11 No exit
Atlanta – Uma semana antes da fuga
Eu já estava cansada de agir como uma mosca morta, mas era preciso. Depois que saíram os resultados dos meus novos exames alguma coisa havia mudado e “meu amigo” – sim, só “meu amigo” porque ele nunca havia dito seu nome para mim – havia me contado que estavam todos apavorados e querendo me exterminar. Minha primeira reação, claro, foi querer bolar um plano de fuga, mas digamos que “Bob”, o meu amigo, fez de tudo para me acalmar e disse que ele já estava dando um jeito de me salvar.
“Bob” e eu somos amigos desde meu primeiro ano de vida – agora tenho dois – e ele sempre me ajudou de uma forma clandestina. Sempre me ensinando coisas sobre os corredores da Clark e me contando sobre algumas coisas do Projeto, mas nada muito esclarecedor. Ele também me contava um pouco de sua vida e o porquê de estar trabalhando em algo que ele não concorda.
- No início aceitei entrar no Chronos porque Jeremy havia me contado sobre ajudar a humanidade, curar doenças e essas coisas positivas, e tudo parecia ser exatamente assim até o dia em que visitei o setor cinco e vi aqueles corpos alimentados por tubos e com o tecido muscular em desenvolvimento. Foi ali que percebi do que realmente se tratava, e bom – ele sorriu -, depois eu te conheci. Você é a razão de eu continuar aqui, America – ele me olhava nos olhos, e havia algo diferente na imensidão verde que eram os olhos dele. Ele sempre me olhava daquele jeito e eu nunca havia entendido.
- E se eu não conseguir fugir? – minhas esperanças eram poucas, e eu não estava muito animada.
- Vai dar tudo certo. Você vai fugir, se esconder no beco escuro há cinco quadras daqui e vai me esperar lá. Você tem que ficar invisível, no canto mais escuro e sem fazer nenhum barulho, ok? – assenti e então suspirei.
- Promete que vai me buscar? Não sei o que fazer lá fora.
- Prometo – e então foi minha vez de sorrir.
Atlanta – now day’s
- Preciso urgente falar com o Justin, Ryan! – entrei em seu quarto e o acordei, sacudindo seu corpo mole na cama.
- Cala a boca, por favor. - ele murmurou e se virou para o outro lado.
- Ele não atende o telefone, Ryan! E agora?
- Olha a hora e você vai saber por que ele não atende essa droga – fui para a sala e liguei a TV. No relógio marcava cinco e meia da manhã. Era realmente muito cedo, e pelo o que havia notado durante nossa breve ligação ele estava bêbado. Não iria acordar tão cedo, droga. Eu precisava muito contar sobre meu sonho, mas como eu não poderia fazer nada naquele momento, resolvi tentar dormir de novo, e por milagre consegui.
10:00 am
Acordei com alguém me sacudindo. Abri os olhos e encontrei Ryan me encarando.
- Acorda, Bela Adormecida. – ele sorria – Fiz panquecas pra você.
- Que dedicado. – murmurei e então me levantei devagar – Vou só tomar uma chuveirada, ok? – ele assentiu e saiu do quarto.
Durante o banho fiquei pensando em “Bob”, o único amigo que tive antes de Justin. O que será que havia acontecido com ele? O que ele pensou quando não me encontrou naquele beco? Será que ele poderia ajudar de alguma forma? Se ao menos eu soubesse seu verdadeiro nome.
- Morreu no chuveiro, folgada? – Ryan bateu na porta, o que me assustou.
- Já estou saindo – gritei, me enrolando na toalha.
O jeito de Ryan era tão estranho pra mim. Ele me tratava quase como um amigo. Sim, amigo, no masculino. Nesse pouco tempo em que nos conhecemos ele nunca pareceu me ver como uma garota frágil e que precisa de proteção. Ele me olha da mesma maneira que olha Justin, e eu gostava disso. Me fazia quase sentir normal.
- Que mesa espetacular é essa? – perguntei ao ver a mesa com um grande prato cheio das tais panquecas, jarra com suco de laranja, outra jarra com leite, uma bandejinha com pães e no centro da mesa um vaso simples apenas com uma flor branca.
- Resolvi dar uma de Justin. – ele deu de ombros – Na verdade só quero que você fale bem de mim pra ele depois.
- Claro que vou falar – sorri, e quando fui me servir Ryan me impediu pegando o prato de minha mão e me servindo. – Que gentleman!
As horas pareciam não passar nunca. Já eram quatro da tarde e Ryan e eu estávamos jogando Jogo da Vida – tentando jogar, na verdade, porque não me dava muito bem com o dinheiro e muito menos o cartão. Ryan estava sendo paciente e me tratando de uma forma exageradamente gentil, o que eu estava estranhando. Ele até havia pedido folga no trabalho.
- Quais são suas intenções? – me deixei vencer pela curiosidade e perguntei, assim que eu havia perdido o jogo pela terceira vez.
- Só quero uma coisa de você, America. Conte tudo sobre o dia de hoje quando Justin te ligar – ele sorria brincalhão -, exagere nos detalhes e depois você vai entender. Conte que assistimos Um amor para recordar e que fui muito carinhoso no momento em que você chorou de emoção. Que te abracei forte e te dei chocolate.
- Você quer que eu minta?
- Exatamente. Se você quer ver Justin o mais rápido possível faça exatamente o que eu te falei agora – ele piscou.
8:15 pm
Eu estava conversando com Ryan sobre seu trabalho como fotógrafo e diretor de filmes independentes quando o telefone tocou, o visor mostrando que era Justin. Atendi no terceiro toque ainda rindo sobre uma história que Ryan havia me contado.
- America? – ele parecia confuso – Do que você ‘tá rindo?
- Boa noite pra você também, Justin. Ryan estava me contando uma história muito engraçada. – a risada já estava cessando e respirei fundo.
- Hum. Como foi seu dia? – ele perguntou e um sorriso involuntário surgiu em meu rosto. Forcei um suspiro e comecei a contar toda a história que Ryan e eu tínhamos combinado.
Narrador pov
Jeremy estava dentro de seu confortável carro parado na esquina do prédio em que seu filho morava. Justin estava agindo de forma estranha ultimamente, na opinião do pai. Sempre voltando rápido para a casa e cada vez mais interessado no Chronos. Não que Jeremy não apreciasse o interesse do filho, mas ele desconfiava de que esse interesse tenha surgido de um dia para o outro e então estava seguindo o filho desde que o mesmo deixara a Clark. Ele queria ter respostas.
Justin estava falando com America por telefone e no momento estava furioso. Ryan estava dando em cima de sua garota na cara dura e ela parecia estar gostando disso. Desligou o telefone, pegou a chave do carro e foi o mais rápido que pôde em direção à casa de Ryan.
Jeremy viu o carro do filho saindo da garagem do prédio e começou a segui-lo em uma distância segura para não levantar nenhuma suspeita. Justin era muito esperto e não poderia desconfiar de nada.
O garoto dirigia rápido pelas ruas de Atlanta. Queria logo tirar sua garota do apartamento de seu melhor amigo. Não queria que algo mais pudesse acontecer entre aqueles dois. Chegando lá foi recebido por Ryan. Entrou rápido no apartamento e viu America na cozinha, tentando de uma forma atrapalhada colocar uma pizza para assar no forno. O display parecia confuso para ela.
America olhou para trás e viu seu anjo a encarando com um sorriso escondido nos lábios. A felicidade tomou conta de todas as suas células.
- Justin! – ela largou a forma da pizza de qualquer jeito e correu para abraça-lo – Que saudade, anjo!
- America – ele suspirou, agora se sentindo completo ao ter sua garota nos braços, a abraçando forte como se a pudesse perder a qualquer instante. Seu cheiro ainda era o mesmo. Seu cabelo estava ondulado e com cheiro de rosas. Justin se sentia no paraíso. Não sabia que estava com tanta saudade.
- Você veio me buscar, não é? – ela sorria, seus olhos verdes hipnotizados pela beleza de seu anjo que também sorria para ela. Justin havia esquecido seu ciúme no momento em que viu a garota.
- Claro. – ele acariciou de leve o rosto de America – Você não trouxe nada para cá, então vamos agora mesmo.
Ryan apenas observava tudo com um sorriso nos lábios. Seu plano estava dando certo e a garota iria sair de seu apartamento. Não que ele não gostasse de America, mas ele sabia que o amigo a amava e que a garota sentia o mesmo por Justin, só não compreendia o sentimento. Ele queria ajudar os dois.
- Obrigado por ter cuidado dela, cara – Justin se despedia de Ryan.
- Foi um prazer – Ryan deu um sorriso sacana, tirando sarro da cara do amigo que caiu direitinho e ficou irritado, mas tentou disfarçar.
- Obrigada, Ryan – America o abraçou e sussurrou em seu ouvido -, por ter trazido ele de volta.
Justin viu que America sussurrava algo e seu ciúme só aumentou. Ela nunca havia sussurrado para ele. Ryan apenas assentiu e então seus dois amigos deixaram o apartamento.
Justin segurava a mão de America quando saíram do prédio e Jeremy os olhou confuso. Ele não fazia ideia de quem a garota ruiva era. Seu filho e a garota pararam ao lado do carro e começaram a conversar. A garota riu e então olhou para o lado, o que fez com que Jeremy congelasse. Seu filho era quem estava ajudando a x2 a fugir e se esconder durante essa uma semana em que a garota havia fugido. Ele não conseguia acreditar. Então ela era o motivo por ele estar tão interessado no Projeto Chronos.
Enquanto os dois entravam no carro Jeremy telefonava para a equipe responsável por capturar a x2, dando todas as informações necessárias para que ela fosse capturada rapidamente.
America estava feliz por estar ao lado de Justin novamente depois de quase dois dias longe dele. Enquanto ele dirigia, ela o observava atentamente. Cada detalhe nele era mais um indicio de sua perfeição. Percebendo que ela o encarava ele sorriu, mantendo sua atenção no transito. Agora que ele sabia que tudo o que ele pensava de Ryan era na verdade uma brincadeira dos dois para que America visse ele antes do dia marcado, ele não pôde deixar de ficar feliz ao saber que ela também o queria sempre por perto.
- Justin – America falou -, quero te contar uma coisa muito importante.
E então Justin notou algo diferente ao olhar pelo retrovisor. O carro de seu pai estava um carro atrás do dele. Ele só conseguiu pensar que Jeremy havia descoberto sobre America.
- Sei de alguém que trabalha no Chronos e pode te ajudar a acabar com tudo – America continou falando, alheia ao que iria acontecer nos próximos minutos.
- Não sei se vou conseguir falar com ele, Meri – Justin sussurrou.
- Como assim? – e nesse momento o som dos helicópteros se fez presente, deixando os dois jovens dentro do carro nervosos e sem conseguir enxergar uma saída.














