Maré Verde Azul Profunda
Sou uma jovem moça nascida em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo da Bahia. Fui criada na vasta extensão desse território, poucas vezes retornei a cidade que me recebeu na chegada. Se eu, pelo simples fato de ser baiana nascida em Santo Amaro, com família assentada nessa região côncava, pegar um prato e um garfo e ensaiar movimentos que se repetem cadenciadamente, estarei tocando o tradicional samba do Recôncavo? Venho aprendendo com as fazedoras e agentes de cultura mais velhas nas andanças, encontros e palestras organizadas pela sociedade civil, sobre a identidade dos povos, sobre as encruzilhadas e as particularidades históricas que nos fazem ser o que somos. Hoje sei que sem a vivência Cultural o exercício da herança que corre no sangue está em risco de nunca florescer. É por isso que não basta pra mim ter nascido no solo sagrado de Santo Amaro pra sair tocando o samba raiz de lá. Me falta as rodas que nasciam nas cozinhas das casas, a cadência da maré na areia da praia, a prosódia da palavra rimada em cima de toda agitação. Faltou o correr dos dias debaixo do Sol, o axé da casa de Dona Canô, e de tantas outras mestras como também os mestres dessa sabedoria, dessa mandiga popular do lugar de onde vim.













