A Fivela do Cinto • Parte Final
Voltei para casa orando, pedindo a Jesus que me permitisse viver aquela experiência, que me conduzisse ao caminho daquela boca carnuda. Eu jurava desesperada que se acontecesse seria a única vez, que depois disso eu iria me tornar freira e servir à obra do senhor. E essa prece levei para o altar, balancei turíbulo e incensei a Igreja de São Francisco de Assis daquela vila pesqueira com esse desejo inflamado em meu coração. Nenhuma homilia era capaz de tirar aquela sensação fogosa de dentro de mim. Era possível e eu queria. Eu só pensava em beijá-la. E eu fiz. Arrombei a porta e saí. Caminhei até lá, junto com ela. Nos beijamos e nos amamos durante anos. Eu quebrei a promessa que fiz a Jesus e aquela moça foi a minha primeira namorada, minha primeira paixão cega e incendiária. Certo dia, uma amiga da onça, uma mulher em quem confiei profundamente, que cresceu ao meu lado, a quem dei total acesso e que ouvia minhas conquistas de liberdade, em um delírio de inveja de minha felicidade, compilou várias mensagens, conversas intimas, imagens e encaminhou para a minha amada mãe. A minha pequena sorte é que eu soube pela boca de outra amiga, uma escorpiana maravilhosa chamada Bárbara, que também conhecia a onça e por acaso estava lá, perto, no momento de seu surto delirante, e correu para me alertar que o barril ia virar pra cima de mim. Tudo que fiz foi correr também. Correr para apagar os rastros que ainda tinha da minha vida verdadeira, aquela que tinha que viver escondida, às sombras, longe da luz do dia. Corri, corri mas não adiantou, Anansi. Meu coração saltava mais uma vez, louco, ensandecido, imparável, mas não era de paixão, era de medo. "O que será que vai acontecer quando minha mãe chegar do trabalho?" era a resposta que ele, o meu coração, tentava encontrar. De todas as loucura que pude imaginar, jamais cheguei perto do que aconteceu. Quando o portão entregou que ela havia chegado, quase tendo um infarto dentro do quarto, recebi o som dos passos pesados e meu nome sendo evocado à gritos atravessou as paredes, rapidamente ela estava ali, diante de mim, certa de que: "Eu pari uma menina e não uma aberração!", "Na sua certidão de nascimento tem MULHER e não ABERRAÇÃO!", "Nossa Senhora vai ficar triste com você!", "Você esta mancomunada com o DEMÔNIO!", "Que nojeira é essa de se masturbar, ainda mais pensando em uma mulher?", "Eu tenho nojo de você, nojo dessa história!" , "Jogue tudo que essa garota te deu FORA!"... E entre as facas cortantes das palavras proferidas pela boca da mulher que me inspirava todos os dias, rasgada por dentro, arrancada de minha intimidade, do meu direito de ser feliz em liberdade, chorei abertamente, sem levantar qualquer guarda, foi quando vi a fivela do cinto se aproximando do meu couro e arrancando a pele de onde tocava. Apanhei. Apanhei e não acreditei ao ter minha face desrespeitada pela pessoa que me pariu, que me ensinou, que me criou sozinha depois que fugiu de um relacionamento abusivo. Chorei por não poder mais amá-la da mesma forma depois daquele momento. Chorei a cara rasgada e os braços furados. Chorei certa de que seria cada dia mais eu. Subi a escada do desespero desolada, namorei escondida a juventude inteira, menti sobre quem sou para minha família por não ter a possibilidade de ser respeitada. Mas isso não me dói mais, Anansi, porque eu realmente subi essa escada até chegar aqui. Na missão ativista de ser uma jovem artista feminista, aprendiz de mulheres antigas, macumbeiras, feiticeiras, que tanto me ensinam, que tanto me amam, e que me mostraram o mundo da arte como ferramenta de libertação dos corpos e mentes. Sigo assim então o meu caminho, ó sábia Aranha, e pensei em partilhar contigo um fio da minha memória para que possa fazer com ele contos de liberdade e partilhar com as mulheres e crianças gays do mundo. Com o coração vibrante em chamas de fogo, Hellen Karoline















