquilo que acredito de fato não teres a noção do quanto seria dolorido pra mim. A exposição de algo que te confiei como prova de um sentir tão grande, uma banalidade ao seus olhos. Pois é. Esses antagonismos tão radicais de fato me levaram a entender que apenas forçava algo impossível de acontecer. É uma pena não tê-lo conseguido convencer, te aproximado mais de um mundo que hoje pode te soar ainda mais estranho. O peso de gerações, de círculos que percebem a vida de formas tão singulares. Tudo é muito passageiro, veja. Enquanto te parece mais conveniente responder a isto como cigarra, a desfrutar dos prazeres da juventude, escolhi ser formiga a me preparar com coisas sólidas pro inverno. Ou apenas estamos a nos desentender por besteira? Não, mais que isso. Queria apenas te atentar para aquilo que é preciso aprender sozinho, e tenho certeza que o tempo o guiará. Falha minha achar que podia, que tinha o direito. Mas aprendi a desconfiar fortemente dos caminhos mais fáceis, daqueles que o preço a se pagar nunca parece compensar o doce dos áureos e efêmeros tempos. Tempos líquidos. E no fundo eu só queria te apresentar um novo horizonte, lá onde tudo parece não florescer assim tão rápido, mas que vale muito quando a oportunidade chega. Mas sim, eu entendo as dores. E tê-las visto é que me mantém aqui. As beijaria até o amanhecer, como fiz com seu corpo adormecido sobre o meu no ontem. Desculpe. Mesmo com as coisas que não cedo e que me feriram, dói também ser mais confusão diante de coisas que sei que não escolheste. Dividido entre me proteger e te querer bem, sinto que isto me destrói. São tristes os revezes dessa história. Mas veja, há alguns dias sonhei contigo menino. Com aquele brilho que me fez se apaixonar. Aí lembrei do que estava no plano de fundo, de todo o encantamento que nem se quer lembrava que estava lá. Era tão bonito reconhecer em ti a esperança do desviar de padrões tão comuns, destes comportamentos que tão logo o vi repetir sem se dar conta. Não vais entender, peço perdão pela intromissão. Me pareces que segue jogando o mesmo jogo que aprendeste, nessa ânsia de provar que podes ter e ser, quando tinhas a chance de ser tão diferente. Aquele moleque, com a inocência na bagagem, cheio de futuro nos olhos. Consciente do mundo a sua volta, tirando o olho do espelho pra perceber o que está além. Ciente que também errou e que esta é nossa natureza. Assim tu não precisaria contar a lorota que não queria isso ao mesmo tempo que alimenta a tua sombra com prazer de chocar. Tudo bem. Sinto tê-lo envolvido nesse emaranhado, em muitas vezes ter te confundido em minhas expectativas. Vais cair do cavalo no dia que perceber o quanto te quero bem, o quanto sua vista ficou embasada depois de ser ver sem saída. Cuida de ti, menino. Perceba todo esse mundo que o dinheiro e o status não podem comprar. Não deixa isso consumir aquele garoto que o meu eu de vinte e um conheceu. Voa. Busca dentro de ti aquela leveza capaz de te suspender acima de toda superficialidade da nossa atualidade. É isso que desejo neste novo ciclo que inicia.
Queria te falar Das coisas que entendi Eu quis te dizer Só verdades A gente vai passar Ninguém vai perceber.
versos pra dormir em paz
É assim, a sensação é que a cada dia um passo novo se dá. E quando olho pra trás já é difícil enxergar. Mas sei que está lá, em algum lugar há de estar. E esta constatação talvez seja o dual mais estranho de se perceber. Sentir mas não ver. Ter a certeza da conexão, porém ciente do ignorar que não me pertence. Da realidade de quem não foi treinado a ver, o desviar do que podia ser. Tu podia ser. E a porcentagem ainda capaz de mudar o rumo da história me aflige. O menino, sim. Uma leveza capaz de me suspender do chão. E agora ao olhar de longe já parece outro. Distante de si, preso num labirinto de achar que precisa fazer isto. Um parasita do prazer supérfluo. Com frases mal ensaiadas, achando que vida tem roteiro. Crendo enganar. Sustentando uma ilusão de voar quando se afunda. Uma mão que não se vê. E olhos que a cada dia perdem o brilho como uma estrela que morre. Elas piscam, é verdade. Como se pedissem socorro ao longe. Tu. Que a cada sorriso amarelo na tela parece se perder mais em tudo que não tens certeza. Num desconforto que o teu corpo nu mascara, mas que emerge na fenda duplicada. Pra quem conhece o que é natural. No olhar que já não consegues fixar sem sentir o peso de perder o trilho. O vício. Desenhando na areia rastros que machucam a vista. Areia da praia. Eu olho pra trás e cego. Lembro de lá. E me pergunto onde foi aquele que sonhava acordado numa realidade que já me era grande. O rapaz ao meu lado na rodoviária. Era preciso ir, pra fora é que está o que satisfaz. Aqui. Ali tentando trazer uma perspectiva diferente. Escrevendo uma boia pra te estender na próxima correnteza. Aceitando que rio quer mar. Mas do que vale um corpo desacordado na barra? Fluindo pra fossa. Despedaçado por não se nutrir do que precisa. Contaminado pela pressão que é ser alguém. Pelo ter de mostrar que é. Um produto vendido na rede? É preciso provar que se é tendo, essa é a regra. Ser exceção parece deveras estranho hoje. O prazer é ser mercadoria ainda fresca. Precisamos não lembrar na xepa, é verdade. Feira se faz cedo. Encarar é duro como o dedo que te aponta, tal como o membro que te enrijece o apontar da bússola. Ao norte. Dois estranhos se aproximam. Será que tu te reconheceria? Reto toda vida pela estrada esburacada. Sente o vento na cara, abotoa a camisa. Olho mas já és outro. Um estranho de si tentando provar que pode. Uma presa fácil a superficialidade desta cidade. Nesta luta contra si, perdendo tudo pelo caminho. Pó. Olhe as placas, ciclistas também precisam delas. Animal na pista. Eu aqui. Estendido a lamentar, não é mais possível cometer o mesmo erro pra ter certeza. Contrastando a imagem do ontem com isto que agora se mostra, tentando entender como não pode ficar claro. Cadê? Você se esqueceu sobre alguma escrivaninha, tal como as moedas do troco do cigarro de ontem a noite. Só dá de ouvir quando o ouvido sai da reta do vento. Assim observo-te como um céu na madrugada. O retrato de algo que já aconteceu há muito, mensagem atrasada. Será que um dia nos virão a se apagar numa noite estrelada? Era divertido falar dessas coisas. Menino, cadê você? Ainda é possível ser. Mas se achar esperto o suficiente é sempre estar fadado a morrer pela boca. Sina é sina, e a gente tem medo da solidão. Eis um personagem decadente do teatro de revista. Charlatão! Não era disso que eu lembrava. E por ainda crer em ti com a força que me faz ser, eu lamento. Abdicando do coleguismo que ao não saber o que dizer, só consente. Te fazendo sentir melhor por não mostrar o que está tão evidente. Mas foi. Se pudesse eu lhe arrancava todas as dores com minhas unhas. Mesmo assim nunca entenderias. É preciso muito pra ser. Como a música de Cazuza, a dor servida como prato principal nesta ceia da véspera. O vinte e um que ainda ontem fora meu. Este lamentar pelas coisas que precisam de muito para serem entendidas. Um desviar da rota, na pena que é ver alguém se deixando levar. Não poder gritar como num pesadelo. A porcentagem. Sim! A crio como uma esperança de um mundo melhor. Rezando pra um dia você se encontrar e perceber. Precisando supor que ao menos algo tenha-te servido. Apenas o necessário pra que não esqueças do menino que és.
Apague as lâmpadas dos olhos O jeito da sua escuridão me acalma.
epílogo
[...] Pouco a pouco as dores viram água, viram memória. As memórias vão com o tempo, se desfazem. Mas algumas não encontram consolo, Só algum alivio nas pequenas brechas da poesia. Você é a minha memória inconsolável, Feita de pedra e de sombra E é dela que tudo nasce e dança. (Petra Costa in “Elena” - 2012)
Sonhei que voltavas, que me dedicara um ínfimo das linhas que já escrevi. E eu fiquei a pensar como nunca pode ficar clara a desproporção, este solilóquio que nunca pareceu despertar em ti um esboço se quer de compaixão. Esta coisa que pareces lutar contra a ti mesmo pra convencer-te de que não foi nada, que nunca será capaz de trincar a tua redoma de vidro. Pois veja, é dor que se esvai a cada composição, a cada parte que arranco daqui de dentro e envio por sedex pra tua caixa postal abarrotada. Neste lugar que nunca há ninguém em casa pra receber as encomendas. Cuidadosamente embaladas por um plástico bolha já estourado após tanto deixar de lado, extraviadas por mim antes mesmo de pegarem a estrada rumo ao sul. Assim tudo segue pra um abismo, pra esse lugar não decodificável que nunca serviu pra nada além de te deixar de pau duro. Tais como este amontoado de páginas grudadas cheirando a esperma, somente mais uma de tantas histórias que exibes como um troféu amarelado na tua estante. Duplicadas como o livro não devolvido, que tão bem ilustra poeticamente por aqui o incômodo que deixaste em aberto. Onde estais? Cadê aquele corpo enfeitiçado pelo quarto fresco, confiando a fragilidade de seu sono a um colo que hoje podes supor te desejar tanto mau? Cadê teu cambalear ébrio pela noite, trazendo de volta nas mãos aquilo que bem sabes não ser teu? Tenho medo. No fundo, tu sabe, o que machuca é a inversão de uma história que eu conheço, nestas falsas aparências que apenas a distância pode pintar no outro. Perfeitas distorções de um sentimento que tu nunca há de compreender o reverberar no tempo. Mesmo depois de tanto tempo. Na dificuldade que é falar sem ser ouvido, nisto que não consegue ir além de frágeis suposições ao longe. Nesta atitude de achar melhor deixar como está pra não ter que se ver no espelho, no cruel que é negar alívio pro outro. Eu não sei como dizer, machuca não dar pra desenhar que um equívoco tremendo lhe toma a mente, veste o teu juízo de valor com uma mentira que parece ser convenientemente fácil de acreditar, e que a cada dia levanta um muro desnecessário. Teria que escrever num outdoor para que prestasses atenção? Não. Tentava eu apenas te ajudar a sair de um emaranhado tão nítido aqui de fora, num redemoinho que te engolia sem tu perceber e que através de substâncias que acreditavas ter controle te carregava para aquele lugar tão triste de encarar. Naquele ponto onde se distancias daquele moleque bacana, daquele que perdidamente me apaixonei pra além da tempestade. O menino que a cada dia pareces mais sufocar. Com essas coisas que nem tu nem ninguém jamais poderá dominar, um poço tão assustador que só quem ama e verdadeiramente se preocupa com o outro haverá de se identificar com tanto receio. Eu tentava resgatar a leveza que um dia te vestiu, todas àquelas coisas indescritíveis e lindas que já me feriram além do permitido. Numa estrada a qual eu já me distanciei pra não cair mais, nesta constatação clara que muita coisa eu não dou conta e não posso bancar. Você! Se me lê, escuta. É assim que termina? Após tudo eu posso te garantir que também sou outro e que a escola de ter sentido tanto é o que vale hoje. Abri mão de quase tudo, a cada segundo ao longe esfrego minha alma como se conseguisse limpar dela sempre mais um pouquinho do encardido que sei que foi eu que permiti fixar. Tento recorrentemente abdicar da necessidade de interlocutor, lutando contra a correnteza que eu mesmo crio dentro de mim. Assim, me coloco em um outro ponto, observando a paisagem do quadro não mais com aquela ânsia de também ser tinta a escorrer. Sou agora o observador que permite se demorar na obra in process, tentando extrair do objeto de análise o algo a mais. Aquilo tudo que passou batido no ontem, o detalhe que eu não pude perceber antes por ainda não ser treinado. Buscando ir além desta fina camada espelhada que sempre reflete apenas o meu rosto frustrado por causa de padrões tão antigos. Coisas que nem eu nem tu temos culpa. O que tem aí? Aqui. Transformo a potência criadora de um sentir, a reverto pra mim com um olhar gentil e compreensivo. De que vale a pena todo este fuzuê, eu continuo questionando. Dou extrema unção a estas culpas humanas. Queria teus olhos por perto para num olhar dizer que perdoar é somente reconhecer nossa pequenez a cada processo. Minha e tua. Nossa. Afinal, o machucar é recíproco. Não caio mais no erro que é acreditar haver hierarquias nas nossas feridas. Queria cruzar contigo na estrada, te dizer com um aceno “ei, sou eu ainda aqui”. Mas no mesmo instante te esconjuro pra longe, me agarro com o orgulho que não permite que me firas como antes. E esta dualidade é minha principal luta, a centelha que salta sempre após um fitar atencioso pra dentro, no notar que tu espelhas tão bem as minhas problemáticas de outrora. Numa encruzilhada que as vezes me mata aos poucos, e que em outras alimenta tanto a minha sede de futuro. Lá. Num lugar onde esteja tudo bem, onde lembrar disto não me cause mais tanto mal estar por aqui. Num dia onde te escrever algo volte a ser natural como é se comunicar no dia a dia, onde eu não precise pesar tantas coisas dentro de mim antes de assumir a vontade de me aproximar, pra ter de desistir em seguida já concluindo tua completa indiferença casual. Repulsa sem sentido, sem a menor necessidade. Quando fazer graça com tudo que ouve seja apenas uma maneira de dizer que está tudo bem, nesta utopia que é confiar num amanhã assim, em paz. Numa manhã qualquer em que uma única lembrança seja capaz de te tomar a mente e te trazer até estes versos, nestas palavras que se esforçam tanto pra dizer que o vazio do silêncio é o estrondo que mais explode no meus ouvidos. Convencendo a tu de enxergar tudo por um novo ponto, não destinando tudo a uma inacabada incompreensão. Parindo uma notificação capaz de me disparar o coração tal como um viciado próximo de saciar seu apetite mortal. Será que nos reconheceríamos frente a frente? Como seria termos diante de nós a memória daqueles dias? Não podes negar o que foi bom. Logo eu quero te ver, amanhã, no lugar de sua escolha. Nop. Pare. Não quero mais saber de ti. Já redecorei o meu quarto na tentativa de eliminar qualquer traço teu, o suor que ficou impregnado na minha parede. Já estou treinado pelos mecanismos de defesa que tão bem soube construir pra te deixar aí. Neste umbral onde as mais dolorosas suposições do desviar nos seus caminhos me dão paz apenas quando agarro minha fé pela mão e, enviando tudo pra longe, oro por ti. Num envio tão potente de luz que, se tu soubesses, jamais ousaria acreditar no mal que tu supunhas. Que continua tolamente te protegendo de um cão que não morde. Assim eu me reconecto com nossos corpos nus na cama, com meu ouvido junto ao teu peito como se escutasse a minha melodia preferida. Neste tumtumtum que me arrepia da cabeça aos pés, desfazendo estas tolices que somente um observador como tu, na contramão do que estas linhas sempre tentaram dizer, poderia imaginar. Olhe no fundo dos meus olhos verdes, eles são semáforo a te orientar. Meu amor te guia, te nutre a cada instante com o constatar da grandiosidade que jamais me visitará de novo. Em paz finalmente com a dura realidade de não ser suficiente para te ter por perto, mas mesmo assim tranquilo. Ciente de que de algum modo ele é capaz de fazer algo por ti, desenhando a eternidade nestes versos. Assim vives: na paixão do artista. Nutrindo meu eu lírico neste caminhar perigoso que joga pra escanteio todas as más lembranças, negando a mágoa para que ela não vire câncer no cérebro. Torcendo pra tu perceber. Sinto muito. Não gostaria de esperar tanto tempo para dizer isto olhando nos teus olhos, encontrando neles a única parte reconhecível do que eventualmente te tornarás no futuro. Longe de tudo aquilo que eu quis compartilhar contigo um dia, corroído pela distância que assassina minhas esperanças. Me perdoe. É mais do que nunca necessário ver aquilo que se vê. Não são justas estas suposições quando o que nutro continua a me jogar numa certeza tão grande da potência que isso sempre teve. Permite ao menos mais uma vez ouvir o que tenho a dizer. Eu te amo. Hoje eu compreendo que te joguei um peso que era apenas meu, que segues sendo poesia porque sempre estivesse ao longe. Num lugar onde é fácil destinar belezas gentis, pois afinal tudo é apenas miragem longe da realidade crua dos dias. Não sou este estúpido que posso parecer, assim como não és a fortaleza que lutas aparentar. Sou grato. No fundo, o recapitular da história apenas deixa claro o quanto reciprocamente fomos importantes no trajeto alheio e que sim, talvez não seja mesmo desta vez. E está tudo bem. Mistério sempre há de pintar por aí, já dizia aqueles bárbaros queridos. Suponho não termos controle de nada. Assim, quem sabe depois de se perder por tantos corpos, num descuido qualquer, na esquina dos dias, você acabe encontrando o caminho de volta. Deixe-me um abraço de ano novo, apenas um. Um último e singular instante, suficiente pra limpar tudo o que já não há mais razão de ser. Programado. Sem depois. Um presente ao que fomos. Lamba a seiva, deguste do fruto. Foi bonito foi, disse a canção. Não sei se imaginarias que tudo já não é mais segredo pra ele. Por isso deliro um delito, quem sabe uma noite onde as fantasias de outrora possam ganhar vida? Um mais um é três. Está errado!? A gente nunca sabe como estará nosso futuro eu a nos observar em suas lembranças. Será que é disso que gostaríamos de recordar? Assumamos de uma vez o que fugiu do nosso controle. Juro de mindinho. Esquecesse de novo o teu sapato por aqui. Vens buscar?
Nota: nunca destruir a si no desejo.
Não peça tempo para eu te esquecer Que eu me acostumo, mas eu não te esqueço Que eu me acostumo, mas eu não te esqueço Que eu me acostumo, mas eu não te esqueço Eu te prometo que eu jamais te esqueço.
pra lembrar que tudo acaba
Eu vou te contar que você não me conhece. E eu tenho que gritar isso, porque você está surdo e não me ouve. A sedução me escraviza a você. Ao fim de tudo você permanece comigo, mas preso ao que eu criei e não à mim. E quanto mais falo sobre uma verdade inteira, um abismo maior nos separa. Você não tem um nome, eu tenho, você é um rosto na multidão e eu sou o centro das atenções. Mas a mentira da aparência do que eu sou e a mentira da aparência do que você é. Por que eu, eu não sou o meu nome e você não é ninguém. O jogo perigoso que eu pratico aqui... Ele busca chegar ao limite possível de aproximação. Através da aceitação da distância e do reconhecimento dela. Entre eu e você existe a notícia. Eu me dispo da notícia e a minha nudez parada te denuncia e espelha. Eu me relato, tu me delatas, eu vos acuso, o confesso por nós. Só assim me livro das palavras com as quais você me veste. (Fauzi Arap)
Eu criei você no tempo. A ti cuspi estas palavras que ninguém fala, que aparentemente nunca alguém está verdadeiramente interessado em escultar. Assim embarcamos num jogo, num desafiar mútuo a cada coisa não dita, a cada falta jogada no ar. Numa cadeia de eventos que me desintegra agora no espaço. Dividido entre o que escrevia do alto do beliche na metrópole e o que busca agora no chão a certeza de que não dá pra cair mais. Naquele que amanhã voltará para estes versos, constatando que era mesmo preciso te inserir nesta programação dos meus próprios dilemas. No de semana passada que foi violentado por ti, ou daquele que talvez um dia te encare nos tribunais. Tu segue distraído como sempre, nunca de fato consciente sobre o tempo presente, flutuante acima dos enganos que contas a ti mesmo. Afinal, sempre tivestes a presunção de ser o malandro, aquele que está convencido de que sua própria prepotência e incapacidade de notar o que é mais simples são seus melhores trunfos. Mas te enganas, desde o início cometes um equívoco crucial todas as vezes, subestimando o outro sempre que o mar parece estar pra peixe. Não foi por isto que tu me chamou pra ir lá fora ontem na pista de dança? Hoje, ou talvez num outro verão qualquer. Antes de desviarmos daquelas poças de água no caminho, depois de colhermos os cogumelos lá atrás, durante o acordar na barraca. Veja como os teus passos são galopantes, como se sempre desejassem andar mais do que as próprias pernas. Não esqueça de olhar para os dois lados antes de atravessar a rua, lembre de trocar o apelido na agenda do teu celular. Sei porque eu te observo de longe, tal como um viajante no tempo que não pode explicar o que diz, lamentando que ainda seja cedo demais para você entender. Com pena de sua fé cega no caminho mais fácil, na rota que todos a sua volta percebem anos luz a sua frente levar ao precipício, mas que assim mesmo vais com brilho nos olhos. Mas sabe, ao menos eu confesso ser doido por parte disto, pela fagulha inicial que ao te tornar facilmente um impressionado em potencial, te injeta ao mesmo instante um impulso intenso de vida. Este resultado sedutor que também o torna perigoso, mais a ti do a que qualquer outro. Aquele que iludido pela ilha não percebe o perigo próximo da rodoviária, que segue insistindo nas pessoas erradas e que não reconhece nunca suas mancadas. Sedento de tal substância que logo te cega as vistas e te coloca permanentemente num ciclo onde pareces jamais querer escapar, ou se quer ter noção dos caminhos familiares entre nomes e endereços distintos. Entre os bancos da praça onde embriagados revemos o ontem, na ponta do cigarro que queimo no muro. Assim eu te observo diante de mim, tal como uma cobaia em laboratório, seu vizinho nesta eterna condição de aprendiz. Assim eu te projetei no tempo, depois de voltar da feira no Bexiga, antes de chegar na formatura ou de pegar o guarda-chuva de volta contigo na sua casa. Prestando atenção em cada reflexo que o teu espelho pode projetar na minha autopercepção. Não num andar a cima, mas igualmente preso no meu próprio circuíto, nesta rota que já insisti demais para que cruzasse com a sua. Pare! Volta, fugir de casa não é o melhor caminho agora, garoto. Tu é menor de idade. Volta e faz isso com calma, conversa com teus pais. Será que o ponto central da questão não é justamente esta atenção e carinho que nunca tivestes, que desesperadamente tentas atiçar no outro? Poxa, desculpe falar, mas repetes o mesmo com os outros. Te soou estranho porque não sou daqui, sou de um lugar que só agora compreendi que não podes acessar. É por isso que eu te escrevo tão confusamente, é por isto que insisto nestas palavras que ninguém fala. Dane-se! Ontem você enviou uma mensagem que precisava me ver, amanhã passa lá em casa pra comer macarrão, hoje não precisa me responder mais. Felizmente entendi que não posso fazer mais nada por ti, talvez eu nunca pode, mesmo quando tu precisava de um lugar pra dormir quando ele não estava mais lá te esperando de moto, mesmo quando eu deixei a toalha no banheiro para que pudesses limpar a graxa e secar tuas lágrimas. Todas estas coisas tu desdenhou. Cuspiu no prato em que se lambuzou quando precisou, fez isto com todos na mesa. Na cama. Violando agora algo sagrado, tudo pela sede que te torna algo muito pior daquilo que tens prazer em apontar no outro. Expondo o quanto tu és nojento e perverso. Por não respeitares tanto o teu corpo como o do outro, por nunca ter noção sobre o que é isto ao mesmo instante que ridicularizas o que é estrangeiro. Assim te tornastes um criminoso que nem se quer tem noção do próprio crime, nesta incapacidade nata em reconhecer um outro ângulo que não o teu. É assim que finalmente conseguiste a paz vinda daquele que estaria sempre pronto por ti, ferindo profundamente aquilo que só deste atenção quando te convinha. De novo tu não questiona o caminho mais fácil, de novo achas que descobriu a mina de ouro no que te envenena. Achas mesmo que sou eu o incompreensível!? Pobre de ti, pena ainda ter de demorar tanto pra você realmente dar valor a estas palavras, pro amanhã onde esta memória irá lhe assaltar. Assim o ciclo se repete, te levando a uma nova catástrofe que só tu não vê, no mesmo instante que não ouves os outros te atentando na medida que também se afastam de ti. Mais uma vez, crente que isto é puro mal algoro. Lamento, mas por ali também sigo com eles, pois veja que o meu ponto já passou. Não mais te espero no aeroporto, muito menos estarei aqui pra ouvir o que te aprontaram desta vez quando nem tu te suportar. Salto pela saída de emergência, antes que quem repita os mesmos passos seja eu. Em paz, garoto. Tal como você dormindo sobre meu corpo, dopado pela sua incapacidade de receber carinho de verdade, tolo por achar que não precisa de ninguém pra andar contigo. Tua ânsia te levará a loucura, pois nunca tens tempo nem interesse de construir nada sólido. Não somos descartáveis, meu amor, precisas se atentar a isto antes que seja tarde. Hás ainda de acordar a noite sem saber onde estás. Queime o caderno amarelo, rasgue as fotos e construa uma torre com todas as palavras que te dei. O próximo capítulo é a decadência, o futuro onde o corpo flácido só servirá de adubo vazio. O podre que já sinto daqui, é mercadoria vencida. Sim. Tudo já foi bastante, o suficiente para me atentar sobre minhas próprias armadilhas, das furadas que eu não mais quero entrar por ser refém. Sim, eu te desenhei no tempo, dei início a este ciclo que trato eu mesmo de finalizar depois de tanta energia gasta. Desconstruo essa esperança utópica de ver aí alguém que nunca fostes, esse alguém que eu sempre procurei desesperadamente fora, mas que no fundo sempre foi eu mesmo. É assim que você conseguiu destruir tudo, é assim o final desta história que não começou. Ainda assim sigo agradecido. Não te culpo por tudo isto que, sei bem, ainda não podes perceber. Agora eu me desnudo de ti!
Só entendi como tudo acabou Quando não vi pedaços de mim em você Hoje eu passo com risos a sua afobação Como quem já tivesse sempre o que prever.
meditação
Ontem eu fechei os olhos, inspirei bem fundo e por alguns minutos tentei ser voyeur de mim. Me desnudei entre um fluxo constante de pensamentos, no meio da bagunça que é nunca deixar de alimentar nossa mente elétrica. E ali eu me observei como se estivesse de frente a uma obra de arte, com um olhar estrangeiro de si mesmo quase impossível no passar dos dias. Fui além daquele fitar rotineiro no espelho, tentei refletir o que meu espírito de criança percebe num mundo sempre sedento de novos impulsos. Assim percorri minha galeria subjacente, e a cada passo em corredores sem fim tentava encontrar a resposta para uma pergunta que nunca consigo formular. De maneira crua avistei um pequeno barco a vagar solitário no horizonte. Um pequeno objeto familiar a flutuar sobre um lago que me é proibido, afinal de contas eu não sei nadar. Agora eu observava uma vista estrangeira, como por sinal sempre acaba sendo todas a nossa frente. E eis que no meio da neblina tudo ironicamente ficou mais claro, tudo fez sentido quando você despertou de um sono profundo ali dentro. Um nadador solitário a disparar sua atenção longínqua para mim. Entendi o que precisava fazer, mas de novo hesitei. Te encarei a distância, num movimento onde eu me torno alvo fácil para uma desestabilização de meu próprio sistema. Me mantive ali de pé, como sempre sem proteção, diante do alarde no farol de minha própria consciência. Talvez eu pudesse boiar entre as águas, talvez você ainda me estendesse a mão me vendo se debater diante de ti. Ou não. Precisei domar meu impulso de aventura, saciar no peito um sentir que por ser só meu nunca será entendível por ti. Prometi para mim mesmo que a fé burra não iria mais uma vez me fazer tropeçar nas pedras. Agora as palavras já não fazem sentido, as arremessei no ar para alimentar os peixes. Ali no reflexo das águas passou um já conhecido filme de despedida, imagens de um ir inevitável que se fundem com um brilho que cega minha vista. A lua estava lá de novo, viva entre as nuvens, que agora me indicam o caminho sem precisar falar. Eu entendi, naquele instante eu vi um piscar de olhos de minha própria sina. Não contei até três. Assoprei forte, provoquei um tufão nos meus pulmões para movimentar as correntes que te transportariam pra longe. Somente siga o movimento das águas. De fato já não cabiam mais despedidas num cenário desenhado pelo destino, mas eu te escrevo, não se preocupe. Na primeira hora te envio um telegrama dizendo que as lembranças nunca me serão arrancadas daqui, que talvez um dia você preste atenção de verdade em tudo isto. Talvez não. Ergui as mãos numa prece, mas despertei sobre o sofá num impulso instantâneo. Fitei a parede branca iluminada pelo sol do final da tarde, senti o ar fresco vindo da janela. Me vi ali novamente numa tentativa de ser mais leve em meio ao caos, e mais uma vez eu compreendi tudo. Já era tarde.
Não olhe pra trás Mas não se esqueça de mim, não! Não me lembre que o sol nasce no leste e no oeste morre depois O que acontece é triste demais Pra quem não sabe viver pra quem não sabe amar.
Nota para o amanhã: O algodão e as águas internas. Resignificação é colocar em movimento. Enxergar que o fantasma não precisa mais ser assustador. Estar maduro e perceber que o hoje pode ser diferente. Colocar cada coisa no seu lugar. Para tudo, é só preciso estar aberto.
intocável
Reduzido a cabeça rolante na forca eu espero. Tenho comigo uma esperança quase beata debaixo do braço. No fundo ouço Caetano a perguntar: o que será? E eis que depois de repetir tanto de ano eu continuo a não saber. Sigo ali numa batalha só minha, neste lugar que cada vez mais parece gritar sempre minha solidão anunciada. Não entendo, sigo confuso diante daquele retrato na parede. Decoras tua torre aí do alto com o mesmo que me corrói as vísceras, e assim eu não entendo de novo. Inscrevo mais uma vez as coordenadas astrológicas no banco da praça. O fogo no meu rosto esquenta a brasa do meu juízo perdido. E mais uma vez coleciono um compêndio de “era uma vez”, continuadamente na busca de algo que um dia faça sentido finalmente pra mim. Assim aceno aqui de baixo, num movimento que parece te significar menos do que um sopro no furacão. Espio atento de dentro da fotografia, observo teus passos sonâmbulos até a cama, mas a chama me cega a vista. Desculpa chegar sem avisar, eu estava passando e decidi entrar. Porque sempre é tão difícil te fazer enxergar o outro além de ti? Olhe pro lado. Como um tradutor inexperiente eu caço no dicionário uma chance de me fazer entender. Te entrego o rascunho do que me é sagrado, mas ainda assim parece que sempre sigo a me repetir numa língua não decodificável. Com cuidado pego na mão esta sementinha, finco na terra de tua resistência como que na busca de um amanhã mais fecundo. Ah, dindi, ainda agora eu te vi mais uma vez adormecido sobre meu corpo depois do almoço. Como a contar minhas próprias histórias de ninar me lembrei de um tempo onde ainda era possível não ter feito. O cheiro de cigarro está na minha camiseta azul das constelações. Quão doce me soa a fantasia de ter decepado minhas próprias mãos antes daquilo. Esperneio diante do leite já com fungo no chão, mas parece que ainda assim não notarias minha dor pujante. Falta o vermelho do sangue talvez. Ora ora, meu caro fã do elementar, não seria tão evidente o quanto sigo a me rastejar para o alimentar de teu ego? Pelos campos de centeio ainda estão minhas pegadas, tal como o livro duplicado na estante. No fundo tudo segue sendo pretexto, rubricas que nunca conseguem chegar ao diálogo da jura de amor subtendida. A borda segue manchada de café. Me arriba o coração não lembrares daquele abraço embriagado perto da porta, nem do sono despreocupado enquanto eu lia Kafka. De novo te trancas aí nos seus aposentos sem lembrar do ar gelado do meu quarto a te inspirar sonecas secretas. Não, não é verdade que és estranho como o tio da feirinha. Por onde andas? Vou até a pessoa mais próxima e peço informação, mas é impossível encontrar alguém capaz de me fazer chegar até a ti de novo. Sim, eu estou coberto de minha própria imundície, mas veja que ela também ainda carrega rastros da tua graxa aqui no meu sexo. Largar mão dessa desnecessidade faria tão bem, doce xará. Será que és mesmo feliz sem saber, como na canção? Eu sigo a me despedaçar como sempre. Aposto agora o dia do teu aniversário na loteria, nem deves notar que o meu nunca se quer te interessou. Não, de fato não me convences neste papel de intocável, perceba que quanto mais se escondes maior é nossa sina à lá novela das nove. Veja que não fui capaz nem de fazer um mal direto a ti. Jogue seu olhar de metralhadora sobre a minha fuça e encara de novo também o espelho que carrego no bolso. Chove chuva e a água já chega na cintura. Em poucos dias já será lua nova, tenho pressa, nos deixe expurgar com tudo isto enquanto ainda é tempo. Vamo acordá pra necessidade de não mais deixar pra depois a chance do agora. Sabotagem é continuar nadando contra a correnteza.
Não quero que você Fique fera comigo Quero ser seu amor Quero ser seu amigo Quero que tudo saia Como o som de Tim Maia Sem grilos de mim Sem desespero, sem tédio, sem fim
Não me queixo Eu não soube te amar Mas não deixo de querer conquistar Uma coisa qualquer em você O que será?
Eu marquei demais, só vendo Aprontei demais, tô sabendo Mas agora faz um frio aqui. Me responda, tô sofrendo: Rompe a manhã da luz em fúria a arder. Dou gargalhada, dou dentada na maça da luxúria Pra quê? Se ninguém tem dó, ninguém entende nada O grande escândalo sou eu aqui, só.
posta-restante
Será que não sei Palavras que possam te ganhar? Sei lá, melhor me calar Talvez palavras não digam nada. (Silva)
mau final
Já nada me resta para dizer Tudo o que tinha a dizer Já foi dito não sei quantas vezes. (Nicanor Parra)
Mas não é possível, eu sei que não é possível: se estou escrevendo para você é porque você existe. Tenho certeza que você existe porque escrevo para você, mesmo que o telefone não toque mais, mesmo que a porta não abra, mesmo que nunca mais você me traga maçãs e sem as suas maçãs eu me perca no tempo, mesmo que eu me perca. (Caio Fernando Abreu)
E se um dia eu me for Para onde deus me levar Mesmo assim, meu amor Com você vai ficar. (Caetano Veloso)
Não importa, ao final sempre resistirão as duas distintas estórias. Imponentes ali no alto intocável de nossas desgarráveis certezas. Duplas contações meramente ufanistas, que tentam contar os vieses subjetivos dos mesmos episódios, do mais íntimo de nossos dias. Assim vigiamos o nosso eu de ontem. E hoje penso que de fato a versão do outro nunca será a mais interessante, afinal de contas estamos mergulhados num ângulo que sempre há de trazer a luz as nossas experiências mais antigas. Aquelas coisas tão nossas que se não fossem por elas restaria apenas um rótulo desbotado, uma espécie de humanoide vanguardista deste século líquido. Mas não, a verdade é que a gente apenas segue repetindo os enredos prontos, ditados ao nosso espírito muito antes de termos consciência de sua fórmula vencida. E é assim que surge um menino se descobrindo tardiamente em meio ao caos, na contramão do que a sociedade exige egoistamente de nós. Pausa dramática, silêncio. Vejamos o quão exagerada pode soar esta versão para um alguém tão diferente? Talvez até entre aqui aquela comparação natural que relativiza as problemáticas do outro e logo as apregoa como sendo menores, muito aquém destas outras aqui, tão vivas em nossos dias submergidos em nós mesmos. Mas não importa, ocorre que o menino não tinha como largar a única personagem que lhe cabia ali. A gente não pode fugir de nossa própria sina, diria o sábio. Assim vemos um garoto na metrópole, tão a frente no tempo do Alvorada como que estagnado em seu próprio nicho de inocência, precisando voltar ao começo de tudo para aprender a engatinhar de novo. Eis então os dilemas naturais de quem parte rumo a cidade grande fitando um amanhã melhor, ao mesmo instante que tropeça na sua própria percepção de que só dá pra seguir quando nos abrimos para o tratar das mudas feridas. Tiramos a sujeira debaixo do tapete e ali nos deparamos com a irônica tentativa de cura em forma da armadilha doce. E eis que ele constrói seu novo mundo sobre as bases de uma paixão distante, daquela falsa promessa de luz que na realidade desemboca no desfiladeiro mais próximo, junto do gorfo da formatura e das sobras de um natal qualquer. Tudo depois do sagrado mais límpido de nossa juventude, do assassinato a queima roupa da criança que ainda suspirava ali debaixo das roupas de veraneio. E assim, como que na novela das seis, o protagonista desperta para aquele mundo que se desenhou em suas expectativas de garoto tardio. Tão ingênuo quanto idiota, sucumbindo de sua própria burrice abusada pela serpente que vive de acumular amores de verão. Pobre Aninha esverdeada pela tinta que veio de cima, ridicularizada pelo bem que ainda lhe conservava o coração. Coitados de nós a nos reconhecer no novelesco de nossa infância, em todo aquele acúmulo de referências que no fundo só servem pra nos desviar do cru do mundo. Olho agora no espelho, encaro minhas pupilas dilatadas como quem busca desesperadamente por aquelas imagens ainda vivas em minhas lembranças. E eis que este garoto sou eu, a frente daquelas feridas sempre em aberto, mas ainda tentando emergir de toda uma lama catalisada por um certo alguém direcionado. Ao longe segue sempre caminhando uma memória obcecada pelo horizonte, cada vez mais distante de mim, deixando pelo caminho a doce sensação dos seus lábios molhados, a quentura do seu corpo sonâmbulo sobre o meu, o som do gargalhar de garoto maroto, a textura de seus cabelos sob meus dedos trêmulos, as marcas em tua pele, o rijo de suas partes mais secretas e aquela sensação tão viva de estar sempre suspenso no tempo. Voltamos assim para os já conhecidos enredos. Porque temos de dar tanto poder a um ser único diante da múltipla vastidão de lá fora? Pois sim, ocorre que além do ímpeto rompante acabamos sempre caindo na mesma cilada. Superar é ter a coragem necessária para um constante desconstruir. Largar mão das explicações talvez seja sempre o mais difícil. Pois afinal, me diga, como explicar coisas que por si mesmas parecem dizer tudo, mas que no fundo são apenas recortes equivocados de um mesmo episódio? Continua sendo tolo se prender a uma necessidade de entendimento, de eleger uma única verdade. Nos ensinam a ignorar e seguir como proteção, mas minha dor profunda segue latente em um ponto central. Machuca acima de tudo a impossibilidade prática de comunicar com fidelidade o sentimento mais forte que já se sentiu, de não ter conseguido lidar com uma avalanche tão ensurdecedora aqui dentro. E assim a gente vira vilão também, é julgado por aquilo que tem aparência horrível de longe, mas que advém de sentimentos que o estrangeiro jamais poderá imaginar em sua torre altiva. Como falar de todos aqueles recorrentes enganos oriundos de nossa reação precipitada a tudo aquilo que nos parece estranho? Foi assim que se desfez por inteiro as vãs tentativas de diálogo. Porém, abrimos aqui o direito de resposta pra ordem de registro. Afinal, seria inverossímil acreditar que o mesmo menino de nossa história, num capítulo qualquer dos dias, poderia causar mau querendo o bem? De fato há realidades difíceis de serem digeridas pela gente. Assim como a mãe que luta contra o filho pensando em o proteger, tal qual a gata que resgata o filhote travesso pelo cangote. Não seria assim tão difícil compreender a dor no coração de quem ama vendo o outro se perder, exatamente naquilo que de mais evidente perigo salta a seus olhos? Eis os nossos desencontros norteadores, nossos pontos de vista tão plurais como distorcidos. Pois saiba, portanto, que assim brotou um equívoco de um alguém já transtornado por confissões do passado alheio, no desespero de mostrar a armadilha diante dos passos estrangeiros, que o deixava alerta desde sempre. Podemos assim ser condenados, por não conseguir lidar com tamanho sentir que as vezes turva a vista? É claro que isto nunca o tocará. A certeza da impossibilidade de comunicação é um peso a qual continua a machucar, assim como leva ao desiquilíbrio por vezes. Pois também é incompreensível a falta de empatia de um outro garoto já tão marcado por suas falhas, dono de um discurso que o sempre vai lhe colocar como a vítima da situação. Me diga assim, como cobrar frequentemente abertura ao entendimento de suas próprias merdas quando o que se faz é tão somente agir conforme seu próprio interesse e se fechar as necessidades alheias? Pois lembras aqui, mais uma vez, de todas as vezes onde tu precisastes, onde eras tu o necessitado de explicar o outro lado, e como o nosso garoto aqui estava pronto a buscar te entender. Recorda comigo deste refúgio sempre aberto para o tratar de tuas dores no verão passado, de todas aquelas tuas máculas regadas pela bebida, que talvez nem lhe permita lembrar dos afagos que te acolheram tão bem e enxugaram tuas lágrimas sobre meu colo. Eis que ignoras de novo a tua própria figura sempre em círculos viciosos, num ir e ver dopado que sempre te leva aos mesmos lugares conhecidos e superficiais graças aos teus antolhos — a essa incapacidade de olhar verdadeiramente para os lados. Seguiste numa alternância que apenas evidencia um vazio pujante, se perdendo num desperdiçar daquilo que eu daria minha alma para receber como presente. Não, de fato nada tenho a ver com tudo isto. Embora continues mostrando cada detalhe de tuas andanças nas redes ao mesmo tempo em que ironicamente acusas o mundo de intromissão. Hoje entenda que o menino apenas se permite divagar entre os tantos pensamentos que o invadem com frequência e que afloram um mundo de coisas a serem ditas, mas que já de tão expressadas deixaram de ser importantemente bem-vindas. E assim eu dou o último suspiro. Me fundo ao menino e no mesmo instante que sou ele também o posso fitar deslocado de mim. Foste tu que o violaste em leito materno e até hoje ignora seu chorar ininterrupto aí no quarto vizinho. O incompreensível sempre há de habitar na intensidade da existência de algo tão potente aqui dentro, mas que jamais tiveste capacidade de reparar com cuidado. Um dia quem sabe, distante da dimensão a que estamos mergulhados hoje, o universo há de te presentar com a constatação de um sentir tão irracional quanto que ciente de uma verdade superior, de um amor tão profundo destinado a ti que trai a cada instante minha própria verdade. Que contraria, acima de tudo, uma percepção óbvia do quanto parte considerável de tudo isto sempre foi algo somente meu. Mas isto eu já disse tantas vezes. Acontece apenas que eu luto resistentemente para te tirar de mim, mas parece que a cada tentativa mais me afundo numa força que transcende a mim. Que me suga até a viscosidade de meu poço de sentimentos. E ali eu sempre volto dividido entre tantos chamados, que me aproximam e também me afastam de ti. E diante do embaralhado disto tudo aqui dentro eu já não consigo entender o propósito disto, mesmo clamando por um último falar de nós. Das flores que apodreceram no jardim. Mas de alguma maneira agora me coloco a distância, em definitivo. Até porque nada que me chegará será novidade nestes previsíveis ciclos. Te odeio no instante que te amo, e assim, sendo alimentado pelo dual de algo tão abissal, vou permitindo um ressignificar do meu próprio mundo no hoje. É com o garoto lá de trás que tenho que me acertar, está feita a sua vontade e grato sou por me mostrares o quanto vírgulas já não levam a lugar nenhum nesta estória. Visto o escafandro para submergir em minha própria areia movediça, é preciso renascer na certeza de que o que é pra ser tem força. Assim me despeço, ainda que na ânsia de tudo aquilo que ainda vou precisar falar no amanhã, mas que será enterrado em meus próprios registros a cada dia no futuro. Desasfixio para a eternidade, e este é um último suspiro esperançosamente desanimado pelas circunstâncias. Te oferto as músicas que amanhã serão preenchidas com tudo que te dediquei, que vibrarão pelo ambiente através de minha voz nas alturas, assim como todas as manhãs onde tua lembrança arrebatadora me virá em forma de sonho angustiante. A voz que segue me guia, também liga os pontos até o amarelo que um dia te chegou em mãos. E é pra lá que retornarás numa eventual intempérie, basta ler com atenção cada verso e saberás a verdadeira versão disto tudo, por mais que insistas na tola ilusão que um dia foi mau que te fiz.
O sonho é ter tudo dissolvido O corpo a mente a fonte da lembrança Enfim, ponto final na esperança Somente as ondas soltas no oceano.
coxia
É dentro de um silêncio estridente que a tarde da sexta-feira chega a mim contaminada pelos efeitos da distância. Um assobiar constante mistura-se com uma música desconhecida que paira no ar. (Ah, meu amor, vem viver comigo). Aqui, do meu quarto, é como se nada pudesse suprir um sentimento que aperta o peito e que ainda não é possível ser nomeado por mim. Ali próximo da porta tentas disfarçar o interesse que toda a plateia sabe te corroer por dentro. Desloca-se assim para a primeira fila, a cada risada que ecoa em coro pelos corredores de nosso passado. Assim se mistura o ontem e o hoje, dando luz aquilo que de tua boca escapou no verão. Na voz da dupla que antecede o espetáculo tu tão bem reconheces os meu relatos de outrora. Aí eu olho pra direita, volto. Fujo do espectro que poderia tão bem atormentar um artista prestes a entrar em cena. Mas eles ali sentados no chão também desconfiam de tua intenção. Estamos adentrando em tempos sombrios. O mesmo vermelho da ponta do nariz do palhaço agora também é sangue derramado no ventre. E nesta desordem caótica de uma nação fragmentada, atiças ainda mais a minha desordem com a cabeça dura que te faz um teimoso parecido a mim. Ontem mesmo me voltou a cuca a constatação das desproporções. Enquanto eu continuo a lhe reservar poltrona VIP diante de mim, continuo também a ser destinado a tudo que está fora e insiste em entrar. Longe da criação monumental que só um sentimento real pode desenhar na gente, entra tantas esperanças novas de voltar a ter a doce recompensa. Então eu volto ao pó, de novo. A solidão neste local jamais compartilhado me coloca na velha dicotomia entre o real e o utópico. Em cada pensamento há uma briga singular na escolha do que aquilo há de significar aqui. E assim eu te ofereço uma maçã coberta de mel. Repousa ela dentro do vaso de abacaxi, na esperança quem sabe de um aperto de mãos no presente. O abraço necessário apenas pra desatar os nós dos dias de excesso. Sim, pois não consegui ser indiferente ao inferno que se fez em minhas entranhas ao avistar você se embrenhando novamente na areia movediça dos teus dias caóticos. Um caminhar na ponta dos pés que ignora as placas de aviso pelo caminho, que já te desenha o cenário antes conhecido. Era bem que eu fazia ao apertar o enter. Um bem tão bem desnorteado por coisas que não se controlam, mas mesmo assim intencionado por um apontar de mudança. Assim eu permiti ser cobaia, coloquei a minha própria digital nos males que vêm pra bem só na tempestade. Um bem que nunca haverás de entender, é verdade. Talvez nem a mim. Mas que me basta dentro da percepção de que nos bastou como advertência do tempo. Ah. Sinto talvez pelo que não consegui comunicar ao ser colocado contra a parede. Silencias agora somente pelo caráter fixo do aguadeiro que inunda teu mapa astral. Esqueces de novo que já não cola comigo aquela imagem que estrategicamente constróis como proteção do mundo. Lembras, afinal, que pude te ver pelo avesso? Ao me desdobrar para te encarar de todos os ângulos eu já abdiquei de eventualmente me fatigar com teus defeitos. E é este o ponto que insisto voltar, tentando te atentar para o óbvio. Talvez porque de fato não te passe pela cabeça que depois de tudo seria eu um dos poucos a te aceitar de fato como és, mergulhado em toda a lama que por vezes é preciso ser escondida do mundo. Num misto de estranhezas e perversidades, tão bem espelhadas também na minha face por ti. Num acrescentar de ingredientes excêntricos, acrescidos de uma gota doce que vem ao paladar apenas ao fim do provar. Mas eis que depois de tão gasto pela intensidade que carrego comigo, eu continuo aqui. Em pé e pronto pra te encarar de frente fora do personagem. Vítima quem sabe também de minhas moléstias históricas, mas aberto a um serenar de um mal estar desnecessário. Me veja além desta lente que te embaça a visão. Considere aí que do outro lado há um tanto de versões que nem imaginas, nos bastidores de dias que estivesses distraído no teu próprio palco. A confusão que me toma é a mesma que duvida da necessidade de um novo ir e vir. Abandonamos pelo chão qualquer pretensão. Não mais esqueças que nosso tempo se esgota cada dia mais. Logo podemos não mais ter a oportunidade de andarmos cheios de vida por aí, assim se anuncia o futuro próximo da nossa pátria. É diante disto que não mais adio o amanhã. O espetáculo está chegando ao fim.
Deixo tudo assim Não me acanho em ver Vaidade em mim Eu digo o que condiz Eu gosto é do estrago.
lux
Olhe comigo para estes estranhos pequenos organismos, que aparentam dançar no ar através da luz do sol avançando pela janela. Preste atenção no seu orbitar sem nexo e nas tantas possibilidades de encontro que a brisa pode ofertar a eles agora. São destas pequenas coisas que eu gostaria de falar. Quem sabe ainda te atentar para a beleza delas, bem longe de toda esta corroente exposição que hoje somos treinados a nutrir nas redes. E entre a nuvem que passa e altera o brilho do ambiente, entre a aranha que tece silenciosamente no canto do vidro, queria eu cruzar com aquele par de olhos que são como um jato a cruzar o meu céu interior. Ah, meu bem. Não caias mais nestas artimanhas que só as relações rasas podem nos custar. Alimente tua solitude não mais das mesmas formas, precisando ferir o outro para fingir teu próprio recalque de alguém inseguro de ser. Deitado aqui sobre um amontoado de espuma posso te sentir ao longe, e este tem sido novamente o hábito que me desafoga o espírito em mais um inverno distante. Olhando lá pra fora há este empecilho a dificultar a vista, a sujeira que acumula sobre o vidro da metrópole. E usando-a como metáfora fico a pensar em como poderia eu perpassar esta barreira que nos separa enquanto seres que pensam, entre a espeça camada de nossas pretensiosas certezas de um dia termos realmente sido as vítimas um do outro. Trincaria eu os teus julgamentos mais precipitados, transporia a poeira de tuas vivências traumáticas se um dia eu pudesse. Como posso te tocar aí do alto? A luz me aponta o caminho. O sol invade o ambiente e assim tenho a miragem de eu a vigiar teu sono de novo, aventurando meus dedos pelos cabelos que há pouco ficaram sobre o meu travesseiro, após a coreografia acalentadora do cafuné de quem se importa. E assim vou me deliciando com o prazer de novamente te ter aqui, ainda mais vivo do que antes, em cada verso que sai de mim como num orgasmo. Acreditamos um dia na fábula da borracha capaz de apagar a tinta, seria agora prudente acreditar no mesmo com o já ocorrido outrora? Digerimos nosso orgulho do primeiro passo. Desnecessário ou somente assustador pelo que pode reservar? No mapa busco as coordenadas para o caminho capaz de acender somente os bons instantes, todos aqueles remanescentes entre um único e tolo erro certeiro. A única falta que se fez, especialmente como um aviso sobre o andar guiado pelo desejo, sobre os caminhos a noite que nos levam rumo aos caos evidente. Mea culpa rosada, manchada de vinho. E aqui estamos, de lados opostos deste rio, a margem de um tanto de coisas que já são nossas mesmo antes de nos pertencer. Por isto eu viro cristão, me alio a fé surda da minha alma, e vibro até ti novamente os meus bons pensamentos. E neste ponto sinto inveja até de mim, me machuco com o meu próprio e insistente bem querer burro. Antes mesmo de fechar os olhos estou aí, sobrevoando abaixo da caixa d'água como uma muriçoca que busca a cópula. Sei bem da força deste zumbido incessante, desta infundada busca pelo sangue que de novo levará ao meu próprio fim. Mas não é culpa minha te soar como petulante, quando o que mais quero é se não a paz da apreciação conjunta destas simplicidades a nossa volta. Te resgataria para estas coisas que nunca tivestes. Assim repito os ciclos, por não saber resolver em mim mesmo a dor de tua ausência sempre anunciada, enfeitada sim com o prazer de não mais conviver com a tempestade, mas tão bem machucada pela tua incapacidade de observar a mim sem pressa. Assim eu espero por aqueles dedos marcados pela agulha, atrai-os para um deslizar sobre esta tela, para quem sabe assim ter só mais um pretexto de um novo sei lá o que, de algo que não tem nome. No aguardo apenas do afago do meu próprio ego, portanto, já tão sacudido entre os pequenos jogos que somente a vida virtual nos oferta ao longe. Ou talvez eu apenas permaneça na ânsia da paz tão somente, de um chegar ao acordo de que todo este clima ruim subtendido no ar somente faz mal a nós mesmos. Por quanto tempo iremos iludir a constatação que nada está bem? Por quanto mais tempo teremos de andar até notarmos que é preciso voltar lá atrás para reaver os nós que se fizeram? Poderíamos agora mesmo vencer o jogo, contrariando as regras que nós mesmos estamos elaborando. Num novo falar... das flores? Numa nova renúncia das mágoas superficiais dos desentendidos. Pois nota tu na criança que cresce ao teu lado, observa entre os pequenos avanços de seu desenvolvimento, e para para ver que não estamos imóveis. Também aprendemos a caminhar após nossos primeiros erros, cientes talvez que a lição do tombo é necessária para toda a vida. Esta mesma criança que ri aí é uma companhia agradável nos meus sonhos, sabia? Me lembrando talvez das coisas boas suas que insisto não deixar morrer. Mas ainda assim há tanto a ser catalogado aqui, no meio desta desordem desconfortável de sentires tão antagônicos. Entulhos de encontros a meia noite, de tardes marcadas pelo suor de nossos corpos tragando tua nicotina nos fundos da casa. Talvez esteja eu novamente em busca do meu desequilíbrio, deste doce veneno que escorre do teu lábio molhado pelo tesão. Mas também, apenas expurgo aqui o que a arte pode libertar da gente. Tudo já é tão desnecessário. Os móveis mudaram tanto de lugar que agora resta sempre no fundo o desejo do descartar. Mas passo agora a respeitar a inteligência da reciclagem. E assim sigo, buscando no balé das partículas iluminadas acima de mim a inspiração capaz para o permanente transformar da vida em poesia.
Eu aprendi Muita coisa que eu desaprendi Quando você resolveu me atravessar...