One Shot: De cabeça para baixo - Parte 3 (última)
O David disse que me levaria ao café mais próximo de onde estávamos e durante o curto caminho, conversamos apenas sobre o jogo. Assim que chegamos no tal café, nos sentamos e escolhemos uma bebida quente, pois o frio estava demais. - David, que horas são aqui? Eu nem coloquei o relógio no horário da França. - São 17:00. - Preciso arrumar um hotel ainda hoje. Ele, que encarava a mesa, desviou o olhar calmamente para mim e me encarou seriamente. Deu um sorriso de lado e deu um peteleco na minha mão. - Você vai dormir na minha casa. Tem lugar de sobra. - Disse sério. - Mas... - Sem "mas", Bernard. Vou num jogo somente para te ver, deixo de ir a uma festa super importante do meu time para ter essa tarde com você e você ainda quer se hospedar em hotel? Te orienta, moleque. - Disse, agora, em um tom brincalhão que me fez rir. - Você abriu mão disso tudo por mim? - Perguntei tentando conter o sorriso de felicidade por ter ouvido o que ele havia dito. Ele desviou o olhar, mexeu nas mangas do seu caso, fez cara de tédio e só depois me respondeu. - Disso tudo o quê, Bernard? Isso não é nada comparado a encontar um amigo que não vejo e nem falo há 6 meses. - Respondeu com a voz divertida, mas que continha um assunto sério. - Por que não me ligou durante esse tempo todo? Por que nem uma mensagem? Senti que havia um pouco de ressentimento em sua voz, apesar dele tentar esconder isso com o seu belo sorriso. Me senti extremamente culpado. Eu havia trocado de número e não o comuniquei. Ele só sabia de mim por conta do Instagram e do Facebook... Podia apostar que foi por isso que ele soube do jogo também. - Eu acabei esquecendo o teu número. - Respondi e me senti envergonhado por dar uma desculpa tão esfarrapada. Ele sabia que eu estava mentindo, tanto que assentiu tristemente e mudou de assunto. - Me conta como vai no time... Quero saber de você! - Neguei com a cabeça. Não queria falar daquele assunto. - Ah, mas você vai me contar sim... E tudo! Fiquei sabendo que aquele velho emburrado não gosta de você. O que ele tem na cabeça, hein? E ainda te deixa no banco. Fiquei puto com isso. - Disse me fazendo rir com a parte final. Por mais que eu não quisesse tocar naquele assunto, eu queria contar tudo para ele. O David estava sempre preocupado e mesmo com a fama, permanecia o cara humilde que eu sempre admirei. Então, desabafei. Me senti na obrigação. Eu já havia pisado na bola com ele e ele havia feito sacríficios por mim. Contei detalhe por detalhe, situação por situação, bullying por bullying e tudo que me fazia ter vontade de sumir rapidamente da Ucrânia. No final, ele tinha os cotovelos apoiados na mesa e um olhar com misto de revolta e tristeza. - Fala alguma coisa, cara. - Falei baixinho querendo ouvir alguma opinião. - Melhor irmos embora. - Declarou inquieto e eu não ousei questionar. Fomos do café até a sua casa em silêncio. Pude notar uma lágrima deslizando pelo seu olho direito enquanto dirigia, mas não questionei novamente. Chegamos até ao seu apartamento que era bem luxuoso e ao mesmo tempo aconchegante. Ele retirou seu casaco e eu o meu. Abriu as cortinas e me encarou... Fiquei desconcertado e podia jurar que estava corado. - David, eu realmente quero saber sua opinião. - Falei querendo quebrar aquele silêncio. - O que quer que eu diga? - Sussurrou de cara fechada. - Sei lá. Fala algo. - Falar o quê, Bernard? - Perguntou elevando sua voz. - Falar que eu me sinto um idiota por não ter procurado você na cara de pau? Falar que eu queria matar cada um que mexeu com você? Falar que eu me sinto inútil por não poder te tirar dessa situação? Falar esse tempo todo eu achei que você nem lembrava quem eu era? - Lágrimas escorreram do seu rosto. - FALAR O QUÊ? - Gritou. Corri para abraçá-lo com lágrimas derramando pelo meu rosto e que, minutos depois, molhou sua camisa azul. Ficamos juntos chorando por um longo tempo. Era aquele abraço que eu tanto queria fazia tempo. O abraço que eu me sentia seguro, importante, amado e querido de todas as formas. O silêncio agora nos entendia. - Culpe a mim! - Comecei. - Eu fui o idiota, David. Eu quis me afastar de todos, eu fui irresponsável, eu dei motivos para ser odiado pelo Lucescu... Eu falhei naquelo jogo contra a Alemanha... Eu mereço tudo isso. - Falei entre soluços. Suas lágrimas caiam mais devagar e ele ergueu minha cabeça com cuidado, com aqueles olhos levemente verdes me fitando com carinho, porém autoritário. - Nunca mais repita isso! - Pôs seu dedo indicador nos meus lábios. - Nunca mais, Bernard. Entendeu? - Seu olhar era tão carinhoso que chegava a ser intimidador... E ele estava tão perto que eu não hesitei em concordar. Nos fitamos por alguns segundos e foi impossível resistir. Como num encaixe perfeito, nossos lábios se encontraram num beijo calmo, puro e renovador. Renovador de esperança, de amor, de cuidado. Ele me puxou pela cintura e eu enterrei meus dedos naquela mata cacheada. Antes que avançássemos para exploração de ambas as bocas, ele interrompeu o beijo. - Temos muito tempo para isso. Eu quero te contar tudo e quero saber tudo de você também. - Disse sorrindo abertamente. - Mais do que eu já te contei? - Perguntei retribuindo o sorriso. - Sim. Muito mais. Tudo. - Disse selando nossos lábios novamente. - Vem aqui. Eu o segui até o seu quarto. Ele ligou a TV, foi até a cozinha e voltou com pipoca e Toddynho. Ri do último item. - Não acredito que você comprou isso, cara. - Tudo para o meu bebê se sentir em casa. - Disse brincalhão, mas me fazendo corar. - Vamos deitar e conversar. Combinado? - Combinado.








